Velhos do Restelo

Observo a pequenada esparramada, no meio do chão, a jogar um jogo de tabuleiro: falam alto, entusiasmados, conjuram uns contra os outros, vigiam-se para não haver batota, desentendem-se porque nem sempre sabem perder, inventam variantes e novas regras, às vezes, as que lhes dão mais jeito. Brincam e viram os seus quartos do avesso: às bibliotecas, às escolas, aos organizadores de festas e sei lá que mais, gritam, desentendem-se, batem-se, fazem as pazes, desentende-se novamente porque alguém tem que arrumar o que está espalhando pela casa, e nunca foi nenhum deles, chegam a um compromisso, maquinam e conspiram teorias, e práticas, para endrominar os pais, convivem salutarmente como irmãos. Os gadgets não fazem parte do seu dia a dia, desconhecem as password de telemóveis e computadores da casa, embora estejam sempre à coca para ver se as descobrem, às vezes, conseguem e nós voltamos a mudar e eles ficam piursos!
Observo, nos intervalos, a generalidade dos alunos, agarrados ao telemóvel, não olham nem conversam uns com os outros; numa aula durante um discussão entre dois alunos. dei com uma aluna a gravar a cena, justificando o injustificável com “já percebi que quando as pessoas estão a discutir, se virem que estamos a filmar, acalmam-se e param de discutir! Pelo menos lá em casa funciona”, os envolvidos, e eu, obrigámo-la a apagar o vídeo e a aluna prevaricadora ficou recalcitrante; verifico os grupos de whatsup que pimpolha mais velha criou no meu telemóvel, e que ela raramente pede para consultar, e passados 3 ou 4 dias são mais de 2000 “mensagens” trocadas, onde em algumas arrepia-me o tipo de conversa, noutras o tipo de linguagem, noutras as fotografias que partilham e/ou editam, em vários os vídeo de colegas que partilham; em muitas as horas e a frequência com vão surgindo.
Espanta-me ouvir uma mãe de uma menina de 10 anos dizer “A minha filha ficou a jogar Sims até às tantas, quando me fui deitar, ela lá ficou, quando acordei lá estava ela no sofá!” ou o pequeno do meio a dizer que um amigo seu de 8 anos instalou uma aplicação chamada “100 maneira de morrer!” ou o outro que vê todos os filmes  dos youtubers da moda e que agora já se denomina youtuber mas que atenção nunca filma a sua cara, ou aquilo que pimpolha mais velha conta que os seus amigos andaram a ver ou a fazer na rede, que estão sempre online, etc… sem rei nem roque, sem controlo!
Oficialmente e com orgulho, somos uns verdadeiros Velhos do Restelo nesta matéria, os pequenos dizem apenas “Vocês são maus!” mas não insistem, nem ficam ressentidos, já sabem do que a casa gasta. Não sei bem como lidar com estas novas realidades e os novos problemas que elas acarretam ou acarretarão, só sei que me preocupam e muito…!

Fim de semana: o fenómeno

Durante a semana, o difícil é tirá-los da cama: porque têm sono, porque são só mais 5 minutos, porque não me apetece e estou cansado, porque, porque… Ao fim de semana, nenhum destes males os aflige e é ouvi-los, em plenos pulmões, às 7h00 da manhã, ou antes grrr, “Onde é que esconderam o comando da televisão?”
Lembro-me bem de também ser assim e ansiar pelo sábado de manhã para ver os bonecos. Na altura, não havia canais a dar bonecos a toda a hora mas havia este despertador natural, típico em muitas crianças, que os pais tanto adoram quando procuram apenas mais uns minutos de descanso e sossego, porque hoje não é dia de despertador, porque têm sono, porque estão cansados, porque, porque… Tão diferente mas tão iguais, apenas com timings desfasados no tempo e no espaço.

Século XXI ?!

Aborrece-me constatar que, no nosso dia a dia, nos cruzemos com malta ocidental, nova, onde as mulheres têm de pedir autorização ao namorado/marido para cortar o cabelo (e este é que decide o estilo e/ou o tamanho do corte e este dá lá um salto só para ter a certeza que está tudo nos conformes) ou que tenham que pedir autorização para gastar do seu, dela, dinheiro, independentemente, de pretender gastar 1€, 10€ ou 1 milhão e, no final, havendo autorização para gastar, têm que apresentar todas as faturas. Tudo me pareceria tão bem e normal, seja lá o que isso for, se em vez de autorização, buscassem apenas a opinião, ao género de uma parceria onde predomina a confiança, o respeito e a igualdade de direitos e deveres.

 A rapariga contempla-se longamente no espelho, visivelmente satisfeita com a imagem que este lhe devolve – o seu lindo e longo cabelo, cheio de madeixas, habilmente penteado, uma perfeição os efeitos e as suas unhas de gel e a maquilhagem realça a cor dos seus olhos – e pensa que o outro que apregoa que “Ela é linda sem makeup”, não sabe o que diz, ou se calhar até sabe, ela é que não se lembrou da música que mais se adequa a este seu momento:“Ela é linda, ela é special… Ela parte-me o pescoço”.
Olha impaciente para a sua mãe que está quase pronta, faltam os últimos pormenores. Os seus lindo vestidos longos, como é da praxe em qualquer gala ou festa que se preze, aguardam-nas. Não podem chegar atrasadas, é a sua festa de finalista, no próximo ano letivo, já vai para o 5ºano. Uma mulher portanto…

As coisas que se aprendem numa ida, rápida, ao cabeleireiro! Qualquer uma destas cenas de mulheres, e protótipos, me impressiona… e não é pela positiva!

Ética para um jovem, pai e mãe

Take 1
Conversando, com uma mãe, sobre o teste de inglês do dia seguinte de pequeno do meio e sobre a sua falta de estudo, diz-me ela “Dá-lhe o teste que a tua pimpolha mais velha fez no 3º ano! São sempre iguais! É assim que o meu estuda, não faz mais nada! Quero lá saber! O problema é da professora.”.
Os olhos de pequeno do meio brilham, pensando certamente “Estou safo!”

Take 2
Falando sobre 0 5º ano: a adaptação e as resmas de disciplinas, testes e trabalhos, com uma mãe, minha colega – professora de Educação Física, diz-me ela “Olha tenho lá os três trabalhos escritos de Educação Física do meu filho, devem ser iguais este ano. Posso enviar-tos, estão muito bons! Ele foi buscar muita coisa aos meus livros da faculdade! Ficas já com isso despachado”. Pimpolha mais velha observa, seguindo atentamente a nossa conversa, esperançosa!

