Memórias de partos passados

Nenhum teve pressa para nascer, embora tenham sido incentivados, sabiam bem que na barriga da mãe é que se está bem, protegidos de tudo e todos. Nasceram os três depois das 41 semanas, sem stress, de parto normal, gordinhos, grandes, frescos e fofos, no mesmo hospital público, semelhantes mas diferentes em muitos aspectos (partos e de personalidades).

Pimpolha mais velha teimava em não dar um ar da sua graça, causando alguma ansiedade em familiares, os pais tranquilos, miúda muita ativa, rodeada de muito líquido amniótico, confirmavam as eco e os médicos. Finalmente, às 41 semanas e 3 dias, a hora aguardada aproximava-se, às 5 da manhã começaram as dores e rumámos ao hospital. Fui recebida pela enfermeira Susana que irritada me dizia “41 semanas e 3 dias? E agora é que cá vem, já devia ter vindo à vários dias!” expliquei-lhe calmamente “Estive cá há 3 dias e estava tudo ótimo!”, o seu estado de pura indignação/exasperação agravou-se, devido a ter acordado com os pés de fora, à hora tardia ou da matina (eram 6 da manhã!), talvez devido à minha calma e não reação às suas tiradas ou um misto de tudo “Deve pensar que isto é uma gravidez de elefante, fica cá internada e hoje essa rapariga nasce mas ainda vai demorar!”. Sorri e, delicadamente, disse “Claro que sim!”, pareceu-me que os olhos dela chispavam, estava claramente possessa comigo! Durante todo o processo: as contrações insuportáveis, na zona dos rins, que a epidural, milagrosamente fez desaparecer, os enfermeiros, os médicos e os auxiliares super atenciosos e competentes, especialmente o enfermeiro Fernando. Bem instalada, passei pelas brasas, não fosse o barulho do CTG, descansei e quase, quase, que parecia que estava num SPA. No entretanto, fiquei a saber que o enfermeiro Fernando tinha 2 filhas, quando me disse as idades comentei “Já são crescidinhas! Então e ainda vai tentar o menino?” e ele sorriu, com um ar sábio, acrescentando “Para os pais, os filhos são, e serão, sempre pequenos! Quanto ao menino, ando a ver se convenço a minha mulher”. Estava tudo a posto mas a miúda tinha o cordão à volta do pescoço, o enfermeiro Fernando disse-me, “Está na hora, vou chamar um médico, terá que ser com ventosa mas antes tenho um surpresa para si” e nisto entra, de rompante, a enfermeira Susana, eram 16h00 em ponto (troca de turno), muito bem maquilhada e arranjadinha, com um ar bem disposto exclama “Vamos lá fazer nascer essa menina. O pai, apesar de ser um parto com ventosa, pode assistir, normalmente não deixamos; ouvi dizer que se portaram os dois muito bem!”. Um parto pacífico, o bebé estava ótimo, de repente, a média diz-me “Está com uma hemorragia!” e, nisto vislumbro o 1º respingo de sangue a acertar em cheio na cara bem maquilhada da enfermeira Susana, trocámos olhares, penso que os meus olhos sorriram e onde pode ler, certamente, o meu pensamento mesquinho, mas de grande satisfação, “Ora toma lá! Aguenta e cara alegre”. A médica, um pouco assustada diz “Coloquem-lhe oxigénio!”, enquanto eu perguntava pela bebé, a enfermeira Susana acenou-me com a cabeça e disse para a médica “Drª, não é preciso, olhe para ela, está falar e toda contente! Pudera tem um bebé lindo!”. O enfermeiro Fernando que, apesar de o seu turno, já ter terminado, permaneceu para acompanhar o parto (16h20) deu uma gargalha e disse “A enfermeira Susana desde que foi mãe de gémeos, é assim … pensa que manda e que sabe tudo!”, piscando-me o olho. O enfermeiro Fernando, à despedida, disse-me “Encontramo-nos daqui a 2 anos para o seu segundo e espero, nessa altura, dizer-lhe que tenho 3 filhas ou, melhor ainda, 2 filhas e 1 filho!”

