O comentário do avô a “Leituras de casa de banho”

Merece ser registado o comentário maravilhoso que o avô, meu caríssimo pai, fez, no livro das caras, ao post “Leituras de casa de banho” sobre o facto da sua neta, pimpolha mais velha, ler os  livros que ele tem na casa de banho e sobre a mãe, eu, que antes de entrar para a escola já atirava umas para o ar a ver se colavam, eheheh, desde lá foi sempre a piorar, desconfio!

“Já me tinha acontecido a senhora que nos ajuda nas limpezas da casa perguntar: “depois de ler o livro tal pode emprestar-mo?” Normalmente, livro de mesa de cabeceira. Mas nunca me tinha passado pela cabeça que alguém prestasse atenção ao livro que está na casa de banho. São sempre livros que não exigem grande esforço (de leitura, entenda-se) e com cortes fáceis para não perder o fio à meada.
Nunca me passaria pela cabeça que a minha neta prestasse atenção aos livros. Mas, para mim, o mais delicioso é a argumentação dela. A mãe, se meter a mão na consciência, não terá grande autoridade para a repreender. Como em muitas outras matérias os pais limitam-se a «cumprir» o dever de ralhar, quando lhes apetece rir com o que a memória lhe oferece na ocasião. Neste caso, a mãe, antes de ir para a escola, já ia de livro para o café e justificava-se porque o pai e a mãe também iam. Assim começou a adquirir os primeiros livros. Mas o poder argumentativo depressa se estendeu a outros domínios. Numa ocasião, pedimos os nossos cafés e ela queria que lhe comprássemos pastilhas. Como pais, lá fizemos o discurso pedagogicamente correcto. “Não pode ser porque ….” e ela remata: “já tiveram o vosso prazer de beber café. Eu também tenho direito a ter o meu prazer. Quero uma pastilhas. O meu fica mais barato que o vosso!”

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Filme: “O Substituto”

Um filme duro, pesado, triste, sem final feliz, não deixando, no entanto, de ser um excelente filme.
É um filme ao qual é impossível ser indiferente, leva-nos a meditar sobre a imensidão de temas que em 1h30 abrange deliberada e/ou disfarçadamente.
Muito elucidativo sobre a compexidade da mente humana: o papel e a forma como lida com experiências/vivências passadas, transportando e revivendo-as no presente e temendo não conseguir evitar a sua influência e viver com elas no futuro.
Retrata bastante bem que, independentemente, da profissão, cada um de nós tem uma vida pessoal e um bagagem emocional que transporta consigo sempre, embora procure protegê-la, ocultando-a no decorrer do exercício da sua profissão, através de um deliberada indiferença; no entanto, ela está lá sempre presente e constitui uma linha orientadora em muitas das opções e intervenções que escolhemos ter ou fazer, por muito que o tentemos evitar ou esconder.
O nome original do filme é “Detachment” que pode ser, grosseiramente, traduzido por desapego, e é exatemente essa falta de sentimento de conexão que o personagem principal, representado por Adrien Brody (do Pianista), enverga, no seu dia a dia, como um escudo, mas o interesse e a preocupação pelo que o rodeia pautam a sua discreta mas presente e interveniente ação, contrariando a tal indiferença que apregoa. Talvez porque, no fundo, não perdeu a esperança de fazer a diferença na vida de alguém, o que faz dele tudo menos indiferente, colocando-o na linha da frente da batalha, algo que desejava evitar a todo o custo.
A vida não é um mar de rosas e há algumas cravadas de muitos espinhos em que, difícl e infelizmente, conseguimos fazer a diferença ou se fazemos, por vezes, ficamos na dúvida se terá sido para melhor. E sim, isto mexe e tira o sono a uma pessoa, é muito mais fácil assobiar para o lado, apregoando a tal indiferença, do que carregar nos ombros a responsabilidade de tentar/poder fazer a diferença, sem saber se é para melhor, uma lição que aprendi da maneira mais difícil mas que ainda não me tirou a esperança de poder, em alguns casos, fazer a diferença.
Vale mesmo a pena ver este filme, com uma abordagem totalmente diferente do que é habitual e meditar sobre tantas coisas que lá se passam e falam mas também no que não é verbalizado e nas ações!
Gostei muito deste filme que ainda estou a digerir (bom sinal!) e agradeço à Catarina, do blogue (in)sensatez, a sugestão.

Inesquecíveis ou então não…

“Quando andei no órfeão, já cantávamos a música da bicicleta!” esclarece-me divertido excelentíssimo. Já em tempos, tínhamos chegado à conclusão que nos cruzámos nos estrados do coro, ele nos mais altos e eu nos mais baixos, mas que não nos lembrávamos um do outro, que blasfémia!
“Então e quem é que cantava a bicicleta nessa altura? Eu ou a Rita?” pergunto-lhe
“Epá, sei lá! Era uma miúda pequena!” responde com naturalidade excelentíssimo pequeno.
E, assim me arrumou, 3 anos mais velho que eu ,5 que a Rita, e chuta-nos assim para o lado, como aquelas crianças pequenas, chatas e imaturas. Pensando bem se, na altura, a Rita tivesse 6 anos, eu teria 8 e ele 11, e não deve andar muito longe disto, realmente estavámos em “patamares” de desenvolvimento e parvoíce bem diferentes, lá isso é verdade. Agora, somos os dois igualmente cotas, embora não nos lembremos um do outro nos estrados do coro a cantar a música da bicicleta, coisas e voltas que a vida dá!

