Gostar aos bocadinhos?

“Simon’s Cat

Havia um gato que se chamava só gato. Era todo branco, com uma mancha preta do lado esquerdo da barriga. O gato não tinha nome porque apareceu na casa do António e os pais dele não o deixavam entrar em casa. Depois, acabaram por deixar e ficou sem nome.
O gato sentou-se no colo do António e disse:
– Tenho estado a olhar para ti, de muito perto, e estou preocupado.
O António, que pensou estar a sonhar, deu conversa ao bicho.
– Preocupado porquê? Eu ando bem.
– Olha para as tuas mãos, todas enrugadas, parecem-te mãos de menino? – perguntou o gato.
– É de brincar na terra e de jogar muitos às espadas com paus.
– Eu sou só um gato e acho que não. Tu seguras as coisas nas mãos com muito força. Quase que as partes!
– E isso que tem de mal? – perguntou o António.
– Nada, nada, mas de que tens medo?
– As coisas são minhas, tenho de as agarrar bem.
– Lembras-te daquela vez em que te arranhei? – perguntou o gato.
– Lembro pois, até levaste uma palmada.
– Não foi bonito da minha parte, desculpa, mas foi porque me apertaste com muita força. Também, do que é que estavas à espera?
– Que não te fosses embora. És o meu gato! – respondeu o António.
– Diz-me, quando não estás em casa, também sou o teu gato?
– Claro que sim!
– Então, porque é que fechas as portas e as janelas?
– Para não fugires. És o meu gato, já te disse!
– Como é que posso ser teu se achas que são só as portas e as janelas que me fazem ficar aqui?
– Tenho medo que não sejas meu. – disse o António, baixinho.
– Sabes, a única forma de eu ser teu, é se tu também fores meu. E eu sou magrinho, mas para caber no teu coração, não pode lá estar medo – disse o gato.
– Mas e se te fores embora quando eu abrir as portas e as janelas?
– É porque já não somos um do outro.
– Então foi tudo para nada! Que tristeza. – disse o António.
– Nada dura para sempre, mas cada vez que sentires saudades é porque tu foste meu e eu fui teu, mesmo que tenha sido só durante um bocadinho.
– Se calhar, tens razão. As coisas podem ser bonitas aos bocadinhos.
A partir desse dia o António deixou a janela aberta, para que o gato pudesse ir e voltar, sempre que lhe apetecesse. E o gato foi e voltou, até que um dia não voltou mais, sem se saber o que lhe tinha acontecido. Quando o António sentia saudades, lembrava-se que o gato tinha sido seu e que ele tinha sido do seu gato, durante um bocadinho e sorria.”

Texto de André Castro

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