Pessoas versus gente

Pimpolha mais velha utiliza, frequentemente, a expressão em voga, entre a malta da sua idade, sempre que se dirige a um grupo:
“PESSOAS??? GENTE???”
E as pessoas e  as gentes, respondem-lhe prontamente!
Passado pouco tempo, esta forma de tratamento estende-se, e em mails ou whatsapp entre pais, constato que já há pais a chamar por “PESSOAS” e “GENTE” os demais.
Um fenómeno interessante…
Curiosamente, um “PESSOAS?”, ao qual a resposta não chega no timing desejado, segue-se sempre um “GENTE?”, de filhos e pais. Engraçado o alinhamento e o seguimento, faz-me sempre lembrar que pessoas há muitas mas gente (?), gente é outra coisa, algo um pouco mais elevado e próximo.
Detesto esta forma impessoal de tratamento, não me soa bem, talvez porque considere que entre pessoas e gente há uma grande diferença, como tão bem retrata Ricardo Araújo Pereira no seu artigo “Tem gente que é pessoas”:

“Pelas minhas contas, temos: pessoas, gente, povo e humanidade. O pior são as pessoas, claro, e o melhor é a humanidade.
As pessoas não usam setas no trânsito; a humanidade foi à lua.
A humanidade é tão digna que, muitas vezes, aparece grafada com h grande: a Humanidade. Isso nunca aconteceu às pessoas, e bem. Não faz sentido escrever que as Pessoas jogam lixo no chão (coisa que a Humanidade, aliás, nunca faria). As pessoas raramente merecem a honra da maiúscula. Em geral, são referidas no fim da conversa, em tom de lamento: “realmente, as pessoas e sempre com p pequeno.
A gente talvez esteja num patamar acima, mas não muito. Tem gente muito estúpida. O que é normal, dado que a gente costuma ser formada por muitas pessoas. Mas, apesar de tudo, às vezes é possível confiar na gente, e até desejar combinar um programa com ela, como fica claro na frase: “E aí, gente, vamos sair?” Um convite que, não por acaso, nunca é feito às pessoas.
O povo já é outra coisa. Dedica-se sobretudo à política, e com uma nobreza que falta claramente às pessoas. Os políticos, infelizmente, são, em geral, pessoas. O povo, que é sábio, vota neles, mas apenas porque não tem alternativa.
Pudesse o povo votar no povo e as nações, verdadeiramente governadas pelos povos, prosperariam. No entanto, o povo não tem outro remédio senão votar em pessoas, com os resultados que todos conhecemos.
Não surpreende, por isso, que a Humanidade seja capaz de tantas e tão grandes façanhas: ela é formada pelo conjunto dos povos. Quando os povos se juntam para criar a Humanidade, aliam a excelência de cada um à dos outros, e o resultado é uma entidade que consegue atingir cumes da civilização, como as vacinas, a conquista do espaço e o gin tônica.
Falta descobrir o essencial: em que ponto passam as pessoas a ser gente – e, sobretudo, quando é que a gente se transforma em povo e Humanidade. Esse momento tem de ser identificado e estudado na escola. Deve ser uma delícia viajar de ônibus com a Humanidade, aguardar na fila do supermercado atrás da Humanidade, ir ao estádio ver o nosso time na companhia da Humanidade. Fazer tudo isso com pessoas é quase sempre chato, e muitas vezes perigoso.”
Texto de Ricardo Araújo Pereira publicado originalmente na Folha de S. Paulo

O mesmo ou outro?!

“Há quem diga que, quanto voltamos a ler um livro, anos depois, não é o mesmo livro. É um fenómeno caro a Heraclito. A teoria diz que nós mudamos, aprendemos mais e quando relemos, fazemo-lo com outros olhos, mais experientes, mais sábios. Mas há a possibilidade, é só uma teoria, de, quando se fecha um livro numa prateleira, ele, febrilmente, trocar as suas próprias letras, tal como nós renovamos o sangue e vamos crescendo. Reescreve frases e parágrafos, acrescenta texto, elimina períodos, sublinha ideias. Ou como é que um objecto que pode conter tanta sabedoria, pode ter a vida de uma pedra, em vez da dum ancião de barbas? Ou como é que aquilo que contém inteligência pode não ser inteligente?”

 in O Cavaleiro Ainda Persegue/ A Mesma Donzela um conto de Afonso Cruz no Livro “Prazer da Leitura” (Fnac/Teodolito)

A Leis da Matemática aos olhos de Escher

“The laws of mathematics are not merely human inventions or creations. They simply ‘are’; they exist quite independently of the human intellect. The most that any(one) … can do is to find that they are there and to take cognizance of them.”