Sons e recordações da minha infância

Concerto de ano novo foi a última vez que nos encontrámos, cada um muito bem acompanhado das suas caras metades e respetiva pequenada. Conversa puxa conversa e diz-me ele “Então e já ensinaste os teus filhos a cantar a Bicicleta?” ao que eu respondi “Já me ouviram cantá-la, inclusivamente, quando eram bebés e eu ainda não tinha o repertório que tenho hoje em dia mas ensiná-los, ensiná-los, não!”. Entre risos, diz-me “Isso é que é uma grande falha, como é que é possível? Tens que remediar isso!”. Lembrei-me então de perguntar, inocentemente, “Então e tu já a ensinaste aos teus?”. Ele olhou para mim, sorriu, e acrescentou “Agora apanhaste-me! Reparo agora nesta minha enorme falha. Também eu ainda não ensinei a música da Bicicleta aos meus!” Retruco “Bem, que grande falha senhor maestro!” e ele responde-me “Olha quem fala senhora solista”. E assim nos despedimos com mais um ano a começar e a promessa, não verbalizada, de cada um ensinar aos seus a famosa música da Bicicleta.
Quis o destino, e as voltas da vida, que só nos reencontrassemos volvidos 2 anos, e diz-me ele “Que grande murro no estômago me deste naquele dia mas fica sabendo que já ensinei a música da bicicleta os meus filhos!”. Ri-me retribuindo um “Eheheheh e eu aos meus!”.
Memórias felizes de tempos passados de pessoas que serão sempre importantes, uma referência, que acompanha determinada fase da nossa vida e por isso, não estando presentes, farão sempre parte das nossa vida e das nossas aprendizagens, porque nos viram crescer e que, por sua vez, também vimos crescer, quem recordamos com carinho e com quem é sempre um enorme prazer, por breves instantes, voltar a ter a idade que os meus pequenos têm agora, voltar a estar nos estrados do coro, repletos de malta fixe da minha idade, sempre pronta para cantar (e desafinar), num convívio animado e saudável e muito mais, sobre a batuta de um ótimo maestro, um tipo bem disposto, porreiro e que fazia umas funny faces a cantar (por causa da importância da respiração, disse-nos ele), que, para nós, do coro, é, e será, sempre o Miguel.
Ora então para recordar a música “Uma Bicicleta” pelas vozes desafinadas da malta cá de casa, (não estavas cá Miguel, foi o melhor que conseguimos!). Dedicado, em primeiro lugar, ao grande Miguel, à Rita e a todos os meus companheiros do orfeão pois juntos cantámos esta música vezes sem fim e a sua letra é, ou deveria ser, intemporal!

Se não me falha a memória, a letra da “bicicleta” foi escrita pela Rita Colaço, que também andava no coro, e musicada pelo Miguel, o nosso maestro, fazia parte do repertório de todos os concertos e a solista começou por ser, obviamente, a Rita.
A Rita que conheço desde pequena e que não vejo, se calhar, há mais de duas dezenas de anos (fogo que uma pessoa está velha), mas que, com 6 ou 7 anos, me lembro, enquanto brincávamos, de ouvir dizer, agarrada a um microfone que estava ligado a um leitor/gravador de cassetes (brinquedo muito à frente para a época), “Eu quero ser jornalista e vou ser, vais ver!”. Talvez, nessa idade, se sentisse inspirada pelas experiências piratas, e não só, do seu pai na área ou, porque afinal, corria e corre-lhe nas veias o mesmo sangue ou, simplesmente, porque sim ou porque quem sai aos seus não degenera.
A Rita correu atrás do seu sonho de menina e, hoje em dia, é uma jornalista da Antena 1 com vários prémios ganhos. A imagem que retenho dela será sempre a da menina de microfone em riste que queria ser jornalista, que escreveu/cantou a Bicicleta e das brincadeiras com ela e com o João enquanto os nossos pais conversavam animadamente (o 1º sonho, doce de natal, que comi e apreciei foi na casa dos seus pais, ele há coisas e memórias, senhores!)

“Uma bicicleta
para qualquer miúdo
pode não ser nada
mas para mim é tudo

Pela estrada fora
sempre em linh reta
quem é que não gosta
de uma bicicleta”

Que ano…

Seguem-se uma atrás das outras, querem-se quentes e boas mas só que não… um bocadinho farta deste 2017, cheio de triste notícias e ainda falta 1 mês para terminar, MEDO…! Que o fim de 2017 chegue mansinho, sem delongas e sem mais “novidades, notícias e eventos” deste género, bolas que já chega, por mim, falo!
Não me lembro de quantas vezes os vi ao vivo, de quantas cassetes e CD´s tenho deles, o Circo de Feras será sempre uma referência, mas sei de cor muitas das suas músicas, cujas letras são intemporais e, regra geral, muito boas, ao longo de quase 40 anos, tocaram (n)as vidas de muitos e isso não é para todos, só para os melhores, os que permanecem humildes, fieis e sem tiques de estrela, assim foram, e são, para mim, os Xutos. O Zé Pedro será sempre o eterno bom rebelde, o irreverente que viveu plena, assumidamente e sem pudor, a máxima “Sex, drugs anda rock and roll”, não sendo o único, foi único, de sorriso nos lábios, à beira do abismo, entre a vida e a morte, repensou e escolheu outro caminho mantendo a mesma aura, carisma, rebeldia e simpatia, seguindo admirado e estimado por todos. Os Xutos perderam um bocado da sua alma e nós sentimos no fundo do coração a sua, mas também um pouco nossa, perda!

“Pensas que eu sou um caso isolado 
Não sou o único a olhar o céu 
A ver os sonhos partirem 
À espera que algo aconteça 
A despejar a minha raiva 
A viver as emoções 
A desejar o que não tive 
Agarrado às tentações 

E quando as nuvens partirem 
O céu azul ficará
E quando as trevas abrirem 
Vais ver, o sol brilhará 
Vais ver, o sol brilhará 

Não, não sou o único 
Não, sou o único a olhar o céu 
Não, não sou o único 
Não, sou o único a olhar o céu 

Pensas que eu sou um caso isolado 
Não sou o único a olhar o  céu 
A ouvir os conselhos dos outros 
E sempre a cair nos buracos 
A desejar o que não tive 
Agarrado ao que não tenho 
Não, não sou o único 
Não sou o único a olhar o céu”

Zé Pedro

Uma caderno especial

O meu mais estimado, e caro, caderno, é giro que se farta e faz-me viajar assim que olho para ele pois as mini caricaturas são uma réplica das dos notáveis portugueses representados pelo António, cartonista do Expresso, na famosa e bonita estação de metro do Aeoroporto de Lisboa.
Destinei-lhe, ao caderno, grandes voos, ainda não sei bem quais, porque ele é tão bonito que me apetece mantê-lo imaculado ou para registar grandes feitos (não usámos disso por estas bandas, somos tão só e apenas normais, o que é bom, muito bom!) que estarão para se dar, certamente!
Esta pequena obra de arte provém da imaginação de uma simpática artista nacional, a Jessé Chaveiro, que tem um atelier repleto de coisas giras e diferentes feitas em cortiça (malas, colares, castiçais, cadernos, capas para livros e um sem fim de coisas originais e lindas de morrer).
A cortiça que utiliza não é portuguesa, vem de Barcelona pois, segundo me explicou, pelos anos de prática que nos levam, é a que tem melhor qualidade no mercado para realizar este tipo de trabalhos. Calcorreou muito paa divulgar este seu acarinhado e recente projeto, surtiu efeito, algumas das suas peças podem ser encontradas à venda no El Corte Inglês, na loja do CCB, na casa Fernando Pessoa, no palácio Marquês da Fronteira. A peça que mais vende é o castiçal de uma vela.
Podem visitar o seu atelier, de semana no horário laboral, salvo raras exceções, na Av Fontes Pereira de Melo, nº30, 9º, em Lisboa, e deslumbrem-se.

