Bons livros e boas descobertas!

Há hábitos, há a curiosidade, o gosto pela pesquisa e/ou o saber mais, que, por vezes, nos levam a descobrir muito além do que esperávamos, quando não nos ficamos apenas pelas primeiras entradas do google ou seguimos alguns dos links. Uma facto que nunca deixa de me espantar e deslumbrar. Acontece-me com livros, artigos, lugares, pessoas, dados históricos e científicos, receitas, etc., e, por vezes, dou comigo perdida, mas orientada, entre tantas janelas abertas repletas de informação interessante. Registo, aprendo e anoto que, às vezes, a verdadeira pérola, ou a mais preciosa, encontra-se bem escondida como um  segredo bem guardado.
Depois das férias, ainda vivendo na teia de encantamento dos Açores e pensando/preparando um regresso num futuro próximo, entre blogs de viagens e blogues pessoais, encontrei várias referências aos artigos e livros do Joel Neto, cronista, escritor, açoriano de gema, viveu em Lisboa 2 décadas e regressou à sua ilha (Terceira) para ficar?! Entre os livros, em inglês, no Kindle, e as “borlas” que o google dá, escapou-se-me o que é nosso e muitas vezes superior! Tomei nota “Presta atenção”. E, de imediato, senti-me acometida pela febre que só quem adora ler, reconhece, e tipo viciada “corri”, vá, contive-me um dia, para comprar os seus dois últimos livros (Arquipélago e Vida No Campo), sim que, aos nossos, leio-os sempre em papel, são os únicos! Perante o sorriso de excelentíssimo esposo, resignado à ideia que há coisa que nunca mudarão, e há um certo conforto nestas constante da vida, esta é uma delas, espero… e aquela que ele nunca diz mas pensa, assim me dizem os seus olhos,  “Quando se lhe mete uma coisa na ideia, saiam da frente e se for um livro…ui,ui!”
O “Arquipélago” – uma história sobre um homem que não sente os terramotos e uma criança desaparecida. Um livro que nos guia, através das suas personagens e enredo, pelas paisagens e locais da Terceira, ao terramoto de 1980: a destruição, o medo, a vida, a reconstrução, aos vários achados arqueológicos da ilha, encarados com temor desconfiança pela comunidade científica do continente, aos viveres e ritmos do campo, às singularidades de viver numa ilha, às peculiaridades das comunidades pequenas, da familiaridade às suas tricas, guerrilhas e desconfianças e um passeio pela fabulosa, mas traiçoeira, natureza e psicologia humana, cheia de certezas mas coberta de incertezas. Um livro que nos transporta à ilha, quase que conseguimos sentir o seu cheiro tão característico, nas palavras do Joel “a erva húmida, leite morno e bosta de vaca” e ouvir o som ensurdecedor dos cagarros, numa noite verão. Relembra-nos terras e lugares que já pisámos e apreciámos, se calhar, não tanto como devíamos, obrigando-nos a vê-los segundo uma nova luz e outro prisma, aguçando-nos, ainda mais, a vontade de voltar (e aqui excelentíssimo esposo suspira e eu digo “Temos de voltar e fazer as pazes com a Terceira”. A última vez aconteceram-nos por lá uma série de peripécias engraçadas, que na altura não achámos grande piada, mas o tempo e idade têm essa capacidade de nos fazer ver as coisas e sítios de outra forma… fica para outro post).
Vida No Campo é uma espécie de diário delicioso, cheio de histórias, pessoas reais e vivências comuns mas ao mesmo tempo singulares e pessoais, características não só do campo mas da insularidade, reflexões, comparações, desejos e anseios de quem já viveu na cidade e agora vive no campo e numa ilha. Essencialmente, a beleza das coisas e das pessoas simples e a constatação que a vida, pois a vida, pode não ser assim tão complicada, é e será sempre uma questão de perspetiva. Um livro que nos deixa saudades dos seus habitantes e de quem lhes dá vida e voz. Numa breve pesquisa, descobri que posso continuar a encontrá-las, todas as semanas, por aqui, na rubrica semanal do Joel Neto, no DN, ou por aqui, o que me deixa com um sorriso nos lábios e feliz e contente da vida! Enquanto espero pelo seu novo livro, agendado para a primavera de 2018!
Em pouco menos de uma semana, algumas horas roubadas ao sono, andei embrenhadas nestas belas histórias. Surpreendeu-me, sorri, refleti, fiquei curiosa, pesquisei um pouco da história e costumes da Terceira, aprendi e gostei muito do processo, da história, da escrita. Os dois livros têm todos os ingredientes que definem um bom livro! Recomendo a leitura, conhecendo ou não, esse pedacinho do paraíso que são os Açores!

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Outono

Um outono invulgarmente quente e incendiário!
Um país que acima do Tejo ardeu praticamente de lés a lés, entre junho e este negro fim de semana de outubro.
Um tempo pautado por muita falta de tento na língua, sentido de oportunidade, bom senso, racionalidade, responsabilidade e sensibilidade a quem lhe compete e, por outro lado, uma sede de “sangue” que não compreendo, no imediato, que vantagens trará para os principais visados, os que tudo perderam e se veem rodeados de nada, para além do negrume e das cinzas, e para restabelecer as nossas florestas e evitar novas desgraças!
Sim, o sistema voltou a falhar, os meios voltaram a ser poucos e sabia-se que o risco era elevado! Se deveria ter acontecido depois do que se verificou em Pedrogão, Mação e por aí em diante, certamente que não!
Quatro meses decorridos, o que teria sido possível mudar naquilo que falhou em Pedrogão? E atenção ao verbo que utilizei: “teria sido” e “não deveria”, que faz toda a diferença.
Para tudo, há burocracias, contratos, concursos, protocolos, prazos, interesses e cenas e coisas a cumprir. Infelizmente, a máquina estatal é lenta, disso eu tenho a certeza! Mas fico contente, por a ignorância ser apenas da minha parte, porque todos parecem saber o que poderia ter sido feito em 4 meses, em cá acho que tenho apenas uma pequena noção do que deveria ter sido feito!
Um dos melhores apontamento, para todos nós, sobre este negro verão/outono.