M.C. Escher

Uma excelente definição do que são as leis da matemática, de M.C. Escher que, no entanto, humildemente, afirmava que:

Apesar de não possuir qualquer conhecimento ou treino nas ciências exatas, sinto muitas vezes que tenho mais em comum com os matemáticos do que com os meus colegas artistas.”

 

A não perder a Exposição de Escher, até 16 de setembro, no Museu de Arte Popular

O outro lado da nossa história – Das Descobertas, Da Viagem?

Mais importante e interessante do que o nome do novo museu para Lisboa, anunciado por Fernando Medina no seu programa eleitoral, era que nele houvesse espaço reservado par o outro lado da História – o de quem foi supostamente “descoberto” e viu a sua vida e terra “transformada” e não só a vanglória, o conhecimento, a audácia, a expansão gloriosa, os tempos aúreos e os feitos esplendorosos desta nação nobre, valente e imortal – o lado da História que gostamos e escolhemos sempre ver e difundir. Isso sim era algo relevante, o nome que tanta polémica gerou, parece-me apenas um pequeno pormenor! Just saying… que eu não percebo nada do assunto!

“Eduardo Galeano morreu em 2015, mas está há muito no cânone da América Latina, e este é o livro que o colocou nesse pedestal. Bíblia anti-colonialista, anti-capitalista e anti-norte-americana, As Veias Abertas da América Latina é o livro de bolso da esquerda latino-americana, o livro que foi proibido em praticamente todas as ditaduras militares vigentes nestes estados, o livro que, além de por em perspectiva tudo o que se passou nas relações entre os países colonizadores e colonizados, mostra a face dessa história que ainda não desapareceu e se continua a espalhar num neo-colonialismo que continua a sugar para si todo o poder para decidir as vidas dos outros.
A síntese é facilmente resumida no título da primeira secção do livro “A pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra”: face à abundância de recursos naturais presentes na América Latina, ali expostos à mão de semear, os Europeus não resistiram a usurpar tudo, mesmo que outros povos, como os Incas, os Maias, ou outras tribos índias, estivessem já espalhadas por todo o continente.

“Os Índios das Américas somavam não menos de 70 milhões, talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois, tinham ficado reduzidos, no total, a apenas 3 milhões e meio.”

O massacre era completo e os que sobreviviam, junto com os escravos africanos que chegavam através do Atlântico, eram usados para explorarem de forma louca os recursos que a terra guardava. Foi a loucura do ouro, da prata, do café, do açúcar (estes dois, ao contrário do mito propagado, trazidos, o primeiro da Etiópia e o segundo da Índia, para a América Latina através da mão dos europeus), mais tarde do petróleo e de tantos outros. Era o culto da monocultura ou da mono-exploração, a América Latina transformada em campo de labuta das necessidades europeias. Explorava-se o que era necessário para os países que se gabavam de ter descoberto um novo mundo. Deixara de se produzir internamente qualquer dos produtos necessários para a sobrevivência dos Latino-Americanos, tendo tudo de ser importado (da Europa, de onde mais poderia ser?) e, portanto, chegando a preços ridiculamente elevados. Cidades formadas por esta cultura, como Potosí, na Bolívia, de onde veio 60% da prata recolhida na segunda metade do século XVI, tornaram-se em cemitérios ao ar livre assim que as reservas minerais se esgotaram. A história de Potosí é a história da América Latina, um pouco por todo o lado, mesmo nos dias de hoje.
Os problemas não ficaram resolvidos aquando da independência destes estados, no entanto. Aliás, mesmo quando, por exemplo, o Brasil era ainda governado pelos portugueses, já as empresas britânicas dominavam toda a exploração natural do país.”