Miúda corajosa da minha idade!

Coragem é a palavra que me ocorre quando alguém com uma vida estável, ordenado certinho, não sendo nada de especial não é mau para o panorama nacional, com uma família com filhos pequenos para sustentar, dá um murro na mesa e diz “Estou farta, não estou para aturar isto! Vou-me embora, sem arrependimentos nem remorsos! Está na hora de me dedicar a outros projetos e ao que realmente me dá prazer !”.
Não é uma decisão tomada de ânimo leve, há muito coisa em jogo, é preciso abdicar e ajustar, é preciso arriscar, sabendo que se pode falhar e o dinheiro faz falta a toda a gente. Há quem lhe chame irresponsabilidade ou agir de cabeça quente ou ser utópica, eu cá acho apenas que é um ato de enorme coragem, saber o que ser quer, e ainda melhor o que não se quer, não se deixar vencer pela comodidade do adquirido, lutar e correr atrás dos sonhos e do que realmente nos apraz, deitando para trás o que os outros dizem e pensam e a segurança que um determinado rendimento certo nos permite alcançar.
Há gente GRANDE, em sonhos e no resto, resta-me, humildemente, apoiar a sua decisão, batendo palmas de pé, compreender a sua, natural, apreensão pelo incerto do que aí vem mas sobretudo admirar a sua enorme coragem e frontalidade, e ficar imensamente feliz e orgulhosa sabendo que tenho amigos deste enorme calibre (o que não é novidade) e que me deixam a pensar “Se fosse eu, será quer seria capaz?”.
Tu és GRANDE miúda. Força Carmen que para a frente é que é o caminho! Lembra-te da enorme sabedoria contida nos ditados populares e de um em especial “Quem não arrisca, não petisca!”

I learned that courage was not the absence of fear, but the triumph over it. The brave man is not he who does not feel afraid, but he who conquers that fear.

Nelson Mandela

Histórias de uma médica hipocondríaca

“Acabei de fazer a minha 5ª colonoscopia. Estou aqui deitada a descansar.” diz-me ao telefone
“A 5ª? Bolas! Mas o que se passa, desconfiam de alguma coisa?” pergunto
“Não ando bem dos intestinos, alguma coisa não deve estar bem mas eles dizem-me que não, que está tudo nos conformes.” esclarece-me ela.
“Então e o que te disseram desta vez?” pergunto
“Que está tudo bem mas que tenho os instestinos amarelos por causa dos laxantes que tomo. Pudera, sou obstipada, todos os dias tenho que tomar um!” diz-me irritada
Sorri e pensei “Ufa, ok, afinal está tudo bem! É só mais um dos seus episódios!”.
Ao longo dos anos, fui-me habituando ao seu discorrer de doenças, narradas sempre com entusiasmo e sofrimento, todas, segundo os especialistas, essencialmente imaginárias, o que ainda não percebi se a aborrece se a deixa descansada. Já teve de tudo um pouco: faltas de ar horrorosas, dores musculares insuportáveis, maus estares no estomâgo que lhe tiravam o apetite, uma suposta septicémia, palpitações e arritmias, alergias várias e sei lá que mais.
Sempre que um mal, supostamente, a ataca, marca consulta no especialista, já pensando no rol de exames que tem que fazer e nas consequências da nova doença que encontra em si própria e nos possíveis tratamentos que tem pela frente, sofrendo em antecipação, começa desde logo a tomar medicação para o problema deteado, assim ao género de quem considera um voltaren como um ben-u-ron 500g.
Não conheço mais nenhum mas suponho que isto deve ser comum entre os médicos hipocondríacos.
Ao ouvi-la, vou assentindo com a cabeça e meditando no hilariante e caricato da situação e na angústia em que ela vive, provavelmente, porque melhor que ninguém, eles, os médicos, conhecem as armadilhas e trapaças desta nossa máquina e temem-nas tal como todos nós, uns mais que outros, gerindo-as, ou não, cada um à sua maneira.
Quando lhe relato alguma das minhas, felizmente poucas, maleitas, quase que consigo ouvir a mente dela “Humm… será que já tive isto?”, enquanto preocupada, e a tomar as dores com suas, vai disparando pergunta atrás de pergunta.
Recentemente, ao contar-lhe a minha aventuras com as pedras e a minha vesícula diz ela : “Aí só me falta ter essa! Realmente, há muito que não faço um ecografia abdominal e, às vezes, tenho para aqui umas dores!”.
Ri-me sozinha, e com vontade, pensando “Os problemas dos instestinos já foram, agora vai focar-se na sua vesícula!”.
Ser hipocondríaco, é tramado e doentio, mas ser médico e hiponcondríaco é qualquer coisa do outro mundo, é levar ao extremo a máxima “Supera os teus medos” só que em base diária e contínua.

Parece anedota… só que não!

“Numa aula de apoio ao estudo :
– Professora, o meu trabalho de casa é dar um fim à história do Ali Babá!
– Então, já tens alguma ideia? – quis eu saber para ajudar.
-Sim, vou pôr os professores a assaltar a gruta. Dizem que agora são ladrões!!”
Relatado por uma professora triste, indignada, para além de extunada, no final de um dia de aulas desta semana