“Quando é que foi a última vez em que repararam naquele eucaliptal a caminho da terra dos vosso pais? Sim, aquele aonde não levam os miúdos por estar cheio de mato, que eles ainda se aleijam e sujam todos. Quando é que foi a última vez que apanharam pinhas em vez de as comprarem no supermercado? Quando é foi a última vez que sentaram à sombra de um carvalho? A floresta faz muita decoração, é verdade, o verde enche muito olho, é ele e o azul do mar. Diz até que faz bem ao ar que a gente respira. Mas precisa que se torne parte da nossa vida para que possa existir. Sem isso é coisa para arder facilmente.”
Cristina Nobre Soares

Música, e cheiros, do acaso

Relaxados e fresquinhos, um banho demorado de mar quente na Ponta da Ferraria tem esse poder, um duche para tirar o sal da pele e prosseguir passeio para a próxima paragem. Os cinco, no mesmo balneário, as vozes animadas das pessoas à espera embalavam e apressavam-nos os movimentos do vestir.
Prontos para seguir viagem, ao abrir a porta do balneário, damos de caras com uns primos afastados que já não víamos há meses e meses. Matámos saudades e trocámos aventuras e impressão das “terras e gentes” açorianas, eles acabados de chegar a São Miguel, vindos do Faial e do Pico (tendo subido lá ao cimo) e nós na ilha há 1 semana.
De repente, as pingas teimam em cair, cada vez mais grossas, e é inegável, começara a chover torrencialmente. O sol que há pouco brilhava, já era, a coisa ficou negra, muito típico por aquelas paragens.
Abrigámo-nos e continuámos em amena cavaqueira, nas ilhas é preciso dar tempo ao tempo, literalmente, aproveitando mais uns minutos que o São Pedro nos facultou, uma vez que eles estavam de fugida na ilha, queriam aproveitar ao máximo, e a  janela de tempo para o banho de mar quente estava quase a terminar, a maré estava a subir.
Desfrutámos desta música do acaso em que a chuva proporcionou todo um outro cheiro e ritmo que até o chão fumegava.
Um encontro altamente improvável, aconteceu, estas pequenas coincidências da vida nunca deixam de me maravilhar! Não fosse o mundo pequeno e as ilhas mais ainda!
Nestas ocasiões lembrome sempre desse curioso, pequeno e espantoso livro que é o Caderno Vermelho de Paul Auster, que retrata precisamente estas pequenas grandes coisas da vida.

Mudança de paradigma?!

Excelentíssimo esposo adora máquina, tudo o que tem botões, mexer, experimentar e há muito que gostava de ter uma Bimby, ou um robot de cozinha do género. Argumentando com o preço e a reduzida capacidade do recipiente para uma família de 5, lá me fui safando. Em tom de brincadeira, costumávamos comentar que eu era Bimby cá de casa.
Com um robot de cozinha de preço bastante acessível disponibilizado a semana passada no LIDL, um dos meus argumentos caiu por terra, e os olhos da pequenada brilharam quando o viram no supermercado, excelentíssimo esposo a quem se aliou a pequenada, montaram o cerco, e moeram-me o juízo com argumentos infindáveis e pronto, assim, me vejo dona de um robot de cozinha, que excelentíssimo esposo promete utilizar com frequência, e para o qual ainda olho com alguma desconfiança sem saber bem o que fazer com aquilo e naquilo.
O leite creme é bom, tem um triturador poderoso e os sumos de fruta são bons, mais não sei nem sei se me apetece explorar avidamente esse, que muito apregoam, como admirável mundo novo, acho que vou deixar isso para excelentíssimo esposo. Não me parece que vá haver uma mudança de paradigma na minha cozinha mas talvez haja na nossa cozinha, o que não seria mau de todo!

Coceiras

Mais um mail da escola dos pequenos a alertar para a existência de parasitas (vulgo piolhos) e a solicitar a vigilância sobre os longos e sedosos cabelos da pequenada. Imediatamente, sentes aquela comichão infernal na cabeça e dás por ti a coçar-te, pensando “Oh no, here we go again!”. Avisando a pequenada, que os rabos de cavalo serão o penteado da moda, nos próximos tempos, pimpolha mais velha diz “Epá, nem acredito, andamos sempre nisto… já tenho pavor, sinto mesmo pânico. Não quero apanhar!”
Pelo sim, pelo não, de manhã, antes de irem para a escola, os borrifos, no seus longos cabelos, com umas gotas de vinagre, ou elixir dos dentes, diluídos em bastante água, passarão a fazer parte das nossas rotinas matinais! Diz que os piolhos não gostam destes cheiros, que os repele. Mais vale prevenir que remediar e as mezinhas, por vezes, são bem eficientes e baratas.
À conta das pragas de piolhos nas escolas, as farmácias devem ganhar bom dinheiro com estes parasitas, que, rapidamente, parecem tornar-se um caso de saúde pública, ou pelo menos de saúde mental para quem tem de tratar dos cabelos da pequenada, parece-me que nenhum dos produtos do mercado é 100% eficiente, já experimentei todos, e são todos para lá de caros!

Porque no te callas?