Excerto de um artigo muito interessante.

Expressão do dia

Lendo para a pequenada o conto tradicional português “O Menino Grão de Milho” deparei-me com esta curiosa expressão :

“Molham todos a sopa e para mim não há colherada?”

in O Macaco de Rabo Cortado e outras histórias de António Torrado

Desconfio que deve ser esta a “luz” que ilumia o “caminho” de muitos, em especial, da nossa classe política mas não só!

 

O futebol, o mundial… e sexo?!

Há inquéritos, estudos, comparações e ilações para todos os gostos, o El Mundo publicou hoje um artigo sobre o futebol e o seu “papel” nas relações sexuais. Hummm… diria que é uma associação um pouco forçada em determinados parâmetros.
Os dados de vendas são o que são, não deixam de ser curiosos… just saying and wondering! As pessoas são “bichos” estranhos!

Geringonças…

“Sei muito bem que o estadista não é o santo, que o grande político não é o mártir, mas sei também que toda a obra governativa, que não for uma obra de filosofia humana, resultará em geringonça anedótica, manequim inerte, sem olhar e sem fala.(…)”

Guerra Junqueiro in “Pátria”

 

“If you are neutral in situations of injustice, you have chosen the side of the oppressor.” —

Desmond Tutu

O vazio das certezas!

“Somos assim: sonhamos o voo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.”

in “Os Irmãos Karamazov” de Dostoiévski

(imagem retirada da internet)

Nem mais um pio!

O Fowl Language surgiu quando Brian Gordon ficou desempregado e teve a brilhante ideia de colocar o seu talento a render, inspirando-se nas suas vivências diárias com os seu filhos. É fácil qualquer pai rever-se nos cartoons do Fowl Language de Brian Gordon, é uma leitura de terapia “Ufa, não sou só eu! Não, não sou o único!”.  Uma ótima sugestão de leitura/prenda hilariante para oferecer a qualquer pai ou mãe.
No seu site ,podemos ver muitos dos seus cartoons (em inglês) mas foi editado, recentemente, em português, um livro com uma coletânea dos seus melhores cartoons que só pelo título promete:  “Nem mais um pio”.
Uma amostra dos seus cartoons retirado do seu site oficial.

(Ainda o) Tempo, anos e percepções

Histórias há muitas, verdadeiras ou não, algumas é difícil comprová-lo.
Muitas, às vezes, as melhores, não vêm escritas em livros mas são fruto do passa “palavra” e da sabedoria e vivência popular aliado a alguém que sabe e gosta de ouvir e contar história.
Estou em crer que, frequentemente, estas histórias do passa palavra têm um fundo de verdade, mas, como diz o ditado, quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto… ou dois, ou três ou os que quiser, que poderão ser todos válidos e enriquecer a história, no entanto, ao fazê-lo, esta deixa de pertencer e poder ser atribuída a quem a originalmente contou/criou (uma cena muito em voga nas internets com a qual é preciso ter cuidado).
A história que se segue li-a em vários sítios e ouvi-a a um colega meu, não consegui confirmar se pertence ou não a Galileu Galilei mas, independentemente, disso é muito interessante:

“Em certa ocasião alguém perguntou a Galileu Galilei:
– Quantos anos tens?
– Oito ou dez, respondeu Galileu, em evidente contradição com sua barba branca.
E logo explicou:
-Tenho, na verdade, os anos que me restam de vida, porque os já vividos não os tenho mais.”

Uma resposta e uma perspectiva muito interessante!
Um “excelente argumento” que o Ministro da Educação (que em tempos também já foi da Ciência, o ministério e o ministro), e restante corja, ainda não se lembrou de apresentar relativamento ao tempo de serviço dos professores!

