O outro lado dos Descobrimentos e da História

No ‘Deus-dará’ escreve que “Portugal foi o maior esclavagista do Oceano Atântico” e que “o Império Português tirou 5,8 milhões de pessoas de África para usar como escravas”. Portugal já fez a reconciliação com o passado?

Portugal foi objectivamente o maior esclavagista do Atlântico. Com o tamanho minúsculo que tem tirou quase metade (47 por cento) dos escravizados de África, enquanto as outras potências europeias (Espanha, França, Inglaterra, Holanda), todas juntas, são responsáveis pelo restante. E Portugal inaugurou o tráfico atlântico, a triangulação Europa-África-América, que não existia. Os números variam um pouco consoante as fontes, mas se pecam será por defeito, porque nos faltam registos, porque havia tráfico clandestino, etc. Seja como for, apenas com o que já se sabe, é inquestionável que a escala foi gigantesca. E é a percepção desta escala, para começar, que até hoje não existe, em geral, em Portugal.

Académicos e artistas têm trabalhado sobre isto, mas desde o ensino básico aos discursos políticos continua a perpetuar-se um discurso sobre os “Descobrimentos” que ignora a escala do que aconteceu. A escravatura é transformada numa espécie de borrão em que todos estavam metidos, e era assim, e já foi muito tempo, e pronto. Mas esta história, esta corda de mortos, está em grande parte por desenterrar no espaço público, fora da academia. Primeiro, o horror do que aconteceu, a quantidade de gente de que estamos a falar — o mesmo número de pessoas do Holocausto —, o que passaram, como eram tratadas, como morreram. Depois, quem eram, como lutaram, como resistiram, como viviam, todas as narrativas que lhes foram negadas enquanto seres humanos. E como tudo isso se liga à discriminação, à repressão, ao racismo ao longo da história até hoje.

Dos manuais escolares aos discursos políticos, Portugal gosta de acreditar que lidou bem com a sua história, que foi um colonizador brando e que não é racista. Não foi um colonizador brando, tem inúmeras situações de racismo e a prova de que não lidou bem com a sua história é a violência que este tema evoca sempre que se debate, a resistência, o contra-ataque, e acima de tudo a ausência total em Lisboa de um memorial, museu ou espaço que reflicta tudo isto.

Lisboa foi a grande capital esclavagista do mundo, depois de pelo menos um milhão de ameríndios já terem morrido na sequência da chegada dos portugueses ao Brasil. Mas todos estes milhões de pessoas, ameríndios e escravizados africanos, não existem em Belém, o epicentro da memória imperial portuguesa, nem noutro ponto da cidade. Não existe o horror do que lhes aconteceu, tal como não existe quem eles eram: narrativas, artes, lutas. E esse vazio serve o racismo contemporâneo, mantém invisíveis os fios que ligam esses mortos aos afrodescendentes e ameríndios de hoje. É uma negação de toda a história, de que do lado deles também há uma história, da tal corda que liga passado e presente em contínuo, e que fará o futuro.

No último ano, parece-me que pessoas e movimentos em Portugal, uns há muito no terreno, outros recentes, de proveniências e formações várias, começam a confluir, a unirem esforços para que esta situação mude em vários sentidos. Não vejo como pode não mudar. Não podemos continuar a ter o Padrão dos Descobrimentos e o Mosteiro dos Jerónimos sem nada nas redondezas que amplie largamente as narrativas do que se passou, e continua a passar.

 No vazio do que nunca enfrentámos historicamente há também o vazio das mulheres
(…)
Quanto à miscigenação, em que assenta a tese do luso-tropicalismo, comecemos por pensar nisto: foi violação em massa. Os portugueses levaram menos mulheres do que outros europeus para o Novo Mundo e violaram muito mais, índias e negras. Mesmo quando não se tratava de uma relação sexual imposta pela força, tratava-se de uma relação de poder, domínio, subjugação, não de uma escolha livre. No vazio do que nunca enfrentámos historicamente há também o vazio das mulheres. As brancas que ficavam na metrópole, e as índias e negras, milhões, que foram violadas e violentadas ao longo de séculos, para povoar e embranquecer as colónias.

