“Parem de morrer, por favor”

“(…) A morte precoce destes dois seres extraordinários e que tinham ainda tanto para dar veio trazer-me à memória um artigo que escrevi em fevereiro do ano passado, que intitulei “Morrem-me pessoas todos os dias”. Um artigo que agora reproduzo abaixo, porque traduz a minha forma de lidar com a morte, e que já tinha revisto há poucos dias quando a minha filha Maria, com 6 anos, depois da morte da bisavó Isabel, apareceu em lágrimas, do nada, com um pedido lancinante: “Pai, eu quero nunca morrer!” Saiu-me uma pequena resposta, sem pensar muito: “Maria, nós temos de pensar em viver bem todos os dias e não pensar na morte porque isso só vai acontecer quando já fores muito velhinha”. 

É mentira. E ela sabe isso todos os dias quando percebe que morreu alguém que afinal ainda não era velhinho. Mas não vou desistir de continuar a convencê-la de que a melhor forma de não morrermos nunca é vivermos agora, mais para os outros do que para nós, sem desistirmos dos sentimentos mais nobres e de nos dedicarmos às coisas mais importantes da vida, que não são coisas. São a família, os amigos, os sonhos e os projectos que adiamos todos os dias. Parem de morrer, por favor! Parem de morrer todos os dias, sempre que se dedicam a minudências que nada acrescentam à vossa felicidade. O tempo é escasso e precioso, e como vimos nos casos mais recentes, pode faltar de um momento para o outro. Desperdiçá-lo? Nem pensar.

Morrem-me pessoas todos os dias
(artigo publicado a 5 de Fevereiro de 2016)

Quando era miúdo não tinha medo do escuro, não tinha medo de filmes de terror, não tinha medo “do velho que vem aí se não comeres”, nem do papão. Tinha medo da morte. Era uma realidade longínqua que nunca tinha suportado, mas a ideia de ausência permanente deixava-me angustiado de tal forma que foi das primeiras coisas que me levaram a passar noites em claro ou mal dormidas.

Depois começaram a morrer-me pessoas. O meu colega Vítor foi dos primeiros, ou pelo menos o primeiro que não era “uma estrelinha no céu”. O rapaz que ontem tinha estado ali, mas que naquela manhã já não acordou e a quem todos gozávamos por se vestir “à seminarista”- foi das primeiras crianças que vi a usar gravata na escola ainda no ciclo preparatório – e por falar com pronúncia de “bijeu”. Acho que nunca mais gozei com ninguém desde essa altura pelas diferenças de comportamento, culturais ou de gosto próprio em relação às indumentárias.

Estivemos semanas a digerir a injustiça do nosso comportamento de crianças em idade parva, quando humilhar os outros parecia ser a forma de expiarmos as nossas próprias fraquezas. O Vítor morreu-nos naquela manhã e deixou-nos a terrível certeza em relação a uma suspeita que todos alimentávamos. Ao contrário do que nos diziam as pessoas não morriam velhinhas. Morriam em qualquer idade. E as crianças também morriam.

Depois morreu-me um dos melhores amigos de sempre, daqueles que nos faziam acreditar que éramos imortais. O Orlando. Era tão livre a pensar e a fazer que se tornou insuportável pensar que ficaria preso para sempre naquela campa fria do cemitério que conhecíamos tão bem desde miúdos. A referência geográfica limite da nossa infância. Ir para lá do cemitério era ir para o estrangeiro. O Orlando nunca mais iria a lado nenhum connosco e isso doeu-nos muito. Acabou por nos unir a todos em redor das suas loucas histórias e insolências escolares.

Há uns anos morreram-me os meus avós. Pessoas que adorava e que fazem parte das minhas melhores memórias de infância. Uma dor insuportável que aparece sempre colada às pessoas insubstituíveis no nosso coração. Pessoas para quem eu tinha sempre razão e os meus pais não – coisa maravilhosa na infância -, pessoas sempre carinhosas comigo que eu só via no máximo três vezes por ano. Não há nada que substitua uma festa no rosto dada pela mão sedosa dos avós, mesmo que estejam sulcadas por rugas profundas que atestam uma vida de muitas dificuldades.

Agora, muitos anos mais tarde, começam a morrer-me as pessoas com quem trabalhei, com quem aprendi, que me habituei a admirar e a citar como bons exemplos desta profissão que ao contrário do que dizem é mesmo a mais velha do mundo. Morreram-me o Fernando de Sousa, o Etiano Branco, o José António Salvador, o Jorge Pena, o João Ferro e muitos outros (recentemente morreu a minha querida Ana Franqueira e a querida e doce “Avó” Isabel).

Muitos deles morreram sem que se cumprisse uma coisa tão simples como almoçarmos ou jantarmos sem hora marcada para o fim, para actualizarmos conversas adiadas e cumprirmos velhas promessas. Salvou-se o Jorge Pena com quem partilhei umas belas doses de ameijoas e um branco fresquinho com vista para o rio na margem de Alcochete. A Xana nunca soube em vida que tínhamos violado a proibição de consumo alcoólico, como se fosse o último desejo de um condenado. Quando lhe contei ela sorriu com saudades dessa teimosia saudável que não resistiu ao bicho nos pulmões. 

As pessoas morrem-nos todos os dias e com elas morre um pouco de nós. Que nos acorde a urgência de vivermos e cumprirmos as nossas pequenas promessas. A de cumprirmos os rituais simples da amizade será uma das mais prioritárias.”
Artigo de António Esteves

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Medalhas Fields ignoram o relógio biológico das mulheres

