Gosto

“Gosto dos que não fogem e não se escondem. Dos que frequentam as pistas de dança porque ali o tempo passa mais devagar. Dos que sabem pedir desculpa quando estão errados e que o fazem com um nó no estômago porque é genuíno e custa. Dos que perdoam sem atirar à cara no dia seguinte. De quem arranja sempre uma boa razão para viver mesmo nos tempos mais difíceis e que, mesmo nesses, arranjo sempre um bom motivo para ajudar. Dos que fazem pelas boas razões e que, por elas, não desistem nem por nada.

Gosto dos que sentem orgulho em ver crescer os outros e que os apoiam verdadeiramente mesmo quando são ultrapassados. Dos corajosos que vão a jogo sem nada no bolso e que não ficam parados a chorar de inveja porque nunca tiveram oportunidades. Dos que do nada fizeram tudo e nunca mas mesmo nunca se esquecem dos que nada têm. Daqueles que vão até ao fim do mundo por alguém mesmo sabendo que correm o risco de regressar sozinhos e humilhados. Dos que acreditam que amanhã vai ser melhor que hoje, mas que temos de fazer hoje para construir amanhã.

Dos que até na chuva veem um bom motivo para dançar e no frio vislumbram uma oportunidade para aquecer alguém. Que não esperam pelo fim do jogo para escolher quem ganha. Que tomam opções, que lutam por causas e seguem as suas convicções mesmo quando o jogo não está de feição. Dos que estão lá sem nada em troca e que dão valor aos que fazem o mesmo por eles. Daqueles que sabem que, para amar, é preciso capacidade de sofrimento, que para partilhar é preciso ceder, que para falar é preciso ouvir. Dos que sabem que a liberdade não é poder fazer tudo e que a democracia não vale só quando cai para o nosso lado.

Gosto dos que acreditam que a magia não pertence só aos mágicos e que conhecem o seu poder de nos arrepiar o corpo e nos encher de qualquer coisa que ninguém sabe muito bem explicar. Dos que acordam a levitar e que encaram as segundas-feiras como o primeiro dia de mais uma semana fantástica. Dos que sabem arrancar sorrisos mesmo quando nada parece valer a pena, que nos fazem rir mesmo quando só apetece chorar, dos que nos fazem acreditar só por estarem ali. Dos que levam a vida como uma aventura inesquecível cheia de experiências inolvidáveis, com a certeza de que, no fim, os bons vencem sempre os maus.

Dos que sabem que sonhar não custa nem tem idade e vão atrás dos seus sonhos, por mais impossíveis que possam parecer. Gosto dos que dão valor à família e aos amigos e que percebem que somos o reflexo deles também. De quem se preocupa com as pequenas atitudes, os pequenos gestos. Dos que percebem que às vezes temos de dar um passo atrás para dar dois à frente. Que não se importam de perder para ver a alegria de alguém que lhes é importante ganhar. Que abdicam em prol dos outros, mas que também com as suas ideias levam outros a abdicarem para seguir com eles. De quem nasceu para ser feliz com pouco e dos que, com muito, não se esquecem de ser felizes e de fazer os outros também. Gosto dos que valem a pena, que não nos fazem arrepender, dos que nos deixam com um brilhozinho nos olhos e que encostam as costas nas nossas e nos sussurram “nunca te esqueças que não estás sozinho”. Gosto dos que se sabem levantar com a certeza de que um dia não vão cair. Gosto dos que não conseguem esconder a felicidade por nos verem, dos que não se esquecem de desejar boa noite e nos acordam com um sorriso de bom-dia. Gosto dos que são um pouco nossos e daqueles a quem pertencemos um pouco também…”

José Paulo do Carmo – Jornal i

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