Excerto de uma entrevista muito interessante com a jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho sobre o seu livro “Deus- Dará”

Uma entrevista que vale a pena ler por vários motivos mas que realça factos e dados que escolhemos confortável e deliberadamente ignorar mas os números não enganam e não deixam de relatar o outro lado da História e das histórias e a crueza da realidade!

“5 mitos sobre os Professores de Matemática”

“É verdade…. Existe uma imagem pré-concebida acerca dos professores de Matemática. Sempre que digo que sou Professor de Matemática, as pessoas ficam impressionadas com tamanha faceta (como se eu fosse de uma espécie rara). Há certas qualidades e características que são aceites como obrigatórias para todo o Professor de Matemática. Funcionam como se fossem requisitos imprescindíveis para quem ensina a dita “disciplina dos números”.

1º Mito – O Professor de Matemática não faz contas
Pois é…. Nenhum professor de matemática é uma máquina de calcular, nem um computador. Poucos são os seres humanos que conseguem fazer 9389×1489 em 5 segundos. Porque é que as pessoas pensam que os Professores de Matemática têm a obrigação de a fazer de cabeça e rapidamente?

Lamento. Eu preciso ou de papel e lápis ou de uma máquina de calcular para o fazer (relativamente a esta última, que moderna é esta geração de professores… antigamente é que era a sério! Era tudo feito a papel e lápis…)
Como costumo perguntar ás pessoas que me pedem para fazer cálculos não tão imediatos quanto pensam “Tenho CASIO escrito na testa?”.

2º Mito – O professor de matemática pensa como qualquer outro profissional (sem fórmulas, nem desenhos geométricos imaginários a circular à volta da sua cabeça)
Quando o “comum mortal” pensa no professor de matemática é muito comum lembrar-se daquela imagem típica… Uma pessoa com um olhar pensativo e há volta da sua cabeça fórmulas matemáticas, desenhos geométricos, raízes quadradas de expressões estranhas (e que nem fazem sentido sequer) e outros tantos disparates. 
Pois é. Somos como qualquer outro ser humano. Agimos de forma normal.
Não precisamos de fazer cálculos para conseguir encestar a bola no cesto de basquete ou para acertar na baliza. Muito menos imaginar triângulos retângulos…. Simplesmente chutamos e aguardamos que este chegue ao seu destino.

3º Mito – Não é requisito o professor de matemática usar óculos
É um facto que os uso, mas nem todos os membros da comunidade matemática os têm. 

Se usamos óculos é por necessidade e não por ser requisito obrigatório. É apenas por questões de saúde e para que nenhuma variável nos escape naquele momento em que temos de olhar para o problema no seu todo… E por falar em problemas…

4º Mito – O professor de Matemática resolve problemas e procura soluções eficientes e eficazes
Como dito no 1º mito, não! Nós não fazemos contas! A Matemática é a disciplina da resolução de problemas por excelência. 

Como costumo dizer e sem a intenção de ferir suscetibilidades), os contabilistas fazem contas, os engenheiros põem em prática fórmulas e teorias a problemas reais. Já os matemáticos tratam de arranjar as soluções mais rápidas e menos trabalhosas para qualquer tipo de problemas. Arriscaria a dizer… O nosso lema é “Fazer muito pouco por muito”.
E não há nada como o momento certo de gritar “Eureka!” e é tudo uma questão de encaixar as peças do puzzle. Não há cá milagres, magia negra e outras tantas coisas que se dizem por aí. Costumo pensar na Matemática como um jogo de estratégia em que para o ganhar basta: idealizar um plano; cumprir as regras do jogo; selecionar a informação; juntar tudo de forma lógica e de modo a fazer sentido; analisar a resposta para ver se faz sentido para o que se pretende.

5º Mito – Os professores de Matemática não pensam exclusivamente (e apenas) em Matemática
Somos pessoas que se conseguem divertir. Gostamos de ir ao cinema, de ir a um bom concerto de rock, de descansar… E vá! Também sabemos contar piadas de todo o tipo (“secas” e não “secas”) e ter piada com essas piadas. 