(…) As Medalhas Fields consituem o mais prestigiado prémio internacional na área da Matemática. São atribuídas pelo ICM (Internacional Congress of Mathematicians), que existe desde o século XIX e têm a particularidade de, como os Jogos Olímpicos, se realizarem apenas de quatro em quatro anos. (…)
Em quase sete décadas de Medalhas Fields, estas foram dadas independentemente da raça, credo político ou da religião. No entanto, a lista das 56 Medalhas Fields até hoje ganhas revela um facto surpreendente: apenas uma foi atribuída a uma mulher – Maryam Mirzakhani, em 2014.
Porquê? Será que as mulheres não têm vocação para a Matemática, talvez por esta ser “demasiado abstracta”? Será que as mulheres matemáticas por mais competentes que sejam, não atingem o nível de excelência necessário a uma Medalha Fields? Será, afinal de contas, a Matemática uma ciência misógina? Ou serão os júris das Medalhas Fields, compostos por uma grande maioria de homens, uma espécie de “Clube do Bolinha”, que discrimina as mulheres?
A resposta é menos conspiradora: a regra dos 40 anos [a medalha Fields só pode ser atribúída a matemáticos com menos de 40 anos] é objetivamente penalizadora para as mulheres.
Pensemos um pouco. Um matemático fora de série, depois da licenciatura e do doutoramento, estará a fazer investigação autónoma a todo o vapor a partir dos 25 anos. Tem portanto, uma janela de 15 anos, até aos 40, de trabalho intensíssimo se pretende ser candidato à Medalha Fields. Nada o pode distrair dos teoremas. Nada de nada (…)
O relógio biológico da mulher é muito mais implacável do que o do homem; esta janela de 15 anos corresponde também ao seu período fértil durante o qual, querendo constituir família, terá filhos. Ora, a concentração total em objectos matemáticos estratosféricos é difícil de compatibilizar com enjoos e ecografias, amamentação e cólicas, mudanças de fraldas e noites em branco. E, apesar dos muitos avanços civilazionais a registar quanto a este ponto, é um facto que o homem médio não partilha totalmente as tarefas da vida familiar com a mulher, sendo esta, em geral, mais sobrecarregada.
Existem grandes matemáticas no século XX e XXI, como se pode facilmente verificar; mas são muito raras as que produzem os seus melhores trabalhos matemáticos antes dos 40 anos. E este atraso devido ao relógio biológico distorce decisivamente o universo dos candidatos elegíveis a Medalha Fields, que são na sua grande maioria homens.
Podemos agora apreciar melhor o que aconteceu no ICM de 2014. (…)
Mirzakhani foi um meteoro que rasgou os céus da Matemática, que quebrou todos os tabus e tectos de vidro com o seu brilhantismo, que mostrou que a Matemática não tem género, nem nacionalidade, nem religião. Foi a primeira mulher a ganhar a Medalha Fields, considerado o Prémio Nobel da Matemática.(…)
A Medalha Fields tem várias regras específicas, entre as quais a de só poder ser atribuída a matemáticos com menos de 40 anos. Numa espécie de amarga ironia cósmica, exatamente a idade com que Mirzakhania desapareceu.
Maryam Mirzakhani foi uma matemática  iraniana, professora na Universidade de Stanford. Nasceu e cresceu em Teerão e quando era criança tinha o sonho de ser escritora. Mais tarde descobriu a Matemática; curiosamente, começou por não ser muito boa aluna. Afirma que na altura não tinha verdadeiro gosto pela Matemática: “Sem entusiasmo, compreendo que a Matemática pareça fria e sem significado. A beleza da Matemática só se revela aos seguidores mais pacientes.” (…)
A sua tese de doutoramente, terminada em 2004, não só resolvia um problema geométrico tremendamente difícil como, pelo caminho, estabelecia novas ligações e resolvia outros dois problemas até aí considerados independentes. Resolver um só destes problemas isoladamente teria sido extraordinário: 99% dos matemáticos jamais atingirão um resultado comparável. (…)
Desde então Mirzakhani espandiu o espectro de áreas em que trabalhava. “Gosto de cruzar as fronteiras imaginárias que as pessoas erguem entre as diferentes áreas”, afirmava “Há imensas ferramentas à disposição e nunca se sabe quais podem funcionar. É preciso ser otimista e tentar relacionar as coisas.” (…)
O legado de Maryam Mirzakhani é muito maior que os seus teoremas. No seu Irão natal os seus feitos elevam-na à condição de heroína nacional. A sua figura e os tabus que quebrou são marcantes numa cultura atávica em relação à condição feminina, sinalizando a necessidade de mudança. (…) sendo hoje um dos principais rostos de um movimento, ainda tímido e incipiente, da igualdade de direitos para a mulher numa socidade profundamente conservadora”
Crónica “Mirzakhani – Glória e tragédia no feminino” de Jorge Buescu na revista Ingenium de julho 2017

“O meu Natal é melhor do que o teu”

“Toda a gente acha que o seu Natal é que é bom, de longe muito melhor e mais atinado que o dos outros. Ora vejamos: há os puristas do bacalhau com couve, os modernos que comem tudo reconstruído, os que comem filhoses, os que comem belhoses e os que contentam com fritos de abóbora. Há os mãos largas, os sovinas, os consumistas e os minimalistas. Os que gostam de bolo-rei, os que não gostam e ainda os que não gostam que haja variações sobre o bolo-rei. Há os que vão à missa, os que são ateus, os que dizem o Natal é quando o homem quiser, os que dizem que é só para a família, os que fazem só árvore, os que fazem só presépio, os que fazem presépio e árvore, os que não fazem nada que isso é só folclore. Os que acreditam no Pai Natal, os que não acreditam e os que nem sequer bebem Coca-cola por causa disso, os que gostam de ver as luzes na rua, os que detestam, os que se sentem sozinhos, os que têm uma família que nunca mais acaba, os que fazem tudo caseiro, os que compram a ceia toda no Pingo-Doce. Os que ouvem o Bublé, os que ouvem o Sinatra, os que só ouvem o Coro de Santo Amaro de Oeiras, os que ceiam, os que jantam, os que abrem as prendas à meia-noite, os que só abrem na manhã de 25 e os que acham que no Dia de Reis é que é, os que acham que o Natal é bom por causa das prendas, os que acham que é espiritual, os que acham que é para reflectir, os que acham é que bom para a pândega e só ligam aos comes. Epá, cansa.”


(Gosto tanto, mas tanto, de malta que pensa e escreve assim, sem medos nem subterfúgios mas com imenso sentido crítico e espírito; é sempre uma delícia, um verdadeiro prazer e uma revelação ler o que partilha no seu espaço,ora espreitem!)

Parece anedota… só que não!

