Cenas de um internamento – Parte XII

Uma septuagenária, durante uma crise, queixando-se de uma dor no peito e a médica estagiária, mulher do norte, pergunta-lha “Mas como é que é a dor? É assim tipo facada?”. E eu pensei, ora aí está uma questão que eu não saberia responder…a paciente provavelmente também não!

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Cenas de um internamento – Parte XI

O hotel

Cheio de energia, pronto a conquistar e a conhecer o mundo, bonito, sorriso fácil, naquela maneira caracterísitca ditada pelos seus 8 anos de vida, contempla o quarto que lhe foi atribuído e diz para a mãe esperançoso “Quando é que podemos ir à piscina deste hotel?”. No dia seguinte, ia fazer uma circunsição, tinha acabado de ser internado no hospital.

Cenas de um internamento – Parte X

A sintomia, à beira de ter alta

Antes de ter alta, uma senhora nutricionista veio falar comigo sobre os cuidados a ter neste 1º mês sem vesícula “Nada de gorduras, preferir o peixe à carne. As carnes, sempre preferencialmente, brancas e em quantidade muito reduzida as vermelhas!”
O senhor doutor da medicina interna avisou-me “Como está com anemia, coma muita carne, a vermelha é a mais eficaz para suprimir a falta de ferro!”
O querido e simpático cirurgião disse-me apenas “Coma o que lhe apetecer e quando lhe apetecer! Vai ver que o seu corpo sabe o que precisa e rejeita, apenas ao olhar, o que lhe faz mal! É rija vai recuperar num instante!”
Procurando um equílibrio entre os dois primeiros pareceres, concluo que o 3º, o do meu querido, simpático e prático cirurgião, é bastante verdadeiro, pois, neste momento, há comidas que só de pensar ou sentir o cheiro, fico de imediato, enjoada.

Nota – A todos os que me ligaram, mandaram mensagens e mails, muito obrigada pelo vosso carinho e preocupação, por me distrairem e ajudarem a passar o tempo, que no hospital parece passar muito devagar. Estavas, e estais, para sempre no meu coração. Aos que não souberam e/ou não poderam ou conseguiram falar comigo, ficai descansados, estou bem e em franca recuperação, não divulguei o meu estado pois não havia necessidade de vos preocupar, em vão, como se constata, safei-me, ainda não foi desta que vos livrasteis de mim, espero andar por cá mais uns tempos a melgar-vos o juízo… sempre com qualidade e espírito, espero… depois de duas anestesias seguidas uma pessoas põem-se a pensar…naqueles papéis que assinou. Fiquem bem que eu cá vou fazer por isso!

Cenas de um internamento – Parte IX

No pós operatório

Depois do recobro, cheia de dores, a enfermeira dá-me o analgésico para a veia e eu remato com “Agora é aguentar e cara alegre, certo?”  ao que ela responde “É mais ou menos isso!”.
Naquela longa noite, ocorreu-me várias vezes “Sai de uma para me meter noutra!” pois a intensidade das dores eram semelhantes às do início da semana quando tudo começou. Foram amainando ao longo da noite mas ainda longe da fase “aceitável/tolerável”, rezando para que a manhã chegasse rápido.
O senhor doutor da medicina interna veio observar-me e disse “Está ótima, já se houve tudo a funcionar mas está cheia de dores não está? Não tem que aguentar estoicamente, há ali os comprimidos em caso de SOS.”
Às 10h00, o meu querido e simpático cirurgião veio visitar-me “Agora já se pode levantar, o ideal é estar sentada num cadeirão, o pior neste tipo de operações é ter que estar deitado!”. “A quem o diz” respondo-lhe ganhando novo ânimo.
“Ainda não se foi embora ou já voltou?” pergunto-lhe.
“Ó, já cá estou desde as 9h00! Espera-me outro longo dia” responde ele com naturalidade. “Olhe que isso não faz bem à saúde!” digo-lhe.
Ele ri-se e diz “Pois, mas eu estou aqui e a minha querida amiga é que está aí deitada!”. Remato com um “É verdade mas sabe tão bem, ou melhor, que eu, que as posições facilmente se invertem!”.
Ele já em passo acerelado junto à porta diz-me “Ehehehe, tem toda a razão! Parece-me ótima, hoje à tarde, se tudo correr bem, já pode ir para casa ter como os seu filhotes, que lhe parece?!”.
Foi só o que eu quis ouvir, levantei-me logo de seguida, e as dores abrandaram de imediato, tomei uma bela banhoca e quase, quase que me senti humana outra vez e pronta para outra!