Podia ser uma anedota, só que não, aconteceu na realidade, o que é só triste porque os mais pequenos repetem o que ouvem, sem terem perceção do seu verdadeiro significado mas que, no entretanto vão interiorizando.
Uma sociedade que proclama alto e bom som que os seus professores são uns miseráveis, incompetentes, os únicos responsáveis pelo insucesso dos alunos, que não querem é ser avaliados e sei lá que mais que tenho lido na última semana, só pode ser completamente ignóbil, incoerente e que não defende o interesse dos seus mas apenas da sua agenda política e/ou pesssoal (ah, espera, isto não devia ser uma novidade?).
1º Deixam os seus filhos, todos os dias, ao encargos de um ou mais professores, sem grandes dores de alma, ressentimentos ou preocupações de maior que se conheçam, na maioria dos casos;
2º Quando os ditos cujos fazem greve ou faltam (sim, também têm filhos, família e também ficam doentes apesar de serem miseráveis) aqui d´el rei que estão a prejudicar as criancinhas e a furtar-lhes tempo de aprendizagem e consolidação de conhecimentos: os tais incompetentes e miseráveis, de repente, parece que se tornam imprescindíveis para que os meninos possam aprender ou estejam entretidos.
3º Porque quando lhes dizem que o insucesso é culpa dos professores, tira e desculpabiliza toda e qualquer responsabilidade à criança sobre o papel ativo que esta tem, forçosamente, que ter na sua aprendizagem para ter sucesso, independentemente da qualidade do professor.
4º Como em todas as profissões há os maus, os medianos, os bons e os excelentes, entre os professores acontece o mesmo! Na grande maioria, temos professores que cumprem, na íntegra, as suas funções, com brio e rigor, são bons profissionais mas como em todas as profissões há as ovelhas ranhosas e os excecionais, quer uns quer outros, são uma pequena minoria. Face à vil difamação, afronta e cansaço, uma hipótese era “Já que tenho a fama que tenha também o proveito!”, acredito que não acontecerá, o profissionalismo não o deixa mas a vontade e a revolta estão latentes.
5º A acrescentar a tudo isto, parece que agora também somos ladrões! Esqueçam lá os Salgados, os Sócrates, os Bava, os Varas, o BES, a CGD, o BPN, desta vida e  muitos outros que tais, os professores é que roubam que se fartam, são um alvo a abater e a principal causa da crise, já agora, dos incêndios e da falta de chuva! Ah espera…diz que afinal é tudo porque não há dinheiro! Houve, e continua a haver, à fartazana para cobrir os “gloriosos” feitos de uns e de outros, também houve para repor, com retroativos, as subvenções vitalícias dos senhores deputados, os tais que legislam, e decidem, em causa própria mas não esquecer os miseráveis dos professores é que são os ladrões! Não havendo dinheiro, como contrapartida, que tal repensar na idade da reforma, é só uma ideia!
6º A todos esses que “cagam postas de pescada”, uns bem pagos para o fazerem outros só porque sim, sobre a carreira, ordenados e sobre os professores, em geral, primeiro informai-vos, lendo a legislação, e conhecendo a realidade, não a vossa realiadade e perceção, mas o que efetiva e verdadeiramente se passa e trata. Bem sei é pedir muito: é preciso ler, ouvir, pensar… é mais fácil, rápido, brutal e estrondoso, como se quer hoje em dia, regurgitar cenas e coisas, desviando a atenção do tema principal e em análise com aquilo que a malta gosto de ouvir e repetir “Não querem ser avaliados! A idade é um posto. Têm que ir para o privado para ver o que é bom para a tosse! Malandros que não fazem nenhum.”
7º Esses tais comentadores, que de há uns anos para cá, percebem de todo e qualquer assunto, opinam convictamente, seguros do seu ser e saber, sobre tudo e todos, salvo raras exceções, nunca me inspiraram grande confiança, mas quem sou eu, mas agora, num assunto que conheço, bem sei que não sou imparcial, constato que só proferem barbaridades, resta-me concluir que, provavelmente nas restantes questões sobre as quais se pronunciam, a abordagem é semelhante. Pena é que são tidos como referência e citados por muitos que por falta de tempo e/ou vontade não têm disposição para investigar, a fundo, sobre o que dizem e para questionar o que ouvem!
8º Guerra é guerra e isto é uma guerra política, os professores são só uns zecos, um pretexto, alguém que convém desacreditar, cada comentador tem um interesse muito particular na sua agenda política que o incentiva a dizer o que tem que ser dito, que não tem necessariamente, como se comprova, que ser verdade ou andar perto desta, é o que chama no privado, dizem-me, trabalhar por objetivos tachos.
E assim vamos cantando e rindo… entregues a uma merdinha de gente sem príncipios mas com muitos objetivos (no público e no privado mas, obviamente, sem conflitos de interesse). Não esquecei as palavras de ordem “Os professores, esses malandros, esses ladrões!” interiorizai, para mais tarde recordar, uma fatura bem cara que iremos pagar, quando não os houver em número suficiente, já estivémos muito mais longe disso do a que a grande maioria julga.

A grande, e pertinente, questão não são os professores, e as suas reivindicações, mas sim a falta de dinheiro, tudo o resto foram apenas manobras de distração (muito eficazes como seria de esperar)
“O Governo está de parabéns. Finalmente reconheceu que temos de ser realistas, que afinal não há dinheiro. O caminho do desastre ainda pode ser evitado.
Em finais 2015 havia alternativa, íamos virar a página da austeridade, era todo um mundo novo que se prometia, feito de mais dinheiro no bolso de todos, porque o anterior Governo era um malvado que, vá-se lá saber porquê, queria tirar-nos o dinheiro todo e estava sempre a falar no défice das contas pública e na dívida. Havia dinheiro a rodos e ai de quem se atrevesse a alertar que não era possível. Seria devidamente insultado e perseguido pela turba anónima das redes sociais, classificado de “pafiano” ou educadamente insultado como “liberal”.
Em finais de 2017 estamos a ser acusados de viver na ilusão de que é possível dar tudo a todos, porque afinal não é. E não é por maldade, é porque afinal, pasme-se, não há dinheiro e não é possível apagar o passado, eliminar a crise e a troika. Mas isso não era exactamente o problema de 2015?”
Helena Garrido in Observador

Cenas de um internamento – Parte X

A sintomia, à beira de ter alta

Antes de ter alta, uma senhora nutricionista veio falar comigo sobre os cuidados a ter neste 1º mês sem vesícula “Nada de gorduras, preferir o peixe à carne. As carnes, sempre preferencialmente, brancas e em quantidade muito reduzida as vermelhas!”
O senhor doutor da medicina interna avisou-me “Como está com anemia, coma muita carne, a vermelha é a mais eficaz para suprimir a falta de ferro!”
O querido e simpático cirurgião disse-me apenas “Coma o que lhe apetecer e quando lhe apetecer! Vai ver que o seu corpo sabe o que precisa e rejeita, apenas ao olhar, o que lhe faz mal! É rija vai recuperar num instante!”
Procurando um equílibrio entre os dois primeiros pareceres, concluo que o 3º, o do meu querido, simpático e prático cirurgião, é bastante verdadeiro, pois, neste momento, há comidas que só de pensar ou sentir o cheiro, fico de imediato, enjoada.

Nota – A todos os que me ligaram, mandaram mensagens e mails, muito obrigada pelo vosso carinho e preocupação, por me distrairem e ajudarem a passar o tempo, que no hospital parece passar muito devagar. Estavas, e estais, para sempre no meu coração. Aos que não souberam e/ou não poderam ou conseguiram falar comigo, ficai descansados, estou bem e em franca recuperação, não divulguei o meu estado pois não havia necessidade de vos preocupar, em vão, como se constata, safei-me, ainda não foi desta que vos livrasteis de mim, espero andar por cá mais uns tempos a melgar-vos o juízo… sempre com qualidade e espírito, espero… depois de duas anestesias seguidas uma pessoas põem-se a pensar…naqueles papéis que assinou. Fiquem bem que eu cá vou fazer por isso!

