Velhos do Restelo

Observo a pequenada esparramada, no meio do chão, a jogar um jogo de tabuleiro: falam alto, entusiasmados, conjuram uns contra os outros, vigiam-se para não haver batota, desentendem-se porque nem sempre sabem perder, inventam variantes e novas regras, às vezes, as que lhes dão mais jeito. Brincam e viram os seus quartos do avesso: às bibliotecas, às escolas, aos organizadores de festas e sei lá que mais, gritam, desentendem-se, batem-se, fazem as pazes, desentende-se novamente porque alguém tem que arrumar o que está espalhando pela casa, e nunca foi nenhum deles, chegam a um compromisso, maquinam e conspiram teorias, e práticas, para endrominar os pais, convivem salutarmente como irmãos. Os gadgets não fazem parte do seu dia a dia, desconhecem as password de telemóveis e computadores da casa, embora estejam sempre à coca para ver se as descobrem, às vezes, conseguem e nós voltamos a mudar e eles ficam piursos!
Observo, nos intervalos, a generalidade dos alunos, agarrados ao telemóvel, não olham nem conversam uns com os outros; numa aula durante um discussão entre dois alunos. dei com uma aluna a gravar a cena, justificando o injustificável com “já percebi que quando as pessoas estão a discutir, se virem que estamos a filmar, acalmam-se e param de discutir! Pelo menos lá em casa funciona”, os envolvidos, e eu, obrigámo-la a apagar o vídeo e a aluna prevaricadora ficou recalcitrante; verifico os grupos de whatsup que pimpolha mais velha criou no meu telemóvel, e que ela raramente pede para consultar, e passados 3 ou 4 dias são mais de 2000 “mensagens” trocadas, onde em algumas arrepia-me o tipo de conversa, noutras o tipo de linguagem, noutras as fotografias que partilham e/ou editam, em vários os vídeo de colegas que partilham; em muitas as horas e a frequência com vão surgindo.
Espanta-me ouvir uma mãe de uma menina de 10 anos dizer “A minha filha ficou a jogar Sims até às tantas, quando me fui deitar, ela lá ficou, quando acordei lá estava ela no sofá!” ou o pequeno do meio a dizer que um amigo seu de 8 anos instalou uma aplicação chamada “100 maneira de morrer!” ou o outro que vê todos os filmes  dos youtubers da moda e que agora já se denomina youtuber mas que atenção nunca filma a sua cara, ou aquilo que pimpolha mais velha conta que os seus amigos andaram a ver ou a fazer na rede, que estão sempre online, etc… sem rei nem roque, sem controlo!
Oficialmente e com orgulho, somos uns verdadeiros Velhos do Restelo nesta matéria, os pequenos dizem apenas “Vocês são maus!” mas não insistem, nem ficam ressentidos, já sabem do que a casa gasta. Não sei bem como lidar com estas novas realidades e os novos problemas que elas acarretam ou acarretarão, só sei que me preocupam e muito…!

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