17 anos, alta, esbelta, bonita, cabelo longo, olho claro, sorridente, simpática assim é a M. Naquele dia, notei-lhe qualquer coisa diferente e observei, perante a turma de 11ºano, “Ó M., hoje, está diferente! Sempre com um sorriso nos lábios e linda mas hoje… não sei, até parece mais nova!”.
Elas trocam olhares cúmplices, entre si, eles encolhem os ombros, com quem está a leste do paraíso. Eu pensei “Pumba, já puseste a pata na poça” e eis que a M., timidamente, me elucida “Stôra, a única diferença é que eu hoje não me maquilhei!”. Pufffff… fiquei sem palavras e a pensar “Ora pois então toma lá, perdeste uma bela oportunidade de estar calada!”.  E nisto um dos moços diz “Bem gira, sempre gira de qualquer maneira. Sabe lá, já não se fazem raparigas como antigamente… Todas produzidas, sempre!”. Assunto arrumado!

Feriados e o despertador

O despertador toca à hora habitual, cheia de deleite e sem remorso, desligo-o e sorrio interiormente, enroscando-me melhor no quentinho do vale dos lençóis, sinal que o outono chegou de mansinho! Muito Pouco tempo depois sou acordada violenta e ruidosamente pelo despertador natural da pequenada da casa, que, curiosamente, não é assim tão pontual, funcional e bem disposto nos dias de escola. Aí, o despertador e a lazeira, nos feriados…!

Bolas, que isto é difícil!

Valores, ética, o que é certo e errado, ser amigo do seu amigo, ser correto, admitir o erro, pedir desculpa, é aquilo que todos os dias procuramos transmitir/incutir à pequenada, pelo exemplo, em conversa, etc.
Se lhes podemos perdoar parvoíces, traquinices, brincadeiras menos felizes com alguma facilidade, é muito difícil perceber, aceitar, perdoar os seus erros quando envolvem questões éticas e valores que consideramos fundamentais mais ainda quando julgávamos que os mesmos já estavam, ou deviam estar, enraizados, quando percebemos a falta de humildade, a resistência em admitir o erro, em pedir desculpa, os argumentos que não queremos ouvir pois são inconcebíveis e inadmissíveis e nos mostram que a distinção do certo ou do errado está lá mas não estão os valores, aquilo que nos impele ou repele de praticar uma determinada ação.
É difícil aceitar e gerir, que o seu erro é também um falhanço nosso, que, aparentemente, nos envergonha mais a nós que a eles, que nos obriga a ralhar, a castigar, a exaltarmo-nos mas, essencialmente, nos entristece, profundamente, a alma e nos leva a questionar mas “Quem é ele? Com é possível que seja assim?” e ver refletido no seu olhar a nossa desilusão, os laivos de confiança a extinguirem-se mas sem a certeza do seu arrependimento ou que tenha consciência da magnitude e gravidade da situação, apesar de todas as conversas, argumentos e exemplos.
Se seria mais fácil fechar os olhos, a uma personalidade, maneira de ser e de estar nos nossos filhos que não é de todo a que desejamos para eles, claro que sim, mas de olhos bem abertos podemos lutar e tentar contrariar a cada volta do destino esta sua malfadada tendência, não desistindo, ou morrer tentando, fazer deles pessoas melhores mas bolas que isto é difícil que dói!

Cicatrizes de verão

O ar irrespirável, o vento que não dá tréguas, o calor insuportável, o sol raiado de vermelho, o céu não se vislumbra apenas uma coluna negra, as cinzas que chovem impiedosamente, as horríveis labaredas visíveis a km de distância, o som constante dos canaderos e dos helicópteros, o desespero de quem, em minutos, se vê cercado, perde o trabalho de uma vida e tem o consolo de ouvir “Não houve perda de habitações”, a consulta permanente do http://www.fogos.pt e os sites e rádios locais em busca de mais informação e saber se tudo e todos estão a salvo ou se, em breve, teremos o monstro à porta, para sentir que estamos seguros para uma hora depois estar tudo descontralado e a ameaça voltar em grande, as imagens, as notícias e toda a corja que se alimenta da desgraça alheia para gáudio próprio, politiquices, popularidade ou para inflamar ânimos, onde vislumbramos o melhor e o pior das pessoas que parecem estar em lados opostos da barricada (os que lutam sem grandes meios, exaustos, arriscando a vida para salvar o que é seu e/ou dos outros e os que sentados, confortavelmente, longe do cenário desolador têm muitas opiniões sobre o assunto). No final, respira-se de alívio enquanto se contempla as cicatrizes, ainda fumegantes, deste negro verão, pensando mas terá que ser assim todos os verões? Para descobrirmos que dias mais tarde, o monstro volta para destruir o que não levou na 1ª volta!

Sala de 1º ano – outra perspetiva

A maioria dos meninos têm um banquinho para colocar os pés, pois não chegam com eles ao chão e os estudos indicam que é mau para a postura e concentração. Esta é a uma perspectiva da sala da pimpolha mais pequena. Tendo em conta que apenas 6 ou 7 não usam o banquinho, surgem-me algumas questões: “Estarão as carteiras e cadeiras mal dimensionadas?”, “Serão as crianças, destas sala apenas, mais pequenas do que a maioria?” ou será que “Começam esta fase cedo demais?”. Ou um misto das três? Tendo em conta que pimpolha mais velha decidiu que precisava de um banquinho e é percentil 95% na altura, das duas uma, ou há aqui algo profundamente mal dimensionado ou a rapariga não quis fugir à regra e adotou o banco! Dá que pensar…
Nota: Ao fundo vislumbram-se as famosas caixas transparentes e os maravilhosos dossiers verdes claros (lado direito) – a uniformização em todo o seu esplendor!!! Lado esquerdo, a explosão de cores e diversidade de dossiers – são os da disciplina de Inglês!!!