Em ambas as conversas, disfarcei o meu espanto, recusei simpaticamente a oferta e enfrentei os olhares da pequenada expressando um clamoroso “WHAT?”, não pronunciado.
Se poderia ter poupado tempo e chatice aos meus filhos e a mim? Provavelmente, sim!
Se teriam tido melhores resultados? É possível!
Então porque não o fiz? Porque sou parva, dirão muitos, com alguma razão, mas essencialmente, por uma questão ética e de exemplo. A responsabilidade de estudar e de fazer o trabalho é deles e como tal devem, desde sempre, habituar-se a, com o seu esforço e trabalho, cumprir na íntegra com as mesmas em toda e qualquer situação.
Se acho benéfico a professora de Inglês dar sempre os mesmos testes? Obviamente que não mas sabendo que tem cerca de 10 turmas e 300 alunos, quase, quase que a percebo!
Se acho que o tipo de trabalhos de Educação Física propostos trazem alguma mais valia para pimpolha mais velha? Tenho sérias dúvidas.
Se partilhei ou fiz alguma observação sobre estas questões com a pequenada? Certamente que não.
Cada um cumpre as suas funções: um a de estudar, se ele não aprender, o problema não vai ser da professora mas dele, mais tarde ou mais cedo; ao outro a de fazer os trabalhos que lhe são pedido, o melhor que conseguir e, a mim, cabe-me procurar transmitir-lhes que os princípios e valores começam, e aprendem-se, em casa, muitas vezes, pelo exemplo que damos ou modelo que decidimos seguir, independentemente do que os outros fazem e das suas atitudes estarem certas ou erradas. A ver se consigo, às vezes, é difícil e a tentação está sempre à espreita!

Um artigo interessante sobre o tema “Is it possible to be both an ethical and a good parent?”

Irmãos

Hoje, como todos os dias, é dia dos irmãos mas parece que se assiná-la hoje, nesta moda dos dias que pegou.
A RFM presenteou-nos, a nós, sortudos que temos irmãos (dos bons), com uma música alusiva a esta relação tão estreita, às vezes demasiado. Uma letra bonita, de Rodrigo Gomes, que, acima de tudo, retrata na perfeição a relação entre irmãos (pelo menos para mim) e aquilo que observo todos os dias nos manos cá de casa e, muitas vezes, me faz sorrir, e relembrar, e outras me deixa com vontade de arrancar cabelos, nem sei bem se os meus se os deles. Suponho que os nossos progenitores, enquanto irmãos e pais, tenham sentido exatamente a mesma coisa. São as tais cenas e coisas intemporais…provavelmente, as melhores!
Dedicado ao meu mano: obrigada por estares sempre por aí/aqui, apesar de, como costumas dizer vezes sem fim, “Tu móis-me o juízo!(…) Agora não tenho tempo”, obviamente que moo, faz parte da minha missão função mas sempre como muito amor e carinho, e sabes bem que gostas pois há sempre aquela mítica frase “O que é que tu queres agora?!” e afinal, afinal, tens arranjas sempre tempo, love you. À pequenada cá de casa, love you too, e vocês são tão, mas tão, assim, meus lindos!

Letra:
(Rodrigo Gomes)

É para sempre o amor de irmãos
Nada vai separar você de mim
Eu sei que vou contigo até ao fim

Por cada turra e cada empurrão
Eu só quero ver você sorrir
Nem que seja por nos ver cair, no chão

Yeah
Ainda me lembro quando chegaste ao mundo
Tive ciúmes mas eu sei que lá no fundo
Tu vieste para me completar
Foi contigo que tive de aprender a partilhar

E nós parecemos bipolares
Tanto andamos à tareia
Como te abraço para acalmares

Imaginação, nada nos batia
A fazer tendas com lençóis
Em casa da nossa tia

E o mano vai estar cá sempre para te ouvir
E esta roupa vai ser tua quando já não me servir

As nossas lutas…
Desculpa usar-te sempre para te pôr as culpas

Juntos cantamos e berramos no banco de trás
Iluminamos e esgotamos a paciência dos papás

Os irmãos quando se unem têm uma força brutal
Vê só o que conseguiram juntos os irmãos Sobral

É para sempre o amor de irmãos
São as pessoas com que se despacha
Um pacote inteiro de bolacha

É claramente uma união
Que ultrapassa toda e qualquer mágoa
E servem para ir buscar um copo de água

No final do dia, de banhos tomados
Manos de pijama a brincar aos penteados
Quando te sentes à deriva ter um irmão é ter um cais
Porque há determinadas coisas que não se contam logo aos pais

E é claro que o sangue pesa
Mas também há os irmãos que nós ganhámos na guerra
Adoptivos ou Amigos que estão sempre na vigília
Um por todos e todos por um
é o lema da família

É para sempre o amor de irmãos
Nada vai separar você mim
Eu sei que vou contigo até ao fim

Por cada turra e cada empurrão
Eu só quero ver-te a sorrir
Nem que seja por nos ver cair, no chão

…. ninguém consegue desligar os fios
e o amor cresce quando formos tios
‘Props’ para os sobrinhos…