Seissentos e sessenta e seis

“A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil
das horas.”
Mario Quintana in Esconderijos do Tempo

Uma pequeno, e bonito, poema de Mario Quintana que dá que pensar!
Numa primeira análise simplista, reflete um pouco aquele sentimento comum de que o tempo voa e, com o passar dos anos, parece que cada vez mais rápido.
O título do poema é curioso – Seiscentos e sessente a seis – ou em numeral 666, referência aos três seis que figuram nas suas estrofes ou a algo mais?
666  é também conhecido pelo número da besta devido a um execerto no último livro da bíblia, o Apocalipse, capítulo 13, versículo 18, “Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis”.
Segundo alguns historiador, 666 era o “código” utilizado pelo cristãos para se referirem a um determinado imperador romano, tirano e perverso, e não serem punidos pela afronta. A besta – aquele que os perseguiua impiedosamente – ao qual ser referiam como 666 (“o número de um homem”). Curiosamente, o número seis aparece referido diversas vezes na Bíblia com um número imperfeito e antagónico ao bem. O que torna o 666 em… algo 111 vezes pior que o 6 🙂 ?!
Voltando ao poema e ao número da besta, resta-me a(s) dúvida(s):
– será o tempo o nosso imperador perverso e tirano?
– seremos nós que transformamos o tempo num tirano perverso?
– seremos nós os tiranos perversos do tempo?

PordataKids

Muito interessante e apelativo o site da PordataKids para miúdos e graúdos.
Uma excelente fonte de informação variada e curiosa para os miúdos explorarem e/ou utilizaram em trabalhos escolares e/ou sobre estatísitca! Observando, atenta e comparativamente, permite ver sobre outra luz o “nosso mundo” e o “Mundo”.
Muito interessante e apelativo o site da PordataKids para miúdos e graúdos. Vale a pena explorá-lo com olhos de ver.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Observando os dados relativamente ao lixo e à reciclagem constata-se que:
(A) Lixo separado em 2016: 775 695 toneladas
(B) Lixo reciclado, em 2016: 675 732 toneladas
(A)-(B)= 99 963 toneladas
Provavelmente, sou eu que estou a ver e/ou a interpretar mal mas desconfio que esta diferença se deve também a isto, digo eu, que sou má língua e tenho mau feito mas que gosto de observar números, entre outras coisas.

“E tudo vai bem”

“Queixamo-nos, claro. Mas o país vai bem. Nas comemorações de 25 de Abril, o Dr. Ferro garantiu, novamente, que o comportamento dos deputados que acumulam subsídio de deslocação e reembolso de despesas é irrepreensível. É curioso. Na empresa onde trabalho recebo subsídio de alimentação. E quando estou deslocado pagam as refeições comprovadas por facturas. Mas, nesse caso, deduzem o subsídio. É ainda mais curioso porque esta é a prática geral nas empresas e, pasme-se, no Estado. Embirram que não faz sentido acumular subsídio e reembolso de despesas. A própria mulher do Dr. César que, a acreditar na voz do povo, tem de parecer séria, terá muita dificuldade em controlar a risota quando ouve o Dr. Ferro.

É verdade que não convém irritar o Dr. César. Quando o Dr. César e a família entram num bar, a administração pública paralisa. Imagine-se o que seria se o Dr. César enxofrasse e levasse os sobrinhos, os primos e as tias a fazer greve. Mas ver o Dr. Ferro a passar atestados de ética ao Dr. César é o mesmo que ter o Eng. Carlos Santos Silva a auditar as finanças pessoais do Eng. Sócrates.

Aliás, a relação entre os dois continua a surpreender. Nas gravações que a SIC transmitiu, o Eng. Sócrates, além de reconhecer que foi sustentado pelo amigo, afirmou que o Eng. Silva pagava as férias e ele os jantares. Mas como é que faziam? Não, ó Zé, deixa estar, eu pago o jantar. Nem pensar, ó Carlos. Não, ó Zé, pago eu. Não, ó Carlos, pago eu, pá. Pronto, ó Zé, paga lá tu. Ó Carlos, pá, então empresta-me aí umas fotocópias. Era assim? A coisa dos empréstimos é a história mais mal contada depois das pulseiras do equilíbrio. Era mais credível o Eng. Sócrates dizer que a massa vinha de um Príncipe da Nigéria ou assim.

É certo que o país vai bem. Mas há muito a fazer. Uma coisa que impressiona no Processo Marquês é perceber que até as organizações mais dadas à informalidade reproduzem os estereótipos heteropatriarcais. Os fulanos ocupam-se a reconfigurar os sectores público e privado da economia e as senhoras, mesmo as conhecidas activistas da causa feminista, fazem-se de tontas, têm memória de peixe e fazem recados.