Cenas de um internamento – Parte IX

No pós operatório

Depois do recobro, cheia de dores, a enfermeira dá-me o analgésico para a veia e eu remato com “Agora é aguentar e cara alegre, certo?”  ao que ela responde “É mais ou menos isso!”.
Naquela longa noite, ocorreu-me várias vezes “Sai de uma para me meter noutra!” pois a intensidade das dores eram semelhantes às do início da semana quando tudo começou. Foram amainando ao longo da noite mas ainda longe da fase “aceitável/tolerável”, rezando para que a manhã chegasse rápido.
O senhor doutor da medicina interna veio observar-me e disse “Está ótima, já se houve tudo a funcionar mas está cheia de dores não está? Não tem que aguentar estoicamente, há ali os comprimidos em caso de SOS.”
Às 10h00, o meu querido e simpático cirurgião veio visitar-me “Agora já se pode levantar, o ideal é estar sentada num cadeirão, o pior neste tipo de operações é ter que estar deitado!”. “A quem o diz” respondo-lhe ganhando novo ânimo.
“Ainda não se foi embora ou já voltou?” pergunto-lhe.
“Ó, já cá estou desde as 9h00! Espera-me outro longo dia” responde ele com naturalidade. “Olhe que isso não faz bem à saúde!” digo-lhe.
Ele ri-se e diz “Pois, mas eu estou aqui e a minha querida amiga é que está aí deitada!”. Remato com um “É verdade mas sabe tão bem, ou melhor, que eu, que as posições facilmente se invertem!”.
Ele já em passo acerelado junto à porta diz-me “Ehehehe, tem toda a razão! Parece-me ótima, hoje à tarde, se tudo correr bem, já pode ir para casa ter como os seu filhotes, que lhe parece?!”.
Foi só o que eu quis ouvir, levantei-me logo de seguida, e as dores abrandaram de imediato, tomei uma bela banhoca e quase, quase que me senti humana outra vez e pronta para outra!

Cenas de um internamento – Parte VIII

No bloco operatório

Sala fresca, demasiado fresca, estremeço de frio/medo, cheia de uma espécie de refletores, toda a gente a mexer em cenas e coisas, uma parafenália de objetos, simpáticos, acolhem-me bem.
O anestesista, bem disposto, apresenta-se, e vai observando que a sala é muito pequena e como é que vão caber lá todos, inquirindo sobre as posição de cada um.
Com as suas dúvidas esclarecidas, manda o enfermeiro chutar-me qualquer coisa para a veia; não passa, o cateter deixou de funcionar, ou melhor, em lingugem técnica, não está permeável! Penso “Here we go againa e respiro fundo” enquanto eles me procuram as veias e mal dizem os enfermeiros do piso. Sorrio pensando, cenas e coisas que acontecem em todas as profissões.
Uma das enfermeira trauteia a música “Ai se eu te pego, ai, ai … assim você me mata” e eu exclamo “Ai isso é que não!”. A enfermeira fica meio incomodada e vem ao pé de mim “Não se preocupe, estava só a brincar. Não conhece a música?”. Entre risos nervosos, descanso-a “Conheco pois mas pegar vocês já me pegaram, queria mesmo era evitar a parte do assim você me mata!”. Os presentes riem-se com vontade enquanto eu digo para o anestesista “Ai, por favor, estou toda frita, ponha-me a dormir!”. E o anestesista, sem hesitações, põe a máquina em funcionamento exclamando “Vamos lá por esta princesa a dormir que ela está a ficar nervosa! Durma bem minha princesa! Em breve, cá estaremos para o seu acordar”. Pelo canto do olho, vejo o cirurgião entrar na sala sorrir e pufff apaguei. Deve haver qualquer coisa mágica naqueles sorrisos, uma pessoa põe-se logo a dormir.
Mais tarde, acordo com um “Olha a nossa princesa voltou! Bela e maravilhosa como sempre! Não tem nada para nos dizer” do anestesista. Toda eu tremia, de frio, ocorreu-me apenas um “Muito obrigada” enquanto pensava “Deve ser mesmo, bela e maravilhosa. Isto dói que eu sei lá, devo estar branca com a cal e que enjoo!”
Perguntei as horas, a enfermeira responde “São nove horas! Está a fazer as contas não está? Não precisa, demorou 20 minutos e correu tudo lindamente! Tiramos-lhe uma vesícula cheia de pedras”. “Posso ver?” pergunto. Os presentes entreolham-se, cúmplices no crime, e com um frasco na mão “Não costumamos mostrar mas vamos lá então!”. Olhei para ela e pensei “Coisa tão pequena para dar tanta chatice! Já foste demónio! Desta já não sofro mais!” e ali me despedi da dita cuja e daquela simpática equipa.

Cenas de um internamento – Parte VII

No dia eu que fiquei sem vesícula

Sem dores, descubro que devo ter bicho carpinteiros, pois, aparentemente, para mim, a parte mais díficil da CPRE, é ter que ficar 24 horas em repouso, sem me levantar. Ao fim de algumas horas, não há posição nem paciência.
A meio da noite, sem grande sono, apercebo-me que o cateter pifou e a glucose não alimentou a minha veia mas sim os lençóis.
Vem o enfermeiro, moço novo do norte, que me rebenta uma veia e lá me encontra outra a custo depois de esmiuçar mais um bocadito, dizendo que “Tenho veias de passarinho e que lhe dão baile!”. Para além de maus fígados, já conhecidos, parece que também tenho más veias. Só que não porque há quem as encontre, as minhas veias, sempre à 1ª e quase sem dor para mim, apesar dos braços meio massacrados de tanto cateter e análises diárias. Como em todos os trabalhos não se pode ser bom em tudo e há coisas onde a experiência conta e nos ajuda a melhorar, alguém tem que ser cobaia no caminho. Chato quando somos nós as cobaias mas a vida é mesmo assim!
De manhã, o senhor doutor da medicina interna, disse-me que as análises estavam boas, eu estava ótima (tirando a pedreira, observei eu) e iam avançar com a cirurgia para retirar a vesícula, provavelmente ao final do dia, porque o cirurgião tinha um dia complicado entre consultas e bloco operatório. Música para os meus ouvidos, foi assim que aquilo me soou! Explicou-me que o procedimento seria por laparoscopia, para que servia cada um dos furinhos, luz, câmara, instrumentos, ar e mais não sei o quê, mas, curiosamente, e fixei-me na parte em que disse “Uma pessoa segura no fígado”. Cenas parvas em que uma pessoa se centra…
Durante o dia, entre raio X ao torax  e eletrocardiograma, medito sobre quando será a hora de ir à faca, agora já não há volta a dar, na esperança que tenha tomado a opção correta e que de não me vir a arrepender.
Desço, na minha cama, para o bloco operatório às 19h30, pensando que o cirurgião está no hospital desde as 9hoo, esperando que não esteja cansado e, por engano, não me tire qualquer coisa que eu preciso mesmo a sério, em vez da minha pedreira vesícula.
A enfermeira passa-me para a marquesa e diz “Agora é só esperar que o Dr venha para assinar o termo de responsabilidade.” Ele não tarda, faz-me festinhas no braço, dizendo vai correr tudo bem, e eu digo-lhe “Ah pois tem que correr, que eu tenho 3 filhos para criar!” e encetamos uma conversa sobre filhos e mães. Pisca-me o olho e diz-me “Como ontem, já sabe que tem que assinar estes papéis! Fique descansada que não diz aí que lhe posso tirar o que quiser mas tenho que a avisar que apesar de ser por laparoscopia pode haver a necessidade de cortar mais, depende do que encontrarmos. Tem alguma dúvida?”.  ” Não, vamos a isto!”  respondo-lhe nervosa. “Fique descansada. Vai correr tudo bem , vou tratar bem de si! Já nos encontramos”. E siga para o bloco!

