Relíquias da adolescência

“Ontem a minha mãe trouxe-me um saco em que guardara aquilo a que chamou as minhas relíquias da adolescência. Havia crachás sem utilidade, medalhas do futebol e um número do boletim do Museu Etnográfico da Graciosa, que ganhei nuns jogos florais. Havia duas fotos do casamento dos meus pais, uma velha edição da Bíblia Sagrada, dedicada pelo meu avô na sua letra trémula – e na qual eu escrevia tiradas subversivas -, e um caderninho de autógrafos com assinaturas de jogadores do Sporting, que eu fora ver jogar em Lisboa.
O futebol estava em todo o lado (…)
Mas foi o caderno do liceu que maior impressão me causou. As aulas estavam todas ao monte – de História, de Inglês, de Técnicas de Tradução. Numas eu ainda tomava alguns apontamentos antes de me aborrecer, noutras nem isso. Nesta fazia a apologia da Alemanha, a que todas as semanas o Miguel Esteves Cardoso elogiava a ética de trabalho e o controlo de qualidade, e na seguinte desenhava foices e martelos.
Em boa parte delas, limitava-me a assentar palpites para a jornada do fim de semana. Nas de Português, punha-me a tirar notas sobre a sátira social em Camilo Castelo Branco e em breve estava a reescrever a história do próprio Camilo, sentado na sua cela, no instante em decidia poupar Simão e Teresa.
Na capa, colara várias fotos, entre as quais uma em que me sentava à máquina, escrevendo com dois dedos apenas. Tudo o mais era o retrato perfeito da minha adolescência: arrogância, confusão ideológica e a capacidade de concentração de uma barata. Para dizer a verdade, nem sei como acabei o liceu.
Meus pobres pais.
Podemos aprender muita coisa com os nossos cadernos da escola. A mais importante é que mudámos pouco. No essencial, eu continuo aquele rapaz de 15 anos a quem só interessava jogar à bola e escrever histórias. Sem jeito para o futebol, é um milagre que me tenham deixado viver de escrever histórias. A minha esperança é que não cheguem a descobrir que continuo a escrever só com dois dedos.” 
Joel Neto in Vida no Campo

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O urbano, o culto e o ignorante

“O tipo de urbano em que eu me estava a transformar era exatamente aquele que não queria. Culpa da cidade, mas em pequeníssima escala. A cidade tem sido bem-aventurança para muitos, e também já o foi para mim. Culpa minha, sobretudo, e por isso mudei-me eu.
O tipo de urbano em que eu me estava a transformar nunca arrisca e raramente experiementa. É céptico por disciplina militar e absoluto quase sempre. Vive refém da sua personagem e, na dúvida, protege a pele.
(…) em nenhum momento ele se pode permitir a ideia de cair no ridículo, e isso não apenas lhe tolhe os movimentos: amputa-lhe os membros.
(…) O tipo de urbano em que eu me estava a transformar está proibido de deslumbrar-se. Desconfia – em suma, é isto. E, quando a vida finalmente nos ensina uma coisa, é que o homem culto acredita. O ignorante, sim, desconfia – o homem culto acredita.”

Joel Neto in Vida no Campo

Bons livros e boas descobertas!

Há hábitos, há a curiosidade, o gosto pela pesquisa e/ou o saber mais, que, por vezes, nos levam a descobrir muito além do que esperávamos, quando não nos ficamos apenas pelas primeiras entradas do google ou seguimos alguns dos links. Uma facto que nunca deixa de me espantar e deslumbrar. Acontece-me com livros, artigos, lugares, pessoas, dados históricos e científicos, receitas, etc., e, por vezes, dou comigo perdida, mas orientada, entre tantas janelas abertas repletas de informação interessante. Registo, aprendo e anoto que, às vezes, a verdadeira pérola, ou a mais preciosa, encontra-se bem escondida como um  segredo bem guardado.
Depois das férias, ainda vivendo na teia de encantamento dos Açores e pensando/preparando um regresso num futuro próximo, entre blogs de viagens e blogues pessoais, encontrei várias referências aos artigos e livros do Joel Neto, cronista, escritor, açoriano de gema, viveu em Lisboa 2 décadas e regressou à sua ilha (Terceira) para ficar?! Entre os livros, em inglês, no Kindle, e as “borlas” que o google dá, escapou-se-me o que é nosso e muitas vezes superior! Tomei nota “Presta atenção”. E, de imediato, senti-me acometida pela febre que só quem adora ler, reconhece, e tipo viciada “corri”, vá, contive-me um dia, para comprar os seus dois últimos livros (Arquipélago e Vida No Campo), sim que, aos nossos, leio-os sempre em papel, são os únicos! Perante o sorriso de excelentíssimo esposo, resignado à ideia que há coisa que nunca mudarão, e há um certo conforto nestas constante da vida, esta é uma delas, espero… e aquela que ele nunca diz mas pensa, assim me dizem os seus olhos,  “Quando se lhe mete uma coisa na ideia, saiam da frente e se for um livro…ui,ui!”
O “Arquipélago” – uma história sobre um homem que não sente os terramotos e uma criança desaparecida. Um livro que nos guia, através das suas personagens e enredo, pelas paisagens e locais da Terceira, ao terramoto de 1980: a destruição, o medo, a vida, a reconstrução, aos vários achados arqueológicos da ilha, encarados com temor desconfiança pela comunidade científica do continente, aos viveres e ritmos do campo, às singularidades de viver numa ilha, às peculiaridades das comunidades pequenas, da familiaridade às suas tricas, guerrilhas e desconfianças e um passeio pela fabulosa, mas traiçoeira, natureza e psicologia humana, cheia de certezas mas coberta de incertezas. Um livro que nos transporta à ilha, quase que conseguimos sentir o seu cheiro tão característico, nas palavras do Joel “a erva húmida, leite morno e bosta de vaca” e ouvir o som ensurdecedor dos cagarros, numa noite verão. Relembra-nos terras e lugares que já pisámos e apreciámos, se calhar, não tanto como devíamos, obrigando-nos a vê-los segundo uma nova luz e outro prisma, aguçando-nos, ainda mais, a vontade de voltar (e aqui excelentíssimo esposo suspira e eu digo “Temos de voltar e fazer as pazes com a Terceira”. A última vez aconteceram-nos por lá uma série de peripécias engraçadas, que na altura não achámos grande piada, mas o tempo e idade têm essa capacidade de nos fazer ver as coisas e sítios de outra forma… fica para outro post).
Vida No Campo é uma espécie de diário delicioso, cheio de histórias, pessoas reais e vivências comuns mas ao mesmo tempo singulares e pessoais, características não só do campo mas da insularidade, reflexões, comparações, desejos e anseios de quem já viveu na cidade e agora vive no campo e numa ilha. Essencialmente, a beleza das coisas e das pessoas simples e a constatação que a vida, pois a vida, pode não ser assim tão complicada, é e será sempre uma questão de perspetiva. Um livro que nos deixa saudades dos seus habitantes e de quem lhes dá vida e voz. Numa breve pesquisa, descobri que posso continuar a encontrá-las, todas as semanas, por aqui, na rubrica semanal do Joel Neto, no DN, ou por aqui, o que me deixa com um sorriso nos lábios e feliz e contente da vida! Enquanto espero pelo seu novo livro, agendado para a primavera de 2018!
Em pouco menos de uma semana, algumas horas roubadas ao sono, andei embrenhadas nestas belas histórias. Surpreendeu-me, sorri, refleti, fiquei curiosa, pesquisei um pouco da história e costumes da Terceira, aprendi e gostei muito do processo, da história, da escrita. Os dois livros têm todos os ingredientes que definem um bom livro! Recomendo a leitura, conhecendo ou não, esse pedacinho do paraíso que são os Açores!