“Numa aula de apoio ao estudo :
– Professora, o meu trabalho de casa é dar um fim à história do Ali Babá!
– Então, já tens alguma ideia? – quis eu saber para ajudar.
-Sim, vou pôr os professores a assaltar a gruta. Dizem que agora são ladrões!!”
Relatado por uma professora triste, indignada, para além de extunada, no final de um dia de aulas desta semana

Podia ser uma anedota, só que não, aconteceu na realidade, o que é só triste porque os mais pequenos repetem o que ouvem, sem terem perceção do seu verdadeiro significado mas que, no entretanto vão interiorizando.
Uma sociedade que proclama alto e bom som que os seus professores são uns miseráveis, incompetentes, os únicos responsáveis pelo insucesso dos alunos, que não querem é ser avaliados e sei lá que mais que tenho lido na última semana, só pode ser completamente ignóbil, incoerente e que não defende o interesse dos seus mas apenas da sua agenda política e/ou pesssoal (ah, espera, isto não devia ser uma novidade?).
1º Deixam os seus filhos, todos os dias, ao encargos de um ou mais professores, sem grandes dores de alma, ressentimentos ou preocupações de maior que se conheçam, na maioria dos casos;
2º Quando os ditos cujos fazem greve ou faltam (sim, também têm filhos, família e também ficam doentes apesar de serem miseráveis) aqui d´el rei que estão a prejudicar as criancinhas e a furtar-lhes tempo de aprendizagem e consolidação de conhecimentos: os tais incompetentes e miseráveis, de repente, parece que se tornam imprescindíveis para que os meninos possam aprender ou estejam entretidos.
3º Porque quando lhes dizem que o insucesso é culpa dos professores, tira e desculpabiliza toda e qualquer responsabilidade à criança sobre o papel ativo que esta tem, forçosamente, que ter na sua aprendizagem para ter sucesso, independentemente da qualidade do professor.
4º Como em todas as profissões há os maus, os medianos, os bons e os excelentes, entre os professores acontece o mesmo! Na grande maioria, temos professores que cumprem, na íntegra, as suas funções, com brio e rigor, são bons profissionais mas como em todas as profissões há as ovelhas ranhosas e os excecionais, quer uns quer outros, são uma pequena minoria. Face à vil difamação, afronta e cansaço, uma hipótese era “Já que tenho a fama que tenha também o proveito!”, acredito que não acontecerá, o profissionalismo não o deixa mas a vontade e a revolta estão latentes.
5º A acrescentar a tudo isto, parece que agora também somos ladrões! Esqueçam lá os Salgados, os Sócrates, os Bava, os Varas, o BES, a CGD, o BPN, desta vida e  muitos outros que tais, os professores é que roubam que se fartam, são um alvo a abater e a principal causa da crise, já agora, dos incêndios e da falta de chuva! Ah espera…diz que afinal é tudo porque não há dinheiro! Houve, e continua a haver, à fartazana para cobrir os “gloriosos” feitos de uns e de outros, também houve para repor, com retroativos, as subvenções vitalícias dos senhores deputados, os tais que legislam, e decidem, em causa própria mas não esquecer os miseráveis dos professores é que são os ladrões! Não havendo dinheiro, como contrapartida, que tal repensar na idade da reforma, é só uma ideia!
6º A todos esses que “cagam postas de pescada”, uns bem pagos para o fazerem outros só porque sim, sobre a carreira, ordenados e sobre os professores, em geral, primeiro informai-vos, lendo a legislação, e conhecendo a realidade, não a vossa realiadade e perceção, mas o que efetiva e verdadeiramente se passa e trata. Bem sei é pedir muito: é preciso ler, ouvir, pensar… é mais fácil, rápido, brutal e estrondoso, como se quer hoje em dia, regurgitar cenas e coisas, desviando a atenção do tema principal e em análise com aquilo que a malta gosto de ouvir e repetir “Não querem ser avaliados! A idade é um posto. Têm que ir para o privado para ver o que é bom para a tosse! Malandros que não fazem nenhum.”
7º Esses tais comentadores, que de há uns anos para cá, percebem de todo e qualquer assunto, opinam convictamente, seguros do seu ser e saber, sobre tudo e todos, salvo raras exceções, nunca me inspiraram grande confiança, mas quem sou eu, mas agora, num assunto que conheço, bem sei que não sou imparcial, constato que só proferem barbaridades, resta-me concluir que, provavelmente nas restantes questões sobre as quais se pronunciam, a abordagem é semelhante. Pena é que são tidos como referência e citados por muitos que por falta de tempo e/ou vontade não têm disposição para investigar, a fundo, sobre o que dizem e para questionar o que ouvem!
8º Guerra é guerra e isto é uma guerra política, os professores são só uns zecos, um pretexto, alguém que convém desacreditar, cada comentador tem um interesse muito particular na sua agenda política que o incentiva a dizer o que tem que ser dito, que não tem necessariamente, como se comprova, que ser verdade ou andar perto desta, é o que chama no privado, dizem-me, trabalhar por objetivos tachos.
E assim vamos cantando e rindo… entregues a uma merdinha de gente sem príncipios mas com muitos objetivos (no público e no privado mas, obviamente, sem conflitos de interesse). Não esquecei as palavras de ordem “Os professores, esses malandros, esses ladrões!” interiorizai, para mais tarde recordar, uma fatura bem cara que iremos pagar, quando não os houver em número suficiente, já estivémos muito mais longe disso do a que a grande maioria julga.

A grande, e pertinente, questão não são os professores, e as suas reivindicações, mas sim a falta de dinheiro, tudo o resto foram apenas manobras de distração (muito eficazes como seria de esperar)
“O Governo está de parabéns. Finalmente reconheceu que temos de ser realistas, que afinal não há dinheiro. O caminho do desastre ainda pode ser evitado.
Em finais 2015 havia alternativa, íamos virar a página da austeridade, era todo um mundo novo que se prometia, feito de mais dinheiro no bolso de todos, porque o anterior Governo era um malvado que, vá-se lá saber porquê, queria tirar-nos o dinheiro todo e estava sempre a falar no défice das contas pública e na dívida. Havia dinheiro a rodos e ai de quem se atrevesse a alertar que não era possível. Seria devidamente insultado e perseguido pela turba anónima das redes sociais, classificado de “pafiano” ou educadamente insultado como “liberal”.
Em finais de 2017 estamos a ser acusados de viver na ilusão de que é possível dar tudo a todos, porque afinal não é. E não é por maldade, é porque afinal, pasme-se, não há dinheiro e não é possível apagar o passado, eliminar a crise e a troika. Mas isso não era exactamente o problema de 2015?”
Helena Garrido in Observador

“Palavras bonitas sobre contas”

É este o título do mais recente livro infantil de Valter Hugo Mãe. Ao contrário dos seus livros para adultos, com uma escrita crua e dura, por vezes, um pouco díficl de digerir, os seus livros infantis são deliciosos e com mensagens fabulosas, o que faz deles verdadeiros tesouros para crianças de todas as idades, onde vale mesmo a pena refletir, individualmente e em conjunto, sobre a(s) ideia(s) subjacentes.
“Palavras bonitas sobre contas” é a história de dois amigos, um menino e uma menina, dos seus gostos e aspirações, das suas diferenças e semelhanças, sobre o papel do homem e da mulher na História mas sobretudo sobre o que é isso da diferença de géneros e a razão pelo qual podíamos viver tão bem sem ela.
Tal como o seu livro “O Paraíso são os outros”,  este “Palavras bonitas sobre contas” é um excelente livro para miúdos e graúdos e qualquer um dos dois é uma ótima prenda de natal para crianças de todas as idades.
Um pequeno excerto que transparece a dinâmica e o potencial da história, para aguçar a curiosidade.

