Amor à camisola

Um excelente artigo de Eduardo Sá que reflete sobre muito do que quem convive com esta malta todos os dias, em contexto escolar, observa: a falta de garra, o desistir à mínima dificuldade, a procura do Santo Graal, julgando que o caminho é banhado de facilitismos, idolatrando os youtubers de sucesso e outros que tais, ignorando que esses são 1 em cada 10 milhões, e que o sucesso se constrói com muito sangue, suor e lágrimas, desilusões e obstáculos onde nunca devemos esquecer que a meta está ao virar da esquina mas há que dobrá-la para lá chegar!

“Os adolescentes são um verdadeiro caso de amor à camisola. Mais propriamente, de amor à t-shirt. Que chova, faça frio ou faça sol exibem com o orgulho indisfarçável de quem nunca tirita. Constipações à parte, tanta determinação é bonita! Seja como for, a mim preocupa-me muito que a convicção com que vivem o amor à t-shirt pareça não ser acompanhada com a garra e a genica com que se entregam àquilo em que acreditam. Como se isso de ter esperança ou de falarem do futuro, embrulhando-o em utopias ou em ingenuidades, parecesse pagar “imposto de luxo”. Não pode ter isso a ver com a forma como nós, os pais, lhes apresentamos o futuro e os desafiamos para ele? Por mais que a família e a escola lhes abram as portas, não será que lho apresentamos como uma forma de, mais tarde ou mais cedo, se virem a divorciar de quase tudo aquilo em que acreditam? Ao mesmo tempo em que lhes damos condições para que a sua vida seja mais fácil, não estaremos a dar-lhes sinais que o seu futuro estará muito longe de ser assim?

Vejamos algumas complicações que lhes trazemos a propósito do futuro. E que, sem querermos e sem darmos por isso, talvez estejamos a alimentar, todos os dias.

Complicação n.º 1:
Os adolescentes têm sido, felizmente, poupados a muitos dos sofrimentos que terão marcado a vida dos pais. E isso não devia ser uma complicação. Mas, por isso mesmo, estarão muito pouco habituados a conviver com insucessos como com dificuldades ou com derrotas. O que faz com que, das primeiras vezes que isso lhes acontece (no 10.º ano ou no início duma licenciatura, por exemplo), concluam, depressa de mais, qualquer coisa do género: “não sou bom!”, o que faz com que comecem por ficar um bocadinho “sem jeito” nas situações de “exame”. E sejam (depois) tentados a evitar avaliações, aulas e explicações. Até que acabam, muitas vezes, a querer mudar de área de estudos. Que sinais começam eles por dar quando a vida parece “correr para trás”? Começam a comprometer-se, unicamente, com um tímido: “eu vou tentar…” (cheio de reticências), que é uma forma de dizerem, por outras palavras: “só não prometo que vá conseguir…”. E terminam a evocar “falta de motivação” (que será uma versão mais urbana da antiga preguiça), que representa uma forma de entrarem numa perigosa pré-reforma em relação a muito daquilo em que acreditam. Para além de não deixar de ser um jeito de desistência sem se desistir.

“Solução” breve para a complicação n.º 1
: Mimem-se os adolescentes, mas obrigue-se a que definam prioridades e que sejam claros a propósito daquilo pelo que “vão a jogo”. Exija-se que lutem por elas e que aprendam a esperar. E permita-se que convivam um pouco mais com as pequenas dores.

Complicação n.º 2:
O modo como os pais parecem ver na vida dos filhos uma oportunidade de se confrontarem com os seus erros e de darem forma e vida a sonhos seus que, de uma forma ou de outra, terão ficado mais ou menos adormecidos. É verdade que todos os pais do mundo querem muito que os filhos cresçam com alma e com paixão. E isso é bom! E é verdade que misturam nos filhos muito de tudo aquilo que viveram. E isso não é, obrigatoriamente, mau. Mas receio que os pais não só queiram que os seus filhos não repitam os seus erros como, demasiadas vezes, de tanto o quererem, talvez criem uma atmosfera um bocadinho alarmada, em redor deles. Ao mesmo tempo que alguns quase “exigem” que resgatem os seus sonhos. E, atendendo a que os pais têm cada vez menos filhos, nem sempre os dois pais conseguem articular este “mix de expectativas” num formato de síntese que a todos agrade, receio que, a certa altura, tudo se atrapalhe demasiado na relação dos adolescentes com o futuro. Como se uma vida só não chegasse para tudo aquilo que pesa sobre eles. E não pudessem fazer uma escolha “só” sua, “desenhada” com os pais, mas com o reconhecimento implícito de que sempre que se escolhe se reconhece que não se pode ter tudo.