Do que se alimenta o Facebook?!

Sempre que a minha veia da escrita não está devidamente oxigenada, os senhores do facebook enviam-me um mail, de incentivo, para que a máquina comece a bombear devidamente, porque afinal há gente que gosta da página e está à minha espera!
Este é o segredo desta, e, provavelmente, de muitas outras redes sociais, fazer-nos crer que somos importante e que o que partilhamos é de extrema relevância para os outros, alimentar-nos o ego, portanto… só que não!
Somos realmente, não virtualmente (aí são às centenas), importantes para uma pequena minoria, certamente, suscitaremos a curiosidade, boa, má e invejosa, de alguns com os conteúdos que partilhamos, daí a ser relevante, vai um grande passo! Mas lá que estes senhores têm a máquina bem oleada e a psicologia toda, lá isso têm!
Nunca deixa de me admirar e assustar, o poder astronómico desta máquina e dos seus post patrocinado, parece que foi assim que o Trump conseguiu ganhar as eleições (um artigo muito interessante “Facebook wins, democracy loses”) e quem o tenha tentado também por cá nas autárquicas. Uma cena perigosa esta… nunca esquecer!
Estão pensando, sim mas resultou, o facebook encheu-te o ego! Publicaste! Ganhou! Só que não… E quem pensar que sim, desconhece por completo o que me inspira e move estes blogue, independentemente de gostar da página e ser meu amigo no facebook, hilariante e caricata esta era global, não?!!!

Extinção por falta de sexo?!!!

No Japão, um elevado número jovens não mostra grande ou qualquer interesse em relacionamentos, intimidade e sexo – dizem não ser uma prioridade, é uma escolha de vida consciente. O Japão tem uma das mais baixas taxas de natalidade de natalidade do mundo, aliado a esta forma de ser e estar das novas gerações, é coisa para se tornar uma  verdadeira preocupação social, dentro em breve, para aquelas bandas, digo eu!
Na América, os estudo dizem que os jovens fazem 6 vezes menos sexo do que os nascido na época de 30. Razão: a falta de tempo e o entretimento proporcionado pelas redes sociais e afins. Há ainda quem diga que desde que o iphone saiu, em 2007, modificou muito, e radicalmente, o relacionamento e interesse dos jovens e o intitule de – o destruidor de uma geração
Há ainda quem coloque a pertinente questão “Quem é o seu amante?” porque é preciso namorar a vida e, não necessariamente, passar a vida a namorar.
Cada fação terá a sua teoria, provavelmente, todas com alguma razão. O segredo e a resposta, a esta, como a outras questões, deve estar no meio termo, desconfio.
Face a tudo que li e citei anteriormente, assola-me apenas uma dúvida simples: caminharemos para uma extinção natural da raça humana, muito antes do previsto por todas as teorias do aquecimento global, previsões da ciência e afins, por uma decisão consciente dos ritmos e estilos de vida moderna (seja isso lá o que for)? Ah, espera, lembrei-me agora, teremos sempre a África e a Índia, onde tudo flui ao ritmo do costume, e de antigamente, que se conservem, e nos conservem, assim!

 

 

Contos de fadas – algumas questões pertinentes!

Nas férias, li um excelente artigo sobre os contos de fadas que levantava uma série de questões bastante pertinentes.
“Porque razão há tão poucas mães nos contos de fadas?” – uma excelente questão que nunca me tinha ocorrido. Ainda mais estranho parece, agora que penso nisso, sabendo que naquela época, a dos contos de fadas, eram as mães as grandes contadoras de histórias e responsáveis pela educação dos filhos.
Os contos vão sendo contados e repetidos de geração em geração, alguns com centenas, milhares de anos, e embora as histórias não sejam reais, há sempre alguma verdade ou mensagem subjacente aos mesmos, um facto aceite e reconhecido por crianças e adultos. Segundo a autora, dado a “antiguidade” dos contos de fadas, há poucas mães, nos mesmos, pois os tempos não eram fáceis para as mulheres (as doenças, os partos, a violência, as violações, etc) e as mães estavam a preparar os filhos, mais precisamente as filhas, para a possibilidade de terem de viver sem ela e alertar/preparar para as dificuldades e dissabores presentes na vida de uma mulher, na eventualidade, de estas as virem a afligir também a elas. E, em certa medida, estes avisos ainda fazem algum sentido e são verdadeiro segundo a autora porque, às vezes, o lobo aparece sem ser convidado, bonito e perigoso, e o mundo, as pessoas, a vida nem sempre são um conto de fadas, é preciso estar alerta e conhecer os perigos!
Termino com uma citação da autora bastante reveladora e com a recomendação de leitura pois o artigo é muito, muito interessante.