Cenas de um internamento – Parte VI

No recobro da CPRE

Abro os olhos e constato que me encontro na mesma sala onde assinei os tais papéis.
A enfermeira não tarda a chegar e depois de me perguntar se me sentia bem e falar um pouco comigo me dizer “Está tudo bem. Vou levá-la então para o seu quarto! Está bem?”. Ao que eu disse “Mas, antes, eu gostava de saber como correu tudo!”. Ela sorriu, deu de ombros, dizendo “É só um bocadinho!”.
Fechei de novo os olhos para acordar com uma festinha na cabeça e um “Olá! Como se sente?” de alguém, simpático, mas que nunca tinha visto.  Sorri, pensando, ia jurar que não foi este senhor de bata branca que me fez a CPRE. Ele exclamou “Está a sorrir?” ao que eu respondi “A vida leva-se melhor assim!”. Ele sorriu também e disse “Tem toda a razão!”
Durante a nossa troca de galhardetes, entra o cirurgião  que me fez a CPRE, uma pessoa não esquece a última cara que viu, antes de dormir o sono preferido do Michael Jackson, digo, ou espero, eu.
Respirei fundo, aliviada pensei, “Ainda não foi desta que fritei a pipoca de vez! Fui este, e não o que está aqui ao meu lado, que me fez a CPRE”; o cirurgião ao meu lado olhou para mim e  riu-se, provavelmente, lendo-me o pensamento.
No entretanto, dispara aproximando-se timidamente, o cirurgião da CPRE “Diga lá o que quer saber? Correu tudo muito bem, sem complicações. Rápido e eficaz, os dois cálculos que tinha a obstruir o canal, sairam sem qualquer dificuldade!”.  “Pronto, sendo assim, era só isso!” descansei-o, olhando para o que continuava ao meu lado a rir-se para mim enquanto eu pensava “Mas afinal quem é este mesmo?”.
Ele não tardou em esclarecer-me “A CPRE é a especialidade do meu colega, eu sou mesmo aquele que lhe vai tirar a vesícula, amanhã, se tudo estiver bem com as análises e consigo! Como aliás, pela CPRE e olhando para si, se prevê! Tem alguma dúvida?” acrescenta, piscando-me o olho. “De momento não me ocorre nada!” confesso. “Ótimo! Quer dizer que não mudou de ideias. Descanse. Amanhã voltamos a falar!”. E pufff, entre sorrisos, sumiram-se os dois e eu para o meu quarto!

Cenas de um internamento – Parte V

Às portas da CPRE

Batem as 13h00, sigo na minha cama, para o bloco da gastroenterologia, depositam-se numa pequena sala individual (de recobro).
A enfermeira taz-me uns papéis, tipo termos de responsabilidade, para assinar, um sobre a CPRE e outro sobre a anestesia.
Começo a ler os papéis, a enfermeira olha para mim, e diz “Sendo assim, já cá volto!”. Ao que observo “Convém ler antes de assinar, certo?” e ela sorri e diz “Sim, sim! Esteja à vontade!”.
Os tais papéis diziam, basicamente, que o médico me tinha dado a conhecer o procedimento que iria realizar, que este podia não surtir o efeito desejado e que tinha risco e consequências inerentes, as quais me tinham sido transmitidas. O outro papel referia os vários tipos de anestesias e as possíveis consequências, curiosamente, nenhuma das referida era a com que me iam brindar.
A enfermeira regressa, entrego-lhe os papéis, assinados e digo “Quais são os riscos da CPRE? Gostava que me explicassem, embora já tenha assinado os papéis!”. A enfermeira olha-me espantada e diz “Para isso vou ter de chamar o médico, é melhor ser ele a explicar!”. Como não acrescentei mais nada, a moça seguiu caminho.
Minutos mais tarde, entra o cirurgião, meio envergonhado, e diz “Boa tarde! Então diga lá o que é que quer saber?”.
Sorrio, e avanço sem medos, “Relativamente ao procedimento não tenho dúvidas nenhumas, já percebi! Mas ninguém me falou nos riscos e era esses que eu queria conhecer.”
O cirurgião olha-me atento e desconfiado “As complicações ocorrem apenas em 1% dos doentes, envolvem hemorragias internas e o desenvolvimento de pancreatite, pois o que pretendemos limpar, por vezes, desloca-se para o pâncreas. De qualquer das formas são tudo situações que se detetam, e resolvem, em menos de 24 horas e como disse são casos raros!”. Face ao meu olhar, ele exclama “Já sei o que me vai dizer. Nós podemos ser o 1% mas vai ver que não vai ser!”
Ocorreu-me apenas dizer “Percebido. É sempre bom sabermos ao que vamos e o que nos pode esperar!”
O cirurgião sorri e diz “Fez bem em perguntar, até porque é uma menina nova!”. E eu pensei “Como? O que é que isso tem a ver?”. Enfim… percebi, naquele momento, que os cirurgiões são homens de poucas palavras, ou nenhumas, se lhes derem essa opção.
A enfermeira regressou para me levar à sala onde ia fazer a CPRE, e no caminho perguntei-lhe “Eu acho, pelo que li, que não vou levar nenhuma das anestesias que referia no papel que me deu!”, ela riu-se e disse “Não se preocupe, os efeitos secundários é que são os mesmos! Só a  vamos por a dormir, um sono maravilhoso, digo-lhe eu que já experimentei. Chama-se propofol e era o preferido do Michael Jackson! Mas pode já falar com a anestesista.” diz entre risos. Aquilo naõ me deixou muito descansada e pensei “Oh no, here we go again! De refilona a inquisidora, querem ver!”.
Ao entrar na sala, varreu-se toda e qualquer ideia de perguntar o que é que fosse, uma marquesa e ao meio, por cima, um monitor grande e uma sala pequenina mesmo ao lado com um grande monitor e computador, tipo a sala de controlos, e eu pensei “Oh meu Deus! Aqui vou eu!” mas a anestesista explicou-me tudo, acho que o cirurgião e a enfermeira lhe disseram qualquer coisa, enquanto me preparava e artilhava toda.
“Tudo a postos, vamos?” diz a anestesista para o cirurgião que se desloca da “sala de comandos”, senta-se à minha frente, sorri timidamente, ao género de quem dá o seu consentimento, e puffff… apaguei-me, para acordar 1 hora mais tarde na sala de recobro e pensar divertida, não sei se será bom ou má, para a fama do senhor cirurgião por as pessoas a dormir assim que o veem, foi um ápice!

