Parentalidade(s)

Os seus filhos são o máximo: lindos, inteligentes, educados, não mentem, contam-lhes tudo pois são super amigos. Resumindo: os seus filhos são um poço de virtudes, defeitos não há nem pode haver, errar é cena que só aflige os outros, até porque eles e os seus queridos filhos raramente têm dúvidas e se as têm nunca ninguém lhas ouviu. Quando confrontados com uma situação desagradável, põem as mãos, e o resto do corpo, no fogo por eles, vociferando “Impossível, o meu filho nunca faria uma coisa dessas. Não é essa a educação que lhe dou em casa”, confrontados com os factos, contra estes não há argumentos, pensariam os mais otimistas, não vacilam: isso são coisas de miúdos às quais não se pode dar muito importância, acrescentando que há adultos que dramatizam e levam tudo muito a sério; culpabilizam os amigos e colegas do filho porque são uma má influência: a ideia só pode ter sido deles e ele foi levado na corrente: estava no sítio errado na hora errada, uma coisa que parece acontecer com frequência; porque o dinheiro repara e resolve tudo; porque não foi essa a versão que lhe foi dada a conhecer pelo filho (e mentir é coisa que eles não fazem)… Procuram justificar, com naturalidade e anos de prática, o que, aos olhos de todos, é inconcebível e inaceitável e não há nada nem ninguém que os demova na sua demanda! Se fosse uma criança tentando justificar a sua travessura, desta forma e em dose q.b., provavelmente, gabava-lhe, com um sorriso nos lábios, a persistência, insistência e capacidade de argumentação, já em pessoas adultas e responsáveis pela educação e atos dos menores a seu cargo, abomino!

Saber estar, ouvir, respeitar, obedecer, sim obedecer, reconhecer a autoridade, perceber que não se é o centro do mundo e que não se pode fazer tudo o que nos dá na real gana, que quando se faz algo errado se deve admitir, pedir desculpa e tentar corrigir/minimizar o erro, são tudo princípios essenciais que devem ser trabalhados desde tenra idade!
Quando tudo isto parece estar ausente, aos miúdos, dou-lhes o “devido desconto” face à irreverência própria da idade e às parvoíces expectáveis e típicas, não mais que isso. Para os seus pais, lamento mas não tenho paciência nenhuma, nem tolero as suas queridas e fofinhas visões e teorias sobre a falta de educação dos seus meninos. Lamento desiludi-los mas eles mentem, como todos nós mentimos, uns mais frequentemente que outros, por conveniência, por omissão, para não ferir susceptibilidade ou criar problemas de maior, para minimizar, ou engrandecer, os nossos feitos, e, às vezes, só porque sim; eles podem ser o centro do vosso mundo mas o universo está pejado de galáxias algumas a muitos anos luz de distância; todos nós adequamos, condicionamos as nossas intervenções, forma de estar e agir, em virtude do ambiente em que estamos inseridos, a escola e a vossa casa são ambientes bem distintos; os outros podem ser uma má influência mas eles optam, têm o poder, e vocês o dever de os ensinar, a dizer NÃO (esse monossílabo que parece ter desaparecido do léxico de muitas famílias), bem como de distinguir o bem do mal; o erro dos outros nunca desculpabiliza ou tira a responsabilidade do erro do vosso filho e há atitudes/erros que não há dinheiro no mundo que resolva/compense; não averiguar e incentivar a que admitam o seu erro (sim, eles falham, portam-se mal e erram como todo e qualquer ser humano), procurando, incessantemente, desculpabilizá-los, é transmitir-lhes que tudo é admissível e permitido e que estarão lá sempre para os safar; é criar um monstrinho irresponsável, insensível e desconhecedor das regras que são essenciais para viver em sociedade. Um bocadinho cansada, de cada vez mais, me cruzar com monstrinhos, e respetivos pais, ambos cheios de si, caminhando a largos passos para se transformarem em verdadeiros e assustadores monstrengos.

“(…) E tem de haver disciplina. E isso pode ser compatibilizado com uma família mais democrática e com uma família de afetos. As pessoas não conseguem encontrar esse modelo que concilie dois modelos que, à partida, parecem inconciliáveis. Chegamos ao caricato de vermos livros de autoajuda para pais — escritos por psicólogos — que aconselham a dizer não aos filhos. É algo que soa estranho, os pais que têm que ler estes livros passaram a infância e juventude a ouvir dizer não, e agora têm muita dificuldade em dizer não aos filhos.
(…)  O trabalho tomou conta da vida das pessoas. No pouco tempo que têm evitam o conflito. E exercer autoridade implica conflito. É necessário para marcar as diferenças de papéis, para dizer que os pais são pais e não são amigos.
(…) temos uma geração de progenitores que foi tiranizada pelos seus pais e agora se deixa tiranizar pelos seus filhos.” 

Excertos de um entrevista muito realista no Expresso

Muitos adultos se comportam como crianças: desafiam sistematicamente os professores e negam qualquer comportamento errado dos seus filhos.   Eles estigmatizam o comportamento de outras crianças, amplificam e incentivam qualquer briga entre duas crianças ao invés de optar por um diálogo. Isto também é um bullying silencioso, do qual ninguém fala.”
Excerto do artigo “O bullying que ninguém comenta: a intromissão dos pais na escola” muito bem explanado neste post

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