Efetivamente, 2 anos depois encontrámo-nos, eu e o enfermeiro Fernando, no mesmo local, ele com mais uma filha e eu com um filho prestes a nascer. Depois de subir e descer muitas escadas, jantar calmamente, as dores começam a apertar, peço a epidural e o enfermeiro Fernando diz “Vamos ver se ainda dá, isso já vai avançado!”, felizmente deu! Mais uma vez, apesar do seu turno já ter terminado, o enfermeiro Fernando permaneceu, às 22h3o, nasce pequeno do meio pelas mãos do enfermeiro Fernando, que exclama “Este rapaz é grande e pesado!” e, entre o índice de apgar e cenas e coisas que eles, enfermeiros, fazem naquelas alturas, começaram os palpites, liderados pelo enfermeiro Fernando, sobre quanto pesaria e mediria o rapaz. Experiente foi o enfermeiro Fernando quem mais se aproximou, sugeriu 4100g, e afinal o moço SÓ pesava 4060g, aponto para os 53 cm e o rapaz media 54 cm. À despedida, em tom de desafio, “Então, encontramo-nos 3ª vez? Não, não vou tentar o rapaz!”

Só não nos encontrámos na 3ª vez porque o enfermeiro Fernando estava de férias :(, em 2 horas a coisa desenrolou-se, para espanto da médica, que quando pedi a epidural, afirmando que estava cheia de dores me disse “Ainda é muito cedo!” para logo de seguida, após observação, exclamar “Tem razão! Temos de ir já para o bloco de partos!” Levei a epidural, e vários reforços mas nada parecia fazer efeito, tremia e transpirava em bica, no espaço de meia hora tive que mudar 2 vezes de bata, e os médicos e enfermeiros olhavam para mim espantados, a epidural tira as dores e parece-me que há muito que não viam ninguém em “sofrimento extremo” afirmando, em tom de desculpa, que não valia a pena dar o reforço da epidural pois esta não tinha pegado, dado o estado avançado quando me foi dada. Só pensava que isto seja rápido e, felizmente, foi, 30 minutos e a coisa resolveu-se mas acho que foram os 30 minutos mais longos da minha vida! Caramba, se não passei a nutrir uma admiração, ainda maior, por todas as “mãe” de partos naturais, sem epidural; o meu foi rápido e eficaz, e as dores, ui, as dores… há histórias de horas a fio e algumas de dias. Pimpolha mais pequena nasceu de cabelo todo espetado e já a reclamar, saiu do bloco de partos, a mamar. Durante o recobro, a enfermeira veio buscar a pimpolha e o bebé, da senhora ao meu lado, nas suas palavras, “Para poderem descansar e comer em paz!”. Enquanto descansava e comia, ouvia os bebés a chorar, apurando bem ouvido, pareceu-me ser só um e ser sempre o mesmo. Sem conseguir vislumbrar nenhum dos bebés, pois estavam todos embrulhadinhos, pensava “Só espero que não seja a minha!” mas algo me dizia que provavelmente era… Passados 1o minutos, a enfermeira coloca pimpolha mais pequena deitada ao meu lado, que, de imediato, se aninha e para de chorar, e diz-me “Prepare-se, tem cá um feitio! Ora veja lá com ela já se calou, connosco não parou de refilar, não é muito comum em recém nascidos!”. E foi… durante os primeiros 15 dias, a moça, ao contrário dos manos que foram, relativamente, pacíficos, só tinha 3 modos ou comia ou dormia ou chorava, sendo o último o predominante. Estava, claramente, revoltada com a esta sua nova vida, na barriga da mãe é que se estava bem. Rapidamente, desenvolveu um novo modo: afinal colo da mãe, ou com a mãe, esta “nova forma vida” fora da barriga até se tolera bem, mas só com a mãe. Chorava, desalmadamente, sempre que outra pessoa lhe pegava ou ficava com ela, a mãe era um interruptor, assim que aparecia e lhe pegava, a paz e o silêncio voltavam a imperar para alívio e consternação de todos. É aquela velha questão do mau feitio… genético, dizem!

 

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