Listas de material – Agoiros

Confesso que detesto, abomino listas de material, especialmente porque quando penso que já tenho tudo, depois de correr algumas capelinhas, descubro que afinal não e ainda falta não sei o quê! Mas este ano descobri que há listas de material e depois há as listas de material muito específicas – o meu novo ódio de estimação. Deve ser de estar a ficar velha mas juro que não tenho paciência, nem feitio, para isto, portanto vou destilar e sublimar em busca da purificação!
Ora, pois então, na lista de pimpolha mais pequena um dos itens enumerado era “1 caderno quadriculado agrafado A5 com capa lisa verde claro”. Nas capelinhas onde fui, não encontrei nenhum que reunisse estas quatro maravilhosas, e fundamentais, características (A5, quadriculado, capa lisa e verde claro) e, por descargo de consciência, na reunião de pais, perguntei “Não consigo encontrar o caderno verde claro em lado nenhum, pode ser de outra cor?” e a resposta foi peremptória “NÃO!”. Tal não foi o meu espanto pela resposta e o tom utilizado que, conhecendo-me fiz, certamente, uma daquelas minhas caras, e saiu-me, de imediato, um “COMO?”, não sei em que tom mas desconfio que foi naquele que utilizo com os meus alunos quando algo me desagrada profundamente. “Tem que ser verde claro e sem bonecos!” frisa a senhora professora. “Porquê?” questiono. “Para uniformizar e todos os anos vou escolher uma cor diferente!”. Assim como quem diz habitua-te porque isto ainda é só o 1º ano. Devia Podia não ter dito nada, mas lá está, às vezes, não consigo mesmo e acrescentei “No próximo ano, seria uma boa ideia escolher uma cor que seja fácil de encontrar em qualquer lado! Uniformização? Num caderno de TPC? Não percebo!”. A senhora professora nada mais disse.
Sabem aquela prazer que todos temos/tivemos de escolher os nossos cadernos, dossier e afins. Esqueçam, tudo a bem da uniformização, obviamente! Raios parta se isto faz algum sentido mas isto deve ser só o meu mau feitio a falar mais alto. Com dois filhos que já passaram pelo 1º ciclo, sem mariquices, agora no 3º filho apanho com a uniformização, juro que não tenho paciência para estas picuinhices.
Entretanto um outro pai, do género dos que perguntam se o caderno tem mesmo que ser verde claro, pergunta “A caixa de material que arranjei não tem 10 cm mas 15 cm há algum problema?” e eu pensei cá para os meus botões “Caixa, transparente, 10 cm? Hummm, esta do transparente escapou-me. Estava mesmo a pensar trazer uma qualquer que tivesse lá em casa de cartão, dentro das dimensões, tipo as que utilizaram os manos. Reutilização, reciclagem, esquece lá isso… Quem é que pergunta isto? Por mais 5 cm?Trazes a que tens e acabou-se!”. Mantive-me calada e sossegadita, já a ficar com umas comichões valentes mas vá. Ser transparente, parece que também é fundamental, os 5 cm a mais condescendeu com um “desde que caiba naquela estante”. E, logo vários pais observaram “Pois não encontrei caixas com essas dimensões em lado nenhum!” e eu pensei “Oh não. Here I go again!” e até que um pai diz “As do IKEA tem essas dimensões!” e a senhora professora diz com um ar satisfeito “Exato”. Toda a gente sabe que para comprar material escolar o IKEA é o sítio ideal e mesmo ali à mão, certo? Pumba e não me contive novamente e disse “Se calhar, no próximo ano, também seria boa ideia, à frente de cada material, colocar o sítio onde o devemos adquirir!”
Com estes preciosismo todos, o meu mau feitio começa a revelar-se com alguma intensidade e, às vezes, apetece-me ser assim mázinha, ruinzinha, mesmo. Para quem pregou o rigor científica e a correção de linguagem, uma reunião inteira, e aqui estamos plenamente de acordo (deve ser porque não envolve cores, opacidades e materiais), atentemos pois então no item “1 caixa de plástico transparente tamanho A4 e altura cerca de 10 cm”. Tamanho A4? Área, volume, 2D, 3D? Nop… talvez algo como “Altura da caixa: 10cm, base da caixa deve ter as dimensões de um folha A4”. Talvez lhe faça esta sugestão para o próximo ano, a bem do rigor e da correção, obviamente!
Haja paciência, que já não me aguento a mim própria, mas esta obsessão pelas cores perturbou-me mas é coisa que não se nota nada! Digo a excelentíssimo esposo “Nas próximas reuniões, vais tu!” e ele, entre risos, diz “Claro que não! Tens tanto jeito para isso!”. Brincalhão… que escolheu o caderno da pimpolha mais pequena – lindo: verde claro na capa, azul na contra capa, e umas semicircunferências nos cantos superior e inferior e na lombada (não são bonecos, ok? São construções geométricas, belas, coloridas, discretas). Foi o melhor que encontrámos (depois de mais umas horas em busca do verde claro, grrrr) mas foi tão bem escolhido, não foi?

Agoiros de 1º dia

Mochilas com material e livros 
Mochilas da ginástica  
Mochilas da natação
Lancheira 
Mochilas dos almoços 
Pequenada vestida, calçada e penteada 
Pequenada a tomar o pequeno almoço 