“I’ve been asked in interviews, in classrooms and by audiences, if I think fairy tales are feminist. I think they are, but not by our modern definition of feminism. Traditional fairy tales were created long before any such notion existed, and I’d say they help women, rather than lift up women. They warn, rather than extol. They’re useful, which is a much older kind of feminism.”

 

Ponta do Sossego

Toda a beleza é beleza
Para quem na beleza crê
A beleza é só certeza
Conforme a vista que a vê

Silêncio de calma
Mudez carinhosa
Afagas muralha

Na noite nervosa

Silêncio que alentas
Meu sonho desfeito
Ai como atormentas

O mal do meu peito

E quando te calas
Calado me dizes
Que as horas sem falas
São horas felizes

Poema de João Teixeira de Medeiros, nascido nos EUA mas residiu cerca vinte anos em São Miguel, encontrada no bonito miradouro da Ponta do Sossego no Nordeste da Ilha de São Miguel, onde o mar, as escarpas, o verde dos pastos, toda a envolvência é de cortar a respiração, onde o silêncio ganha toda outra nova dimensão.

“Educar para o Direito”

Uma plateia repleta de jovens, numa escola, presos às palavras de uma advogada e um juiz, que contam na primeira pessoa à luz da sua experiência, os casos que já lhes passaram pelas mãos, envolvendo “brincadeiras” de mau gosto nas redes sociais, atitudes violentas ou uso de substâncias ilícitas que terminaram “menos bem”. Um artigo muito interessante, e útil, sobre esta temática e sobre projeto/iniciativa
Aprende-se desde pequenino, ou assim deveria ser, que os nossos atos têm consequências, ensina-nos a “medir” e a meditar sobre o que podemos ou não fazer, até onde podemos ir, as regras da sociedade, a aceitá-las ou a arcar com as consequências! Muitos pais andam perdidos e não têm noção do os seus filhos, e os dos outros, fazem com um simples, e inofensivo, telemóvel, ou qualquer outro dispositivos ligado à internet, em idades em que não têm filtros, as regras ainda não estão bem delineadas e parece não haver grande distinção entre a esfera pessoal e a social, onde interessa é ser aceite.

O outro lado dos Descobrimentos e da História

No ‘Deus-dará’ escreve que “Portugal foi o maior esclavagista do Oceano Atântico” e que “o Império Português tirou 5,8 milhões de pessoas de África para usar como escravas”. Portugal já fez a reconciliação com o passado?

Portugal foi objectivamente o maior esclavagista do Atlântico. Com o tamanho minúsculo que tem tirou quase metade (47 por cento) dos escravizados de África, enquanto as outras potências europeias (Espanha, França, Inglaterra, Holanda), todas juntas, são responsáveis pelo restante. E Portugal inaugurou o tráfico atlântico, a triangulação Europa-África-América, que não existia. Os números variam um pouco consoante as fontes, mas se pecam será por defeito, porque nos faltam registos, porque havia tráfico clandestino, etc. Seja como for, apenas com o que já se sabe, é inquestionável que a escala foi gigantesca. E é a percepção desta escala, para começar, que até hoje não existe, em geral, em Portugal.

Académicos e artistas têm trabalhado sobre isto, mas desde o ensino básico aos discursos políticos continua a perpetuar-se um discurso sobre os “Descobrimentos” que ignora a escala do que aconteceu. A escravatura é transformada numa espécie de borrão em que todos estavam metidos, e era assim, e já foi muito tempo, e pronto. Mas esta história, esta corda de mortos, está em grande parte por desenterrar no espaço público, fora da academia. Primeiro, o horror do que aconteceu, a quantidade de gente de que estamos a falar — o mesmo número de pessoas do Holocausto —, o que passaram, como eram tratadas, como morreram. Depois, quem eram, como lutaram, como resistiram, como viviam, todas as narrativas que lhes foram negadas enquanto seres humanos. E como tudo isso se liga à discriminação, à repressão, ao racismo ao longo da história até hoje.

Dos manuais escolares aos discursos políticos, Portugal gosta de acreditar que lidou bem com a sua história, que foi um colonizador brando e que não é racista. Não foi um colonizador brando, tem inúmeras situações de racismo e a prova de que não lidou bem com a sua história é a violência que este tema evoca sempre que se debate, a resistência, o contra-ataque, e acima de tudo a ausência total em Lisboa de um memorial, museu ou espaço que reflicta tudo isto.

Lisboa foi a grande capital esclavagista do mundo, depois de pelo menos um milhão de ameríndios já terem morrido na sequência da chegada dos portugueses ao Brasil. Mas todos estes milhões de pessoas, ameríndios e escravizados africanos, não existem em Belém, o epicentro da memória imperial portuguesa, nem noutro ponto da cidade. Não existe o horror do que lhes aconteceu, tal como não existe quem eles eram: narrativas, artes, lutas. E esse vazio serve o racismo contemporâneo, mantém invisíveis os fios que ligam esses mortos aos afrodescendentes e ameríndios de hoje. É uma negação de toda a história, de que do lado deles também há uma história, da tal corda que liga passado e presente em contínuo, e que fará o futuro.

No último ano, parece-me que pessoas e movimentos em Portugal, uns há muito no terreno, outros recentes, de proveniências e formações várias, começam a confluir, a unirem esforços para que esta situação mude em vários sentidos. Não vejo como pode não mudar. Não podemos continuar a ter o Padrão dos Descobrimentos e o Mosteiro dos Jerónimos sem nada nas redondezas que amplie largamente as narrativas do que se passou, e continua a passar.

 No vazio do que nunca enfrentámos historicamente há também o vazio das mulheres
(…)
Quanto à miscigenação, em que assenta a tese do luso-tropicalismo, comecemos por pensar nisto: foi violação em massa. Os portugueses levaram menos mulheres do que outros europeus para o Novo Mundo e violaram muito mais, índias e negras. Mesmo quando não se tratava de uma relação sexual imposta pela força, tratava-se de uma relação de poder, domínio, subjugação, não de uma escolha livre. No vazio do que nunca enfrentámos historicamente há também o vazio das mulheres. As brancas que ficavam na metrópole, e as índias e negras, milhões, que foram violadas e violentadas ao longo de séculos, para povoar e embranquecer as colónias.