“A Maria, a minha amiga, é das contas. (…)
Ela quer salvar o mundo através das contas, eu quero salvar o mundo com as palavras.
A nossa maior diferença, como se pode reparar, não vem de ela ser menina e de eu ser menino, vem das ideias. A nossa maior diferença, também é verdade, não nos separa. Ser-se diferente não implica ser-se oposto.
(…) Tenho a impressão de que ser menino ou menina é algo íntimo, não é coisa de saia nem de cabelo. É sobretudo íntimo, uma identidade bem interior que cada um de nós vai definie de maneira muito única.
As pessoas deviam ser tratadas como pessoas, mais do que como homens ou mulheres. A cidadania devia ser assim.
(…) Já vi homens quase com mamas e mulheres quase com bigode. Na hora de trabalharem, nem ter mamas parece ajudar nem ter bigode parece complicar. Não importa nada.
(…) Na escola, a Maria refila muito porque aprendemos a História do mundo a partir de um sem-fim de homens bravos. (…) Fico com a impressão que as mulheres foram inventadas recentemente (…) e talvez ainda nem existam em alguns países. Há que inventá-las urgentemente!
(…) Como se entre mim e a Maria me escolhessem sempre, inclusive para explicar e contar a vida e as ideias da Maria. Que desgraça. O mundo haveria de ficar cheio de palavras bonitas mas muito torto de contas.
(…) Eu e a Maria vamos crescer para melhorar o mundo. Fizemos um pacto.
Nunca nos esqueceremos de usar palavra e gesto para que o mundo seja melhor.
Isso não é ser menino ou menina, é ser pessoa.”
Valter Hugo Mãe  in “Palavras bonitas sobre contas”

Cérebro de um adolescente – “Uma orquestra ainda desafinada”

“Podemos comparar o cérebro do adolescente com uma grande orquestra sinfónica que ainda não está funcionar a 100 por cento. Os violinos estão desafinados e os contrabaixos emitem sons graves descoordenados. No grupo dos metais, os trompetes parecem discutir com as tubas, enquanto os instrumentos de percussão – pum, pah, bum! – fazem uns estrondos e quando em quando… E, para além de tudo isto, o maestro ainda não chegou! O maestro é o córtex pré-frontal. É a parte do cérebro que amadurece na adolescência e que é responsável por nos tornar adultos, com capacidade para decidirmos sozinhos a nossa vida”
in “Cá Dentro”

Cá dentro

Depois do “Lá fora”, um guia para explorar a natureza, que pequeno do meio consulta com regularidade, três anos volvidos e  pela mão das mesmas autoras, com umas ilustrações maravilhosas, e com chancela Planeta Tangerina (cujos livros são sempre diferentes e fantásticos), chega o “Cá dentro”, um guia para descobrir o cérebro, para crianças d0s 10 aos 100 anos!
Uma viagem incrível e fascinante ao orgão que comanda o nosso corpo e mente, um livro repleto de História e histórias, dados, conhecimento e rigor científico, boas analogias, curiosidades, emoções, criatividade, mapas, constituição e funções dessa complexa massa cinzenta enrolada, parecido com uma noz, a que chamamos cérebro, a nossa central de comandos!

  • O cérebro é uma das estruturas mais complexas e misteriosas do universo. Segundo a última contagem/estimativa contém cerca de 86 mil milhões de células, os neurónios, que juntos produzem eletricidade suficiente para acender uma lâmpada de 60 w. Só como termo de comparação a população mundial ronda os 7,3 mil milhões. 160 mil quilómetros de ligações entre células, de cada neurónio podem partir milhares de caminhos diferentes, uma verdadeira rede de fibras nervosas. Estando pouco inspirado ou no expoente máximo do brilhantismo, se ligassemos todos os neurónios uns aos outros , obteríamos 860 km de estrada.
  • Nos últimos 3 milhões de anos, o tamanho do cérebro triplicou relativamente aos restantes primatas: de 450g para 1300g. Porquê? Exigimos-lhe mais, o córtex cresceu e as zonas onde o crescimento foi maior foram as áreas que integram e relacionam informação, 16 mil milhões é o número de neurónio que tem o córtex. Alguns cientista consideram que o que permitiu ao nosso cérebro crescer, a o contrário do dos outros primatas, foi o facto de termos inventado o fogo e a cozinha, o que tornou os alimentos mais fáceis e rápidos de mastigar, ingerindo mais calorias em menos tempos. Os primatas gastam 8,5h por dia a alimentar o corpo e o cérebro, estima-se que para um homem de 60-70kg seriam necessárias mais de 9 horas para se alimentar se os alimentos ingeridos estivessem crus, sobrando-lhe assim muito pouco tempo para se dedicar e desenvolver outras atividades mais complexas.
  • 1/5 da energia que ingerimos, através da alimentação, é vorazmente consumida pelo cérebro. De 2500 calorias, 500 são só para o cérebro.
  • O cérebro humano demora cerca de 24 anos a ficar completamente “maduro”, o que ajuda a compreender porque razão os adolescente agem como… adolescente. É na adolescência que acontece a última grande mudança do cérebro, é considerada uma das etapas mais importantes do seu desenvolvimento e também a mais turbulenta. Durante a adolescência, apesar da massa cerebral já ter o peso definitivo, há uma parte do cérebro que ainda não se desenvolveu : o córtex pré- frontal  (situa-se atrás da testa, dái o “juizinho nessa cabecinha, é o que tu precisas” acompanhado de uma pequena festinha na testa, digo eu, que o ouvi e já dou comigo a proferi-lo diversas vezes a pimpolha mais velha). O córtex pré-frontal centraliza e gere informação de outras áreas, é responsável pelo pensamento abstrato, as emoções, as decisões e a formação moral.
  • Ao que parece temos um segundo cérebro, segundo os cientistas, apesar de não criar nem decidir, é composto por 100 milhões de neurónios e parece ter uma grande influência na regulação das nossas emoções e no desenvolvimento de algumas doenças. E onde situa o nosso 2º cérebro? Surpresa, surpresa, nos intestinos, uma verdadeira rede de neurónios!