As ventoinhas da vida

A sala está à pinha, máquinas fotografias e de filmar a postos, os artistas estão em pulgas, esperando que o pano suba e que se inicie, o culminar de um ano de trabalho, a sua peça de teatro. Está um dia abafado, típico dos dias de trovoada, na sala, não climatizada, a humidade e o calor ambiente e humano colam as roupas ao corpo, tudo pega, a ansiedade de uns e outro é grande. Lá bem no cimo, oito ventoinhas rodam em alta velocidade, cumprindo a sua missão (impossível): refrescar uma enorme sala, num dia quente, numa sala cheia de gente onde as luzes e todas as atenções estão focada no palco. Por detrás do pano, surge a professora de teatro e faz as apresentações e recomendações habituais. No final do seu discurso, ouve-se um grande estrondo num dos cantos da sala. O silêncio é sepulcral e todos olham em busca da razão de tamanho barulho. Alguém grita “Desliguem as ventoinhas imediatamente!”. No chão, aos pés de uma avó, jaz uma das enormes ventoinhas com um das suas pás amolgada. A avó esfrega a nuca, meio atordoada, e vai respondendo ao que lhe vão perguntando, enquanto, calmamente, é encaminhada para a saída, procurando o ar fresco e à espera da ambulância, que alguém previdente chamou de imediato, e vai dizendo “Estou bem, foi só o susto! Acho que nem a cabeça parti! Ainda bem que acertou em mim e não, nos meninos!”. A senhora seguiu para o hospital, onde, felizmente, se veio a confirmar, que, efetivamente, estava tudo bem, à parte da dor de cabeça, e imperou a máxima “The show must go on!”; o espetáculo seguiu o seu curso, deliciando a assistência e deixando imensamente felizes o pequenos atores.
A vida é feita de contratempos, às vezes, nas situações e alturas que menos esperamos, como esta ventoinha que, sem aviso prévio, saltou desalmada do seu eixo de rotação. O que tinha todo o potencial de correr seriamente mal, constatou-se não passar de um pequeno incidente. Se nos esqueceremos deste episódio com a ventoinha? Claro que não e procuraremos, consciente ou inconscientemente, não nos sentar debaixo de nenhuma nos próximos tempos, a pequenada tomou logo essa providência, mantendo-nos, no entanto, suficientemente perto para sentir as suas lufadas de ar fresco. No nosso caminho, todos os dias haverá ventoinhas, candeeiros, buracos no passeio, atravessar da estrada e mil e uma outras coisas que, normalmente, correm bem e que, por uma razão ou outra, num determinado dia/momento podem correr seriamente mal e alterar drasticamente o nosso curso de vida de um momento para o outro. É um medo consciente com qual nos debatemos todos os dias mas não é por isso que deixamos de viver! Recordaremos, certamente, o bonito e divertido espetáculo que assistimos, apesar do incidente com a ventoinha, não esquecendo que a sorte, o tempo e a esperança, no meio dos azares e percalços da vida, está sempre à espreita, é só uma questão de perspetiva e de olhar na direção da máxima “Carpe Diem”, no sentido do “The show must go on!” e com a intensidade de quem faz o melhor que pode e sabe todos os dias. Essencialmente, praticar algo benéfico a todos: descomplicar e deixar de remoer nos “ses” da vida, vivendo um dia de cada de vez, aproveitando o que ele nos trás, sempre com os olhos postos, e não os pés, no dia de amanhã!

Cinco

Há cinco anos, aventurámo-nos nesta coisa dos blogues, sem saber bem ao que íamos sem grandes expectativas, uma experiência entre tantos outras, que encaramos sempre com o espírito “Para o Infinito e mais além!”.
Infinito e mais foi a nossa primeira casa, onde demos os nosso primeiros passos com entusiasmo, onde partilhámos um bocadinho de tudo, onde crescemos muito, em vários sentidos, onde nos apercebemos que não temos, efetivamente, nada de novo para dizer/ensinar ao mundo, há sempre alguém que já o fez de uma forma muito melhor ou mais eloquente que a nossa, mas descobrimos o prazer da escrita e do registo do que nos desperta os sentidos para nossa memória futura.
Por razões logísticas e de funcionamento, 3 anos depois migrámos para o Não há tempo para fantasias, diz quem me conhece, é uma expressão que me define bem e uso com frequência (concordo), seguindo a mesma linha editorial (inexistente) e os mesmos timings (ao sabor do vento, quando nos apetece), para meio ano depois, por falta de espaço, criarmos um novo blogue, este mesmo, e voltarmos ao infinito, algo que sempre me fascinou! E entre blogues, passaram-se cinco anos, assinalados no dia de hoje.
Por falta de jeito e de experiência, o perfil de facebook associada à página do blogue alertou os meus amigos facebookianos que eu hoje fazia anos, e dados o votos, desejos e parabéns que foram surgindo no mural, achei por bem publicar a seguinte mensagem no mural

E alguém comentou “Então e o blogue não merece que lhe desejem muitos anos de vida?”, pensei realmente é verdade, bem observado.
Pela 1ª vez, em cinco anos de vida, aqui fica assinalado o seu aniversário.
Continuaremos enquanto nos der prazer e vontade de escrever, se se aprende alguma coisa por aqui, nem por isso, é apenas o registo de como vemos o mundo, muitas vezes o nosso mundo. É curioso lermos e revivermos as peripécias e aventuras que por aqui fomos registando ao longo dos anos, e perceber como o tempo nos faz ver as coisas com outro olhos… talvez esta seja a verdadeira sabedoria mas mais importante que tudo a malta da casa diverte-se!
Aos que têm paciência para nos ler, e seguir, o nosso muito obrigada. O blogue não nos define mas há muito de nós no blogue, mas tão só e apenas aquilo que decidimos que deve/merece ser partilhado neste mundo global, é um hobbie como outro qualquer, no entanto, é muito mais que um hobbie, é um espaço nosso que tratamos com amor e carinho, dedicando-lhe parte do nosso tempo, e se isso fizer rir, pensar, inspirar ou for útil a alguém, excelente. Caso contrário fica o registo para os nossos pequenos e para a sua descendência, certamente se irão rever por aqui, há coisas intemporais!!

Memórias que prevalecem!

Naquele tempo em que se brincava na rua, sem medos, com quem como nós por lá andasse, onde todos os dias se conheciam amigos novos sempre prontos a encetar novas aventuras. A sede aperta, num dia em que o calor sufoca, e a casa mais perto é a da avó. Corremos até lá e depois de matar a sede, deambulamos pela casa, e encontramos umas revistas da moda, que folheamos com avidez. Depressa nos cansamos e voltamos ao reboliço da brincadeira na rua até ao sol se por. No dia seguinte, o ritual repete-se mas chega o repto da companheira de brincadeira dos dias anteriores “Só brinco contigo e sou tua amiga, se me deres aquelas revistas que vimos ontem na casa da tua avó!”. Voltei para casa, sem olhar para trás, a avó estranhou “Já aí vens? Zangaste-te com a tua nova amiga?” e disse apenas “Ela não é minha amiga!”. Depois de alguma insistência, acabei por contar o sucedido e a avó disse apenas “Se quiseres, podes dar-lhe as revistas todas! Não fazem cá falta!” e eu disse apenas “NÂO!”. Devia ter na altura 8 ou 9 anos e passados tantos anos, é deste episódio que me lembro sempre que, muito esporadicamente, avisto, ao longe, esta moça da minha idade!