Cenas de um internamento – Parte VIII

No bloco operatório

Sala fresca, demasiado fresca, estremeço de frio/medo, cheia de uma espécie de refletores, toda a gente a mexer em cenas e coisas, uma parafenália de objetos, simpáticos, acolhem-me bem.
O anestesista, bem disposto, apresenta-se, e vai observando que a sala é muito pequena e como é que vão caber lá todos, inquirindo sobre as posição de cada um.
Com as suas dúvidas esclarecidas, manda o enfermeiro chutar-me qualquer coisa para a veia; não passa, o cateter deixou de funcionar, ou melhor, em lingugem técnica, não está permeável! Penso “Here we go againa e respiro fundo” enquanto eles me procuram as veias e mal dizem os enfermeiros do piso. Sorrio pensando, cenas e coisas que acontecem em todas as profissões.
Uma das enfermeira trauteia a música “Ai se eu te pego, ai, ai … assim você me mata” e eu exclamo “Ai isso é que não!”. A enfermeira fica meio incomodada e vem ao pé de mim “Não se preocupe, estava só a brincar. Não conhece a música?”. Entre risos nervosos, descanso-a “Conheco pois mas pegar vocês já me pegaram, queria mesmo era evitar a parte do assim você me mata!”. Os presentes riem-se com vontade enquanto eu digo para o anestesista “Ai, por favor, estou toda frita, ponha-me a dormir!”. E o anestesista, sem hesitações, põe a máquina em funcionamento exclamando “Vamos lá por esta princesa a dormir que ela está a ficar nervosa! Durma bem minha princesa! Em breve, cá estaremos para o seu acordar”. Pelo canto do olho, vejo o cirurgião entrar na sala sorrir e pufff apaguei. Deve haver qualquer coisa mágica naqueles sorrisos, uma pessoa põe-se logo a dormir.
Mais tarde, acordo com um “Olha a nossa princesa voltou! Bela e maravilhosa como sempre! Não tem nada para nos dizer” do anestesista. Toda eu tremia, de frio, ocorreu-me apenas um “Muito obrigada” enquanto pensava “Deve ser mesmo, bela e maravilhosa. Isto dói que eu sei lá, devo estar branca com a cal e que enjoo!”
Perguntei as horas, a enfermeira responde “São nove horas! Está a fazer as contas não está? Não precisa, demorou 20 minutos e correu tudo lindamente! Tiramos-lhe uma vesícula cheia de pedras”. “Posso ver?” pergunto. Os presentes entreolham-se, cúmplices no crime, e com um frasco na mão “Não costumamos mostrar mas vamos lá então!”. Olhei para ela e pensei “Coisa tão pequena para dar tanta chatice! Já foste demónio! Desta já não sofro mais!” e ali me despedi da dita cuja e daquela simpática equipa.