Este são apenas alguns dados referidos e explanado no livro que me chamaram mais a atenção mas há mais, muito mais.
Fica a sugestão de leitura e quiça de uma ótima prenda de natal, sabendo nós que o natal é quando o Homem quiser!

A boa mãe é a que se vai tornando desnecessária

“A boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo. Várias vezes ouvi de um amigo psicanalista essa frase, e ela sempre me soou estranha. Chegou a hora de reprimir de vez o impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de todos os erros, tristezas e perigos.
Uma batalha hercúlea, confesso. Quando começo a esmorecer na luta para controlar a super-mãe que todas temos dentro de nós, lembro logo da frase, hoje absolutamente clara. Se eu fiz o meu trabalho direito, tenho que me tornar  desnecessária. Antes que alguma mãe apressada me acuse de desamor, explico o que significa isso.
Ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autónomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também.
A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical. A cada nova fase, uma nova perda é um novo ganho, para os dois lados, mãe e filho.
Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida. Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo. O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis.
Pai e mãe – solidários – criam filhos para serem livres. Esse é o maior desafio e a principal missão.
Ao aprendermos a ser “desnecessários”, nos transformamos em porto seguro para quando eles decidirem atracar.”

Texto de Márcia Neder

“A mão que nos opera”

É este o próximo livro que tenho na calha para ler. Porque os médicos são humanos, têm dúvidas, humores, e sim, erram. Há erros e erros mas os deles normalmente envolvem a vida, ou a morte, de um ser humano, a qual ao contrário do que muitos julgam, não está inteiramente e sempre nas suas mãos, o corpo humano mostra-nos vezes sem conta que ainda há muito por desvendar.  A dimensão do erro, a experiência e prática como forma de aprendizagem, as dúvidas, as incertezas e a ética são factores indissociáveis na medicina mas nem sempre de gestão fácil e equitativa.

  “Quando um médico assistente leva um membro da família doente para o hospital, para ser submetido a uma cirurgia, as pessoas no hospital pensam seriamente até que ponto devem deixar os internos participar. Mesmo quando o assistente insiste que eles participem como normalmente, um interno que se prepare para fazer parte da intervenção sabe que o caso está longe de ser de ensino. E se for necessário introduzir um cateter venoso central, não será certamente um principiante a fazê-lo. Por outro lado, as enfermarias e clínicas onde os internos têm mais responsabilidade estão povoadas pelos pobres, os que não têm seguro, os alcoólicos e os doentes mentais”.

Atul Gawande in “A mão que nos opera”

Hoje, ao longo do dia, será fácil perceber porque razão este é, literalmente, o livro do momento para mim!

A “sorte” e a felicidade

“A felicidade é frequentemente presunçosa. Presume demasiadas vezes que o bem que tem é uma questão de mérito, desvalorizando os factores aleatórios que o favoreceram. Ao mesmo tempo julga negativamente a infelicidade dos outros, procurando associá-la a questões de competência.”
Teresa Ribeiro in Pensamento da Semana no blogue Delito de Opinião

Canção de Outono

“No entardecer da terra,
O sopro do longo outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas volve e revolve
Esvai-se ainda outra vez.
Mas a folha não repousa
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E mesmo o que hoje sou
Amanhã direi: quem dera
Volver a sê-lo! mais frio.
O vento vago voltou.

Fernando Pessoa

Big Bang 2017

Na caixa de ressonância, tocámos instrumentos e “escondemo-nos”, lá em baixo, sentindo a ressonância, fomos até ao aconchegante quarto da Joana e mergulhámos um pouco no seu mundo do violoncelo, com as suas caixas iluminadas e ventoinhas com fitas; conhecemos o admirável mundo do Vicent e da sua música, os efeito especiais, com os seus encadeamentos e ciclos, e soubemos que aprendeu eletrónica e programação para conseguir desenhar este espetáculo, que inicialmente era destinado a crianças com deficiência; marchámos e batemos palmas ao som dos Tocá Rufar; fizemos um piquenique no bonito jardim das oliveiras, desfrutando da vista; subimos as escadas até ao paraíso num concerto de Bach; construímos uma pirâmide de cubinhos enquanto o pai comia um chocolatinho que custa a módica quantia de 80€ o kg mas diz que é magnifico, só pode; fomos até à Bertrand conhecer novos livros e os cinco delirámos com “O Caderno das Piadas Secas”, comemos um belo, e saboroso, gelado italiano e, para finalizar, as atividades no CCB, deixámo-nos embalar pelas bonitas vozes e sonoridades do espetáculo “Como dormirão os meus olhos?”. Foi um lavar de olhos e ouvidos este dia repleto de música e atividade no CCB. O espetáculo que a pequenada mais gostou foi o do Bach e isto, sim, surpreendeu-me!
Aproveitámos a parceria do Big Bang com a Hipotrip, e os preços mais maneirinhos, para experimentar esta forma de navegar no Tejo. A pequenada estava entusiasmadíssima, há muito que pediam para realizarmos esta experiência, os graúdos nem por isso. Ficámos todos alegremente surpreendidos, foi muito divertido, muito graças ao excelente guia/animador Paulo. A pequenada adorou e nós também aprendemos umas coisitas e entrar no Tejo num “autocarro” é emocionante. Para concluir o dia beleza, fomos degustar uns deliciosos Pastéis de Belém 🙂