Retribuições

“Eu isto, eu aquilo, eu, eu…”, assim que termina o recital e a outra pessoa, quem o ouviu, pacientemente, durante largos minutos, tenta dizer qualquer coisa, acena, sem demoras, “Tenho de ir, Tchau!”. Analisando, constata-se que é um comportamento regular e não esporádico! Às vezes, apetece-se, só porque sim: finjo que não percebo, ignoro a deixa e mantenho a conversa, com a nítida sensação, não, com a certeza, que a outra pessoa só se quer é escapar e sorrio para dentro – afinal todos temos uma pouco de egocêntricos, nem todos somos é impacientes! No final, rio-me, com vontade, quando constato,  que caricato, caricato é que, provavelmente, enquanto se afasta a passo largo, estará a apelidar-me de egocêntrica e… possivelmente tem toda a razão 🙂 Sou uma fervorosa adepta da retribuição positiva e construtiva.

Estendal(ais)

Há vários tipos de estendais aqui por casa: os tradicionais muito utilizados, os da pequenada que são variados: com mantas e edredons para fazer tendas e cabanas, os de brinquedos quando parece que nada está no sítio e tudo anda pelos ares, os verbais quando as coisas não lhes correm de feição e disparam, irados, em todas as direções, e há o meu preferido: o nosso estendal de fotos. Uma ideia simples mas com um efeito tão acolhedor e só necessitam de guita, molas de madeira pequeninas (da loja do chinês) e uns pins (ou pioneses)!

Os F´s deste fim de semana

“Mãe, estes dois dias já viste mais televisão que num ano inteiro!” observa pimpolha mais velha. Todos nos rimos mas é um facto! A televisão tem uso, quase exclusivo, da pequenada com horário definido das 19h00-20h00, durante a semana, antes e depois disso, regra geral, está desligada, ao fim de semana, pequenada tem direito a um período mais alargado!
Não é todos os dias que um papa nos visita, impressiona-me a fé das pessoas, os seus sacrifícios, o que as move; surpreende-me o poder de um homem, líder de uma religião, é certo, para movimentar milhares de pessoas só para o verem, ouvirem, tocarem; emocionar-me-ia muito mais se o seguissem pela sua filosofia de vida do que propriamente pela sua presença, mas isso são outros quinhentos. Irrita-me solenemente a cobertura jornalística destes eventos onde se repete a mesma coisa n vezes, onde muitas vezes as imagens falam por si, onde não se justifica estar sempre no ar, onde às vezes o silêncio é de ouro, não precise de traduções, explicações elaboradas ou exultações! Espanta-me, e orgulha-me, a capacidade de organização e de entrega de muita gente de variadas profissões, sem as quais seria impossível, que algo desta envergadura e nível de segurança envolvido, corresse sobre rodas, certamente com alguns precauços mas nada de maior a registar. A crença nas visões de Fátima e nos pastorinhos é algo que me transcende mas não me move, tal como Fátima (que se rege por uma filosofia, economia e “lei” muito própria, a meu ver bastante discutível para dizer o mínimo) mas emociona-me, e respeito, o significado e o valor que assume, aparentemente, para tanta e tanta gente, a sua santificação. Foi bonito e o Papa Francisco, pela mensagem que procura transmitir, pela lufada de ar fresco e abertura de espírito que trouxe à Igreja Católica, merecia uma receção calorosa, mas retenho em mente esta sua frase “É melhor ser ateu do que católico hipócrita”! Quanto ao 1º F, Fátima, tenho dito.

(foto retirada daqui)

Relativamente ao 2ºF, futebol, se o 1º não me move mas toca, este 2º é-me totalmente indiferente independentemente do clube. Não lhe dediquei qualquer tempo nem atenção mas pelo que li, parece-me que ouve quase tanta gente no Marquês como em Fátima, o que pode parecer estranho, mas alguma me diz que isto é um outro tipo de crença!
Relativamente ao 3ºF, festival, pimpolha mais velha esclareceu-nos prontamente que não sabia o que era o Festival da Canção que aquilo que estávamos a ver se chamava “Eurovisão”, toma embrulha. Há largos anos que não via a Eurovisão, tempos houve em que sabia a letra de várias das nossas músicas de cor e a desilusão que era a míngua de pontos que obtínhamos sempre. Este ano, as expectativas eram altas, pela letra lindíssima, pela simplicidade e emotividade na sua interpretação e pelo belíssimo arranjo musical que une na perfeição os itens anteriores, isto é o que define uma excelente canção, o resto é conversa! A esperança tomou raízes quando se começaram a multiplicar os “Twelve points to Portugal”  e em todas as votações Portugal tinha sempre pontos. Caraças, se isto não enche a alma e não faz pensar “Ora aí têm!” a todos aqueles que enxovalharam a música e o Salvador Sobral nos últimos tempos! Ganhámos e com a pontuação mais alta alguma vez atribuída na Eurovisão. E o Salvador continuou a surpreender quando chamou a sua irmã para cantar consigo na consagração final, atribuindo a vitória a ambos, quando durante a mesma disse espontaneamente, “Isto estava tudo comprado, na verdade” ou quando na conferência de imprensa disse “Lancei um álbum, em 2016, and nobody gave a shit!” ou quando nos ensaios usou uma camisola que dizia “SOS Refugees” ou quando nos agradecimento disse tão só e apenas: “Vivemos num mundo de música descartável, de música fast food sem qualquer conteúdo. Música não é fogo de artifício, são sentimentos. Vamos tentar mudar isto e trazer a música de volta, que é o que realmente importa.” A música “Amar pelo dois” já todos conhecem, vale a pena é explorar o seu álbum “Excuse Me”, o tal que “nobody gave a shit”, e apreciar o jazz e a musicalidade que moço transporta em si, esperando que tenha a carreira de sucesso que merece, e isto não tenha sido só fogo de artifício. Que a sua extrema genuinidade, simplicidade e sinceridade não lhe tragam dissabores, o que a maioria acha estranho nele e talvez por isso o critique, e que continue a romper a tendência, predominante, da superficialidade, do politicamente correto, do ser mais um entre muitos, igual a tantos outros!
E sim, já vi televisão que me chegue para um ano :).
Esperança é a fé que nos move a todos!