Excerto de uma entrevista muito interessante com a jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho sobre o seu livro “Deus- Dará”

Uma entrevista que vale a pena ler por vários motivos mas que realça factos e dados que escolhemos confortável e deliberadamente ignorar mas os números não enganam e não deixam de relatar o outro lado da História e das histórias e a crueza da realidade!

“5 mitos sobre os Professores de Matemática”

“É verdade…. Existe uma imagem pré-concebida acerca dos professores de Matemática. Sempre que digo que sou Professor de Matemática, as pessoas ficam impressionadas com tamanha faceta (como se eu fosse de uma espécie rara). Há certas qualidades e características que são aceites como obrigatórias para todo o Professor de Matemática. Funcionam como se fossem requisitos imprescindíveis para quem ensina a dita “disciplina dos números”.

1º Mito – O Professor de Matemática não faz contas
Pois é…. Nenhum professor de matemática é uma máquina de calcular, nem um computador. Poucos são os seres humanos que conseguem fazer 9389×1489 em 5 segundos. Porque é que as pessoas pensam que os Professores de Matemática têm a obrigação de a fazer de cabeça e rapidamente?

Lamento. Eu preciso ou de papel e lápis ou de uma máquina de calcular para o fazer (relativamente a esta última, que moderna é esta geração de professores… antigamente é que era a sério! Era tudo feito a papel e lápis…)
Como costumo perguntar ás pessoas que me pedem para fazer cálculos não tão imediatos quanto pensam “Tenho CASIO escrito na testa?”.

2º Mito – O professor de matemática pensa como qualquer outro profissional (sem fórmulas, nem desenhos geométricos imaginários a circular à volta da sua cabeça)
Quando o “comum mortal” pensa no professor de matemática é muito comum lembrar-se daquela imagem típica… Uma pessoa com um olhar pensativo e há volta da sua cabeça fórmulas matemáticas, desenhos geométricos, raízes quadradas de expressões estranhas (e que nem fazem sentido sequer) e outros tantos disparates. 
Pois é. Somos como qualquer outro ser humano. Agimos de forma normal.
Não precisamos de fazer cálculos para conseguir encestar a bola no cesto de basquete ou para acertar na baliza. Muito menos imaginar triângulos retângulos…. Simplesmente chutamos e aguardamos que este chegue ao seu destino.

3º Mito – Não é requisito o professor de matemática usar óculos
É um facto que os uso, mas nem todos os membros da comunidade matemática os têm. 

Se usamos óculos é por necessidade e não por ser requisito obrigatório. É apenas por questões de saúde e para que nenhuma variável nos escape naquele momento em que temos de olhar para o problema no seu todo… E por falar em problemas…

4º Mito – O professor de Matemática resolve problemas e procura soluções eficientes e eficazes
Como dito no 1º mito, não! Nós não fazemos contas! A Matemática é a disciplina da resolução de problemas por excelência. 

Como costumo dizer e sem a intenção de ferir suscetibilidades), os contabilistas fazem contas, os engenheiros põem em prática fórmulas e teorias a problemas reais. Já os matemáticos tratam de arranjar as soluções mais rápidas e menos trabalhosas para qualquer tipo de problemas. Arriscaria a dizer… O nosso lema é “Fazer muito pouco por muito”.
E não há nada como o momento certo de gritar “Eureka!” e é tudo uma questão de encaixar as peças do puzzle. Não há cá milagres, magia negra e outras tantas coisas que se dizem por aí. Costumo pensar na Matemática como um jogo de estratégia em que para o ganhar basta: idealizar um plano; cumprir as regras do jogo; selecionar a informação; juntar tudo de forma lógica e de modo a fazer sentido; analisar a resposta para ver se faz sentido para o que se pretende.

5º Mito – Os professores de Matemática não pensam exclusivamente (e apenas) em Matemática
Somos pessoas que se conseguem divertir. Gostamos de ir ao cinema, de ir a um bom concerto de rock, de descansar… E vá! Também sabemos contar piadas de todo o tipo (“secas” e não “secas”) e ter piada com essas piadas. 

Fazemos tudo o que todos os outros fazem. Não somos os “cromos” que ficam sentados, durante noites e dias a fio, à secretária a pensar exaustivamente naquela equação (sim… tem de ser sempre uma equação!) impossível de resolver. 
O professor de Matemática é um profissional que sabe distinguir e regular as suas necessidades profissionais e as suas necessidades pessoais.

Em suma… Acima de tudo, com este texto pretendo chamar à atenção para o facto de que existe uma grande diversidade de profissionais ligados ao ensino da Matemática, como existem ligados a tantas outras áreas disciplinares. Os professores são pessoas como todas as outras. Trabalham, passeiam, convivem, divertem-se… E os professores de Matemática não são exceção. 
Uma coisa é certa e isso garanto-vos… Não há nada como ter um professor de matemática lá em casa! Nunca se sabe quando poderão dar jeito (e não é para fazer a contabilidade doméstica). 

Texto de João Carlos Terroso, surripiado aqui

Azulejos didáticos

Supõe-se que, provavelmente, eram centenas, embora apenas se conheçam 23, datam de meados do século XVII, feitos em Portugal, contém proposições e demonstrações matemáticas contidas nos primeiros livros dos Elementos de Euclides e “ilustradas e reproduzidas” por Tacquet (padre jesuíta). Tudo indica que estiveram expostos em salas de aula de matemática num colégio da Companhia de Jesus (jesuíta), de Coimbra, por volta de 1692 até 1759 (ano em que os jesuítas foram expulsos de Portugal).
No século XVI e XVII, houve bastantes Jesuítas, espalhados pelo mundo, com um papel importante no estudo da Matemática e da Ciências mas, em Portugal, (pre)dominava a corrente filosófica. Talvez este facto esteja na origem das indicações do Geral da Companhia de Jesus, Tirso Gonzales, que, em  1692, enviou para Portugal as Ordenações para estimular e promover o estudo da Matemática na Província Lusitana, onde se pode ler:

“Quinto: Procurem primeiro os Superiores dos colégios de Coimbra e Évora que cada um dos nossos filósofos tenha necessariamente para seu uso os seis primeiros livros dos Elementos de Euclides que contêm os elementos de geometria plana. São muito convenientes os que compôs o P. Andreas Tacquet […]. Na escola, ou em qualquer outro lugar destinado às demonstrações deve ser exposto um quadro das figuras principais, maior e mais amplo, que será comum a todos, e a que se deve adaptar um compasso para a demonstração das figuras […].”