O Caminho Imperfeito

É este o título do novo livro de José Luís Peixoto, que começando pela capa diferente e original (uma fotografia, da autoria do próprio escritor, do tatuado tronco de um operário, com quem se cruzou na sua viagem e que aceitou ser fotografado), é uma caixinha de surpresas, uma viagem extraordinária à Tailândia e a muitos outros destinos e talvez o mais interessante nem seja a própria Tailândia.
Não é um livro que caracteriza uma viagem mas muitas viagens, todas elas diferentes mas que no conjunto são únicas, singulares e muito pessoais, características de um verdadeiro viajante de corpo, alma e coração.
Contém muitas, e pequenas, histórias, algumas “macabras”, sobre a Tailândia, os seus costumes, a família real, a sua gastronomia, o sistema político, em tudo tão diferente de nós, mas é também uma viagem íntima do escritor ao seu mundo, às suas memórias e às que deseja deixar, à sua forma de estar e ser, ao que foi, ao que é e ao que será, pois como diz no livro “Já vivi muito! Quando viajo na minha memória, tenho lugares incríveis onde ir”.
Apreciei os relatos, deambulações (Tailândia, Las Vegas, Lisboa,…), as interações com os nativos, o distanciamento que, propositadamente, marca do turista habitual, mesmo quando não é intencional ou crítico, talvez por me identificar um pouco com a sua forma de viver uma viagem. No entanto, gostei ainda mais da viagem ao seu mundo onde revela uma sensibilidade extraordinária, patente na forma como se percepciona e como os outros o fazem, ou desejam fazer, no seu sentido crítico pessoal e social, como vê e interpreta o outro, no seu viajar, entre muitas outras coisas.
Muito, muito bom, nunca desilude este Senhor…
Depois de ler o livro, impõe-se  a questão: “Fiquei com vontade de ir à Tailândia?”
Nem mais nem menos do que tinha antes de ler o livro, é um nim, mas fiquei com muita vontade de ler o seu próximo livro, a melhor prova que não sendo um livro de viagens me proporcionou uma ótima viagem!
Alguns excertos do livro que gostei, especialmente, para aguçar a curiosidade, e não só!

“(…) As gotas de chuva eram grossas e frias. O barco parecia tentar fugir à tempestade, mas sem sorte. A chuva vinha de todos os lados, o toldo era inútil. Os turistas, desgraçados, tapavam a cabeça e as costas com toalhas. Os casais inseparáveis agarravam-se uns aos outros – náufragos do apocalipse.
Eu punha bastante empenho em diferenciar-me dos turistas e, por isso, estava muito divertido. Acreditava que tinha uma missão mais elevada. Estava ali para escrever um livro – este livro -, não por mero lazer. Eu estava divertido porque não estava ali para me divertir, como eles.(…)”

“(…) Se pudesse mandar uma fotografia minha a quem fui, o que pensaria ele sobre mim? Agora, posso virar-me para trás, considerar todo o caminho que fiz até aqui, mas o que teria pensado se me tivesse visto desde lá longe? O que teria aquele que fui a dizer sobre aquele que sou?(…)”

“(…) As perguntas a que tinha de responder eram:
Porque escrevo?
Porque viajo? (…)”

“(…) Incomoda-me quando alguém acha que sabe quem sou apenas porque leu um livro escrito por mim – como este- ou, até, porque leu uma frase mal citada ou viu a minha cara numa fotografia. Sinto-me agredido quando tentam reduzir-me a conceitos fechados e intransigentes, construídos por olhares que não se questionam si próprios, que não admitem qualquer hipótese de falha no seu preconceito (…)”

“(…) Por que escrevo?
Escrevo porque quero que os meus filhos saibam quem sou. Tenho esperança de que estas palavras, misturadas com o que lhes mostro, sejam suficientes, sejam o máximo possível. Quero que me conheçam porque quero que se conheçam a si próprios.
Quando eu já não possuir palavras, espero que regressem a estas e lhes encontrem significados que, agora, são inacessíveis. Espero que estas palavras os abracem.
Escrever é a minha maneira de ser pai deles para sempre.(…)”

“(…) As tatuagens não são para sempre – não permanecem ilesas perante o tempo. Há a erosão das linhas  – a pele envelhece – e há a erosão do olhar, que é a maior de todas. Ao longo da vida, o tatuado terá muitas relações diferentes com as suas tatuagens.
E, no entanto, tudo é para sempre – o que foi feito não pode ser desfeito. Por isso, as tatuagens são para sempre.
Tudo é definitivo e nada é eterno. Já tinha escrito estas palavras antes, noutro livro. Lá, continuam escritas para sempre. Aqui, nestas páginas e neste momento, estão escritas pela primeira vez.
As tatuagens são metáforas. (…)”

“(…) Não sou o meu corpo, não sou o meu nome, não sou esta idade, não sou o que tenho, não sou estas palavras, não sou o que dizem que sou, não sou o que penso que sou.
Não sou o meu corpo porque existo fora da minha pele, para além dela, transcendo-a delicadamente ou à bruta. Não sou o meu nome porque não sou apenas o meu nome. Não sou estas palavras porque eu não sou apenas palavras. Não sou o que penso que sou porque penso vagamente que sou mais do que consigo pensar. Essa ideia é demasiado vaga e eu sou concreto no mundo concreto, sou real no mundo real. (…)”

José Luís Peixoto in “O Caminho Imperfeito”

Porque as crianças aprendem brincando

Ando há dias a pensar neste belo, e interessante, texto
“(…)Quando as crianças brincam livremente sem qualquer interferência ou controle por parte dos adultos, aquilo que observamos neles é o que de mais ancestral têm dentro de si.. As corridas com lanças e espadas nas mãos, atirar areia uns aos outros, fazer esconderijos e abrigos, fazer comida, cuidar dos bebés, brincar na água, subir às árvores e às rochas, saltar de muros altos, pescar, tudo isto está na nossa natureza humana e as crianças buscam essas brincadeiras de uma forma muito inata.
É engraçado como basta alguns momentos a observá-los para encontrarmos tantas características da nossa ancestralidade nas brincadeiras que escolhem todos os dias. É com essas brincadeiras que aprendem a gerir conflitos, a trabalhar em equipa, ou pelo contrário, a superar dificuldades sozinhos, a compreender o seu próprio corpo e suas limitações, a perceber a natureza e como podem fazer parte dela respeitando-a.
Quando os sentamos numa cadeira dentro de quatro paredes horas a fio e os obrigamos a ficar calados a ouvir outra pessoa a falar, ou lhes impomos o que devem aprender e como o fazer, estamos a ir contra a sua natureza humana e a retirar-lhes todo o potencial criativo e de aprendizagem de si próprios e do mundo. Está nas nossas mãos incentivar e preservar esse potencial, porque as crianças aprendem brincando. (…)”
Texto de Raquel do blogue Colher de Mãe