Faces da mesma moeda

Está um bonito dia de sol, ótimo para matar saudades do verão, aproveitar o sol, produzir um bocadinho de vitamina D, apanhar ar puro, aplicando na plenitude a máxima “dolce far niente”.
Na esplanada, uma mãe e duas amigas põem a conversa em dia, falando animadamente e gesticulando, sobre cenas e coisas da sua vida. Ao seu lado, na mesma mesa uma criança com cerca de 3 anos, não se mexe, não pestaneja, não fala, não reclama atenção, não faz birras, não roda na cadeira incessantemente, não empurra a cadeira, não corre pela esplanada, NADA! Parece que dorme, estranha posição aquela! Olhando mais atentamente, percebe-se o foco único da sua atenção/concentração: um telemóvel! Durante mais de uma hora, as duas amigas e a mãe desfrutam o momento e o dia em todo o seu esplendor, sem interrupções,  à criança não se ouviu um aí. Em frente, à esplanada havia um bonito jardim com um parque onde outras crianças corriam, jogavam à bola, à apanhada, andavam de baloiço ou escorrega, gritavam com o entusiasmo do momento, os seus cabelos ensopado em suor. Naquele espaço de tempo nunca ocorreu à mãe, nem às amigas, sugerir que a criança fosse, para o parque, brincar e à criança também não. Afinal, estavam todos tão bem, descansados e confortáveis ali que o melhor era continuar tal e qual!

Jantar em casa de amigos, os putos correm pela casa, desarrumam tudo, alvoroço total, desentendem-se e estão a um passo de perder as estribeiras, eles e os pais. O anfitrião sugere “Vão jogar computador!”. Os olhos iluminam-se, correm desenfreadamente para ver quem fica com a melhor cadeira e é o primeiro a jogar. Ao fim de uns minutos tudo sossega, ouvem-se apenas algumas exclamações/observações, de quando em vez, sobre o decorrer da ação. Um dos pais estranhando o silêncio e a calmaria, a que não está acostumado, senta-se junto dos miúdos a vê-los jogar. O que vê deixa-o um pouco renitente, o filho do anfitrião cada vez está mais empolgado com o jogo e eis que a personagem principal do jogo entra num bordel, no ecrã vê-se as conversas e ações típicas e esperadas neste tipo de locais! Não querendo acreditar no que os olhos viam, segue estarrecido em busca do anfitrião. “Que jogo é aquele que os miúdos estão a jogar e para que idade é? O teu filho acabou de entrar num bordel!” interpela-o não disfarçando a sua estupefação. O anfitrião meio encavacado responde “Eh pá, o jogo é brutal! Eu próprio, adoro jogar!” face ao revirar de olhos de alguém que não gostou do que viu e continuava à espera de uma resposta acabou por confessar embaraçado “É para maiores de 18… mas repara que eles também têm que aprender como é a vida e como as coisas funcionam!”.  “Aos 8 anos de idade, não me parece de todo!” diz furibundo e ordenando “Meninos, acabou-se o jogo! Vamos dar uma volta de bicicleta para arejar as ideias, as minhas e as vossas”

Nunca mais toca, uma hora e meia custa a passar que se farta! Que cena! Que seca! A velha não pára quieta, tanta energia logo pela manhã que até faz doer os olhos, e com aquela idade, não pode ser bom sinal. Poucos a estão a ouvir mas ela insiste e não se cala. Está tudo com uma pedra de sono! Ontem foi até às tantas: os youtubers são espetaculares, ganham bué dinheiro, fazem umas cenas maradas e engraçadas, a malta diverte-se e ri bué, como o biscoito a biscoito e depois tem que partilhar e falar no whatsup e no facebook! A minha cota ia-me apanhando, anda preocupada com a história do Baleia Azul… Eheheh, se ela sonhasse que eu já sabia disso tudo muito antes destas notícias todas, passava-se! Uiiii, os cotas não percebem nada disto! Já criei o meu canal no youtube e agora filmo os meus jogos, já tenho 100 subscritores para ver se ganho alguns €€ e fico famoso. Há sempre tanto para fazer, dizer e ver! Precisava só de confirmar um coisinha mas hummm… o perigo está à espreita, lá está ela a mirar-nos pronta a sacar-nos o telemóvel se nos vê com ele debaixo da mesa ou escondido na mochila ou no estojo! Não dá hipótese e uma pessoa com tanta coisa importante para fazer! Finalmente… tocou! Não tenho tempo a perder, gadgets em riste, sento-me à porta da sala, verificando se alguma coisa se alterou no meu mundo, se mais alguém subscreveu o meu canal, fez like na minha selfie e alguma coisa mudou desde o meu último clique! Caraças, acabaram-se-me os dados, agora só dia 1 é que repõem. O nerd que tem 5 GB por mês, a ver se o convenço a partilhar a sua internet. Olho em volta, à procura do nerd para tratar já do assunto, tudo sentado como eu com os olhos posto no seu ecrã, com a diferença que eles ainda têm dados e eu não, e o nerd não está à vista, deve ter ido à biblioteca. Na aula, já o caço, temos muito tempo para falar deste e outros assuntos durante a aula, uma hora e meia demora muito tempo a passar e não há quem aguente os professores. Já está a tocar! Foge, a outra velha já lá vem! Parece que vamos ter teste, lembrou-me alguém agora! Isto agora toda a gente passa, não vale a pena cansarmo-nos muito!

Qualquer coincidência é pura realidade!

Parentalidade(s)

Os seus filhos são o máximo: lindos, inteligentes, educados, não mentem, contam-lhes tudo pois são super amigos. Resumindo: os seus filhos são um poço de virtudes, defeitos não há nem pode haver, errar é cena que só aflige os outros, até porque eles e os seus queridos filhos raramente têm dúvidas e se as têm nunca ninguém lhas ouviu. Quando confrontados com uma situação desagradável, põem as mãos, e o resto do corpo, no fogo por eles, vociferando “Impossível, o meu filho nunca faria uma coisa dessas. Não é essa a educação que lhe dou em casa”, confrontados com os factos, contra estes não há argumentos, pensariam os mais otimistas, não vacilam: isso são coisas de miúdos às quais não se pode dar muito importância, acrescentando que há adultos que dramatizam e levam tudo muito a sério; culpabilizam os amigos e colegas do filho porque são uma má influência: a ideia só pode ter sido deles e ele foi levado na corrente: estava no sítio errado na hora errada, uma coisa que parece acontecer com frequência; porque o dinheiro repara e resolve tudo; porque não foi essa a versão que lhe foi dada a conhecer pelo filho (e mentir é coisa que eles não fazem)… Procuram justificar, com naturalidade e anos de prática, o que, aos olhos de todos, é inconcebível e inaceitável e não há nada nem ninguém que os demova na sua demanda! Se fosse uma criança tentando justificar a sua travessura, desta forma e em dose q.b., provavelmente, gabava-lhe, com um sorriso nos lábios, a persistência, insistência e capacidade de argumentação, já em pessoas adultas e responsáveis pela educação e atos dos menores a seu cargo, abomino!