Mas o país vai bem. O Dr. Costa prometeu que havia outro caminho e era verdade. Fui pagar impostos numa repartição de finanças perto de casa e nota-se grande evolução. Quase não havia fila. Simpatia e eficiência no atendimento. No caso, foi na PRIO. Mas há relatos semelhantes sobre a GALP, a BP ou a REPSOL. O país vai bem, mas é uma sorte não termos de fazer uma revolução. Com as cativações do Ministro Centeno, os tanques não chegavam a sair do quartel por falta de combustível. E, com a gestão do Ministro Azeredo, nunca se sabe onde andam os lança-granadas.

O país vai bem e o Dr. Rio contribui para isso. Prometeu um banho de ética e, viu-se no caso Feliciano, tem cumprido. Esqueceu-se foi de avisar que o tal banho era um mergulho na praia fluvial de Vila Velha de Ródão logo a seguir a uma descarga da Celtejo. Para além de banho, o Dr. Rio deu ao país um governo-sombra. A média de idades do gabinete é de 60 anos. Para o apoiar, o Dr. Rio nomeou especialistas em comunicação. Cada ministro tem, assim, um porta-avós.

Mas o país vai bem e beneficia da diversidade de posições do Bloco. Diz-se que nos Açores existem as quatro estações num único dia. O Bloco consegue aprovar o Orçamento e criticar as suas medidas na mesma tarde. Não foram só os Simpsons que previram eventos futuros com precisão. Ivone Silva também andou bem quando antecipou que uma personagem faria simultaneamente de patroa e costureira. Sabemos agora que o verdadeiro nome dessa personagem é Catarina Martins. As posições do Bloco são tão contraditórias que, às vezes, dá ideia que a Mariana Mortágua tem uma irmã gémea.

Já o PCP continua igualzinho. Jerónimo entusiasma-se com Cuba. Entre os dois, os irmãos Castro não encontraram um tempinho para organizar eleições democráticas durante mais de 58 anos. Pode ser que Diaz-Canel se lembre de fazer umas ainda durante o século XXI.

Mas o país vai bem. Podia ir melhor? Podia. Mas era preciso que cada português tivesse saúde sem ter de recorrer ao SNS, amor e um amigo como o Eng. Carlos Santos Silva.”

Fantástico texto de Rui Rocha publicado no Delito de Opinião

Missing piece

“Missing piece meets the Big O” é o título de um bonito, e profundo, livro infantil, do músico, poeta e ilustrador Shel Silverstein, publicado, pela primeira vez, nos Estados Unidos, em 1976 .
Este livro, infelizmente, não está disponível em português mas o seu título poderia se facilmente traduzido por “A Parte que Falta”.
Para compensar esta falha editorial, temos o “The missing piece – animation” que traduz, na perfeição, o que está impresso nas suas páginas: da busca, ao regozijo do encontro, ao contentamento, à aceitação, à desilusão, à quebra que dá origem ao início de um novo ciclo. Ilusões, sentimentos e as emoções que fazem eco e ricochete na nossa mente e no nosso coração que os reconhecem e identificam, na plenitude, com algum ou vários momentos da nossa vida.
A busca incessante pela felicidade, esse “bem”, aparentemente, inalcançável, que muitos associam a alguém ou algo que não sabem bem quem é, o que é ou como é mas parece ser (um)a “solução” para o que está em falta.
Um livro infantil repleto de metáforas da vida!

Greve!

Há  livros infantis fantásticos que de uma maneira muito simples, explicam e elucidam as crianças de cenas e coisas  da vida dos adultos.
O livro “Greve” de Catarina Sobral é um deles.
Os pontos decidem fazer greve – os pontos são muitos e “movimentam” vários setores: da escrita (os famosos pontos nos i´s), à pontuação,  à geometria, às suturas médicas, à arte, aos pontos cardeais e de fuga, aos pontos turísticos e de referência, aos pontos de vista, etc… O caos instala-se. E quando as questões associadas à greve dos pontos estão resolvidas surgem outras reivindicações… agora das linhas porque não conseguimos manter a linha, as linhas de pensamento e dos vestidos, etc.
Aprecio cada vez mais este tipo de livros infantis: do grafismo, ao humor, à subtileza… aos textos pequenos (acrescentem os pequenos mais novos 🙂

O contrário da tristeza não é a felicidade!

