“Não estamos a dar um bom exemplo, porque raramente mostramos a nossa ignorância.”

“(…) Passamos o tempo a ensinar tudo aquilo que se sabe e raramente falamos sobre o que não se sabe. Paralelo a todo o programa escolar está todo um mundo de desconhecido. É tão importante ensinar a fórmula resolvente para equações quadráticas como deixar claro que não há uma fórmula resolvente para algumas equações polinomiais de ordem superior. É tão importante ensinar o que pode ser calculado como ensinar o que não pode ser calculado e só pode ser obtido de forma aproximada. A meteorologia só calcula a previsão do tempo com uns poucos dias de antecedência, não porque não seja interessante saber que tempo vai fazer daqui por um mês, mas porque a ciência atual não o permite.

Toda a gente que já criou problemas para a escola sabe que, por vezes, um problema ligeiramente diferente pode ser uma dor de cabeça ou ser mesmo impossível de resolver. Os problemas são escolhidos entre aqueles que o professor sabe resolver e todos os outros omitidos e varridos para debaixo do tapete, criando a falsa impressão de que o professor sabe resolver tudo!

Não só deveria ser muito mais frequente enquadrar o que se ensina dentro das fronteiras do conhecimento, como deveria ser muito mais comum o professor assumir o seu desconhecimento. Por um lado, estamos a passar a mensagem errada de que toda a ciência está cristalizada, que já temos um domínio sobre quase tudo, por outro lado, não estamos a dar um bom exemplo, porque raramente mostramos a nossa ignorância.”                                                      Rogério Martins in Expresso

Sábias palavras e muito verdadeiras. Na primeira aula, faço o aviso à tripulação “Provavelmente, algumas vezes, não saberei responder às vossas perguntas, irei certamente enganar-me, por distração, ou “enganar-vos” por omissão, e, desde já vos peço desculpa, e o favor de me alertarem, corrigirem sempre que algo não vos parecer bem. Às perguntas que não souber responder de imediato, direi apenas “Não sei mas vou averiguar”, tentando dar-vos logo que possível, e se for possível, uma resposta. Ninguém sabe tudo, toda a gente erra e eu não sou exceção!”. Aliás quando me dizem “Professora, tenho uma dúvida!” ou “Posso perguntar uma coisa?” a minha resposta típica é “Vamos lá ver se sei responder!” e a deles, confiando cegamente, “Claro que sabe!” mas, às vezes, não sei ou tenho dúvidas, há questões e questões. Ficam sempre abismado com esta minha declaração, há sempre quem exclame “Não é isso que costumamos ouvir!”. Bem sei que vivo rodeada de gente cujo o lema é “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas e mesmo que as tenha nunca o admitirei perante um aluno”, ora pois eu reduzo-me, muitas vezes, à minha humilde ignorância/insignificância…e aprendo!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s