Fazemos tudo o que todos os outros fazem. Não somos os “cromos” que ficam sentados, durante noites e dias a fio, à secretária a pensar exaustivamente naquela equação (sim… tem de ser sempre uma equação!) impossível de resolver. 
O professor de Matemática é um profissional que sabe distinguir e regular as suas necessidades profissionais e as suas necessidades pessoais.

Em suma… Acima de tudo, com este texto pretendo chamar à atenção para o facto de que existe uma grande diversidade de profissionais ligados ao ensino da Matemática, como existem ligados a tantas outras áreas disciplinares. Os professores são pessoas como todas as outras. Trabalham, passeiam, convivem, divertem-se… E os professores de Matemática não são exceção. 
Uma coisa é certa e isso garanto-vos… Não há nada como ter um professor de matemática lá em casa! Nunca se sabe quando poderão dar jeito (e não é para fazer a contabilidade doméstica). 

Texto de João Carlos Terroso, surripiado aqui

Azulejos didáticos

Supõe-se que, provavelmente, eram centenas, embora apenas se conheçam 23, datam de meados do século XVII, feitos em Portugal, contém proposições e demonstrações matemáticas contidas nos primeiros livros dos Elementos de Euclides e “ilustradas e reproduzidas” por Tacquet (padre jesuíta). Tudo indica que estiveram expostos em salas de aula de matemática num colégio da Companhia de Jesus (jesuíta), de Coimbra, por volta de 1692 até 1759 (ano em que os jesuítas foram expulsos de Portugal).
No século XVI e XVII, houve bastantes Jesuítas, espalhados pelo mundo, com um papel importante no estudo da Matemática e da Ciências mas, em Portugal, (pre)dominava a corrente filosófica. Talvez este facto esteja na origem das indicações do Geral da Companhia de Jesus, Tirso Gonzales, que, em  1692, enviou para Portugal as Ordenações para estimular e promover o estudo da Matemática na Província Lusitana, onde se pode ler:

“Quinto: Procurem primeiro os Superiores dos colégios de Coimbra e Évora que cada um dos nossos filósofos tenha necessariamente para seu uso os seis primeiros livros dos Elementos de Euclides que contêm os elementos de geometria plana. São muito convenientes os que compôs o P. Andreas Tacquet […]. Na escola, ou em qualquer outro lugar destinado às demonstrações deve ser exposto um quadro das figuras principais, maior e mais amplo, que será comum a todos, e a que se deve adaptar um compasso para a demonstração das figuras […].”

Declarações que podem estar na origem, justificar a existência e os fins a que se destinavam estes azulejos, os azulejos que ensinam, ou didáticos como ficaram conhecidos. Os azulejos didáticos foram “eliminados” das salas de aula com a Reforma Pombalina, altura em que surgiu, em Inglaterra, uma outra edição dos Elementos de Euclides, com figuras e construções diferentes das de Tacquet, tendo muitos deles sido destruídos e entulhados. Nos dias de hoje, encontram-se espalhados por diversos museus nacionais e por colecções particulares mas não há duvidas que foram um género de powerpoint do século XVII e XVIII e ensinaram ciência nos colégios jesuítas em Coimbra.

