Que parece nem sempre o é!

Olhos pintados, base e blush impecavelmente aplicados, anéis e pulseiras reluzentes, cabelo louro (bem) pintado onde não faltam as madeixas da moda, unhas de gel discretas e aparadas, nice picture!
Cumprimenta-me educada e efusivamente “Minha Querida, muito, muito obrigada por me ter recebido fora do seu horário, tão cedo e num dia horrível como o de hoje. Esta chuva, logo pela manhã deixam qualquer um de mau humor, não acha senhora professora ?!”. A primeira impressão que construímos de uma pessoa pode ser enganadora, ou não, as aparências iludem, o que parece nem sempre é and so on, mas naquele instante só me ocorreu “Mais uma tia…!”. Respirei fundo e recordei as palavras da pimpolha mais velha ao ver-me sair, nessa manhã, “Hoje é dia de nos ires levar à escola! Onde vais?” com um ar recriminador, ao explicar-lhe replicou “Ok, ok! Vai lá falar com mais essa mãe, mas olha se ela te chatear, vem-te embora e vai ter connosco, pode ser ?!”.
Começo por falar sobre a adaptação do filho, caído de paraquedas a meio do 2º período, vindo de uma escola profissional diretamente para o curso de ciências, da possibilidade elevada de retenção, para chegar ao mais preocupante: faltas por justificar em barda nas últimas 2, 3 semanas, comportamento esquivo em qualquer tipo de conversa que tentei manter com ele, colocaram as (minhas) sirenes em alerta máximo! A mãe ouve atenta com os olhos esbugalhados e, rodopiando, nervosamente um dos seus anéis, olhando para a mesa, com a voz embargada diz murmurando “Há 3 anos, sai de casa com os meus filhos, fugi! Fui vítima de violência doméstica durante os vinte anos que estive casada e, nessa altura, deixei de ser só eu, os meus filhos passaram a ser também vítimas e eu pensei BASTA! Tínhamos uma boa situação financeira, fiquei sem nada! Mas agora estou em paz. Tenho saúde e emprego! Metade do meu ordenado é para a renda da casa, para equilibrar o orçamento, face às outras despesas, trabalho aos fins de semana: faço limpezas e a tomo conta de idosos. Estou estourada mas não falta o essencial aos meus filhos, vamos 1 vez por semana ao banco alimentar, os meus pais e uma vizinha ajudam-nos.” Limpa, disfarçadamente, uma lágrima que teima em cair e, olha com ternura, para o filho mais velho, sentado na mesa ao lado, mirando o infinito (tem uma incapacidade de 60%), acrescentando, “Estou a falar baixo para ele não ouvir! Apresentei queixa crime, o julgamento foi há 3 semanas, o meu filho testemunhou contra o pai, apesar de lhe ter dito que não era necessário, ele fez questão! Daí ele andar meio descompensado, ter estado doente e as faltas. Algumas vezes tem-me acompanhado nas minhas diligência ao tribunal, porque até apresentarmos queixa de violência doméstica, todos apoiam e tudo parece fácil, depois, depois… a justiça portuguesa não funciona, é lenta propositadamente para nos fazer desistir, entrave atrás de entrave, horas e horas que se perdem para tratar disto e daquilo e falta sempre um papel!”
Como é bom ser diretora de turma, servir de psicológo, padre, whatever, e apanhar com este banhos de realidade, que nos deixam sem palavras, e a pensar que há vidas muito difíceis que nem por sombras conseguimos imaginar, e como as aparências e as primeiras impressões podem ser enganadoras mas, essencialmente, e o mais importante, dar muito valor à nossa “vidinha”, da qual temos sempre tendência a queixarmo-nos, pois comparada com a de muitos miúdos e graúdos… it´s peanuts!

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