Abandono o conforto e o sossego (era bom, era) do lar com uma sensação de missão cumprida e inicio a minha caminhada, também eu de mochila às costas, para enfrentar o meu 1º dia de aulas. Chego à escola fresca e fofa pelas 8h05, perfeito, 10 minutos para relaxar e colocar a conversa em dia, antes de conhecer e enfrentar as novas “feras” … o domar vem depois. Diz-me uma colega, “Já deves vir cansada depois de acordar, arranjar e despachar tanta gente!”. Respondi “Tudo orientado. Ficou tudo a tomar o pequeno almoço. Devem estar a sair de casa agora!”.
Toca o meu telemóvel, era excelentíssimo esposo, “Olha é o meu marido!” e as minhas colegas lançam- me um olhar cúmplice! Sorrindo, seguem a minha conversa telefónica, tentando descortinar qual seria a crise, enquanto excelentíssimo esposo me pergunta “Sabes onde está a minha mochila?” ao que respondo, prontamente, “Não faço a mínima ideia!” e ele, com muita calma, solicita “Olha lá para a mochila que levaste!”. Junto ao pé do sofá, vislumbro a mochila que à pouco acabará de pousar, linda, bela, esplendorosa, pesada, azul – a mochila de excelentíssimo esposo e não a minha que é, obviamente, ainda mais bela, mais leve e preta. As minhas colegas riem-se e, a mim, começam a dar-me os calores. Como é que se faz a troca como é que não se faz, e uma colega experiente diz “Dizes aos alunos, vens cá fora e trocas as mochilas!” e assim combinámos.
Dirijo-me à sala de aula, em amena cavaqueira, com as minhas colegas, dou de caras com as feras, docilmente à minha espera e é aí que descubro que não tinha a chave da sala, tinha ficado na sala de professores que era na outra ponta do edifício. Volto tudo para trás e, no regresso, já com a chave na mão, elas, as feras de 11ºano, continuavam pacificamente sentados à minha espera com um ar “Vê-se logo que é nova na escola!”. De mãos a abanar, procedo à minha apresentação e com um “Excecionalmente, vou ter o telemóvel ligado e ele vai tocar porque…” e expliquei-lhe o motivo, brincando que sairia com uma mochila mas regressaria com uma nova, a certa.
Passados 10 minutos, o meu telemóvel toca, eles riem-se, abandono a sala, em passo rápido, e eles aproveitam para colocar a conversa em dia. Regresso 3 minutos depois, novamente, de mãos a abanar, no meio de tanta mochila da pequenada, excelentíssimo esposo tinha-se esquecido de trazer a minha mochila.
Quando entro eles sorriem com quem diz “Esta gaja não bate bem da bola” e eu, para disfarçar, aventei com um “O meu marido é um bocadinho egoísta ou se calhar é só um bocadinho distraído, como eu!”.
Ora sem a minha mochila, não podia aceder à minha área nos computadores da escola, não me lembrava da password, entre as 30 mil que recebi nos último tempos (computadores, mail, impressora, programa de alunos, moodle, etc), todas escritas no meu caderno, que estava na mochila, não podia aceder ao programa para consultar a listagem de alunos, saber os seus nomes e quem estava a faltar e para escrever os sumários, não podia mostrar-lhes umas aplicações giras na internet e afins! Não tinha o meu horário, tive que andar a consultar os horários afixados, vá lá que sabia quais eram as minhas turmas. Diria que, nitidamente, estava destreinada disto, as férias foram mesmo eficazes, há tantos nisto e pumba, foi uma entrada em grande e a pé juntos, nem com o pé esquerdo foi!
Foi um 1º dia de aulas… diferente, onde devo ter causado uma excelente impressão aos meus alunos! O que vale é que temos quase uma infinidade delas pela frente mas a 1ª impressão às vezes é a que fica! Enfim… ele há dias para esquecer mas é com este tipo de incidentes que percebemos o quanto estamos dependentes das novas tecnologias!

Bons regressos e um bom ano!

Pimpolha mais velha, organizando e arrumando os seus pertences para este novo ano letivo, diz-me orgulhosa “Acho que vais gostar desta etiqueta, ora lê lá!!!”. Acertou e arrancou-me uma bela gargalhada o “Remover a criança do interior antes de colocar na máquina de lavar”
Depois de uma belas e retemperadoras férias em família, com muitos momentos para mais tarde recordar, com os amigos de sempre, e para sempre, do matar saudades dos avós e dos amigos, sem ser em contra relógio, dos longos almoços e jantares aos piqueniques, dos mergulhos demorados aos tardios entrelaçando o cheiro de mar e de protetor solar, da leveza e suavidade da pele, da alma e do espírito, dos dias sem grandes rotinas e horários, das experiências à descoberta, dos dias grandes e solarengos, da lazeira dos dias, das brincadeiras e passeios temperados pelos melhores gelado do mundo, das caminhadas à descoberta de pequenos paraísos intocados, deambulando no meio de bonitas florestas, ao subir das árvores, ao brincar com paus, ao brincar com a terra e na terra; é verdade que a malta às vezes vem um bocado encardida e, no regresso, pode haver a tentação de colocar tudo, mas mesmo tudo, na máquina!!! Por outro lado, nem tudo na vida é um mar de rosa e as férias não são exceção: das brigas aos constantes embirranços entre a pequenada, das brincadeiras sem jeito nenhum, das diferentes agendas, gostos e desejos, há muita coisa cuja gestão não é fácil no estar SEMPRE com os irmão e pais a tempo inteiro e sim, cansa, e muito, é expectável que surjam atritos, momentos acesos, puxões de cabelos e afins e, às vezes, bem às vezes, já nem nós nos aturamos a nós próprios, quanto mais eles. Daí a tentação de, no regresso, lavar na máquina a alma de uns e outros, descansar das férias, desfrutando daqueles últimos resquícios, repletos de uma boa nostalgia “Foi tão bom, não foi?”, enquanto se pensa e planeia as próximas :), não deixando de constatar que a pequenada já estava a precisar de retomar as suas rotinas pois as férias também cansam, dizem eles… nós, as rotinas, é que nem por isso!!! Bons, e espirituosos, regressos embora que sejam sempre dolorosos para todos! Um bom ano, que por aqui o ano começa sempre em setembro, entre livros, listas de materiais e sei lá que mais, o desfalque é muito semelhante ao do início do novo ano civil!!!!

Inacreditável! Coisas de gente pequenina…

“Mas porque é que todos anos tens a mania de fazer melhor que no ano passado?” dito em tom de desprezo por um diretor para um dos seus súbditos.
Como? Não será isto que todos deveríamos almejar e valorizar? É triste mas aparentemente não! Obedecer cegamente, sem inovação nem sentido crítico, nem perturbações na zona de confronto de muitos, toldam os horizontes de quem procura e/ou conhece novos horizontes, contempla e ousa não se escusa a questionar, a sugerir, a fazer a diferença, a partilhar com prazer o que sabe e faz! Com gente de vistas curtas e pequenina não se vislumbra horizonte que não o seu!

