Não há bela sem senão!

Elas têm sempre algo a dizer/acrescentar, às vezes uns decibéis acima do desejável, não abdicam da sua opinião mas ouvem, condescendendo quando reconhecem que talvez a razão não esteja toda do seu lado, cumprem, às vezes com alguma demora/ resistência e resmungo, o que lhes pedimos/ordenamos, não sem nos tentar demover ou dar a volta, são responsáveis. Já ele é um desafiador nato: quando não lhe interessa finge que não nos ouve e prossegue com o que está a fazer como se ninguém estivesse a falar para ele, ignora os avisos de perigo, tenta sempre escapar-se às tarefas que lhe são atribuídas mas que não são do seu agrado, tentando impingi-las às manas, sem vergonha nenhuma.

Gerir este barco não é fácil, se com elas é, regra geral, navegar ao sabor da corrente, corrigindo apenas a trajetória quando o vento não sopra de feição e/ou não nos leva a bom porto; a “ondulação” provocada por pequeno do meio é forte, semelhante, por vezes, à de uma furacão, exige ao leme, um pulso firme e desvios na rota traçada/desejada. Admiro, palavra de honra que admiro, quem consegue educar os filhos só com conversas, palavrinhas mansas, sem aborrecimentos de maior, sem gritar, sem castigar, sem dar umas palmadas de vez em quando e/ou sem, volta e meia, se passar completamente dos carretos. Se com elas, na generalidade dos dias, essa é um postura possível, com ele nem tanto. E, não, não tem a ver com ser o irmão do meio, ele sempre foi assim mesmo antes de pimpolha mais nova nascer, também não tem a ver com a educação, uma vez que a base é a mesma, e se com elas uma estratégia se mostra assertiva com ele é, provável, que seja um verdadeiro e certeiro tiro no pé. Deve-se, provavelmente, ao que nos diferencia a, e de, todos: a personalidade.

Há dias dizia a um colega que se não fossemos duros e ” o domássemos”, pequeno do meio, em três tempos, se transformaria num pequeno, e terrível, tirano, dado a muitos tratuns, tomando por completo conto do barco e da sua rota. Ela ficou chocada, mais ainda ficou quando lhe disse que, por vezes, o castiguei de formas que levariam muitos psicólogos a dizer que estava a traumatizar o rapaz e sei lá que mais.

Como por exemplo, quando, ao final da tarde, carregadas de mochilas e cansadas de mais um dia de escola, eu e as manas guardámos as mochilas, no porta bagagens, colocávamos os cintos, enquanto sua excelência decidiu dar um longo passeio no jardim da escola. No primeiro dia, demorou 5 minutos e, ao entrar no carro, expliquei-lhe que não podia ser, blábláblá. No dia seguinte, repetiu a proeza, quando entrou, finalmente, no carro, 10 minutos depois, disse-lhe apenas “Amanhã ou entras e te instalas no carro connosco, ou não esperamos, jantas e dormes cá na escola, que nós seguimos para casa”. Olhou-me com o seu ar maroto, de sorriso nos lábios, e disse “Ok, não há problema!”. Ao terceiro dia, antes de nos dirigirmos ao carro, avisei-o novamente, ele limitou-se a dar de ombros. Tudo pronto e instalado e pequeno do meio nem se vislumbrava perdido entre arbustos e cenas. Pimpolhas apreensivas no banco de trás, liguei o carro, fiz a manobra, e eis que surge ele a correr, tipo D. Sebastião, montado seu cavalo, entre a névoa. Avancei uns metros e o sorriso escapou-se-lhe dos lábios, apressou ainda mais o passo, com uma expressão preocupada, pimpolhas caladas no banco de trás, até que a mais pequena diz “Deixa-o entrar, por favor! Coitadinho!”. Parei, ele entrou e respirou fundo, ao que apenas acrescentei “Para a próxima, não páro!”. Escusado será dizer que nunca mais repetiu a proeza.

Uns tempos mais tarde, pequeno do meio decidiu que precisava de correr, mas na garagem, enquanto eu e as manas esperávamos, carregadas no elevador, o processo foi o mesmo, 1º dia expliquei-lhe porque não podia fazer aquilo e ele limitou-se a sorrir, ao 2º dia, ignorou-nos e prosseguiu com a sua corrida para exorcizar os males que o apoquentavam, quando se dignou a entrar no elevador, recebeu o meu ultimato com um encolher de ombro, “Amanhã, fecho a porta e ficas aí!”. Ao 3º dia, avisei-o antes de sair do carro, riu-se e prosseguiu na sua demanda, fechei a porta, as manas ficaram aflitas, ele também já estava a bater na porta quando o elevador começou a subir, dizendo “Esperem por mim!” e nós prosseguimos caminho. Ao abrir a porta de casa, ouvia-o, na garagem, aos gritos “Ajudem-me, quero sair daqui!”, pousei as mochilas e, sozinha, desci ao som de “Socorro, abram-me a porta, por favor!” e coisas do género. Não demorou mais que 3 minutos o subir e descer, ao som dos seus gritos, para ao abrir a porta de acesso à garagem ver pequeno do meio, limpando as lágrimas, esboçando um sorriso, dizer “Não foi assim tão mau!”. Não lhe disse absolutamente nada e, como é óbvio, a cena não se voltou a repetir. Se ficou traumatizado, não me parece, mas dizem que o tempo o dirá, que percebeu a mensagem, não tenho qualquer dúvida! Já a minha colega, no final da minha narrativa, exclamou “Bem o teu é filho é mesmo terrível! Tenho muita sorte com os filhos que tenho!”. Não tenho nenhuma dúvida que também tenho muita sorte nos filhos que tenho mas também sei que a sorte, em muitas coisas na vida, não está ao virar da esquina, cozinha-se, com amor e carinho, em lume brando, mexendo sempre, para não agarrar, segurando o tacho com força para que não se escape!

É preciso que as crianças percebam que, às vezes, se tem que obedecer, sem questionar, até por uma questão de segurança, há ordens e ordens! Explicamos, conversamos mas como costumamos dizer-lhe, infelizmente, parece que só percebe da pior maneira, talvez por ser um eterno otimista! O prometido é devido e quando o aviso é feito, ele já sabe que cumprimos, e isso é crucial! Sinto o seu olhar, literalmente, a medir-me, cada vez que lhe faço um ultimato! Chora, revolta-se mas já sabe com o que pode contar, pois não voltamos atrás! Má, anti-pedagógica, dirão muitos, mas com algumas crianças não se vai lá só com conversas “delicodoces” e somos todos amiguinhos.

Ter um filho cheio de energia e imaginação, bem disposto, otimista, aventureiro, desafiador e com espírito crítico tem tanto de bom como de extenuante e impor limites é essencial. Se o fazemos da melhor maneira, muitas vezes tenho dúvidas, é a melhor que conseguimos, não deixando, nunca que ele galgue limites intransponíveis, que seria bem mais fácil e cómodo, a curto/médio prazo para nós e para ele mas a longo prazo seria nefasto, basta-me olhar para várias espécies que, todos os dias, encontro em sala de aula.

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