Saber estar, ouvir, respeitar, obedecer, sim obedecer, reconhecer a autoridade, perceber que não se é o centro do mundo e que não se pode fazer tudo o que nos dá na real gana, que quando se faz algo errado se deve admitir, pedir desculpa e tentar corrigir/minimizar o erro, são tudo princípios essenciais que devem ser trabalhados desde tenra idade!
Quando tudo isto parece estar ausente, aos miúdos, dou-lhes o “devido desconto” face à irreverência própria da idade e às parvoíces expectáveis e típicas, não mais que isso. Para os seus pais, lamento mas não tenho paciência nenhuma, nem tolero as suas queridas e fofinhas visões e teorias sobre a falta de educação dos seus meninos. Lamento desiludi-los mas eles mentem, como todos nós mentimos, uns mais frequentemente que outros, por conveniência, por omissão, para não ferir susceptibilidade ou criar problemas de maior, para minimizar, ou engrandecer, os nossos feitos, e, às vezes, só porque sim; eles podem ser o centro do vosso mundo mas o universo está pejado de galáxias algumas a muitos anos luz de distância; todos nós adequamos, condicionamos as nossas intervenções, forma de estar e agir, em virtude do ambiente em que estamos inseridos, a escola e a vossa casa são ambientes bem distintos; os outros podem ser uma má influência mas eles optam, têm o poder, e vocês o dever de os ensinar, a dizer NÃO (esse monossílabo que parece ter desaparecido do léxico de muitas famílias), bem como de distinguir o bem do mal; o erro dos outros nunca desculpabiliza ou tira a responsabilidade do erro do vosso filho e há atitudes/erros que não há dinheiro no mundo que resolva/compense; não averiguar e incentivar a que admitam o seu erro (sim, eles falham, portam-se mal e erram como todo e qualquer ser humano), procurando, incessantemente, desculpabilizá-los, é transmitir-lhes que tudo é admissível e permitido e que estarão lá sempre para os safar; é criar um monstrinho irresponsável, insensível e desconhecedor das regras que são essenciais para viver em sociedade. Um bocadinho cansada, de cada vez mais, me cruzar com monstrinhos, e respetivos pais, ambos cheios de si, caminhando a largos passos para se transformarem em verdadeiros e assustadores monstrengos.

“(…) E tem de haver disciplina. E isso pode ser compatibilizado com uma família mais democrática e com uma família de afetos. As pessoas não conseguem encontrar esse modelo que concilie dois modelos que, à partida, parecem inconciliáveis. Chegamos ao caricato de vermos livros de autoajuda para pais — escritos por psicólogos — que aconselham a dizer não aos filhos. É algo que soa estranho, os pais que têm que ler estes livros passaram a infância e juventude a ouvir dizer não, e agora têm muita dificuldade em dizer não aos filhos.
(…)  O trabalho tomou conta da vida das pessoas. No pouco tempo que têm evitam o conflito. E exercer autoridade implica conflito. É necessário para marcar as diferenças de papéis, para dizer que os pais são pais e não são amigos.
(…) temos uma geração de progenitores que foi tiranizada pelos seus pais e agora se deixa tiranizar pelos seus filhos.” 

Excertos de um entrevista muito realista no Expresso

Muitos adultos se comportam como crianças: desafiam sistematicamente os professores e negam qualquer comportamento errado dos seus filhos.   Eles estigmatizam o comportamento de outras crianças, amplificam e incentivam qualquer briga entre duas crianças ao invés de optar por um diálogo. Isto também é um bullying silencioso, do qual ninguém fala.”
Excerto do artigo “O bullying que ninguém comenta: a intromissão dos pais na escola” muito bem explanado neste post

Pregando

Eu dando sermão e missa cantada aos  peixes meus alunos, face à apatia e falta de trabalho generalizada de malta cuja reação é a mesma se eu disser que 2+3=5  ou que 2>3.
“Vivem rodeados de tecnologias, não vivem sem ela! No entanto, há 50 anos atrás era impensável conceber o que hoje em dia temos à nossa disposição. Sabem o que está por detrás do deslizar do vosso dedo para aceder a todo e qualquer tipo de informação? Muita programação, matemática, física, eletrónica, entre outras, mas para isso teve que haver quem experimentasse, errasse, voltasse a tentar, equacionasse novas e melhores opções, questionasse, PENSASSE! Onde estaremos daqui a 50 anos se nos continuarmos a recusar a questionar, a pensar, tudo requer treino e trabalho, a mente é como os músculo quando não a utilizamos atrofia. Olhando para a vossa atitude, de quem tem tudo na ponta dos dedos mas de quem nada questiona, a quem nada parece suscitar a atenção, a de corpo presente mas mente ausente, devo dizer que o futuro preocupa-me, aliás, assusta-me muito, também por mim, mas essencialmente por vocês!”

O silêncio reina até que uma aluna diz “Nunca tinha pensado nisto nessa perspetiva. Interessante”

Para ver se abrem a pestana, vou mostrar-lhe a Ted Talk em baixo! Se despertar 1 ou 2 mentes já não é mau!

E esta problemática prolifera (falta de sentido crítico, interesse, estudo, etc) e começa a manifestar-se no ensino superior, inclusive entre os melhores dos melhores, supostamente, os alunos de medicina (ver artigo “Futuros médicos falham no corpo humano”).
Curiosa a estratégia de resolução da faculdade, baixar a fasquia, onde é que eu já vi isto? São futuros médicos! Mas desde que sejam felizes e tenham uma formação estruturante (anatomias à parte), está tudo bem. Caramba, se isto não é aterrador a todos os níveis!
Recordo as pautas da faculdade, a abarrotar de chumbos, mas na altura era “Ou estudas ou estudas. Se não vens cá as vezes que for preciso!” Agora, pois agora, reprovar “traumatiza as crianças, , não trás nada de bom pois o aluno não vai aprender mais nem melhor, blábláblá, conversa… reprovar um aluno sai caro, e aí é que bate o ponto. Ele saber ou não, isso é um pormenorzito de somenos importância, um pormenorzito que pagaremos bem caro no futuro.