Declarações que podem estar na origem, justificar a existência e os fins a que se destinavam estes azulejos, os azulejos que ensinam, ou didáticos como ficaram conhecidos. Os azulejos didáticos foram “eliminados” das salas de aula com a Reforma Pombalina, altura em que surgiu, em Inglaterra, uma outra edição dos Elementos de Euclides, com figuras e construções diferentes das de Tacquet, tendo muitos deles sido destruídos e entulhados. Nos dias de hoje, encontram-se espalhados por diversos museus nacionais e por colecções particulares mas não há duvidas que foram um género de powerpoint do século XVII e XVIII e ensinaram ciência nos colégios jesuítas em Coimbra.

Referências, fontes e imagens

Em Lisboa, no que hoje é o Hospital de São José, funcionou, desde o século XVI e durante cerca de 170 anos, o Colégio de Santo Antão (pertencente também aos Jesuítas).
A “Aula Esfera”, do Colégio de Santo Antão, é criada, por ordem e poder real do monarca D. Sebastião, através do cardeal D. Henrique, com a condição que nela se lecionasse Matemática e matérias de desenvolvimento e aprofundamento científico.
Entre finais do século XVI e meados do século XVIII, a “Aula Esfera” foi a mais importante instituição de ensino e prática científica de Portugal, onde depressa chegavam, através da “rede de comunicação” dos Jesuístas, os estudos feitos em outras parte do mundo. A “Aula Esfera” teve um papel crucial no estudo da astronomia e cosmografia num país de navegantes. Por exemplo, em 1612, na “Aula Esfera” já se estudavam as leis de Galileu e construíam telescópio.
Durante o século XVII, a “Aula Esfera” teve em média 2000 alunos anualmente. Durante o seu período de funcionamento, cerca de 300 cientistas, 1/3 estrangeiros, e estudioso, alguns figuras proeminentes da época, lecionaram na “Aula Esfera”. É inegável a enorme importância da “Aula Esfera” no estudo das Ciências e das Matemáticas e do seu papel na história da ciência em Portugal.
A “Aula Esfera” também estava repleta de azulejos alusivos às matérias ali estudadas e abordadas, contendo várias referências à matemática e à astronomia. A “Aula Esfera” funcionava, no espaço que hoje é o auditório do Hospital de São José, vários azulejos emblemáticos das atividades desenvolvidos no Colégio de Santo Antão podem ser encontrados na Biblioteca do Hospital de São José. Azulejos muitos semelhantes podem ser encontrados, em Évora, nas salas de aula do Colégio Espírito Santo.

Para saber muito mais sobre a “Aula Esfera”, fontes e imagens

Controvérsia do momento

Como é que vê a hipótese de um homem solteiro ter filhos recorrendo a uma barriga de aluguer, como alegadamente foi o caso de Cristiano Ronaldo?
Considero um crime grave. É degradante, uma tristeza. O Ronaldo é um excelente atleta, tem imenso mérito, mas é um estupor moral, não pode ser exemplo para ninguém. Toda a criança tem direito a ter mãe. Mais: penso que uma das grandes culpadas disto é a mãe dele. Aquela senhora não lhe deu educação nenhuma.

(…)

Duas pessoas do mesmo sexo não podem amar-se?
Ouçam, é uma coisa simples: o mundo tinha acabado. Para que o mundo exista tem de haver homens e mulheres. Trato-os como a qualquer doente e estou-me nas tintas se são isto ou aquilo… Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam.

A MENSAGEM DE GENTIL MARTINS NA ÍNTEGRA

Face à minha entrevista ao Jornal Expresso e dada a celeuma, que nunca desejaria que tivesse acontecido, gostaria desde já esclarecer que me limitei a responder a perguntas directas dos entrevistadores do Expresso.

Quanto a Ronaldo não ser exemplo, referia-me exclusivamente à escolha por “Barrigas de Aluguer”, permitidas por lei, mas das quais discordo totalmente, quer como Pediatra quer como Ser Humano. Isso nada tem a ver com os excepcionais méritos desportivos de Ronaldo, nem com a sua generosidade para com Instituições Sociais e crianças com dificuldades.

Por outro lado nunca foi minha intenção ofender a Mãe de Ronaldo, pessoa que não conheço pessoalmente.

Quanto à homossexualidade, lamento quem sofra com essa questão, que continuo a considerar anómala, sem no entanto deixar de respeitar os Seres Humanos que são.

Independentemente, de concordar ou não com a sua opinião e/ou com a forma como a expressou, a controvérsia gerada em torno apenas destas 2 perguntas de uma longa lista, suscitou-me algumas dúvidas:
Questão 1: Só podemos ou devemos expressar a nossa opinião se ela for politicamente correta, a que outros desejam/esperam ouvir ou se esta seguir  a “norma”?
Questão 2: O que é e representa a tão apregoada liberdade de expressão?
Questão 3: Aplica-se a todos ou apenas a alguns? Em todos os momentos e em todas as temáticas?
Questão 4: Quem dá entrevistas e/ou é um figura pública, não deve dar o “corpo às balas”, defendendo as suas ideias, deve antes inibir-se, limitando-se a esquivar-se com meias respostas, ou respostas inócuas, a perguntas polémicas? É isso que pretendemos numa sociedade que apelidamos de democrática?
Questão 5:  O que é isso de viver em democracia? Enquadra o linchamento público assim que alguém manifesta uma opinião contrária à veiculada e aceite pela “maioria”? Não contempla o direito e o respeito pela diferença (neste caso de opiniões)?
Questão 6: Não valerá a pena meditar seriamente sobre algumas temáticas que abordou cruamente?
Hipocrisia, histerismos, falso moralismo e demagogia é o que alimenta estas e outras polémicas e, infelizmente, a sociedade! É caso para dizer, utilizando uma expressão brasileira, “Me engana, que eu gosto!”.
Um excelente pequeno vídeo, sobre a temática,”Não chamem a polícia por causa do Gentil Martins”