“Solução” breve para a complicação n.º 2
: Não esconda dos seus filhos nem os seus sonhos (mesmo aqueles que deixou para trás) nem todos os erros que os dois pais foram cometendo. Sobretudo, quando tinham a idade dele. Mas sem nunca se “vender” como “um “herói indomável”, por favor. Ou como uma espécie de “exemplo dos exemplos”…

Complicação n.º 3:
A “onda” muito “analgésica”, “antidepressiva” e “fast-food” de mundo em que os adolescentes vivem, e que lhes dá a entender que dores, tristeza ou, simplesmente, o tempo são “um atraso de vida”. Que, por isso mesmo, parece tornar o futuro num produto, aparentemente, descartável. Como se tudo o que fosse bom tivesse de ser fácil, rápido e, sobretudo, tivesse de dar pouco trabalho. E, claro, acabasse por se conquistar sempre com boas notas, sem erros e sem derrotas. Ora, parece-me que criámos os adolescentes mais saudáveis que a Humanidade já conheceu e, depois, quando seria de esperar que a boa influência que a escola lhes traz os tornasse mais plurais e mais abertos, os pais acham que, primeiro, está a empregabilidade e, depois, a paixão. Quando devia ser exatamente o contrário: primeiro está a paixão! Sendo certo que a paixão não se conquista com golpes de sorte ou com inspirações do momento, mas com trabalho, humildade e perseverança. Não estaremos, à escala das relações amorosas, a dizer, quase todos os dias, aos nossos filhos (a propósito do trabalho, é claro): “escolhe uma namorada rica e, depois, faz como se recomenda em relação à água tónica da Schwepps; aprende a gostar?” O que fará com que qualquer adolescente com boas notas no ensino secundário, ou seja encaminhado para medicina ou para gestão, mas (quase) nunca pudesse seguir o seu coração. Não estarão os pais muito distraídos para a forma como aqueles que se destacam serão, sobretudo, aqueles que são “pagos para brincar” (isto é, as pessoas que fazem do seu trabalho “a sua cara” e sintetizam nele todas as suas paixões e, por isso, se afastam da curva normal e dos “produtos” normalizados)? Que fique claro que não acho mesmo nada “proibido” que um jovem licenciado, à medida que se diferencia, seja muito bem remunerado. O que me parece a mim é que, sob a capa da empregabilidade, os pais põem o dinheiro que um filho venha a ganhar à frente de tudo, como se quisessem construir uma casa a partir do telhado. Esquecendo-se de que são as pessoas que mais ligam paixão, criatividade e arrojo que se destacam, quase sem quererem.

“Solução” breve para a complicação n.º 3
: Obrigue o seu filho a ser claro a dois anos de distância. Dois anos é sempre longe demais; eu sei. Mas faça com que ele perceba que sem reconhecer aquilo que são as suas particularidades inimitáveis, os seus gostos (por mais que, à primeira vista, ele pareça gostar de quase tudo), e as suas paixões (aquilo que o tira do sério…), tudo o que ele tenha de bom será mal empregue. Ou “mal empregado”, como se diz por aí…

Complicação n.º 4:
As prioridades que quase todos acabamos a colocar aos adolescentes. Ora, eu acredito que primeiro está o namoro e, só depois, o estudo. E, acreditem, não quero com isto chegar a uma “fórmula” entre o provocatório e o insolente acerca dos adolescentes. A começar, porque o amor é, de longe, muitíssimo mais importante que o trabalho (por mais que a maioria dos pais o afirme, demonstrando o contrário). Depois, porque não faz sentido deixar o namoro em “banho-maria” (“primeiro, estão os estudos”, ainda continua a ser um “slogan” amigo de muitos pais), como se o amor distraísse os adolescentes do essencial, quando a paixão os alavanca e os leva a que aprendam mais e melhor. Ainda, porque quem não arrisca e erra, e se apaixona e se dececiona, e ganha e perde, e se desilude e insiste, aprende a ligar desejo, esperança, fé e paixão num todo a que as pessoas, de uma forma minimalista, chamam motivação. E, finalmente, porque quem, aos 15, não se consegue dividir entre família, namoro e trabalho, aos 30, quando for preciso dividir-se por muitíssimas mais coisas, talvez não reúna os requisitos indispensáveis para crescer feliz.

“Solução” breve para a complicação n.º 4
: Sempre que o seu filho só veja escola e mais nada, sempre que ele não se divida por vários compromissos ou sempre que o veja demasiado “certinho” ou conformado, preocupe-se, se faz favor. Mesmo que as notas não parem de subir…