Relíquias da adolescência

“Ontem a minha mãe trouxe-me um saco em que guardara aquilo a que chamou as minhas relíquias da adolescência. Havia crachás sem utilidade, medalhas do futebol e um número do boletim do Museu Etnográfico da Graciosa, que ganhei nuns jogos florais. Havia duas fotos do casamento dos meus pais, uma velha edição da Bíblia Sagrada, dedicada pelo meu avô na sua letra trémula – e na qual eu escrevia tiradas subversivas -, e um caderninho de autógrafos com assinaturas de jogadores do Sporting, que eu fora ver jogar em Lisboa.
O futebol estava em todo o lado (…)
Mas foi o caderno do liceu que maior impressão me causou. As aulas estavam todas ao monte – de História, de Inglês, de Técnicas de Tradução. Numas eu ainda tomava alguns apontamentos antes de me aborrecer, noutras nem isso. Nesta fazia a apologia da Alemanha, a que todas as semanas o Miguel Esteves Cardoso elogiava a ética de trabalho e o controlo de qualidade, e na seguinte desenhava foices e martelos.
Em boa parte delas, limitava-me a assentar palpites para a jornada do fim de semana. Nas de Português, punha-me a tirar notas sobre a sátira social em Camilo Castelo Branco e em breve estava a reescrever a história do próprio Camilo, sentado na sua cela, no instante em decidia poupar Simão e Teresa.
Na capa, colara várias fotos, entre as quais uma em que me sentava à máquina, escrevendo com dois dedos apenas. Tudo o mais era o retrato perfeito da minha adolescência: arrogância, confusão ideológica e a capacidade de concentração de uma barata. Para dizer a verdade, nem sei como acabei o liceu.
Meus pobres pais.
Podemos aprender muita coisa com os nossos cadernos da escola. A mais importante é que mudámos pouco. No essencial, eu continuo aquele rapaz de 15 anos a quem só interessava jogar à bola e escrever histórias. Sem jeito para o futebol, é um milagre que me tenham deixado viver de escrever histórias. A minha esperança é que não cheguem a descobrir que continuo a escrever só com dois dedos.” 
Joel Neto in Vida no Campo

O urbano, o culto e o ignorante

“O tipo de urbano em que eu me estava a transformar era exatamente aquele que não queria. Culpa da cidade, mas em pequeníssima escala. A cidade tem sido bem-aventurança para muitos, e também já o foi para mim. Culpa minha, sobretudo, e por isso mudei-me eu.
O tipo de urbano em que eu me estava a transformar nunca arrisca e raramente experiementa. É céptico por disciplina militar e absoluto quase sempre. Vive refém da sua personagem e, na dúvida, protege a pele.
(…) em nenhum momento ele se pode permitir a ideia de cair no ridículo, e isso não apenas lhe tolhe os movimentos: amputa-lhe os membros.
(…) O tipo de urbano em que eu me estava a transformar está proibido de deslumbrar-se. Desconfia – em suma, é isto. E, quando a vida finalmente nos ensina uma coisa, é que o homem culto acredita. O ignorante, sim, desconfia – o homem culto acredita.”

Joel Neto in Vida no Campo

Bons livros e boas descobertas!

Há hábitos, há a curiosidade, o gosto pela pesquisa e/ou o saber mais, que, por vezes, nos levam a descobrir muito além do que esperávamos, quando não nos ficamos apenas pelas primeiras entradas do google ou seguimos alguns dos links. Uma facto que nunca deixa de me espantar e deslumbrar. Acontece-me com livros, artigos, lugares, pessoas, dados históricos e científicos, receitas, etc., e, por vezes, dou comigo perdida, mas orientada, entre tantas janelas abertas repletas de informação interessante. Registo, aprendo e anoto que, às vezes, a verdadeira pérola, ou a mais preciosa, encontra-se bem escondida como um  segredo bem guardado.
Depois das férias, ainda vivendo na teia de encantamento dos Açores e pensando/preparando um regresso num futuro próximo, entre blogs de viagens e blogues pessoais, encontrei várias referências aos artigos e livros do Joel Neto, cronista, escritor, açoriano de gema, viveu em Lisboa 2 décadas e regressou à sua ilha (Terceira) para ficar?! Entre os livros, em inglês, no Kindle, e as “borlas” que o google dá, escapou-se-me o que é nosso e muitas vezes superior! Tomei nota “Presta atenção”. E, de imediato, senti-me acometida pela febre que só quem adora ler, reconhece, e tipo viciada “corri”, vá, contive-me um dia, para comprar os seus dois últimos livros (Arquipélago e Vida No Campo), sim que, aos nossos, leio-os sempre em papel, são os únicos! Perante o sorriso de excelentíssimo esposo, resignado à ideia que há coisa que nunca mudarão, e há um certo conforto nestas constante da vida, esta é uma delas, espero… e aquela que ele nunca diz mas pensa, assim me dizem os seus olhos,  “Quando se lhe mete uma coisa na ideia, saiam da frente e se for um livro…ui,ui!”
O “Arquipélago” – uma história sobre um homem que não sente os terramotos e uma criança desaparecida. Um livro que nos guia, através das suas personagens e enredo, pelas paisagens e locais da Terceira, ao terramoto de 1980: a destruição, o medo, a vida, a reconstrução, aos vários achados arqueológicos da ilha, encarados com temor desconfiança pela comunidade científica do continente, aos viveres e ritmos do campo, às singularidades de viver numa ilha, às peculiaridades das comunidades pequenas, da familiaridade às suas tricas, guerrilhas e desconfianças e um passeio pela fabulosa, mas traiçoeira, natureza e psicologia humana, cheia de certezas mas coberta de incertezas. Um livro que nos transporta à ilha, quase que conseguimos sentir o seu cheiro tão característico, nas palavras do Joel “a erva húmida, leite morno e bosta de vaca” e ouvir o som ensurdecedor dos cagarros, numa noite verão. Relembra-nos terras e lugares que já pisámos e apreciámos, se calhar, não tanto como devíamos, obrigando-nos a vê-los segundo uma nova luz e outro prisma, aguçando-nos, ainda mais, a vontade de voltar (e aqui excelentíssimo esposo suspira e eu digo “Temos de voltar e fazer as pazes com a Terceira”. A última vez aconteceram-nos por lá uma série de peripécias engraçadas, que na altura não achámos grande piada, mas o tempo e idade têm essa capacidade de nos fazer ver as coisas e sítios de outra forma… fica para outro post).
Vida No Campo é uma espécie de diário delicioso, cheio de histórias, pessoas reais e vivências comuns mas ao mesmo tempo singulares e pessoais, características não só do campo mas da insularidade, reflexões, comparações, desejos e anseios de quem já viveu na cidade e agora vive no campo e numa ilha. Essencialmente, a beleza das coisas e das pessoas simples e a constatação que a vida, pois a vida, pode não ser assim tão complicada, é e será sempre uma questão de perspetiva. Um livro que nos deixa saudades dos seus habitantes e de quem lhes dá vida e voz. Numa breve pesquisa, descobri que posso continuar a encontrá-las, todas as semanas, por aqui, na rubrica semanal do Joel Neto, no DN, ou por aqui, o que me deixa com um sorriso nos lábios e feliz e contente da vida! Enquanto espero pelo seu novo livro, agendado para a primavera de 2018!
Em pouco menos de uma semana, algumas horas roubadas ao sono, andei embrenhadas nestas belas histórias. Surpreendeu-me, sorri, refleti, fiquei curiosa, pesquisei um pouco da história e costumes da Terceira, aprendi e gostei muito do processo, da história, da escrita. Os dois livros têm todos os ingredientes que definem um bom livro! Recomendo a leitura, conhecendo ou não, esse pedacinho do paraíso que são os Açores!