Referências, fontes e imagens

Em Lisboa, no que hoje é o Hospital de São José, funcionou, desde o século XVI e durante cerca de 170 anos, o Colégio de Santo Antão (pertencente também aos Jesuítas).
A “Aula Esfera”, do Colégio de Santo Antão, é criada, por ordem e poder real do monarca D. Sebastião, através do cardeal D. Henrique, com a condição que nela se lecionasse Matemática e matérias de desenvolvimento e aprofundamento científico.
Entre finais do século XVI e meados do século XVIII, a “Aula Esfera” foi a mais importante instituição de ensino e prática científica de Portugal, onde depressa chegavam, através da “rede de comunicação” dos Jesuístas, os estudos feitos em outras parte do mundo. A “Aula Esfera” teve um papel crucial no estudo da astronomia e cosmografia num país de navegantes. Por exemplo, em 1612, na “Aula Esfera” já se estudavam as leis de Galileu e construíam telescópio.
Durante o século XVII, a “Aula Esfera” teve em média 2000 alunos anualmente. Durante o seu período de funcionamento, cerca de 300 cientistas, 1/3 estrangeiros, e estudioso, alguns figuras proeminentes da época, lecionaram na “Aula Esfera”. É inegável a enorme importância da “Aula Esfera” no estudo das Ciências e das Matemáticas e do seu papel na história da ciência em Portugal.
A “Aula Esfera” também estava repleta de azulejos alusivos às matérias ali estudadas e abordadas, contendo várias referências à matemática e à astronomia. A “Aula Esfera” funcionava, no espaço que hoje é o auditório do Hospital de São José, vários azulejos emblemáticos das atividades desenvolvidos no Colégio de Santo Antão podem ser encontrados na Biblioteca do Hospital de São José. Azulejos muitos semelhantes podem ser encontrados, em Évora, nas salas de aula do Colégio Espírito Santo.

Para saber muito mais sobre a “Aula Esfera”, fontes e imagens

Controvérsia do momento

Como é que vê a hipótese de um homem solteiro ter filhos recorrendo a uma barriga de aluguer, como alegadamente foi o caso de Cristiano Ronaldo?
Considero um crime grave. É degradante, uma tristeza. O Ronaldo é um excelente atleta, tem imenso mérito, mas é um estupor moral, não pode ser exemplo para ninguém. Toda a criança tem direito a ter mãe. Mais: penso que uma das grandes culpadas disto é a mãe dele. Aquela senhora não lhe deu educação nenhuma.

(…)

Duas pessoas do mesmo sexo não podem amar-se?
Ouçam, é uma coisa simples: o mundo tinha acabado. Para que o mundo exista tem de haver homens e mulheres. Trato-os como a qualquer doente e estou-me nas tintas se são isto ou aquilo… Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam.

A MENSAGEM DE GENTIL MARTINS NA ÍNTEGRA

Face à minha entrevista ao Jornal Expresso e dada a celeuma, que nunca desejaria que tivesse acontecido, gostaria desde já esclarecer que me limitei a responder a perguntas directas dos entrevistadores do Expresso.

Quanto a Ronaldo não ser exemplo, referia-me exclusivamente à escolha por “Barrigas de Aluguer”, permitidas por lei, mas das quais discordo totalmente, quer como Pediatra quer como Ser Humano. Isso nada tem a ver com os excepcionais méritos desportivos de Ronaldo, nem com a sua generosidade para com Instituições Sociais e crianças com dificuldades.

Por outro lado nunca foi minha intenção ofender a Mãe de Ronaldo, pessoa que não conheço pessoalmente.

Quanto à homossexualidade, lamento quem sofra com essa questão, que continuo a considerar anómala, sem no entanto deixar de respeitar os Seres Humanos que são.

Independentemente, de concordar ou não com a sua opinião e/ou com a forma como a expressou, a controvérsia gerada em torno apenas destas 2 perguntas de uma longa lista, suscitou-me algumas dúvidas:
Questão 1: Só podemos ou devemos expressar a nossa opinião se ela for politicamente correta, a que outros desejam/esperam ouvir ou se esta seguir  a “norma”?
Questão 2: O que é e representa a tão apregoada liberdade de expressão?
Questão 3: Aplica-se a todos ou apenas a alguns? Em todos os momentos e em todas as temáticas?
Questão 4: Quem dá entrevistas e/ou é um figura pública, não deve dar o “corpo às balas”, defendendo as suas ideias, deve antes inibir-se, limitando-se a esquivar-se com meias respostas, ou respostas inócuas, a perguntas polémicas? É isso que pretendemos numa sociedade que apelidamos de democrática?
Questão 5:  O que é isso de viver em democracia? Enquadra o linchamento público assim que alguém manifesta uma opinião contrária à veiculada e aceite pela “maioria”? Não contempla o direito e o respeito pela diferença (neste caso de opiniões)?
Questão 6: Não valerá a pena meditar seriamente sobre algumas temáticas que abordou cruamente?
Hipocrisia, histerismos, falso moralismo e demagogia é o que alimenta estas e outras polémicas e, infelizmente, a sociedade! É caso para dizer, utilizando uma expressão brasileira, “Me engana, que eu gosto!”.
Um excelente pequeno vídeo, sobre a temática,”Não chamem a polícia por causa do Gentil Martins”