Complicação n.º 5:
As expressões do dia-a- dia às quais nos deixamos prender. Por exemplo, quando os pais repetem: “Eu não quero que o meu filho seja o melhor!”, não estarão a querer dizer exatamente… o contrário? Ou, na melhor das hipóteses, não estarão a dizer: “Eu não exijo que ele seja sempre O Melhor. Mas se ele o for… também não o deito fora por isso?…” Ou, quando afirmam: “Eu quero que o meu filho seja alguém!”, o que estarão a dar a entender? Em princípio, que não querem (e bem!) que ele seja… ninguém (ou que venha a fazer parte das “pessoas anónimas” com que os comentadores televisivos fazem o favor de falar de todos nós). É claro que nenhuns pais fazem questão que um filho seja “ninguém”. Mas, este “alguém”, de que os pais falam, não corresponderá àquilo que eles afirmam, noutras ocasiões, com toda a determinação, quando dizem: “Eu só quero que ele seja bom naquilo que faz!”. “Bom” quererá dizer, unicamente, honesto, trabalhador, criativo, leal ou competente ou, para além disso (e, sobretudo), que se distinga de quase todos os demais? Ou, finalmente, quando – como quem se justifica – afirmam: “O meu filho tem de ser realista!”, não estarão a dar-lhes a entender que “o princípio da realidade” arruína quaisquer sonhos, projetos ou rasgos? Já não para não falar, obviamente, da pergunta sacramental com que se mima um adolescente: “O que é que tu queres ser quando fores grande?”, quase como se só se pudesse escolher quando se for, não só, crescido como também… grande, destacado, relevante ou amigo íntimo de sucesso.

“Solução” breve para a complicação n.º 5
: Desejar sucesso a um filho não é pecado, claro. Mas não perca de vista que os corredores de maratona não são quem faz os melhores tempos aos 110 metros/barreiras… Ou, se preferir, talvez seja razoável nós ficarmos, em relação a ele, unicamente, pela “fórmula” (mais em voga nos adolescentes): “Tenho de ser a melhor versão de mim!”.

Complicação n.º 6:
Os adolescentes são, regra geral, mimados. O que, por si só, é excelente. Mas o que faz com que, em consequência disso, sejam um bocadinho egocêntricos. E, por isso mesmo, falem mais por murmúrios, nas entrelinhas e por meias-palavras. E esperam que o mundo venha ter com eles (em vez de batalharem por criar as clareiras com que se destaquem). E tenham uma cotação menor do que supõem por mais que valham mais do que supõem. Adolescentes assim podem tornar-se pessoas especiais, é claro. Mas precisam de casar brio, humildade e paixão. Nada que não se conquiste, é certo. Mas dá trabalho. Exige alguma tolerância à dor. E perseverança.

“Solução” breve para a complicação n.º 6
: Deixe que recapitule: primeiro, está o namoro e, depois, o trabalho. De acordo? Mas em relação ao trabalho – como em relação ao amor, aliás – primeiro está o trabalho e, só depois, a paixão. Isto é, só com muito trabalho se descobrem os caminhos que levam à paixão.

Complicação n.º 7:
Os bons pais educam as crianças a chamar pela mãe e a esperar, diante seja o que for, que o pai resolva. E isso é mesmo muito bom. Mas “colar” a vida a uma aparente “aura de facilidade”, como se fosse um sentido obrigatório não corresponde à verdade. Não há nada que exija mais trabalho, mais “cabeça”, mais atenção, mais carinho e mais capacidade de síntese que a procura do fácil. É claro que, por vezes, ao dizer-se que a vida é difícil parece estar a cair-se na atmosfera que todos os “empatas” e os deprimidos mais gostam. Para eles, a vida – ao ser difícil – representa a desculpa incontornável com que falam do desmazelo com o qual não a tornaram fácil.

“Solução” breve para a complicação n.º 7
: Dizermos que a vida é difícil é uma forma de dar a entender que a “boa vida” dá muito trabalho. E que vem “equipada” com algumas dores, e exige paciência e determinação. Seja como for, não deixe nunca de lembrar ao seu filho que a vida é muito mais fácil quando se vive do que quando se projeta ou, simplesmente, quando se imagina.

Por tudo isto, estará nas nossas mãos fazer com que o “amor à t-shirt” de cada adolescente se transforme num verdadeiro “amor à camisola”. Não que, com isso, sejam de esperar grandes flutuações térmicas no seu crescimento. Mas porque esse “amor à camisola” talvez possa representar uma forma deles colocarem todos os seus recursos ao serviço das suas convicções. E – mais ainda – fazendo-o com a determinação de um aventureiro que vai à procura de mundo, que cria oportunidades e que encontra no trabalho o entroncamento de todos os pedaços de si, o que faz com que ele passe a ter a sua “cara”.

No mundo em que vivemos, “vestir a camisola” não é sempre um caso de “amor à camisola”. “Vestir a camisola” é, em muitas circunstâncias, uma forma de se exigir dedicação quase exclusiva ao trabalho, por vezes, a troco de muito pouco. Por tudo isso, talvez seja altura de descomplicarmos a vida dos adolescentes, falando-lhes verdade e dando-lhes tempo para aprenderem. E exigindo que, em relação a tudo aquilo em que acreditam, se entreguem com a determinação de quem vai sempre “a jogo” com “amor à camisola”
                                                                                     Artigo de Eduardo Sá (retirado daqui)

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