Cenas de um internamento – Parte VII

No dia eu que fiquei sem vesícula

Sem dores, descubro que devo ter bicho carpinteiros, pois, aparentemente, para mim, a parte mais díficil da CPRE, é ter que ficar 24 horas em repouso, sem me levantar. Ao fim de algumas horas, não há posição nem paciência.
A meio da noite, sem grande sono, apercebo-me que o cateter pifou e a glucose não alimentou a minha veia mas sim os lençóis.
Vem o enfermeiro, moço novo do norte, que me rebenta uma veia e lá me encontra outra a custo depois de esmiuçar mais um bocadito, dizendo que “Tenho veias de passarinho e que lhe dão baile!”. Para além de maus fígados, já conhecidos, parece que também tenho más veias. Só que não porque há quem as encontre, as minhas veias, sempre à 1ª e quase sem dor para mim, apesar dos braços meio massacrados de tanto cateter e análises diárias. Como em todos os trabalhos não se pode ser bom em tudo e há coisas onde a experiência conta e nos ajuda a melhorar, alguém tem que ser cobaia no caminho. Chato quando somos nós as cobaias mas a vida é mesmo assim!
De manhã, o senhor doutor da medicina interna, disse-me que as análises estavam boas, eu estava ótima (tirando a pedreira, observei eu) e iam avançar com a cirurgia para retirar a vesícula, provavelmente ao final do dia, porque o cirurgião tinha um dia complicado entre consultas e bloco operatório. Música para os meus ouvidos, foi assim que aquilo me soou! Explicou-me que o procedimento seria por laparoscopia, para que servia cada um dos furinhos, luz, câmara, instrumentos, ar e mais não sei o quê, mas, curiosamente, e fixei-me na parte em que disse “Uma pessoa segura no fígado”. Cenas parvas em que uma pessoa se centra…
Durante o dia, entre raio X ao torax  e eletrocardiograma, medito sobre quando será a hora de ir à faca, agora já não há volta a dar, na esperança que tenha tomado a opção correta e que de não me vir a arrepender.
Desço, na minha cama, para o bloco operatório às 19h30, pensando que o cirurgião está no hospital desde as 9hoo, esperando que não esteja cansado e, por engano, não me tire qualquer coisa que eu preciso mesmo a sério, em vez da minha pedreira vesícula.
A enfermeira passa-me para a marquesa e diz “Agora é só esperar que o Dr venha para assinar o termo de responsabilidade.” Ele não tarda, faz-me festinhas no braço, dizendo vai correr tudo bem, e eu digo-lhe “Ah pois tem que correr, que eu tenho 3 filhos para criar!” e encetamos uma conversa sobre filhos e mães. Pisca-me o olho e diz-me “Como ontem, já sabe que tem que assinar estes papéis! Fique descansada que não diz aí que lhe posso tirar o que quiser mas tenho que a avisar que apesar de ser por laparoscopia pode haver a necessidade de cortar mais, depende do que encontrarmos. Tem alguma dúvida?”.  ” Não, vamos a isto!”  respondo-lhe nervosa. “Fique descansada. Vai correr tudo bem , vou tratar bem de si! Já nos encontramos”. E siga para o bloco!