“Estas férias, deixe o tédio tomar conta dos seus filhos”

“No verão, muitas crianças têm cerca de três meses de férias , o que representa, normalmente, para os pais, demasiado tempo livre que precisa de ser ocupado. Por isso, são várias as escolas que, apesar de as aulas já terem acabado, oferecem planos de férias para as crianças, a que se juntam semanas de atividades abundantes ou mesmo acampamentos de verão. Mas segundo alguns psicólogos, este excesso de programação do tempo das crianças durante o verão não lhes permite alcançar um ponto importante do desenvolvimento: descobrir o realmente lhes interessa, o que gostam de fazer no seu tempo livre.

À BBC, Lyn Fry, psicóloga infantil, defendeu que o papel dos pais é preparar as crianças para ocupar o seu lugar na sociedade: “Ser um adulto significa ocupar-se e preencher o seu tempo de lazer de uma forma que o faça feliz. Se os pais passam todo o tempo a preencher o tempo livre dos seus filhos, então a criança nunca vai aprender a fazer isso sozinha.” Fry sugere que, no início do verão, os pais se sentem com os seus filhos (pelo menos aqueles que têm uma idade superior a 4 anos) para discutirem em conjuntos as atividades que a criança gostaria de fazer durante o período de férias. A lista pode ir de atividades muito simples como jogar às cartas a atividades mais complexas como aprender a cozinhar. A elaboração desta lista vai permitir que sempre que a criança se queixe de estar aborrecida, os pais possam dizer-lhes para rever a lista. É provável que as crianças voltem a ficar aborrecidas após algum tempo de fazer a atividade mas, segundo Fry, “as crianças precisam de aprender a ficar aborrecidas para serem motivadas a fazer as coisas. Estar entediado é uma maneira de tornar as crianças autoconfiantes.”

Há décadas que os especialistas discutem a importância do tédio nas crianças. Em 1930, o filósofo Bertrand Russell, no seu livro “A Conquista da Felicidade” dedicou um capítulo à importância do tédio. Segundo Russell “uma criança desenvolve-se melhor quando, como uma planta jovem, é deixada sem perturbação no mesmo solo. Muitas viagens, muita variedade de impressões, não são boas para os jovens e fazem com que, à medida que crescem, se tornem incapazes de suportar uma monotonia produtiva.”

Anos mais tarde, em 1993, no livro “On Kissing, Tickling and Being Bored”, o psicanalista Adam Phillips apresentou o tédio como uma hipótese para contemplar a vida, considerando que “é uma das exigências mais opressivas” que os adultos fazem às crianças é a de que se interessem, “em vez de arranjarem tempo para descobrir o que realmente lhes interessa”.”