“(…) A mim parece-me que vivemos numa espécie de bolha de euforia como se estarmos tristes e sermos deprimidos fosse quase a mesma coisa. E não é mesmo nada assim. Só as pessoas que são capazes de estar tristes não se deprimem. A tristeza é o melhor anti-depressivo do mundo. (…) Vendo bem, talvez vivamos num mundo muito amigo da mania onde a tristeza parece ser sinónimo de fraqueza e de depressão, e onde os momentos de tristeza não encontram nem espaço, nem relações, nem “autorização” para partilhas.
O contrário da tristeza não é a felicidade, é bom que se lembre. Mas a vivacidade. Essa ideia de que estamos felizes quando não estamos tristes não é verdade. O paraíso não é um sítio sem dor. É um lugar onde a dor nunca nos leva senão à sabedoria. (…)”
Eduardo Sá

A equação da Felicidade

Pequenos excertos de uma interessante entrevista com Mo Gawdat, ex executivo da Google X e autor do livro “Equação da Felicidade”

a felicidade pode nascer de uma equação: a felicidade é igual à diferença entre os acontecimentos da sua vida e as expetativas de como a vida devia ser. (…) O cérebro está constantemente a comparar eventos com expetativas. (…) A dor emocional leva-nos a agir. (…)

À medida que os acontecimentos se tornam melhores as nossas expetativas são tão irrealistas… Eu adoro Portugal, por isso não me interprete mal, mas vocês andam nas ruas de Lisboa e queixam-se do tráfego. Se não gostam de Lisboa venham comigo e levo-os um dia à Síria e quando voltarem beijam o chão da cidade. Sentam-se num restaurante a comida está um pouco mais fria e queixam-se. Eu levo-os a África e quando voltarem beijam o Chef. A verdade é que a cada coisa que nos é dada começamos a queixar-nos porque queremos mais e mais e mais…
É surpreendente, mas os  países mais pobres são os mais felizes. É claro que há pesquisas que lhe dirão que o Norte da Europa tem os países mais felizes do mundo. Mas não. Tem os países onde a qualidade de vida é mais elevada, mas os suicídios também são em maior número. E porquê? O que acontece é que os países estão treinados para serem infelizes. Digo isso com amor e respeito, Alemanha, Portugal, Polónia, Rússia, são países em que somos treinados para ver o que está errado. E todos os acontecimentos da nossa vida são sempre um problema. (…)

(…) a derradeira fórmula da felicidade é fazer os outros felizes. E isso é verdadeiramente sobre o que é a missão: encontre a compaixão em si para tornar outra pessoa feliz. Se cada pessoa tornar outra feliz, e outra e outra em dois anos e meio todo o Portugal estaria feliz. Claro que haverá sempre alguns milhares de pessoas rabugentas. Ok, mas se todas as outras derem prioridade à felicidade e investirem nisso, serão um país ainda mais feliz.
O que é feito dos tempos em que as pessoas sorriam umas para as outras na rua? Façam a diferença e, por favor, entendam que a promessa do mundo moderno é uma mentira. Não temos de ser bem-sucedidos para sermos felizes, não precisamos de um carro para ser felizes, de ter gadgets, muito dinheiro…precisamos de nós próprios.Tem de se mudar a forma como se pensa porque a felicidade é muito melhor que todas essas coisas. (…)”

Jogando na antecipação!

