Passeio na Margem Sul

Numa manhã macambúzia, fomos conhecer, e subir, ao Cristo Rei. A vista sobre Lisboa é bem bonita na base do Cristo Rei, à qual não acresce muito com a subida, mas fica-se com uma visão diferente de Almada (a base do Alfeite, Seixal, Trafaria, etc). Ficámos a saber que a ideia da sua construção partiu do cardeal D. Manuel Cerejeira, que ficou encantado com o Cristo Redentor, na sua visita, em 1934,a terras de Vera Cruz e pensou que seria uma ótima ideia replicá-lo na margem sul do Tejo, abraçando a Lisboa. A ideia foi bem recebida mas adiada com o despoletar da 2ª guerra mundial, acabando por ser inaugurado em 1959, depois de 10 anos de construção e 40 mil toneladas de betão, como agradecimento pelo dom da paz e um símbolo da devoção católica dos portugueses.

Seguimos até Cacilhas para visitar a Fragata D. Fernando II e Glória. O último navio, exclusivamente à vela, que durante 3 décadas, no século XIX, fez a ligação entre Portugal e algumas das suas colónias, chegando a transportar 650 passageiros (unidades militares: exército e marinha, colonos e degredados) tendo percorrido um número de milhas equivalente a 5 voltas ao mundo. Após ser retirado de “circulação” funcionou como Escola de Artilharia Naval, foi também sede de uma obra social dedicada à formação nas técnicas navais de jovens órfãos ou de classes desfavorecidas. Sofreu um grande incêndio em 1963, onde o nível de destruição foi elevado e a fragata permaneceu meio imersa e destruída no rio Tejo desde então até 1992. Em 1992, graças à Lei do Mecenato e ao facto de o Governo a ter considerado de interesse cultural, deu-se início ao restauro da fragata que viria a ser aberta ao público na EXPO 98.
A pequenada vibrou muito com a visita: canhões, o seu alcance, as “balas”, os apetrechos de limpar os canhões, os baldes de água, em caso de incêndio, e/ou para limpar o convés ao que perguntaram “Onde estão as esfregonas?”. É, sem dúvida, uma visita muito enriquecedora, que apesar de ter visitado aquando da EXPO 98, não me recordava. Ao lado da fragata, encontra-se um submarino, em doca seca, que também mereceu muita atenção da pequenada e muitas perguntas.

Visitámos também a Casa da Cerca, o Centro de Artes Contemporâneas de Almada, que tem uns belos e originais jardins, onde recolhemos bonitas e diferentes folhas de outono, uma vista magnífica sobre Lisboa, umas casas de banho muito originais, uma casa de chá simpática. Em suma, um espaço muito agradável onde passámos uma bela tarde com o bónus de termos, sem nada combinado, encontrado os primos e os primitos onde os cilindros de cortiças do jardim foram o alvo de muito equilibrismo e brincadeiras. Da sua bonita esplanada sobre o Tejo, ainda vimos um submarino em pleno Tejo a navegar!

Terminámos o dia no presídio da Trafaria que recebe na sua antiga capela uma exposição no âmbito da Trienal de Arquitetura de Lisboa com maquetes de locais emblemáticos da Margem Sul (silos de cereais, Lisnave, o Cais do Ginjal, o lazareto de Porto Brandão). No edifício ao lado, onde funcionavam os serviços administrativos do presídio, encontra-se a exposição “As vinhas de Almada, o vinho na história local”. Na zona das antigas celas do presídio, está patente a exposição “O Presídio e a Trafaria: 450 anos de História”, onde se descobre que o presídio já foi de tudo um pouco desde lazareto: local de quarentena para quem chegava das colónias portuguesas, a sede da Companhia Geral das Reais Pescarias do Reino do Algarve, a fábrica de guano de peixe, sala de alguns espetáculos e, em diferentes épocas, uma prisão, essencialmente, militar, albergou vários opositores ao regime de Salazar. Os painéis patentes revelam também um pouco da história e evolução da Trafaria, ao longo do tempo: da sua importância na defesa de Lisboa a estância balnear, passando pelo abastecimento de peixe à cidade e como lugar de indústrias como a moagem, as conservas de peixe ou o fabrico de explosivos.

Fomos guiados por um funcionário muito simpático e prestável da Câmara Municipal de Almada, o senhor Hélder Passinhas, que nos chamou a atenção para vários pormenores, como por exemplo, a única cela que ainda contém os verdadeiros resquícios dos seus hóspedes: um canto de um poster e as famosas contagens com riscos na parede que atribuímos à contagem/passagem do tempo pelos prisioneiros, blocos de 7 riscos, em que 6 são na vertical e o 7º atravessa na horizontal os anteriores e representava o domingo, o único dia em que os prisioneiros podiam ter visitas. Falou-nos também das muito precárias condições em que viviam os prisioneiros; cada cela tem cerca de 5 metros quadrados, que alojava 2 a 3 prisioneiros com 1 cama e 2 cobertores; que a prisão tinha cerca de 50 celas e apenas 3 latrinas e 3 duches. As solitárias são, simplesmente, pavorosas, sem luz, nada, nada, e o castigo mínimo de permanência era de 30 dias. Por cima das solitárias, à um salão de festas em que as paredes estão todas pintadas de preto. Referiu ainda, a suspeita de celas subterrâneas onde eram levadas a cabo as torturas e que eram, dependendo das marés, inundadas pela água e um preso muito famoso do presídio: Henrique Tenreiro (figura relevante e controversa do Estado Novo associado ao negócio do bacalhau e das Pescas).

 A degradação e o vandalismo é visível em cada passo que damos, tetos e chão a ruir ou parcialmente destruídos, marcas de tinta de jogos de Paintball e bolinhas de Airsoft nas paredes e chão mas a história do local sente-se e respira-se e é pesada!… mas vale muito a pena a visita: 6ª feira e sábado das 12h00 às 19h30 e domingo das 10h às 18h (grátis) aberto até 11 de dezembro.

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