“Estas férias, deixe o tédio tomar conta dos seus filhos”

“No verão, muitas crianças têm cerca de três meses de férias , o que representa, normalmente, para os pais, demasiado tempo livre que precisa de ser ocupado. Por isso, são várias as escolas que, apesar de as aulas já terem acabado, oferecem planos de férias para as crianças, a que se juntam semanas de atividades abundantes ou mesmo acampamentos de verão. Mas segundo alguns psicólogos, este excesso de programação do tempo das crianças durante o verão não lhes permite alcançar um ponto importante do desenvolvimento: descobrir o realmente lhes interessa, o que gostam de fazer no seu tempo livre.

À BBC, Lyn Fry, psicóloga infantil, defendeu que o papel dos pais é preparar as crianças para ocupar o seu lugar na sociedade: “Ser um adulto significa ocupar-se e preencher o seu tempo de lazer de uma forma que o faça feliz. Se os pais passam todo o tempo a preencher o tempo livre dos seus filhos, então a criança nunca vai aprender a fazer isso sozinha.” Fry sugere que, no início do verão, os pais se sentem com os seus filhos (pelo menos aqueles que têm uma idade superior a 4 anos) para discutirem em conjuntos as atividades que a criança gostaria de fazer durante o período de férias. A lista pode ir de atividades muito simples como jogar às cartas a atividades mais complexas como aprender a cozinhar. A elaboração desta lista vai permitir que sempre que a criança se queixe de estar aborrecida, os pais possam dizer-lhes para rever a lista. É provável que as crianças voltem a ficar aborrecidas após algum tempo de fazer a atividade mas, segundo Fry, “as crianças precisam de aprender a ficar aborrecidas para serem motivadas a fazer as coisas. Estar entediado é uma maneira de tornar as crianças autoconfiantes.”

Há décadas que os especialistas discutem a importância do tédio nas crianças. Em 1930, o filósofo Bertrand Russell, no seu livro “A Conquista da Felicidade” dedicou um capítulo à importância do tédio. Segundo Russell “uma criança desenvolve-se melhor quando, como uma planta jovem, é deixada sem perturbação no mesmo solo. Muitas viagens, muita variedade de impressões, não são boas para os jovens e fazem com que, à medida que crescem, se tornem incapazes de suportar uma monotonia produtiva.”

Anos mais tarde, em 1993, no livro “On Kissing, Tickling and Being Bored”, o psicanalista Adam Phillips apresentou o tédio como uma hipótese para contemplar a vida, considerando que “é uma das exigências mais opressivas” que os adultos fazem às crianças é a de que se interessem, “em vez de arranjarem tempo para descobrir o que realmente lhes interessa”.”