A encomenda chegou e despertou a curiosidade da pequenada.
“É um livro que o avô ofereceu ao pai!” informo a pequenada. A malta dispersa excepto pimpolha mais velha.
Abrindo a embalagem, descobrimos o novo livro do Daniel Sampaio: “Do telemóvel para o mundo – Pais e adolescentes no tempo da internet”.
Pimpolha mais velha observa, atentamente, o livro e diz , sorrindo, “Hummmm…. parece interessante… Vou lê-lo!” e seguiu para o quarto de livro na mão pronta a iniciar a cruzada.
À noite, depois de ter lido a introdução e parte do 1º capítulo, confessa “Foi estranho. Acho que não percebi umas partes do que li”.
“É normal, é um livro pensado para adultos e não para meninos de 12 anos.” descansei-a.
“Olha lá mas por que razão é que os hospitais têm  auditórios? Essa parte é que não percebi mesmo…!” questiona ela.
Lá lhe expliquei e pensei “Que raio! De tudo o que leu… 30 páginas, isto é que verdadeiramente a intrigou?”
Decidi começar a ler o livro, procurando esclarecer e perceber as dúvidas da miúda, e logo,  na introdução, deparo-me com este belo excerto e pensei “Touché!”:
“Vejo os pais submersos com «problemas» da adolescência dos seus filhos (…)
(…) sei que muitos procuram ajuda em manuais mais ou menos especializados, escritos por terapeutas, especialistas em autoajuda ou mesmo outros progenitores. Os títulos são apelativos e muitos constituem grandes êxitos de vendas, mas encerram a ansiedade de que falei atrás. Os adolescentes são descritos como uma rspécie de extraterrestre, ou hostis ou simplesmente afastados do real, aos quais um adulto saudável terá difícil acesso. Os títulos e a maioria dos capítulo refletem o «desespero» dos pais, a descrição do seu problema como se fosse único, a procura incessante de «estratégias» para lidar com adolescentes impulsivos, desmotivados e isolados.
Quando um adolescente descobre, ou pelo menos intui, que os pais andam a ler livros deste género têm, com frequência, uma reação curiosa. Pergunta: por que razão os meus pais andam a ler este livro? Por que motivo não falaram comigo?
As perguntas são pertinentes, mas a resposta não é difícil: numa adolescência problemática, quase ninguém fala com tranquilidade. O livro, o sítio da internet ou a série da TV estão, por estranho que pareça, muito mais à mão e parecem, à partida, menos capazes de gerar novos conflitos. O problema é que o rapaz ou a rapariga se podem sentir de alguma forma traídos e não raramente vão «espreitar» o que os pais andam a ler.
(…)
Em 2018, sou avô de quatro netos entre os 15 e os 18 anos. Os outros 3 netos, entre os 7 e os 10 anos, permitem sempre pensar no que aconteceu antes.
Todos os escritores são influenciados pelo seu contexto, dizem os critícos. Assumo que conviver com frequência com os meus quatro netos mais velhos me influenciou neste livro. Todos me trouxeram histórias da escola, do seu grupo de amigos, das festas que frequentam (…) percebi muita coisa que tantos tratados científicos nunca conseguiram esclarecer.
Os meus netos e os seus amigos contribuíram para eu abandonar, espero que para sempre, a ideia de que a adolescência é uma época terrível. Sem dúvida que existem muitos jovens a precisar de ajuda, mas o foco tem de ser colocado nos adolescentes que vivem esta etapa de desenvolvimento sem problemas de maior. Todos estamos de acordo sobre alguma turbulência que sempre ocorre nesse período, mas o que importa é compreender bem o que caracteriza a adolescência divertida e sem angústia que ocorre na grande maioria dos jovens de hoje. (…)”
Daniel Sampaio in “Do telemóvel para o mundo – Pais e adolescentes no tempo da internet”. 

Mães imperfeitas

“E que as mães imperfeitas, as que só souberam fazer o melhor que sabiam, mesmo sabendo que esse melhor nunca seria suficiente, as mães com dúvidas, as mães com medo, que raramente foram coragem, as mães que nunca ficaram bem na fotografia, que nunca foram bonitas, as cansadas, as ausentes, as mais amarguradas, as que se desesperaram,que disseram o que não deviam, as que se sentiram egoístas, e que foram egoístas tantas vezes, as que só quiseram silêncio, as que tiveram de construir um instinto que nunca chegou, as que quiseram outra vida, as que se sentiram culpadas, apontadas, as que foram humanas, daquele humano fraco, flácido e mediano, envergonhado, esquecido ao canto mais cinzento da sala, também tenham tido um bom dia da mãe.”
Texto de Cristina Nobre Soares