A contradição humana

Afonso Cruz, proporciona-nos uma deliciosa, e reveladora, viagem às contradições humanas, nas vivências pessoais e do mundo, guiados pelo olhar atento, de quem nenhum pormenor escapa: uma criança.

“A contradição humana” é um livro infantil fantástico, “manuscrito”, para crianças de todas as idades, repleto de maravilhosas ilustrações de Afonso Cruz em três cores (vermelho, preto e branco, talvez porque na vida nada é apenas a preto ou branco).

Ficámos a conhecer este belo livro graças à pimpolha mais velha que adorou o excerto no seu livro de Português e decidiu partilhar com a família. Não se refere a todos os excertos que lê e analisa mas quase todas as semanas diz “Quero um livro novo, li uma parte que vinha no livro de português e pareceu-me muito giro”. Foi assim que leu “Charlie e a fábrica de chocolate”, se prepara para ler “Um tubarão na banheira” e muitos outros que tem na calha. Um livro de português bem conseguido nos textos escolhidos a ver pelo interesse que despertam na pimpolha mais velha! Aqui fica o excerto do seu livro de português que nos deu a conhecer “A contradição humana”. Deliciem-se com o texto e as ilustrações em baixo.

“Percebi, certo dia, que o espelho do meu quarto é uma grande contradição: o meu lado esquerdo, quando reflectido, torna-se direito – e o direito, esquerdo – , mas a parte de cima não se torna parte de baixo. Nem a parte de baixo, parte de cima. Acontece o mesmo com o meu gato. Mesmo quando se vira o espelho ao contrário. (…)

Depois de me deparar com estas coisas que desafiam a lógica de todo o universo conhecido, comecei a observar algo mais curioso ainda.
Dentro das pessoas – e isso inclui os vizinhos – habitam as maiores contradições.
Por exemplo: A minha tia gosta muito de pássaros mas prende-os em gaiolas. É uma pena.

O vizinho do sétimo esquerdo toca piano, canta e nunca desafina. Tem uns cabelos despenteados e uns dedos mais compridos do que aulas de Matemática. Mas o que realmente me impressiona é que ele toca músicas tristes e isso deixa-o feliz. Chega a chorar de felicidade (eu já vi).

No prédio ao lado vive uma senhora que sabe tudo, mesmo tudo. Apoiada na vassoura não há vida que ela não conheça. E tudo o que ela diz é sussurrado aos ouvidos das outras pessoas. O meu pai diz que aquilo passa tudo de boca em boca, mas o que eu sei é o seguinte: diz segredos baixinho que parece impossível que se façam ouvir a tão grandes distâncias.

O Sr. Gomes é um grande erudito que usa óculos e barba cheia de ondas brancas. Lê muitos livros e tem uma coleção de chapéus e um telescópio. A senhora do prédio ao lado, que sabe tudo, não é sábia nenhuma, enquanto o Sr. Gomes, que não sabe tudo (já lhe perguntei), é um grande sábio. Um dia pus-lhe uma questão: “Sr. Gomes, diga-me porque é que uma pessoa usa óculos para ver ao longe quando tem um telescópio?”

Uma das coisas mais espantosas é a quantidade de açúcar que a dona Assunção (vive no sexto, por baixo do pianista) põe no café. Quando ouve as músicas tristes do vizinho de cima, põe-se a gritar e a bater com a vassoura no teto. Quando se consegue acalmar, senta-se na salinha, põe uma toalhinha de rendas na mesinha, e deita um açucareiro no café. Apesar de comer tanto açúcar, é uma pessoa amarga. A minha mãe diz que o que lhe falta é chá. (…)”
                                                                                      in Contradição Humana, Afonso Cruz

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