A Geometria de Almada Negreiros

“Uma maneira de ser moderno” foi a exposição de Almada Negreiros, patente até há bem pouco tempo na Gulbenkian, que bateu recordes de bilheteira.
No início da exposição, eram dados a conhecer alguns estudos/esboços geométricos do pintor, que sem grande explicação, como quase toda a arte, surpreendiam pela sua espantosa regularidade! Quadrado, triângulos, equações, símbolos que representam diâmetros e um profusão de linhas que parecem ser construções de régua, compasso e esquadro é algo que podemos encontrar nestes esboços mas também no grande painel “Começar” patente na entrada da Fundação, também ele da autoria de Almada Negreiros. Interessante verificar, ouvindo antigas entrevistas do artista, o seu contentamento do perante o convite, em finais dos anos sessenta, para realizar esta obra “É a medida indispensável, necessária e justa para dispor o todo do conhecimento que eu criei”. Curiosamente, “Começar”, foi a sua última obra.
Um autodidata, desde cedo, explora a ideia da geometria como chave da arte visual, os seus muitos esboços geométricos não incluem nenhuma explicação que permita compreender os seus estudos, mas estes acompanharam a sua carreira de 1916 até 1970, experimentalistas, com base na tentativa erro, sistemáticos, exaustivos e, por vezes, obsessivos, criando aquilo que muitos denominam do Cânone de Almada.
Apesar de um vasto espólio de esboços geométricos, escassas são as referências de Almada Negreiros ao seu Cânone e as existentes são muito difíceis de entender e decifrar até porque este utilizava uma notação matemática muito própria – a sua: ele sabia o que estava a fazer, tudo para ele era claro, se o resto do mundo não entendesse, o problema não era seu!
Pedro Freitas e Simão Palmeirim Costa dedicaram-se à análise sistemática dos esboços geométricos de Almada Negreiro, tendo como aliadas a Matemática e a Arte, um estudo moroso e minucioso, reconstituindo, depois de identificar os vários elementos presentes, as suas construções geométricas em Geogebra. Este estudo permite perceber que existem, na obra de Almada, dois tipos de construções: as exatas, as quais foram demonstradas  matematicamente pelos dois autores do estudo e que se poderiam denominar “Teoremas de Almada”, e as aproximadas, para as quais calcularam o erro, muito vezes na ordem de um milésimo, portanto surpreendente boas – a espessura do lápis seria maior do que o erro cometido no traço. Não há dados que permitam concluir se Almada fazia distinção entre estes dois tipos de construção. A explicação rigorosa de dezenas de estudos geométricos de Almada Negreiros pode ser encontrada no livro “O livro de problemas de Almada Negreiros” de Pedro Freitas e Simão Palmeirim Costa . Esta autores dedicaram-se também ao estudo do painel “Começar”e, com base nesse estudo, em abril de 2017, a Fundação Gulbenkian lançou um portal eletrónico dedicado ao painel “Começar” . Pedro Freitas e Simão Palmeirim Costa organizam, frequentemente, visitas guiadas e explicadas ao painel “Começar” para todos os curiosos, amantes da arte e/ou da matemática.

“A divisão simultânea do quadrado e do círculo em partes iguais e partes proporcionais é a origem simultânea das constantes da relação nove/dez, grau medida e extrema razão e prova dos nove.”
Almada Negreiros

“Um ponto que está no círculo e que se põe no quadrado e no triângulo. Conheces o ponto? Tudo vai bem. Não conheces? Tudo está perdido.”
Almada Negreiros

Fonte: Crónica de Jorge Buescu “A Chave da Geometria de Almada” na revista Ingenium de abril de 2017

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