Eles andem aí e as naves também!

“Onde é que vocês deixaram a nave estacionada?” é uma pergunta que faço, em tom de brincadeira com alguma frequência, aos meus alunos e a melhor resposta que já lhes ouvi foi “Uiiii, uiii, sabe lá, hoje estava o parque cheio! Tive algumas dificuldades” e assim nos rimos e descontraímos. Cada vez mais, tenho que morder a língua para não perguntar seriamente o mesmo a muitos graúdos. Provavelmente, eu é que sou do Espaço ou de outro mundo.

Buracos

Podia ser um post sobre buracos negros, fazendo jus aos filmes de ficção científica, os tais que absorvem tudo e não deixam escapar nada, nem mesmo a luz (daí o seu nome) mas que na realidade (espacial e gravitacional) resultam do colapso de grandes estrelas, de uma deformação do espaço-tempo, e ao seu coração (do buraco negro), curiosamente, chama-se singularidade.
Também podia ser um post sobre o buraco das contas públicas, que já atingiu em tempos valores quase astronómicos, que agora estão ainda demasiado longe para nos permitir respirar de alívio, pois ainda temos a corda ao pescoço, apesar de não estar a estrangular… ainda!
Seria igualmente interessante abordar os buracos que todos nós, contribuintes, temos que tapar, pagar e calar pela gestão danosa de uns e outros, aparentemente, intocáveis em termos da lei e do seu, deles, património.
Os buracos que afligem os condutores e os pneus das suas viaturas em muitas das nossas estradas, podia também ser o tema deste post mas em tempo de eleições autárquicas o alcatrão flui para calar queixumes e tapar buracos, também estes de vários tipos.
Podia ainda ser sobre aqueles grandes, e inocentes, buracos/balizas que surgem na dentição da pequenada por volta dos 6/7 anos de idade, devida à queda da dentição de leite e que lhes dão assim um ar meio esquisito.
Seriam certamente buracos “inteligentes” que valiam a pena explanar mas não… os buraquinhos, que rapidamente se transformam em buracos, que mais me preocupam de momento são mesmo os das minhas t-shirts. Surgem sempre na mesma zona (junto ao umbigo), às vezes, ao fim da 1ª ou 2ª utilização, irritam-me solenemente, porque aprecio muito as minhas t-shirts e me provocam outro tipo de buraco: na carteira. Fazendo um estudo científico com uma amostra vasta e variada cá por casa, conclui-se que só as minhas t-shirt são alvo deste flagelo (o que o torna num problema exclusivamente meu, acho que as traças, e outros bichanos que tais, não serão assim tão seletas). Depois de várias teorias, algumas testadas outras nem por isso, conclui-se, ou seja conclui, que os ditos cujos buracos que me aborrecem, têm origem na colisão, coligação e pressão de cinco elementos: botão das calças, fivela do cinto, mala à tiracolo, cinto do carro, contacto próximo e constante com bancadas e/ou mesas. – confluem todos para o mesmo local, gerando atrito com o tecido e formando um verdadeiro quinteto furado(r). Solução: utilizar as t-shirts “para dentro” das calças, nada fashion, bem sei, mas, volto a repetir, gosto das minhas t-shirts… e da minha carteira.
Curiosidade: a internet é fabulástica e fazendo uma rápida pesquisa descobrimos que há sempre alguém que já teve, ou tem, o mesmo problema e decidiu explorar a temática até à exaustão e descobriu muitos outros com a mesma problemática; encontrei teorias espetaculares sobre esta temática, outras nem por isso: desde a máquina de lavar até coisas bem mais elaboradas.
O que foi mesmo isto? Uma dissertação, com 508 palavras, sobre os buracos que me chateiam, é caso para dizer que, claramente, dei início à silly season, ah espera…parece que sou é assim todo o ano 🙂

Antíteses, artigo definido ou indefinido numa vida toda

Observando com atenção, os sinais de alarme são visíveis a olho nu e, nesta fase, quase que já os reconheço, antes de saber “oficialmente” a notícia: a tristeza e alheamento, as mudanças, as desilusões, as perspectivas, as novas rotinas, as preocupações (filhos, guarda, pensões, dinheiro, organização, gerir uma nova realidade, os vários corações em pedacinhos, os sonhos defraudados, etc.) porque, infelizmente ou felizmente, não sei, porque como diz o ditado “Quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro”, nos últimos tempos têm sido mais que muitas as histórias, de gente perto de nós, que descobriu que afinal não é para sempre.
Identifico os pontos comuns (coincidências?) a todos eles: a mesma faixa etária, a mesma vontade de viver a vida como se se tivesse 20 anos, sem grandes responsabilidade e/ou constrangimentos dos filhos – ser livre, encontrar novos amores e deslumbrar-se. As “alegações”, de ambas as parte, sobre o ocorrido e “consequências” são também muito semelhantes, em todas as histórias.
Tudo o descrito em cima não é uma crítica, a nenhuma das partes envolvidas, cada um sabe da sua vida e o que é melhor para si e para os seus, é apenas uma constatação que encaro sempre com tristeza face às revelações.
A observação que, para mim, bate todas sobre estas crises, de meia idade????, deparei-me com ela em conversa com outras mães, quando uma delas entre risos confessou “Sabem, essa é a vantagem de casar com um homem mais velho! Quando ele fez 50, ofereci-lhe um descapotável, para prevenir! Ele ficou todo contente e o assunto ficou arrumado! Agora, temos o descapotável à venda, não faz sentido, raramente o usámos! Eheheheh, se alguém quiser comprar…?!!!” Malta que joga noutra liga, em vários aspetos! O curioso, e que ela não referiu e as restantes presentes não sabiam, é que ela é 2ª mulher do seu marido e que este se separou da mulher, de quem tem 3 filhos, mais ou menos nesta faixa etária. Como sei eu? Dois dos seus enteados, filhos do marido, foram meus alunos, e lembro-me bem da revolta e o turbilhão de emoções/ ressentimentos que vi os miúdos expressarem sobre a separação dos pais, o pai e nova companheira. Ele há coisas… o mundo é pequeno, às vezes demasiado pequenino. Mas já sabem se precisarem de um descapotável, conheço alguém que tem um à venda e que, aparentemente, evitou uma crise!
Quero acreditar que, inicialmente, todos acharam que era para a vida toda (e muitos continuarão a achar) mas para alguns, cada vez mais, foi apenas uma vida toda que terminou e deu início a uma outra vida toda nova. Há algo, que existindo, é inegavelmente para a vida toda: os filhos, convém não esquecer e prosseguir com delicadeza e assertividade.
Nota: A diferença que faz um artigo definido ou indefinido nas antíteses da vida.

