O valor das coisas – 1€

Eu: “Que se passa? Está com um ar tristonho.”
Aluna: “Nada! Está tudo bem.”
Eu: “Não parece! Está com má cara.”
Aluna: “Estou com fome!”
Eu: “São duas da tarde, não almoçou? Quando foi a última vez que comeu?”
Aluna: “Às 7h30, esqueci-me de comprar a senha de almoço”
Eu: “Então comprava qualquer coisa no bar.”
Aluna: “Quer dizer, não foi bem esquecer-me… não trouxe dinheiro.” E aqui soam os sinais de alarme e necessidade de avançar com muito cuidado!
Eu: “Então pedia dinheiro emprestado a um dos seus colegas, não pode é estar sem comer.” sugiro descontraidamente apesar da apreensão que senti. Nisto, uma aluna que, curiosamente, também tem algumas dificuldades financeiras oferece-se para lhe emprestar dinheiro.
Aluna: “Não, não pedi dinheiro emprestado aos meus colegas porque eles também precisam do dinheiro e eu não sei quando é que lhe posso pagar.” e assim com esta sinceridade e honestidade desarmou-me completamente e fiz, com algum receio pois nunca se sabe como irão reagir, o que tive vontade de fazer desde o início quando intui a razão da sua “fome”.
Eu: “Tome lá (dando-lhe 2€), vá lá comprar qualquer coisa ao bar. Não se preocupe quando se lembrar paga-me, não tem pressa”
Aluna: “Oh, Stôra!”
Eu: “Vá, despache-se que ainda me desmaia aqui na sala e aí é que eu me chateio a sério!”
Aluna: “Muito obrigada, assim que tiver pago-lhe!”
Regressou à aula poucos minutos depois com uma sandes e toda sorridente, devolvendo-me o que não gastou (1€) acrescentando “No 1º dia de aulas do próximo período, pago-lhe! Muito obrigado!”
A maioria dos alunos permaneceu calado durante este nosso diálogo. Houve apenas uma alma, que certamente vive na abundância, comparativamente, que a única coisa que lhe ocorreu opinar foi “Mas afinal quanto dinheiro é que a professora lhe deu?” que com um olhar, meu, fulminante encolheu-se todo e nada mais disse.
1€; 1€ representou muito para aquela miúda, quando para muito é uma ninharia que não dá para comprar nada de jeito. 1€ que ela não tinha para gastar nem para devolver, no dia seguinte, a quem lhe emprestasse e ainda assim podia ter ficado com o troco (1€) mas devolveu-mo. Há miúdos com vidas difíceis, que nem sonhamos, mas que aos mesmo tempo revelam uma honestidade e nobreza de sentimentos que impressionam e comovem. Oferecemos a nossa solidariedade a “estranhos” quando ao nosso lado, pessoas com quem lidamos diariamente, passam necessidades e nós nem sequer nos apercebemos. Alertei e accionei o “processo” e refeições grátis no refeitório estão a caminho!
1€, caraças, é, nestes momentos e banhos de realidade, que nos apercebemos que as coisas não têm o mesmo valor para todos e que nem tudo é o que parece.
Ser professor também, aliás cada vez mais, é saber ler os sinais, e nas entrelinhas, escolher e ter disponibilidade emocional para intervir, ou não, e aprender todos os dias um bocadinho com eles, e sobre eles. Nem sempre é fácil de (di)gerir!

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