Cenas de um internamento – Parte VI

No recobro da CPRE

Abro os olhos e constato que me encontro na mesma sala onde assinei os tais papéis.
A enfermeira não tarda a chegar e depois de me perguntar se me sentia bem e falar um pouco comigo me dizer “Está tudo bem. Vou levá-la então para o seu quarto! Está bem?”. Ao que eu disse “Mas, antes, eu gostava de saber como correu tudo!”. Ela sorriu, deu de ombros, dizendo “É só um bocadinho!”.
Fechei de novo os olhos para acordar com uma festinha na cabeça e um “Olá! Como se sente?” de alguém, simpático, mas que nunca tinha visto.  Sorri, pensando, ia jurar que não foi este senhor de bata branca que me fez a CPRE. Ele exclamou “Está a sorrir?” ao que eu respondi “A vida leva-se melhor assim!”. Ele sorriu também e disse “Tem toda a razão!”
Durante a nossa troca de galhardetes, entra o cirurgião  que me fez a CPRE, uma pessoa não esquece a última cara que viu, antes de dormir o sono preferido do Michael Jackson, digo, ou espero, eu.
Respirei fundo, aliviada pensei, “Ainda não foi desta que fritei a pipoca de vez! Fui este, e não o que está aqui ao meu lado, que me fez a CPRE”; o cirurgião ao meu lado olhou para mim e  riu-se, provavelmente, lendo-me o pensamento.
No entretanto, dispara aproximando-se timidamente, o cirurgião da CPRE “Diga lá o que quer saber? Correu tudo muito bem, sem complicações. Rápido e eficaz, os dois cálculos que tinha a obstruir o canal, sairam sem qualquer dificuldade!”.  “Pronto, sendo assim, era só isso!” descansei-o, olhando para o que continuava ao meu lado a rir-se para mim enquanto eu pensava “Mas afinal quem é este mesmo?”.
Ele não tardou em esclarecer-me “A CPRE é a especialidade do meu colega, eu sou mesmo aquele que lhe vai tirar a vesícula, amanhã, se tudo estiver bem com as análises e consigo! Como aliás, pela CPRE e olhando para si, se prevê! Tem alguma dúvida?” acrescenta, piscando-me o olho. “De momento não me ocorre nada!” confesso. “Ótimo! Quer dizer que não mudou de ideias. Descanse. Amanhã voltamos a falar!”. E pufff, entre sorrisos, sumiram-se os dois e eu para o meu quarto!

Cenas de um internamento – Parte V

Às portas da CPRE

Batem as 13h00, sigo na minha cama, para o bloco da gastroenterologia, depositam-se numa pequena sala individual (de recobro).
A enfermeira taz-me uns papéis, tipo termos de responsabilidade, para assinar, um sobre a CPRE e outro sobre a anestesia.
Começo a ler os papéis, a enfermeira olha para mim, e diz “Sendo assim, já cá volto!”. Ao que observo “Convém ler antes de assinar, certo?” e ela sorri e diz “Sim, sim! Esteja à vontade!”.
Os tais papéis diziam, basicamente, que o médico me tinha dado a conhecer o procedimento que iria realizar, que este podia não surtir o efeito desejado e que tinha risco e consequências inerentes, as quais me tinham sido transmitidas. O outro papel referia os vários tipos de anestesias e as possíveis consequências, curiosamente, nenhuma das referida era a com que me iam brindar.
A enfermeira regressa, entrego-lhe os papéis, assinados e digo “Quais são os riscos da CPRE? Gostava que me explicassem, embora já tenha assinado os papéis!”. A enfermeira olha-me espantada e diz “Para isso vou ter de chamar o médico, é melhor ser ele a explicar!”. Como não acrescentei mais nada, a moça seguiu caminho.
Minutos mais tarde, entra o cirurgião, meio envergonhado, e diz “Boa tarde! Então diga lá o que é que quer saber?”.
Sorrio, e avanço sem medos, “Relativamente ao procedimento não tenho dúvidas nenhumas, já percebi! Mas ninguém me falou nos riscos e era esses que eu queria conhecer.”
O cirurgião olha-me atento e desconfiado “As complicações ocorrem apenas em 1% dos doentes, envolvem hemorragias internas e o desenvolvimento de pancreatite, pois o que pretendemos limpar, por vezes, desloca-se para o pâncreas. De qualquer das formas são tudo situações que se detetam, e resolvem, em menos de 24 horas e como disse são casos raros!”. Face ao meu olhar, ele exclama “Já sei o que me vai dizer. Nós podemos ser o 1% mas vai ver que não vai ser!”
Ocorreu-me apenas dizer “Percebido. É sempre bom sabermos ao que vamos e o que nos pode esperar!”
O cirurgião sorri e diz “Fez bem em perguntar, até porque é uma menina nova!”. E eu pensei “Como? O que é que isso tem a ver?”. Enfim… percebi, naquele momento, que os cirurgiões são homens de poucas palavras, ou nenhumas, se lhes derem essa opção.
A enfermeira regressou para me levar à sala onde ia fazer a CPRE, e no caminho perguntei-lhe “Eu acho, pelo que li, que não vou levar nenhuma das anestesias que referia no papel que me deu!”, ela riu-se e disse “Não se preocupe, os efeitos secundários é que são os mesmos! Só a  vamos por a dormir, um sono maravilhoso, digo-lhe eu que já experimentei. Chama-se propofol e era o preferido do Michael Jackson! Mas pode já falar com a anestesista.” diz entre risos. Aquilo naõ me deixou muito descansada e pensei “Oh no, here we go again! De refilona a inquisidora, querem ver!”.
Ao entrar na sala, varreu-se toda e qualquer ideia de perguntar o que é que fosse, uma marquesa e ao meio, por cima, um monitor grande e uma sala pequenina mesmo ao lado com um grande monitor e computador, tipo a sala de controlos, e eu pensei “Oh meu Deus! Aqui vou eu!” mas a anestesista explicou-me tudo, acho que o cirurgião e a enfermeira lhe disseram qualquer coisa, enquanto me preparava e artilhava toda.
“Tudo a postos, vamos?” diz a anestesista para o cirurgião que se desloca da “sala de comandos”, senta-se à minha frente, sorri timidamente, ao género de quem dá o seu consentimento, e puffff… apaguei-me, para acordar 1 hora mais tarde na sala de recobro e pensar divertida, não sei se será bom ou má, para a fama do senhor cirurgião por as pessoas a dormir assim que o veem, foi um ápice!

