Do terrorismo…

Paris, 24 de março de 2016 (2 dias após o atentado no aeroporto de Bruxelas)

No aeroporto, à chegada, controlo rigoroso de fronteiras, 6 polícias de intervenção armados até ao dentes a circular na área de recolha de bagagem. Olhar desconfiado, cara de poucos amigos miravam atentamente a única mala restante no tapete. Era a nossa. Depois de cartões de cidadão mais do que observados e verificados, de terem olhado bem para as caras da pequenada e os terem chamado pelo nome, recolhemos a nossa mala e, quase que sentimos o seu alívio imediato. A tensão era palpável… Comentava uma senhora brasileira na casa de banho do aeroporto “Isto aqui está tenso demais. Lá, no Brasil, também já estamos ficando preocupados, pois há uma zona no Sul que tem uma grande comunidade árabe!”. Sorri, com um ar certamente condescendente, pensando para os meus botões “Não vale a pena exagerar!”

Nos Champs-Élysées, na maioria das lojas e centros comerciais, os seguranças revistam as malas, mochilas, sacos, saquinhos e saquetas e passam o detetor de metais, à entrada, o que origina filas para entrar em várias lojas. Nas principais atrações turísticas, a acrescentar às medidas anteriores, existem os raio-x e os militares armados até aos dentes, munidos do seu melhor ar, nada amistoso, a circular.

Precisámos de poucas horas para nos habituar à dinâmica inerente às questões de segurança, deixar de estranhar e até suspirar de alívio por estas existirem. Final do 1º dia, decidimos ir fazer um passeio nos famosos Bateux Mouches, a hora do lusco fusco aproximava-se, os monumentos “vestido” a rigor com as cores da bandeira da Bélgica, à nossa volta no barco, muitos turistas japoneses e árabes. De repente, um dos árabes, com um “ar manhoso e gingão”, levanta-se e começa a cantar alto, sorrindo e incitando os companheiros, que rapidamente se juntam à festa. Naquela preciso momento, eu como todos os outros, não árabes, olhámos em volta e pensámos “Mas o que é isto? Querem lá ver…” Tendo em conta os atentados de há 2 dias, as medidas apertadas de segurança e a tensão vivida, uma sensação estranha de impotência, insegurança toldou a visão de muitos, fazendo a maioria de nós olhar para quem se divertia exuberantemente, (provocante?), afinal estávamos no meio do Sena, no way out just down, e se, e se, era tão fácil e eficaz: Cabuuuummmm, glulgluglu! E, de repente, ocorre-te que todos os presentes foram revistados que não sendo impossível, seria difícil e pouco provável, e respiras fundo, miras a pequenada, que prossegue impávida e serena apreciando as vistas, registas que os turistas árabes continuam animados mas já não cantam e já estão todos sentados, talvez devido aos muitos olhares desconfortáveis que sentiram sobre si. Dois árabes circulam no corredor central, olhando para ambas os lados, com um ar sinistro, não consigo evitar, o meu olhar desconfiado acompanho-os até que se sentam no seu lugar continuando em amena cavaqueira. O murmurinho no barco sossega face à beleza da Notre Dame, na tão característica Île de la Cité, e o barco segue pelo Sena tranquilamente.

O que alimenta e o verdadeiro objetivo do terrorismo é o medo que paralisa e leva, tudo e todos, a alterar as suas rotinas e/ou planos e “crenças”, fomenta a desconfiança entre iguais e eleva-a aos píncaros entre “diferentes”. E, eu que nunca fui dada a descriminações e juízos de valor com base em aparências, credos e origens… PIMBA, era, exatamente o que tinha acabado de fazer e isso, mais que tudo, “abalou” a minha visão do mundo! Foi definitivamente um passeio diferente e revelador na cidade das luzes!

Um artigo muito interessante do Henrique Cymerman que saiu na Visão sobre o terrorismos, as medidas de segurança e a forma com teremos de aprender a lidar com este ato

 

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