Acreditando, esperando, que muitas história serão para a vida toda, como canta e muito bem, Carolina Deslandes.

Poltronas, livrarias e Gru´s

Nas livrarias que gostamos de frequentar não há pressas, nem temos pressa, há tempo para desfrutar do cheiro dos livros muitos vários, folhear, ler e escolher, muito bem escolhido, as próximas aquisições, as crianças são bem vindas e, por vezes, até têm um espaço dedicado a elas. Quais são as que reúnem todas as condições atrás mencionadas? As que têm sofás ou um espaço onde a malta se pode sentar e apreciar/ler uma resma de livros e onde ninguém nos aborrece ou se aborrece. É um ótimo programa em qualquer altura do ano e do dia, sozinho ou em família. Sozinha, já li belos livros pequenos nestas tais livrarias, em família já li muitos livros infantis para a pequenada. Observo que, como nós, muitos têm os mesmo prazer/hábito e, diversas vezes, encontrei marcadores nos livros!
Na nossa última, e recente, incursão, sorri, quando vi o livro que pequeno do meio trazia na mão – “Gru: o maldisposto” – anda desde a estreia do 3º filme a pedir para ir ver ao cinema. Enquanto escolhia a sua poltrona, e antes de se embrenhar na leitura, observei “Muito apropriado! Lembras-te quem te chamava carinhosamente de “meu Gru: o maldisposto”?” Ele riu-se e disse “Claro que me lembro! Era a minha educadora. Quando me cruzo com ela na escola, às vezes ainda me chama assim!”. Laços e memórias que perduram!
À saída, o nosso Gru: o maldisposto observa “Eh pá, estivemos lá mais de uma hora!”, enquanto, entrando em modo de update, acaricia o livro que trazia na mão – “Gru: o maldisposto 3”. Na outra mão, segura orgulhoso a sua outra aquisição “Diário de um ninja na escola 1″… MEDO!!!!

Observação ou discriminação?!

“Olha, desculpa lá mas ela tem prioridade!” diz, com um ar agressivo, a rapariga de 12/13 anos apontando para uma senhora grávida que a acompanhava enquanto esta depositava as suas compras no tapete. O funcionário da caixa diz-lhe com muita calma “Sim mas tenho que acabar a conta desta família!”, dando de ombros para nós enquanto a rapariga encolhe os ombros para a grávida. Com elas, encontram-se duas crianças: um menino de 4/5 anos e uma menina de 6/7 anos.
Bip, bip, bip… e os nossos artigo continuam a passar.
O menino, abre um pacote Mentos, coloca um na boca, e aproxima o pacote do leitor de código de barras, insistentemente.
Entretida, e distraída, a arrumar as compras não me apercebo de nada mas excelentíssimo esposo e os pequenos não perdem pitada.
Vejo o funcionário, muito atrapalhado, a interromper a sequência de bip e a extrair a conta e dizendo-me “Era só para confirmar e está tudo bem!”, olhei para ele, dizendo que “Sim” e pensando “Porque razão não haveria de estar?”.
Desperta-me a atenção o olhar de excelentíssimo esposo e a observação do funcionário para a rapariga “Ele vai ter que pagar esse pacote que abriu!” e a rapariga, de mão na cintura, diz de imediato “Isso já passou. Está pago!”, ele diz-lhe “Não, não, eu aqui não passei nada!” ao que ela remata com um ar seguro e um sorriso aberto “Pois mas ele comprou aquilo noutra loja”.
O funcionário não faz mais observações, na fila de supermercado trocam-se olhares, todos viram o menino abrir o pacote. Entretanto, a rapariga passa uma lancheira ao menino e diz-lhe “Toma, leva isto e espera lá fora”. O menino não obedece e fica junto às caixas: lancheira e pacote de mentos na mão.
Com menos uns euros na conta, mas um carro cheio de compras, dirigimos à saída. À nossa frente segue a rapariga, a menina e o menino, deixando a grávida para trás com as compras e a conta.
A menina e a rapariga riem-se, seguem de lancheira na mão, contentes e felizes da vida, o seu olhar transparece plenamente o que estavam a sentir “Já os enganámos mais um vez!”, o menino masca indiferente o seu, talvez segundo Mento, de pacote na mão. Sol de pouca dura, o segurança interseta-os e diz com ar de poucos amigos “Mostrem-me as vossas malas!”, os meninos colocam-se atrás da rapariga que de imediato “Não, não mostro nada!” e mais qualquer coisa que não ouvimos mas que lhe mereceu apenas a seguinte observação do segurança “Mantém-te na tua e sossegada!” e ela que já deve conhecer o jogo, assim se manteve, enquanto ele pegava no telefone! Ambos conheciam a dança, nós é que aparentemente, não!
Seguimos o nosso caminho e não sabemos o desfecho da situação mas a pequenada ficou impressionada com toda a cena, fez várias observações e foi o assunto que dominou as horas seguinte: “Mas quem era aquela gente? Grande lata! Tu viste bem o miúdo e a rapariga? Nunca tinha visto nenhuma cena daquelas” entre muitas outras.