Cenas de um internamento – Parte IV

A primeira manhã

Em jejum desde as 0h00 para fazer a CPRE, marcada para as 13h30, depois de uma noite quase em claro, sem dores mas com mil e uma coisas na cabeça, entre medir a tensão, tirar sangue e o catéter a pingar glucose e os movimento e luzes nos corredores tão típicos dos hospitais, a manhã, do 2º dia de internamento, chegou e com ela mais um senhor doutor para me observar e ouvir a minha “história”. Tão entretida que estava a ler, no meu kindle, que quase não me apercebi da sua chegada; dou com ele a sorrir, divertido, para mim e para o meu kindle, vá, talvez mais para o meu kindle :)!
Fez-me algumas perguntas, observou-me, eu esclareci todas as dúvidas para a CPRE e rematei com um “Então e depois quando é que retiro a vesícula?. Ele abre-me muito os olhos e diz “Não é urgente, não tem a vesícula inflamada, nem nenhuma complicação nessa zona. Só mesmo os cáculos!”.
Eu contraponho “Sim mas se a “pedreira” lá continua a probabilidade de me voltar a acontecer o mesmo, não só existe como é grande, certo?”.
Ele sorri e diz “Sim a probabilidade existe, se é grande ou pequena, depende de vários factores! De qualquer das formas, neste momento, continua a não ser uma urgência retirar a sua vesícula, a CPRE sim, é urgente! Acho pouco provável que lhe façam as duas coisas neste internamento”.
“A CPRE é já daqui a nada, e à partida, o assunto fica resolvido! Relativamente à vesícula, não há tratamento possível, correto? Mais tarde ou mais cedo, vou ter que a tirar, é isso não é?” digo eu pondo os pontos nos i´sss.
Ele ri-se, com vontade, e diz “Sim, é isso!”
E eu volto ao ataque “Sendo assim, e não havendo nenhuma contraindicação médica, gostaria que, ainda neste internamento, me tirassem também a vesícula!”
Ele olha-me atentamente “Tem a certeza? Não há nenhuma contraindicação médica, a não ser que surja alguma complicação, que não se espera, na CPRE mas não é muito comum!”
Não perdendo a oportunidade e a abertura esclareço-o “Claro que tenho a certeza. Eu tenho três filhos para criar, quando mais depressa resolver isto melhor!” e quase, quase que me saía o meu tão típico “Não tenho tempo para estas fantasias” mas contive-me a tempo.
O médico sorriu, olhando-me com outros olhos, e disse “Sendo assim, resta-me comunicar o seu desejo aos cirurgiões! Mas olhe que é preciso coragem”
“Vamos a isso, então!” acrescentei apenas.