Artigo da Visão

Mundurukus

“Pica é linguista (…) e está ao serviço do Centro Nacional de Investigação Científica francês. Durante os últimos dez anos o alvo do seu trabalho têm sido os mundukuru, um grupo indígena de cerca de 700 pessoas que vive na Amazónia brasileira, que são caçadores-recoletores que vivem em pequenas aldeias espalhadas (…). O que interessa a Pica é a linguagem dos munduruku, a qual não tem tempos diferenciados, nem plurais, nem palavras para números superiores a cinco.
(…)
Mais de um mês após ter partido de Paris, Pica estava finalmente a aproximar-se do seu destino. Como era inevitável, eu quis saber quanto tempo demorava a chegar de Jacareacanga às aldeias.
Mas Pica já estava visivelmente impaciente com a minha linha de inquérito:
– É a mesma resposta para tudo: isso depende!
Mantive-me firme. Quanto tempo demorara desta vez
Ele gaguejou:
– Não sei. Creio que… talvez… dois dias… um dia e uma noite…
Quanto mais eu insistia com Pica em busca de factos e de números, mais relutante ele se mostrava em mos fornecer. (…)
– Quando regresso da Amazónia perco o sentido do tempo e o sentido do número, e talvez o sentido do espaço-, disse-me ele. Esquece-se dos encontros combinados. Fica desorientado com simples indicações. (…)
A incapacidade de Pica para me fornecer dados quantitativos fazia parte do seu choque de culturas. Passara tanto tempo entre gente que mal sabe contar, os munduruku, que perdera a capacidade de descrever o mundo em termos de números.
(…)
Achei estranho que os números superiores a cinco não surgissem de todo na vida quotidiana da Amazónia. Perguntei a Pica como é que um índio responderia (…) Se perguntássemos a um munduruku que tivesse seis filhos, “Quantos filhos tem?”
– Ele diria “Não sei”. É algo impossível de exprimir
No entanto, Pica acrescentou que era uma questão cultural. (…) Por que quereria um munduruku adulto contar os seus filhos? pergunta Pica. As crianças são cuidadas por tos os adultos da comunidade, disse-me ele, e ninguém conta quem pertence a quem.
(…)
Alguns mundurukus que vivem nas margens do seu território aprenderam português (…)
– Eles sabem contar um, dois, três até às centenas – disse Pica – A seguir perguntamos-lhes “Já agora, quanto é cinco menos três?”. Eles não fazem a mínima ideia.
(…)
O estudo das capacidades matemáticas de pessoas que somente dispõem da capacidade de contar por uma das mãos tem por objetivo descobrir a natureza das nossas intuições numéricas básicas. Pica pretende saber o que é universal a todos os humanos, e o que é configurado pela cultura.
(…)
Numa das suas experiências mais fascinantes, Pica examinou o entendimento espacial que os índios tinham dos números. Como visualizavam os números dispostos ao longo de uma linha? (…)
Os resultados foram espantosos. Em geral considera-se ser uma verdade óbvia que os números estejam espaçados de modo igual. Aprendemos isso na escola e aceitamo-lo facilmente. É a base de toda a medida e de toda a ciência. No entanto os munduruku não vêem o mundo assim. Eles visualizam as magnitudes de uma forma muito diferente.
Quando os números estão dispostos a espaços iguais numa régua, a escala chama-se linear. Quando os números se aproximam à medida que aumentam, a escala chama-se logarítmica. Sucede que a aproximação logarítmica não é exclusiva dos índios da Amazónia. Ao nascer, todos nós concebemos os números deste modo.
(…)
Por que pensam os índios e as crianças que os números maiores estão mais juntos do que os menores? (…)Imaginemos que um munduruku é confrontado com cinco pontos. Ele irá estudá-los de perto e ver que cinco pontos são cinco vezes maiores que um ponto só, mas que dez pontos são apenas duas vezes maiores do que cinco pontos. Os munduruku e as crianças parecem efetuar as suas decisões acerca do local adequado para os números por meio da estimativa das relações entre quantidades. Ao considerarem as relações, é lógico que as distâncias entre cinco e um é muito maior do que a distância entre cinco e dez. E quando se avaliam as quantidades fazendo uso das relações, produz-se sempre uma escala logarítmica.
Pica acredita que compreender as quantidades aproximadamente em termos de estimativa de relações é uma intuição universal humana. (…) Por contraste, compreender as quantidades em termos de números exatos não é uma intuição universal; é um produto da cultura. (…) Pica sugere dever-se ao facto de as relações serem muito mais importantes para a sobrevivência na natureza do que a capacidade de contar. Perante um grupo de adversários brandindo lanças, precisávamos de saber instantaneamente se haveria mais deles do que dos nossos. Quando víamos duas árvores precisávamos de saber qual delas tinha mais frutos pendentes. (…)
A escala logarítmica  também é fiel ao modo como as distâncias são percebidas, o que é um possível motivo para ela ser tão intuitiva. Leva em consideração a perspetiva. Por exemplo, se virmos uma árvore a 100 metros e uma outra 100 metros atrás dessa, os segundos 100 metros parecem mais pequenos. Para um munduruku, a ideia de cada 100 metros representarem uma distância igual é uma distorção do modo como ele percebe o seu ambiente.
(…)
Vivemos em simultâneo com uma compreensão linear e logarítmica da quantidade. Por exemplo, a nossa compreensão da passagem do tempo é muitas vezes logarítmica. Lembro-me dos anos da minha juventude decorrerem muito mais devagar do que os anos que agora parecem voar.(…) O nosso instinto logarítmico profundamente enraizado emerge com nitidez quando se trata em pensar sobre números grandes. Por exemplo, todos nós podemos compreender a diferença entre um e dez. (…) Mas qual é a diferença entre mil milhões de dez mil milhões de litros de água? (…) os termos milionário e bilionário são usados a esmo praticamente como sinónimos (…). No entanto, um bilionário é mil vezes mais rico que um milionário. Quanto mais altos são os números, mais próximos entre si eles nos parecem.
(…)
Pica disse que a investigação dele e de outras pessoas sobre as nossas intuições matemáticas poderá ter sérias consequências no ensino da Matemática – tanto na Amazónia como no mundo desenvolvido. Exigimos uma compreensão da linha dos números lineares para se funcionar na sociedade moderna – ela é a base da medida e facilita os cálculos. Porém, na nossa dependência da linearidade talvez tenhamos levado longe de mais a supressão das nossas intuições logarítmicas. Talvez, disse Pica, seja essa a razão por que tantas pessoas acham a matemática difícil. Talvez devêssemos prestar mais atenção à avaliação das relações do que à manipulação dos números exatos. Do mesmo modo, talvez seja errado ensinar os munduruku a contar como nós o fazemos, já que isso poderá privá-los das intuições ou conhecimentos matemáticos que são necessários à sobrevivência deles.”  

in “Alex no País dos Números” de Alex Bellos

Clarice Lispector, mochilas e antiprincesas

Chamou-me a atenção esta pequena, mas pesada, passagem do livro dedicado a Clarice Lispector, na coleção Antiprincesas.
Seguindo o exemplo do pai de Clarice Lispector (1928/9), por cá, agora, corríamos o risco, nós pais, de reter as nossas crianças, no 4ºano, por não sei bem quantos anos.
A partir do 5º ano, dado o número de disciplinas, a organização dos horários, os lobies das editoras e afins, num dia mais “carregado”, as mochilas das crianças podem chegar a pesar cerca de 6 a 7 kg.
Segundo indicações da Organização Mundial de Saúde, o peso carregado não deve ser superior a 10% do peso da própria criança. O peso médio de um criança de 10 anos é cerca de 32 kg logo a sua mochila “carregada” nunca deverá exceder os  3,2 kg (ora se a criança for de “raça” pequena…a situação torna-se ainda mais “pesada”).
Uma ideia: comprar só os manuais digitais e repudiar os em papel (uma favor que faríamos à porto editora, lá que seria uma ótima retribuição, seria, ehehehe, e a nossa carteira, essa sim, agradeceria). Contra: estudar com o livro na mão é bem mais agradável e, dizem os estudos publicados, mais eficaz na “quantidade e qualidade” do que é apreendido e retido!
Em vez de petições, cenas e coisas virtuais, esta questão dos pesos das mochilas já merecia um protesto a sério, não? Meditemos-nos, pois então, na atitude do pai de Clarice Lispector.

“Que pena quando se pactua com a comodidade da alma”

Citação de Clarice Lispector, mãe de dois filhos, formada em Direito, escritora, jornalista, casado com um diplomata, teria tudo para ter a vida de princesas com que muitos sonhariam. Nunca abandonou a sua paixão pela escrita. Mas abandonou o marido, a quem tinha que acompanhar nas suas inúmeras viagens, e o que muitos denominavam de uma vida de sonho para voltar, ao país que sentia como seu – o Brasil, e dedicar-se, de alma e coração, à escrita e aos filhos.

É muito isto, sem dúvida… !

“O perigo, na realidade, não é que os computadores se tornem demasiado inteligentes e tomem conta do mundo, o problema é que os computadores são demasiado estúpidos e já tomaram conta do mundo”.