Artigo da Visão

Mundurukus

“Pica é linguista (…) e está ao serviço do Centro Nacional de Investigação Científica francês. Durante os últimos dez anos o alvo do seu trabalho têm sido os mundukuru, um grupo indígena de cerca de 700 pessoas que vive na Amazónia brasileira, que são caçadores-recoletores que vivem em pequenas aldeias espalhadas (…). O que interessa a Pica é a linguagem dos munduruku, a qual não tem tempos diferenciados, nem plurais, nem palavras para números superiores a cinco.
(…)
Mais de um mês após ter partido de Paris, Pica estava finalmente a aproximar-se do seu destino. Como era inevitável, eu quis saber quanto tempo demorava a chegar de Jacareacanga às aldeias.
Mas Pica já estava visivelmente impaciente com a minha linha de inquérito:
– É a mesma resposta para tudo: isso depende!
Mantive-me firme. Quanto tempo demorara desta vez
Ele gaguejou:
– Não sei. Creio que… talvez… dois dias… um dia e uma noite…
Quanto mais eu insistia com Pica em busca de factos e de números, mais relutante ele se mostrava em mos fornecer. (…)
– Quando regresso da Amazónia perco o sentido do tempo e o sentido do número, e talvez o sentido do espaço-, disse-me ele. Esquece-se dos encontros combinados. Fica desorientado com simples indicações. (…)
A incapacidade de Pica para me fornecer dados quantitativos fazia parte do seu choque de culturas. Passara tanto tempo entre gente que mal sabe contar, os munduruku, que perdera a capacidade de descrever o mundo em termos de números.
(…)
Achei estranho que os números superiores a cinco não surgissem de todo na vida quotidiana da Amazónia. Perguntei a Pica como é que um índio responderia (…) Se perguntássemos a um munduruku que tivesse seis filhos, “Quantos filhos tem?”
– Ele diria “Não sei”. É algo impossível de exprimir
No entanto, Pica acrescentou que era uma questão cultural. (…) Por que quereria um munduruku adulto contar os seus filhos? pergunta Pica. As crianças são cuidadas por tos os adultos da comunidade, disse-me ele, e ninguém conta quem pertence a quem.
(…)
Alguns mundurukus que vivem nas margens do seu território aprenderam português (…)
– Eles sabem contar um, dois, três até às centenas – disse Pica – A seguir perguntamos-lhes “Já agora, quanto é cinco menos três?”. Eles não fazem a mínima ideia.
(…)
O estudo das capacidades matemáticas de pessoas que somente dispõem da capacidade de contar por uma das mãos tem por objetivo descobrir a natureza das nossas intuições numéricas básicas. Pica pretende saber o que é universal a todos os humanos, e o que é configurado pela cultura.
(…)
Numa das suas experiências mais fascinantes, Pica examinou o entendimento espacial que os índios tinham dos números. Como visualizavam os números dispostos ao longo de uma linha? (…)
Os resultados foram espantosos. Em geral considera-se ser uma verdade óbvia que os números estejam espaçados de modo igual. Aprendemos isso na escola e aceitamo-lo facilmente. É a base de toda a medida e de toda a ciência. No entanto os munduruku não vêem o mundo assim. Eles visualizam as magnitudes de uma forma muito diferente.
Quando os números estão dispostos a espaços iguais numa régua, a escala chama-se linear. Quando os números se aproximam à medida que aumentam, a escala chama-se logarítmica. Sucede que a aproximação logarítmica não é exclusiva dos índios da Amazónia. Ao nascer, todos nós concebemos os números deste modo.
(…)
Por que pensam os índios e as crianças que os números maiores estão mais juntos do que os menores? (…)Imaginemos que um munduruku é confrontado com cinco pontos. Ele irá estudá-los de perto e ver que cinco pontos são cinco vezes maiores que um ponto só, mas que dez pontos são apenas duas vezes maiores do que cinco pontos. Os munduruku e as crianças parecem efetuar as suas decisões acerca do local adequado para os números por meio da estimativa das relações entre quantidades. Ao considerarem as relações, é lógico que as distâncias entre cinco e um é muito maior do que a distância entre cinco e dez. E quando se avaliam as quantidades fazendo uso das relações, produz-se sempre uma escala logarítmica.
Pica acredita que compreender as quantidades aproximadamente em termos de estimativa de relações é uma intuição universal humana. (…) Por contraste, compreender as quantidades em termos de números exatos não é uma intuição universal; é um produto da cultura. (…) Pica sugere dever-se ao facto de as relações serem muito mais importantes para a sobrevivência na natureza do que a capacidade de contar. Perante um grupo de adversários brandindo lanças, precisávamos de saber instantaneamente se haveria mais deles do que dos nossos. Quando víamos duas árvores precisávamos de saber qual delas tinha mais frutos pendentes. (…)
A escala logarítmica  também é fiel ao modo como as distâncias são percebidas, o que é um possível motivo para ela ser tão intuitiva. Leva em consideração a perspetiva. Por exemplo, se virmos uma árvore a 100 metros e uma outra 100 metros atrás dessa, os segundos 100 metros parecem mais pequenos. Para um munduruku, a ideia de cada 100 metros representarem uma distância igual é uma distorção do modo como ele percebe o seu ambiente.
(…)
Vivemos em simultâneo com uma compreensão linear e logarítmica da quantidade. Por exemplo, a nossa compreensão da passagem do tempo é muitas vezes logarítmica. Lembro-me dos anos da minha juventude decorrerem muito mais devagar do que os anos que agora parecem voar.(…) O nosso instinto logarítmico profundamente enraizado emerge com nitidez quando se trata em pensar sobre números grandes. Por exemplo, todos nós podemos compreender a diferença entre um e dez. (…) Mas qual é a diferença entre mil milhões de dez mil milhões de litros de água? (…) os termos milionário e bilionário são usados a esmo praticamente como sinónimos (…). No entanto, um bilionário é mil vezes mais rico que um milionário. Quanto mais altos são os números, mais próximos entre si eles nos parecem.
(…)
Pica disse que a investigação dele e de outras pessoas sobre as nossas intuições matemáticas poderá ter sérias consequências no ensino da Matemática – tanto na Amazónia como no mundo desenvolvido. Exigimos uma compreensão da linha dos números lineares para se funcionar na sociedade moderna – ela é a base da medida e facilita os cálculos. Porém, na nossa dependência da linearidade talvez tenhamos levado longe de mais a supressão das nossas intuições logarítmicas. Talvez, disse Pica, seja essa a razão por que tantas pessoas acham a matemática difícil. Talvez devêssemos prestar mais atenção à avaliação das relações do que à manipulação dos números exatos. Do mesmo modo, talvez seja errado ensinar os munduruku a contar como nós o fazemos, já que isso poderá privá-los das intuições ou conhecimentos matemáticos que são necessários à sobrevivência deles.”  