Nota: Obviamente, que esta conversa só faz sentido porque estava internada num hospital privado. No público, não sendo urgente, teria que ir para a lista de espera para me retirarem a vesícula e sujeitar-me, no entretanto, a ter mais não sei quantas complicações por causa da minha pedreira interna. As coisas, infelizmente, às vezes, são como são…

Cenas de um internamento – Parte III

A 1ª lição

Aguardo junto à zona das consultas, para que me chamem, para o piso do internamento. Valeu-me o livro que levei, estava tudo um pouco caótico, e o entretenimento providenciado por um discurso muito polite e british de um funcionário do hospital, para um paciente estrangeiro, sobre seguros de saúde e seguradoras e o que no caso dele cobriam ou não cobriam,  que decorria ali mesmo à minha beira.
Entretanto, já com um cateter no braço, as enfermeiras não perdem tempo, continuo a aguardar que me chamem.
Passa por mim, pé ligeiro, uma auxiliar, empurrando uma cadeira de rodas, e chama alto e bom som o meu nome.
Dirijo-me a ela e ela, com um sorriso, olhando para a cadeira, diz “Vamos?” e eu olho para ela, olho para a cadeira e digo “Não posso ir pelo meu pé? Estou bem, não é necessário!”. Ela sorrindo, pacientemente, com quem já ouviu aquilo milhentas vezes, esclarece-me “Não pode ser. Agora a senhora é responsabilidade do hospital. Imagine que cai e se magoa…”. Sento-me resignada na cadeira. Restou-me apenas dizer “Ok, vamos lá então. Não fazia ideia! Então não posso andar pelo hospital pelo meu pé e de minha livre vontade?”, diz-me ela, entre risos, “Claro que pode! Mas nunca em deslocações “oficiais”, para ir fazer exames, etc, é a política do hospital.”
Fiquei pensando cá para comigo, “Hummmm… parece-me que isto vai ser mais díficil do que imaginava! Desprovida, oficialmente, do poder de locumução logo no 1º embate.”

Cenas de um internamento – Parte II

Caindo na real

Depois de um fim de semana menos bom, com dores e mal estar, lá fui fazer as análises, para voltar à escola e ao final do dia me sentir pior que nunca. “Vou à consulta ao hospital e desconfio que não saio já de lá!” disse pela manhã a excelentíssimo esposo que sorriu e disse “Não sejas parva!”. Ora pois então confirmou-se, não sai, nesse dia, só depois de 4 dias!
Médica muita atenta, face à descrição, afirmou logo que lhe parecia ser um problema de vesícula e um mau diagnóstico realizado nas urgências. Confirmado e alargado o diagnóstico com uma ecografia abdominal, dois cálculos (pedras) estavam a obstruir os canais biliares, não permitindo a passagem da bilis para o duodeno e uma vesícula que mais parecia uma pedreira.
Fiz muitas perguntas, escutei, tentei acompanhar a conversa entre médicos, recordando as minhas aulas de biologia e algumas coisa que li aqui e ali, observei com atenção os desenhos que me fizeram, aprendi muitos termos e procedimentos novos nesse dia (litíase, coledocolitiase, colangite, císitco, colédoco, papila de Vater, CPRE e sei lá que mais).
Sentia-me relativamente bem, não tinha dores nem febre, nenhum sinal de inflamação  (niveis de proteína C reativa normais) e o facto da bílis ainda não ter “inundado” a circulação sanguínea (níveis de bilirubinas dentro dos parâmetros normais) eram bons sinais mas a coisa podia mudar de figura rapidamente.
O urgente era “desentupir” o canal, para evitar o mau tempo ou a tempestade atempadamente, fazer uma CPRE era a solução.
O cirurgião ponderou e considerou que, sendo eu moça nova, com um dilatador das vias poderia a situação resolver-se por si em 1 dia ou 2, sugerindo a medicação, referindo bem os sinais de alarme aos quais devia estar atenta, e desejando voltar a ver-me daí a 2 dias para avaliarmos a situação.
Eu só não queria era voltar a ter aquelas dores horríveis, durante horas e horas, que tinha tido no dia anterior mas que naquele dia, curiosamente, ou talvez por não ter comido nada, ainda não se tinham manifestado, salientando e comentando este facto com a médica.
A médica, por descargo de consciência, mandou repetir as análises do dia anterior, para ter a certeza, face à minha descrição, que tudo estava bem. As análises revelaram algumas alterações e ela, por precaução, não hesitou “Fica cá internada e amanhã faz uma CPRE. Está decidido. Não vale a pena arriscar”.
Eu respirei de alívio, passei a manhã a mentalizar-me que aquele seria o panorama mais provável; excelentíssimo esposo escuta atento as palavras da médica, espantando e  e meio assolapado ao meu lado, acabado de chegar de um curso para colocar em prática o Plano de Emergência da sua empresa, para se ver a braços com um plano de emergência familiar a colocar, de imediato, em ação… ironias e humores da vida! Coitadito… eu, estava bem, sem dores, devia ser dos ares e cheiros do hospital, e de telemóvel em riste demos início às operações, que para a frente é que era o caminho!