Facto 1: As personagens eram ciganos
Facto 2: Como a pequenada, também nunca tínhamos presenciado nenhuma cena tão sui generis!
Facto 3: Pequenada não os identificou como ciganos mas observou e constatou a sua forma de vestir e perguntou se era assim que sabíamos que eram ciganos, respondemos que sim.
Facto 4: No mesmo supermercado, já presenciei diversas vezes a relação demasiado amistosa que mantém com os funcionários. Inclusivamente, quando reclamam que está muita gente na caixa, vem logo alguém a correr abrir uma nova caixa enquanto em amena cavaqueira relatam as novidade que receberam e andam a vender.
Facto 5: Pequeno do meio observa “São ciganos e roubam!”, blábláblá, nem todos são assim, blábláblá, e diz ele “Mas eles forma os únicos que eu já vi a roubar!”

Pergunta 1: Se não fossem ciganos, será que a questão na caixa e do pacote de Mentos teria sido tratada da mesma forma pelo funcionário, em que aparentemente se finge acreditar que vinham de outra loja?

Pergunta 2: O que pensará a pequenada da próxima vez que se cruzar com um cigano?

Pergunta 3: Em muitas situações, quem são os discrimados, nós ou eles?

Mixed feelings

Os últimos tempos têm sido dominados por uma verdadeira e avassaladora mixórdia de feelings (bons ou maus não sei mas mixed for sure!). Porquê? Sei lá mas o cansaço impera e:
– tenho mais uma filha finalista, noção discutível mas “segue. segue, segue”, pimpolha mais pequena ingressa, em setembro, nesse mundo “agreste” que é a Escola, ou seja, teoricamente, cá por casa, deixa de haver “bebés” aqueles que só tem que se preocupar em brincar muito. Entre benção de finalista, noite na escola, almoço de fim de ano, última reunião de pais, apresentações bem giras relatando o que foram os seus, e dos amigos, 3 anos de pré-escolar e como eles cresceram, blábláblá, algumas lágrimas vertidas e o diabo a quatro. Essencialmente, o tempo voa, 1ºano here we go again e se a moça está entusiasmada, eu nem por isso.
– tenho uma aborrescente adolescente em full motion cá por casa, em gestos, conversas, temas e interações. A sua observação preferida para tudo e todos é “Bem podre” (com uma entoação muito própria) pois nada neste mundo, em particular no seu obviamente, parece ser com devia e, quando assim é, uma pessoa tem que se manifestar sobre e por qualquer causa e excelentíssimo esposo, sempre que ela começa numa das suas tiradas, diz “Não sei a quem é que esta miúda saiu – tipo refilona- fazes ideia?”. Aguenta e cara alegre, segue, segue, segue, e é esperar que passe… ou então, não :)!
– em formação, voltei a pisar a minha faculdade. As salas, o cheiro, as caras conhecidas de colegas e professores, os anfiteatros cheios de gentes e, de repente, assenta o friozinho na barriga e comento para a minha colega,”filha” da mesma casa, “Ai que ainda alguém me traz um exame de Análise, daqueles cabeludos, onde os números só figuram na enumeração das questões!” que me diz, entre risos, “Eu costumava passar sempre no teu departamento para ver as pautas e era sempre: reprovado, reprovado, reprovado, reprovado, reprovado, 10 e continuava a rima de reprovados e volta e meia lá aparecia mais um ou dois aprovados, nunca com mais de 14, obviamente. Aquelas pautas eram o consolo para qualquer alminha, de outro departamento, não contente com o 11 que lhe tinha calhado numa das cadeiras do vosso departamento ou de outra cadeira qualquer.” Durante 3 dias intensos, voltei a ser uma espécie de aluno, senti na pele e compreendi, ainda melhor, a sua “dor, aprendi imenso e ainda estou em processo de digerir “tanta e boa” informação. Impressionante e inegável é o valor de quem muito sabe e partilha com gosto, humildade, entusiasmo, humor e empatia, o seu conhecimento e criatividade, enchendo de cor ao processo ensino aprendizagem. Faz-nos ter plena consciência da infinidade de coisas que desconhecemos, incentivando-nos a explorar outros mundos e conceções. Mas por outro lado, constatamos que o saber muito não chega, a empatia e o poder de comunicação são essenciais, relembrando e vivenciando algumas sensações dos “old times” da faculdade, há gente cheia de si e dos seu saber absoluto e inquestionável e há ainda aqueles que gostam muito de se ouvir!
– as “não”, ou más, interpretações que muitos fazem do que supostamente ouvem ou leem, talvez para aliviar os seus maus fígados, mas que uma breve análise comprova que não leram ou ouviram nada do que decidem comentar
– não podemos mudar o mundo sozinhos mas há coisas e pessoas que merecem o nosso esforço e respeito e escolhem fazer parte do processo de mudança, por mais pequena que seja. Não deixa de ser chocante, pelo menos para mim, que quem tem o poder de ter um papel preponderante no serviço público, escolhe não fazê-lo por receio de poderes e lobbies instalados. É um direito seu, e obviamente que deve ser respeitado, mas que entristece e nos faz ver o quão pequenina é esta mentalidade portuguesa, onde os “medos” e os intocáveis ainda predominam.
– a vida mostra-nos vezes sem conta que não é um conto de fadas, mas é, certamente, uma história, com bons e maus momentos, que merece ser vivida em pleno por nós, para e pelos nossos, não corresponde muitas vezes às nossas expectativas, envelhecemos, nem sempre como gostaríamos, e mais cedo ou mais tarde, os papéis invertem-se!
Resumindo, melhores dias virão!