“os computadores, tomam muitas decisões importantes sobre as nossas vidas e cometem erros porque não sabem muito, porque aprenderam a partir de dados limitados”

Afirmações de Pedro Domingos, português, investigador na área da Inteligência Artificial e professor de Ciências da Computação na Universidade de Washington, autor do livro “O algoritmo mestre”, um livro que, segundo Bill Gates, todos deviam ler para saber mais sobre a inteligência artificial.

Superligados

“Mãe, tenho uma coisa para te contar sobre…” dizia a menina de 5/6 anos sentada ao lado mãe num transporte público.
“Espera só um bocadinho. Dá-me um minuto!” interrompe-a a mãe compenetrada
“É rápido e engraçado, como uma história…” diz a menina com o entusiasmo típico de quem quer partilhar algo emocionante.
“Agora não! Estou ocupada!” diz a mãe entre dentes antes que a criança desse por terminado o seu discurso
“Oh mãe, vá lá, deixa lá contar-te” diz a menina em tom de súplica, puxando a manga do vestido da mãe.
“Já te disse agora NÃO POSSO!” diz a mãe com um ar definitivo e zangado.
A menina resignou-se, mirando a mãe com uma ar desiludido. E assim seguiram, lado a lado, mas ao mesmo tempo longe, a milhas e milhas de distância, a menina embrenhada nos seus pensamentos e a mãe de telemóvel na mão atenta a tudo o que seu ecrã lhe comunicava, entre mãe e filha não houve qualquer tipo de comunicação durante largos minutos. Fica a dúvida: será que a menina lhe chegou a contar a tal história com que estava tão empolgada ou terá perdido o entusiasmo e a motivação?

Um artigo bastante interessante sobre a temática da geração dos “Superligados” que salienta a importância do papel e do exemplo dos pais no controlo do uso das tecnologia  é o intitulado “Os miúdos não desligam da tecnologia. E agora?”. Recomendo a leitura…atenta!

 

Expresso Curto

Expresso Curto é uma crónica diária, do Expresso, sobre as notícias da atualidade pela mão de vários jornalistas, que termina com “O que ando a ler”. Excelentíssimo esposo é fã e, eu, subscritora de dois dias para lá caminho!

“Há dias, ao procurar gastar tempo até uma consulta, entrei numa livraria e saí de lá com os “Contos Maravilhoso”, de Hermann Hesse. É o livro ideal para esperar, feito de pequenas histórias onde cabe tudo. Não resisti e atirei-me à última, “Os dois irmãos”, que começa assim:
“Era uma vez um pai que tinha dois filhos. Um deles era belo e forte; o outro pequeno e aleijado, pelo que o grande desprezava o pequenito”.
Isso mesmo. O mais novo ajudou a transportar o tesouro dos anões para uma montanha de vidro e o mais velho, que foi para a guerra e ficou ferido no braço direito, acabou a mendigar na rua. Um dia encontraram-se, junto à montanha, e, entre lágrimas, o mendigo falou ao homem que o olhava. O conto acaba com estas linhas, que começam com o mais velho a falar:
É bem certo que em tempos tive um irmão, pequeno e deformado, assim como o senhor, mas tão bondoso e amável que decerto me ajudaria, só que eu, insensível, escorracei-o, e já há muito que dele nada sei.” Disse então o pequenito: “Sou eu mesmo o teu pequenito, fica comigo e não irás passar necessidades”.
É bonito, mas mais bonito é saber que Hesse tinha 10 anos quando escreveu este conto.”
Extrato da parte final da crónica de hoje

O poder da imagem

26 de setembro de 1960, EUA, em plena campanha para as presidenciais, os candidatos John F. Kennedy, um jovem senador, e Nixon, o experiente vice presidente do EUA, são os protagonistas do que viria a ser considerado um marco histórico nas campanhas eleitorais, o 1º debate político a ser transmitido na televisão.
JFK apresentou-se calmo, confiante e com boa cor, já Nixon, pálido e muito magro, devido a uma recente hospitalização, parecia em baixo de forma e um pouco transpirado.
No final, quem ouviu no rádio, foi unânime em considerar que a vitória, no debate, tinha sido de Nixon; quem viu o debate na televisão, que foi a larga maioria – 88% da população já tinha TV – atribuiu a vitória a JFK.
Muitos dizem que JFK ganhou as eleição naquela noite, o debate foi o ponto de viragem, tendo o próprio reconhecido o papel decisivo e o impacto que o debate teve no resto da sua campanha. No entanto, Nixon, esteve bastante melhor, também em aparência, nos debates seguintes, mas a imagem que prevaleceu foi a do 1º debate.
JFK ganhou a Nixon por uma unha negra e muitos acreditam que foi graças aquele 1º debate.
O debate que mudou a forma de fazer campanha eleitoral, reconhecido/constatado que foi o papel/potencial da televisão na mesma, que até então era encarada apenas com um “objeto” dedicado ao entretenimento.
Dizem que muito devido ao receio dos candidatos, só 16 anos mais tarde se voltou a realizar, um debate presidencial transmitido pela televisão nos EUA!
Impressionante, a importância e o papel da imagem! O grosso desta história, que desconhecia, foi-me contado por pimpolha mais velha quando lhe perguntei “O que achaste mais interessante na visita guiada, que fizeste com a escola, ao NewsMuseum?”. Fui investigar… e a moça tinha percebido e contado quase tudo direitinho. Sempre a aprender… com pimpolha mais velha!
Fiquei a pensar no papel da imagem, nos dias que correm, e penso que (pre)domina! Faz falta ouvir mais, olhar e julgar muito menos!
Por exemplo, como teria sido ouvir Salvador Sobral, sem o vermos? Teria gerado tanto comentário depreciativo acerca da sua pessoa…? Não creio, as críticas seriam apenas dirigidas à sua música… seríamos tão melhores pessoas! Quem diz o Salvador Sobral diz outros, ocorreu-me este exemplo, talvez devido às “correntes de ar” geradas… novamente, sempre acompanhadas de cheiro mas não o seu! O que nos leva a outro tema que dava pano para mangas: A imagem e a diferença (que incomoda muitos!)

Artigos interessantes sobre o tema aqui e aqui.