Cenas de um internamento – Parte IV

A primeira manhã

Em jejum desde as 0h00 para fazer a CPRE, marcada para as 13h30, depois de uma noite quase em claro, sem dores mas com mil e uma coisas na cabeça, entre medir a tensão, tirar sangue e o catéter a pingar glucose e os movimento e luzes nos corredores tão típicos dos hospitais, a manhã, do 2º dia de internamento, chegou e com ela mais um senhor doutor para me observar e ouvir a minha “história”. Tão entretida que estava a ler, no meu kindle, que quase não me apercebi da sua chegada; dou com ele a sorrir, divertido, para mim e para o meu kindle, vá, talvez mais para o meu kindle :)!
Fez-me algumas perguntas, observou-me, eu esclareci todas as dúvidas para a CPRE e rematei com um “Então e depois quando é que retiro a vesícula?. Ele abre-me muito os olhos e diz “Não é urgente, não tem a vesícula inflamada, nem nenhuma complicação nessa zona. Só mesmo os cáculos!”.
Eu contraponho “Sim mas se a “pedreira” lá continua a probabilidade de me voltar a acontecer o mesmo, não só existe como é grande, certo?”.
Ele sorri e diz “Sim a probabilidade existe, se é grande ou pequena, depende de vários factores! De qualquer das formas, neste momento, continua a não ser uma urgência retirar a sua vesícula, a CPRE sim, é urgente! Acho pouco provável que lhe façam as duas coisas neste internamento”.
“A CPRE é já daqui a nada, e à partida, o assunto fica resolvido! Relativamente à vesícula, não há tratamento possível, correto? Mais tarde ou mais cedo, vou ter que a tirar, é isso não é?” digo eu pondo os pontos nos i´sss.
Ele ri-se, com vontade, e diz “Sim, é isso!”
E eu volto ao ataque “Sendo assim, e não havendo nenhuma contraindicação médica, gostaria que, ainda neste internamento, me tirassem também a vesícula!”
Ele olha-me atentamente “Tem a certeza? Não há nenhuma contraindicação médica, a não ser que surja alguma complicação, que não se espera, na CPRE mas não é muito comum!”
Não perdendo a oportunidade e a abertura esclareço-o “Claro que tenho a certeza. Eu tenho três filhos para criar, quando mais depressa resolver isto melhor!” e quase, quase que me saía o meu tão típico “Não tenho tempo para estas fantasias” mas contive-me a tempo.
O médico sorriu, olhando-me com outros olhos, e disse “Sendo assim, resta-me comunicar o seu desejo aos cirurgiões! Mas olhe que é preciso coragem”
“Vamos a isso, então!” acrescentei apenas.

Nota: Obviamente, que esta conversa só faz sentido porque estava internada num hospital privado. No público, não sendo urgente, teria que ir para a lista de espera para me retirarem a vesícula e sujeitar-me, no entretanto, a ter mais não sei quantas complicações por causa da minha pedreira interna. As coisas, infelizmente, às vezes, são como são…

Cenas de um internamento – Parte III

A 1ª lição

Aguardo junto à zona das consultas, para que me chamem, para o piso do internamento. Valeu-me o livro que levei, estava tudo um pouco caótico, e o entretenimento providenciado por um discurso muito polite e british de um funcionário do hospital, para um paciente estrangeiro, sobre seguros de saúde e seguradoras e o que no caso dele cobriam ou não cobriam,  que decorria ali mesmo à minha beira.
Entretanto, já com um cateter no braço, as enfermeiras não perdem tempo, continuo a aguardar que me chamem.
Passa por mim, pé ligeiro, uma auxiliar, empurrando uma cadeira de rodas, e chama alto e bom som o meu nome.
Dirijo-me a ela e ela, com um sorriso, olhando para a cadeira, diz “Vamos?” e eu olho para ela, olho para a cadeira e digo “Não posso ir pelo meu pé? Estou bem, não é necessário!”. Ela sorrindo, pacientemente, com quem já ouviu aquilo milhentas vezes, esclarece-me “Não pode ser. Agora a senhora é responsabilidade do hospital. Imagine que cai e se magoa…”. Sento-me resignada na cadeira. Restou-me apenas dizer “Ok, vamos lá então. Não fazia ideia! Então não posso andar pelo hospital pelo meu pé e de minha livre vontade?”, diz-me ela, entre risos, “Claro que pode! Mas nunca em deslocações “oficiais”, para ir fazer exames, etc, é a política do hospital.”
Fiquei pensando cá para comigo, “Hummmm… parece-me que isto vai ser mais díficil do que imaginava! Desprovida, oficialmente, do poder de locumução logo no 1º embate.”