Do que se alimenta o Facebook?!

Sempre que a minha veia da escrita não está devidamente oxigenada, os senhores do facebook enviam-me um mail, de incentivo, para que a máquina comece a bombear devidamente, porque afinal há gente que gosta da página e está à minha espera!
Este é o segredo desta, e, provavelmente, de muitas outras redes sociais, fazer-nos crer que somos importante e que o que partilhamos é de extrema relevância para os outros, alimentar-nos o ego, portanto… só que não!
Somos realmente, não virtualmente (aí são às centenas), importantes para uma pequena minoria, certamente, suscitaremos a curiosidade, boa, má e invejosa, de alguns com os conteúdos que partilhamos, daí a ser relevante, vai um grande passo! Mas lá que estes senhores têm a máquina bem oleada e a psicologia toda, lá isso têm!
Nunca deixa de me admirar e assustar, o poder astronómico desta máquina e dos seus post patrocinado, parece que foi assim que o Trump conseguiu ganhar as eleições (um artigo muito interessante “Facebook wins, democracy loses”) e quem o tenha tentado também por cá nas autárquicas. Uma cena perigosa esta… nunca esquecer!
Estão pensando, sim mas resultou, o facebook encheu-te o ego! Publicaste! Ganhou! Só que não… E quem pensar que sim, desconhece por completo o que me inspira e move estes blogue, independentemente de gostar da página e ser meu amigo no facebook, hilariante e caricata esta era global, não?!!!

Extinção por falta de sexo?!!!

No Japão, um elevado número jovens não mostra grande ou qualquer interesse em relacionamentos, intimidade e sexo – dizem não ser uma prioridade, é uma escolha de vida consciente. O Japão tem uma das mais baixas taxas de natalidade de natalidade do mundo, aliado a esta forma de ser e estar das novas gerações, é coisa para se tornar uma  verdadeira preocupação social, dentro em breve, para aquelas bandas, digo eu!
Na América, os estudo dizem que os jovens fazem 6 vezes menos sexo do que os nascido na época de 30. Razão: a falta de tempo e o entretimento proporcionado pelas redes sociais e afins. Há ainda quem diga que desde que o iphone saiu, em 2007, modificou muito, e radicalmente, o relacionamento e interesse dos jovens e o intitule de – o destruidor de uma geração
Há ainda quem coloque a pertinente questão “Quem é o seu amante?” porque é preciso namorar a vida e, não necessariamente, passar a vida a namorar.
Cada fação terá a sua teoria, provavelmente, todas com alguma razão. O segredo e a resposta, a esta, como a outras questões, deve estar no meio termo, desconfio.
Face a tudo que li e citei anteriormente, assola-me apenas uma dúvida simples: caminharemos para uma extinção natural da raça humana, muito antes do previsto por todas as teorias do aquecimento global, previsões da ciência e afins, por uma decisão consciente dos ritmos e estilos de vida moderna (seja isso lá o que for)? Ah, espera, lembrei-me agora, teremos sempre a África e a Índia, onde tudo flui ao ritmo do costume, e de antigamente, que se conservem, e nos conservem, assim!

 

 

Contos de fadas – algumas questões pertinentes!

Nas férias, li um excelente artigo sobre os contos de fadas que levantava uma série de questões bastante pertinentes.
“Porque razão há tão poucas mães nos contos de fadas?” – uma excelente questão que nunca me tinha ocorrido. Ainda mais estranho parece, agora que penso nisso, sabendo que naquela época, a dos contos de fadas, eram as mães as grandes contadoras de histórias e responsáveis pela educação dos filhos.
Os contos vão sendo contados e repetidos de geração em geração, alguns com centenas, milhares de anos, e embora as histórias não sejam reais, há sempre alguma verdade ou mensagem subjacente aos mesmos, um facto aceite e reconhecido por crianças e adultos. Segundo a autora, dado a “antiguidade” dos contos de fadas, há poucas mães, nos mesmos, pois os tempos não eram fáceis para as mulheres (as doenças, os partos, a violência, as violações, etc) e as mães estavam a preparar os filhos, mais precisamente as filhas, para a possibilidade de terem de viver sem ela e alertar/preparar para as dificuldades e dissabores presentes na vida de uma mulher, na eventualidade, de estas as virem a afligir também a elas. E, em certa medida, estes avisos ainda fazem algum sentido e são verdadeiro segundo a autora porque, às vezes, o lobo aparece sem ser convidado, bonito e perigoso, e o mundo, as pessoas, a vida nem sempre são um conto de fadas, é preciso estar alerta e conhecer os perigos!
Termino com uma citação da autora bastante reveladora e com a recomendação de leitura pois o artigo é muito, muito interessante.

“I’ve been asked in interviews, in classrooms and by audiences, if I think fairy tales are feminist. I think they are, but not by our modern definition of feminism. Traditional fairy tales were created long before any such notion existed, and I’d say they help women, rather than lift up women. They warn, rather than extol. They’re useful, which is a much older kind of feminism.”