in “Alex no País dos Números” de Alex Bellos

Clarice Lispector, mochilas e antiprincesas

Chamou-me a atenção esta pequena, mas pesada, passagem do livro dedicado a Clarice Lispector, na coleção Antiprincesas.
Seguindo o exemplo do pai de Clarice Lispector (1928/9), por cá, agora, corríamos o risco, nós pais, de reter as nossas crianças, no 4ºano, por não sei bem quantos anos.
A partir do 5º ano, dado o número de disciplinas, a organização dos horários, os lobies das editoras e afins, num dia mais “carregado”, as mochilas das crianças podem chegar a pesar cerca de 6 a 7 kg.
Segundo indicações da Organização Mundial de Saúde, o peso carregado não deve ser superior a 10% do peso da própria criança. O peso médio de um criança de 10 anos é cerca de 32 kg logo a sua mochila “carregada” nunca deverá exceder os  3,2 kg (ora se a criança for de “raça” pequena…a situação torna-se ainda mais “pesada”).
Uma ideia: comprar só os manuais digitais e repudiar os em papel (uma favor que faríamos à porto editora, lá que seria uma ótima retribuição, seria, ehehehe, e a nossa carteira, essa sim, agradeceria). Contra: estudar com o livro na mão é bem mais agradável e, dizem os estudos publicados, mais eficaz na “quantidade e qualidade” do que é apreendido e retido!
Em vez de petições, cenas e coisas virtuais, esta questão dos pesos das mochilas já merecia um protesto a sério, não? Meditemos-nos, pois então, na atitude do pai de Clarice Lispector.

“Que pena quando se pactua com a comodidade da alma”

Citação de Clarice Lispector, mãe de dois filhos, formada em Direito, escritora, jornalista, casado com um diplomata, teria tudo para ter a vida de princesas com que muitos sonhariam. Nunca abandonou a sua paixão pela escrita. Mas abandonou o marido, a quem tinha que acompanhar nas suas inúmeras viagens, e o que muitos denominavam de uma vida de sonho para voltar, ao país que sentia como seu – o Brasil, e dedicar-se, de alma e coração, à escrita e aos filhos.

É muito isto, sem dúvida… !