Cenas de um internamento – Parte II

Caindo na real

Depois de um fim de semana menos bom, com dores e mal estar, lá fui fazer as análises, para voltar à escola e ao final do dia me sentir pior que nunca. “Vou à consulta ao hospital e desconfio que não saio já de lá!” disse pela manhã a excelentíssimo esposo que sorriu e disse “Não sejas parva!”. Ora pois então confirmou-se, não sai, nesse dia, só depois de 4 dias!
Médica muita atenta, face à descrição, afirmou logo que lhe parecia ser um problema de vesícula e um mau diagnóstico realizado nas urgências. Confirmado e alargado o diagnóstico com uma ecografia abdominal, dois cálculos (pedras) estavam a obstruir os canais biliares, não permitindo a passagem da bilis para o duodeno e uma vesícula que mais parecia uma pedreira.
Fiz muitas perguntas, escutei, tentei acompanhar a conversa entre médicos, recordando as minhas aulas de biologia e algumas coisa que li aqui e ali, observei com atenção os desenhos que me fizeram, aprendi muitos termos e procedimentos novos nesse dia (litíase, coledocolitiase, colangite, císitco, colédoco, papila de Vater, CPRE e sei lá que mais).
Sentia-me relativamente bem, não tinha dores nem febre, nenhum sinal de inflamação  (niveis de proteína C reativa normais) e o facto da bílis ainda não ter “inundado” a circulação sanguínea (níveis de bilirubinas dentro dos parâmetros normais) eram bons sinais mas a coisa podia mudar de figura rapidamente.
O urgente era “desentupir” o canal, para evitar o mau tempo ou a tempestade atempadamente, fazer uma CPRE era a solução.
O cirurgião ponderou e considerou que, sendo eu moça nova, com um dilatador das vias poderia a situação resolver-se por si em 1 dia ou 2, sugerindo a medicação, referindo bem os sinais de alarme aos quais devia estar atenta, e desejando voltar a ver-me daí a 2 dias para avaliarmos a situação.
Eu só não queria era voltar a ter aquelas dores horríveis, durante horas e horas, que tinha tido no dia anterior mas que naquele dia, curiosamente, ou talvez por não ter comido nada, ainda não se tinham manifestado, salientando e comentando este facto com a médica.
A médica, por descargo de consciência, mandou repetir as análises do dia anterior, para ter a certeza, face à minha descrição, que tudo estava bem. As análises revelaram algumas alterações e ela, por precaução, não hesitou “Fica cá internada e amanhã faz uma CPRE. Está decidido. Não vale a pena arriscar”.
Eu respirei de alívio, passei a manhã a mentalizar-me que aquele seria o panorama mais provável; excelentíssimo esposo escuta atento as palavras da médica, espantando e  e meio assolapado ao meu lado, acabado de chegar de um curso para colocar em prática o Plano de Emergência da sua empresa, para se ver a braços com um plano de emergência familiar a colocar, de imediato, em ação… ironias e humores da vida! Coitadito… eu, estava bem, sem dores, devia ser dos ares e cheiros do hospital, e de telemóvel em riste demos início às operações, que para a frente é que era o caminho!

Cenas de um internamento – Parte I

A leste do paraíso

“Tem as análises, no que diz respeito ao fígado, muito alteradas!” diz-me, numa bela 6ª feira de madrugada, a senhora doutora das urgências, quando me decidi entregar à ciência face às dores insuportáveis, depois de pequeno do meio ter apanhado um virose que afetou, essencial e grandemente, os seus cotas progenitores.
“Mas pode enquadrar-se, perfeitamente, no âmbito de uma virose! De qualquer das formas, 2ª feira vem repetir as análises, para vermos como evolui e, na 3ª, logo pela manhã, vem à consulta de medicina interna. Até lá cozidos e grelhados, apenas!” esclarece-me ela, prontamente.
Ouço isto e começo a pensar no meu horário maluco, análises, consulta, aulas e aulas para faltar e a matéria por dar, tentando conciliar a coisa, ginasticando e subdividindo-me, arrisco perguntar “Será que a consulta não podia ser na 4ª? Para fazer as  análises é necessário estar em jejum?”
Com um ar que só as mães sabem fazer, lançou-me um olhar furioso e silencioso, como quem diz, “Estás aqui, estás a levar um ralhete daqueles! Não estás mesmo a perceber o que te estou a dizer pois não?!”.
A minha reação foi imediata, assim com quem ousou, pecou, foi apanhado em flagrante delito e pede desculpa baixinho, dizendo “Ok! Cá estarei!”, enquanto observo a médica e excelentíssimo esposo a abanarem a cabeça, ao género de, “Está completamente a leste do paraíso, claramente, ainda não percebeu que está DOENTE!”
Feita parvinha, vim para casa, pensando na troca e compensação de aulas, para que os alunos não ficassem a perder. No dia seguinte depois da reação dos meus alunos (de 11º), quando lhes propus uma troca de aulas, baixou em mim a irritação e o espírito, “Esqueçam não está cá quem falou. Assunto encerrado. Não têm aula!”. Desmobilizei as trocas que já tinha feito com colegas e assumi, baixando o braços, e isto custa, “Estou doente, não me sinto bem! Tenho as faltas justificadas e eles estão-se a borrifar para isto! Trata de ti e esquece o resto!”. Excelentíssimo esposo bateu palmas pela atitude, dizendo “Tens as faltas justificadas para que te estás a chatear? Saúde acima de tudo!”; sorriu, condescendentemente, face à minha enorme irritação com os meus alunos, dizendo sabiamente “Pensa lá! Na idade deles, como reagirias?!”

Devo ser só eu…

Se concordo com a rentabilização e dinamização, do património cultural como fonte de rendimento para ajudar na sua manutenção e conservação? Sim, parece-me uma excelente ideia, até porque a bilheteira não traz grande rendimento na maioria destes espaços.
Se concordo com jantares e receções no Panteão? Eh pá, não seria o meu local de eleição, simplesmente, porque acho um pouco mórbido. Quem por lá repousa, não deve estar nem aí, digo eu! Os portugueses, pois os portugueses, grande maioria, provavelmente, tirando 1 ou 2 dos mais recentes, nem sabe quem são os ilustres que por lá jazem, nem nunca lá colocou um pé quanto mais os dois.
Rídiculo, à brava, é um primeiro ministro que dedica o seu tempo a criticar um jantar do web submmit, ao que parece à luz das velas, aponta o dedo a outros, que por sua vez apontam o dedo a outros e a outros, da esquerda para a direita, e afinal, surpresa das surpresas, está tudo legislado. E as redes inflamam-se e tudo critica, “Como é possível? Que falta de respeito?” e outras do género, de falso moralismos está o nosso país cheio.
Foi, é e continuará a ser possível a realização deste tipo de eventos, enquanto a lei não for alterada e acredito que não o seja.
Cereja no topo do bolo, foi o presidente doa afetos, aquele que lê não sei quantos livros numa semana, e dorme 4 horas por noite, que é o que sempre foi, esse o tal que apregoam o presidente de todos os portugueses, mas que já vai deixando cair a máscara, dizer que a Maria Cavaco Silva foi madrinha de todos nós! Grande lata! Haja paciência para esta corja, tudo farinha do mesmo saco e apraz-me apenas dizer “Com papas e bolos, se enganam os tolos!” ou “Quando o sábio aponta para a lua, o idiota olha para o dedo!” Sim, porque com os problemas estruturais que temos o mais importante, para eles, os tais que nos desgovernam, é que nos entretelhamos com estas minudências, enquanto o mais importante nos vai escapando da atenção, tão contentes que andámos a destilar fel! Me engana que eu gosto…