A felicidade, a primavera e o dia do pai – uma verdadeira mixórdia de temáticas!

Dia 20 de março, respiramos fundo e suspiramos sentindo no ar a chegada da primavera, pelo menos oficialmente, é também o dia em que se comemora o dia da felicidade, nesta moda instaurada de que tudo tem um dia. Foi também o dia que ficámos a saber que segundo um estudo recente, Portugal ocupa no ranking a posição 89 entre 155 países, onde, mais uma vez, os nórdicos lideram a tabela, somos o quarto país menos feliz da Europa.

O sol que nos aquece a pele, e o coração, na maioria dos dias, boas paparocas que nos enchem a barriguita e consolam a alma, um país de uma beleza surpreendente, de cortar a respiração, queiramos nós explorá-lo e aproveitar o que tem para nos oferecer, um país seguro, apesar dos gatunos, aparentemente inocentes, que nos roubam milhões, um país de gente calma e pacífica, especialista em queixumes e lamentos, o país onde existem mais telemóveis per capita, onde os centros comerciais e as grandes superfícies comerciais proliferam, onde, por ano, os seus cidadãos investem mais em cápsulas de café Nespresso do que em livros, onde se valoriza o ter em detrimento do ser, onde se escolhe ostentar em vez de vivenciar… Temos tudo isto e muito mais, no entanto, o problema não foi só a crise que nos toldou o entendimento mas a mentalidade e a forma como escolhemos viver/encarar a vida: entre reclamar por tudo e por nada, conscientemente, sabendo que nada faremos para modificar a realidade que tanto criticamos, ou deitar mãos à obra e tirar o melhor partido do que se tem, apreciando e dando valor a cada momento, mesmo os maus, a cada aprendizagem, mesmo as dolorosas, a cada sorriso, aos genuínos mas, principalmente, aos esforçados, descartando de imediato os cínicos, sabendo rir de si próprio e fazendo sorrir os outros, não perdendo nunca o sentido de humor e o poder de encaixe; o que será que a grande maioria escolhe?

Dou comigo a sorrir ao (re)ler um artigo do presidente e fundador do Happiness Research Institute, quando esteve em Portugal, a promover o seu livro intitulado “O Livro do Hygge — O segredo dinamarquês para ser feliz“. Um dinamarquês cheio de espírito, sentido de humor e que tem um discurso bastante interessante e que até me ensinou uma palavra nova “hygge” para algo que, em certa medida, há muito pratico, ou pelo menos tento, ou então vivo só na ilusão de… whatever! Não, não comprei, não li e não tenciono ler o seu livro mas não deixa de ser um entrevista que vale a pena ler. Alguns excertos abaixo

E porque foi, oficialmente, dia do pai, partilho, um tema que não faz bem o meu género, mas cuja letra, de forma simples, bonita, verdadeira, espelha na perfeição o que qualquer pai, e mãe, deseja para os seus filhos, e curiosamente, sobre estar bem com a vida, ser feliz.

Ao(s) meu(s) pai(s),

“I love my life
I am powerful
I am beautiful
I am free
I love my life
I am wonderful
I am magical
I am me
(…)And finally
I’m where I wanna be “
And all of this
thanks to you
I love my life
and I´m grateful
for all the things you
have taught me
and done for me
and above all,
I love you
(acrescento eu :))

À pequenada cá de casa, dedico esta parte, que eles tão bem conhecem na prática…

“Tether your soul to me

I will never let go completely
One day your hands will be
Strong enough to hold me
I might not be there for all your battles
But you’ll win them eventually
I’ll pray that I’m giving you all that matters
(…)
I am not my mistakes
And God knows I’ve made a few
I started to question the angels
And the answer they gave was you
I cannot promise there won’t be sadness
I wish I could take it from you
But you’ll find the courage to face the madness
And sing it because it’s true
(…)
Find the others
With hearts
Like yours
Run far, run free
I’m with you”

O segredo está na forma

Mais importante que o que se diz, é a forma como se diz – parece ser uma técnica que revela bom senso comum e fruto de uma experiência de anos acumulados a comunicar com os outros quase desde o berço (e atenção que as crianças são exímias nesta arte), no entanto, e infelizmente, constato todos os dias que afinal não! A mesma frase dita com um sorriso nos lábios, de forma afável mas incisiva, ou dita de forma rude e pouco simpática, provocam, no imediato, reações bem diferentes no recetor, e condicionam a forma como nos “verá/ouvirá” no futuro. Obviamente que há que ter também em consideração a necessidade de adaptar o discurso, não só ao recetor, como ao contexto e à circunstância. A forma é o segredo, não tenho dúvidas, claro que há sempre exceções à regra: os intragáveis. Complicado esta coisa da comunicação efetiva.
António Zambujo mostra-nos que com a música acontece algo semelhante, não é a letra mas a forma como é cantada e “musicada” que condiciona/influencia a nossa interpretação da letra, especialmente quando é feito com tamanha maestria!

O original

Outro bom exemplo  (e o original)

Carneirada!

“As pessoas deviam  reivindicar mais cultura. A cultura é tão importante como a economia, ou mais. Uma pessoa culta não acarneira. Nao é acarneirado. E isso é um dos princípios da democracia: não ser carneiro. “
Ruy de Carvalho in Grande Entrevista, RTP3

Sábias palavras as de Ruy de Carvalho. Pastor, carneiros, acarneirados e cães, são considerados lobos todos os que não seguem o rebanho, ou ousam sugerir, questionar, ou, blasfémia, desviar ligeiramente do trilho traçado, porque conhecem um caminho melhor ou mais curto ou por qualquer outra boa razão. Quem ousa questionar, argumentar, refilar e contrapor, não dá jeito nenhum a quem só quer e gosta de carneirada. Como tenho este péssimo hábito, bem sei, de utilizar o meu sentido crítico e/ou fazer críticas construtivas então, para muitos, sou um “Lobo” [culto ou inculto? Não sei!], mas por vezes, solitário e solidário! Aúuuuuuuuuuuuu!