Cenas de um internamento – Parte I

A leste do paraíso

“Tem as análises, no que diz respeito ao fígado, muito alteradas!” diz-me, numa bela 6ª feira de madrugada, a senhora doutora das urgências, quando me decidi entregar à ciência face às dores insuportáveis, depois de pequeno do meio ter apanhado um virose que afetou, essencial e grandemente, os seus cotas progenitores.
“Mas pode enquadrar-se, perfeitamente, no âmbito de uma virose! De qualquer das formas, 2ª feira vem repetir as análises, para vermos como evolui e, na 3ª, logo pela manhã, vem à consulta de medicina interna. Até lá cozidos e grelhados, apenas!” esclarece-me ela, prontamente.
Ouço isto e começo a pensar no meu horário maluco, análises, consulta, aulas e aulas para faltar e a matéria por dar, tentando conciliar a coisa, ginasticando e subdividindo-me, arrisco perguntar “Será que a consulta não podia ser na 4ª? Para fazer as  análises é necessário estar em jejum?”
Com um ar que só as mães sabem fazer, lançou-me um olhar furioso e silencioso, como quem diz, “Estás aqui, estás a levar um ralhete daqueles! Não estás mesmo a perceber o que te estou a dizer pois não?!”.
A minha reação foi imediata, assim com quem ousou, pecou, foi apanhado em flagrante delito e pede desculpa baixinho, dizendo “Ok! Cá estarei!”, enquanto observo a médica e excelentíssimo esposo a abanarem a cabeça, ao género de, “Está completamente a leste do paraíso, claramente, ainda não percebeu que está DOENTE!”
Feita parvinha, vim para casa, pensando na troca e compensação de aulas, para que os alunos não ficassem a perder. No dia seguinte depois da reação dos meus alunos (de 11º), quando lhes propus uma troca de aulas, baixou em mim a irritação e o espírito, “Esqueçam não está cá quem falou. Assunto encerrado. Não têm aula!”. Desmobilizei as trocas que já tinha feito com colegas e assumi, baixando o braços, e isto custa, “Estou doente, não me sinto bem! Tenho as faltas justificadas e eles estão-se a borrifar para isto! Trata de ti e esquece o resto!”. Excelentíssimo esposo bateu palmas pela atitude, dizendo “Tens as faltas justificadas para que te estás a chatear? Saúde acima de tudo!”; sorriu, condescendentemente, face à minha enorme irritação com os meus alunos, dizendo sabiamente “Pensa lá! Na idade deles, como reagirias?!”