School at Sea

6 meses, 34 companheiros/estudantes (14 aos 17 anos), de várias nacionalidade/culturas, 5 professores, cerca de 1o tripulantes, um navio à vela, 13 países (na rota de Amesterdão até às Caraíbas e regresso), sobre o mote “You sail, you learn”, tudo isto, e muito mais, no School at Sea. Rotinas: uma dia de “escola” (conteúdo e objetivos a definir, de acordo, com as indicações da escola de proveniência, sobre a supervisão/acompanhamento dos professores do navio), um dia de vigia (navegação e as suas tarefas inerente, all about sailing), ao que se juntam várias expedições e saídas de campo pelo vários sítios onde vão passando. “Natural Learning” e o “conhecimento do mundo” estão subjacente ao lema do projeto, responsabilidade, autonomia e o saber lidar/trabalhar em conjunto em prole de um objetivo comum. Cerca de 21 000€ é o custo por aluno, por esta experiência única de 6 meses, onde o School at Sea estimula e ensina os alunos a arranjar “patrocinadores” para suportar os custos da propina.

Para aventureiros e impróprio para Pais galinhas, ou então não! Agrada-me muito, muito este projeto e acho que proporciona aos miúdos uma forma de ver o mundo, gerir emoções, vários tipos de aprendizagem, VALORIZAR os esforços e as realizações de uma forma extraordinária. Uma experiência de vida, certamente, capaz de centrar objetivos/metas! Fica a ideia e o bichinho… vamos ver se daqui uns anos, que não são assim tanto, ainda mexe! Gostava… e os pequenos será que sim? Hummm … ainda é cedo! Consigo prever/vislumbrar algumas surpresas no candidato menos provável e no mais provável! Caixinha de surpresa…

O alho e os seus “poderes”

Sempre que alguma maleita ou debilidade o afligia, sentindo o seu sistema imunitário de alguma forma debilitado, o avô começava de imediato o tratamento do alho que consistia, quando se levantava de manhã, ainda em jejum, descascar um dente de alho pequenino e engolir com a ajuda de um copo de água.
A avó nunca se rendeu a esta técnica e todos, na família, consideravam curiosa esta sua prática e fé inabalável no tratamento do alho, sorrindo, condescendentemente, quando o assunto vinha à baila, e o avô garantia, convictamente, que era eficiente e com resultados “palpáveis”, após 2 ou 3 dias, quase que como uma cura para todos os males.
Entretanto, o tempo foi passando e a idade avançando, o avô nunca deixou o seu dente de alho, em jejum, pela manhã, sempre que a necessidade aflorou.
Curioso, curioso, foi ver a mãe a render-se a este tratamento quando algumas maleitas, menores mas incómodas, a afligiram, e também ela elogiou as melhoras rápidas e garantiu a eficácia de “um dente de alho pela manhã não sabe o bem que lhe fazia”. Tal como o avô, volta e meio, inicia o tratamento do alho. Novamente, a família, eu inclusive, sorriu condescendente, entre comentário jocosos e private jocks, face a mais uma rendida ao tratamento do alho.
Pois então há tempos, o meu nervo ciático, sentindo-se pressionado, deu sinais de vida e de dor à minha pessoa, não sendo nada de especial, causava-me alguma dor, limitações e que me chateava à brava. E pensei porque não? Iniciei o tratamento do alho e… também me rendi ao facto, efetivamente, a coisa resolveu-se rapidamente e sem qualquer outro tipo de tratamento. Coincidência, efeito placebo, pois não sei… mas que funciona, funciona. Já experimentei em outros situações, em que fazendo-me de médica de mim própria, detetei alguns sinais que poderiam levar a algo mais, e ataquei-lhe com o alho, resultado: problema sanado antes de oficialmente diagnosticado. Claro que não funciona em todas as maleitas, nem resolve/cura em estados avançados, mas para a ciática, pequenas inflamações e em situações que o sistema imunitário está mais em baixo, que ajuda, e muito, não tenho dúvidas.
Pensei, esta cena do alho é uma panca cena de família, é capaz de só funcionar connosco (e só com alguns, toda a gente se continua a rir e dizer piadas, grupo em que antes tinha um papel ativo, e penso sempre “Quando precisares, vais ver!”). Excelentíssimo esposo quando vê os pequenos dentes alinhados e guardados, sorri e pergunta “Vais começar o tratamento milagroso?”.
Há pouco tempo, em conversa com uma colega, queixava-se ela de umas dores no braço, que já tinha tomado anti inflamatório entre outros tratamento, e pensei partilho ou não partilho a técnica do meu avô? A filha dela é médica! Pensei que se lixe, o mais que pode acontecer é rir-se como fazem os outros, nada com o que eu não viva bem e lá partilhei com ela o tratamento do alho. Ela não se riu, e dado o desespero de quem já experimentou quase tudo e só deseja melhorar, disse-me “Vou experimentar, mal não faz!”. Não voltamos a falar sobre o assunto, uma vez que os assunto da escola normalmente são muito absorventes. Há umas semanas, meio em segredo, disse-me “Estou fã do tratamento do alho. Fiz naquela altura que falámos e melhorei ao fim de pouco tempo e agora sempre que a dor ameaça voltar, ataco logo e a coisa resolve-se.” Sorri e pensei, afinal não é de família. Ora aqui fica a dica se alguma vez precisarem! Respondendo às perguntas típicas que surgem na mente de todos quando se fala em alho: não, não deixa mau hálito, uma vez que não se trinca o alho; e não, não custa nada a engolir, desde que escolha um dente dos pequeninos.
Viva os avôs, o meu em especial, que tantas coisas nos ensinam, queiramos nós aprender e… acreditar/valorizar!

Post Scriptum – Outro avô colocava os alho em álcool para depois esfregar nas dores reumáticas. Obrigada à prima G. pela lembrança.

Assombro

Um local que associo sempre às bestiais e extensas férias de verão, na altura em que ainda não se falava do aquecimento global e os verões eram verões: quentes, sufocantes, onde nem uma brisa fresca passava. Um local para mim repleto de cor, alegria, brincadeiras, entusiasmo, muitas gargalhadas, amigos de sempre, em que a atividade radical da altura era saltar da prancha de 5 metros, certificando-se de o fazer de boca fechada, para não ficar com os dentes a “tremer” durante as horas, dias, a fio. Um local cheio de boas recordações e histórias que agora dói só de olhar!