“O perigo, na realidade, não é que os computadores se tornem demasiado inteligentes e tomem conta do mundo, o problema é que os computadores são demasiado estúpidos e já tomaram conta do mundo”.

“os computadores, tomam muitas decisões importantes sobre as nossas vidas e cometem erros porque não sabem muito, porque aprenderam a partir de dados limitados”

Afirmações de Pedro Domingos, português, investigador na área da Inteligência Artificial e professor de Ciências da Computação na Universidade de Washington, autor do livro “O algoritmo mestre”, um livro que, segundo Bill Gates, todos deviam ler para saber mais sobre a inteligência artificial.

Superligados

“Mãe, tenho uma coisa para te contar sobre…” dizia a menina de 5/6 anos sentada ao lado mãe num transporte público.
“Espera só um bocadinho. Dá-me um minuto!” interrompe-a a mãe compenetrada
“É rápido e engraçado, como uma história…” diz a menina com o entusiasmo típico de quem quer partilhar algo emocionante.
“Agora não! Estou ocupada!” diz a mãe entre dentes antes que a criança desse por terminado o seu discurso
“Oh mãe, vá lá, deixa lá contar-te” diz a menina em tom de súplica, puxando a manga do vestido da mãe.
“Já te disse agora NÃO POSSO!” diz a mãe com um ar definitivo e zangado.
A menina resignou-se, mirando a mãe com uma ar desiludido. E assim seguiram, lado a lado, mas ao mesmo tempo longe, a milhas e milhas de distância, a menina embrenhada nos seus pensamentos e a mãe de telemóvel na mão atenta a tudo o que seu ecrã lhe comunicava, entre mãe e filha não houve qualquer tipo de comunicação durante largos minutos. Fica a dúvida: será que a menina lhe chegou a contar a tal história com que estava tão empolgada ou terá perdido o entusiasmo e a motivação?

Um artigo bastante interessante sobre a temática da geração dos “Superligados” que salienta a importância do papel e do exemplo dos pais no controlo do uso das tecnologia  é o intitulado “Os miúdos não desligam da tecnologia. E agora?”. Recomendo a leitura…atenta!

 

Expresso Curto

Expresso Curto é uma crónica diária, do Expresso, sobre as notícias da atualidade pela mão de vários jornalistas, que termina com “O que ando a ler”. Excelentíssimo esposo é fã e, eu, subscritora de dois dias para lá caminho!

“Há dias, ao procurar gastar tempo até uma consulta, entrei numa livraria e saí de lá com os “Contos Maravilhoso”, de Hermann Hesse. É o livro ideal para esperar, feito de pequenas histórias onde cabe tudo. Não resisti e atirei-me à última, “Os dois irmãos”, que começa assim:
“Era uma vez um pai que tinha dois filhos. Um deles era belo e forte; o outro pequeno e aleijado, pelo que o grande desprezava o pequenito”.
Isso mesmo. O mais novo ajudou a transportar o tesouro dos anões para uma montanha de vidro e o mais velho, que foi para a guerra e ficou ferido no braço direito, acabou a mendigar na rua. Um dia encontraram-se, junto à montanha, e, entre lágrimas, o mendigo falou ao homem que o olhava. O conto acaba com estas linhas, que começam com o mais velho a falar:
É bem certo que em tempos tive um irmão, pequeno e deformado, assim como o senhor, mas tão bondoso e amável que decerto me ajudaria, só que eu, insensível, escorracei-o, e já há muito que dele nada sei.” Disse então o pequenito: “Sou eu mesmo o teu pequenito, fica comigo e não irás passar necessidades”.
É bonito, mas mais bonito é saber que Hesse tinha 10 anos quando escreveu este conto.”
Extrato da parte final da crónica de hoje

O poder da imagem

26 de setembro de 1960, EUA, em plena campanha para as presidenciais, os candidatos John F. Kennedy, um jovem senador, e Nixon, o experiente vice presidente do EUA, são os protagonistas do que viria a ser considerado um marco histórico nas campanhas eleitorais, o 1º debate político a ser transmitido na televisão.
JFK apresentou-se calmo, confiante e com boa cor, já Nixon, pálido e muito magro, devido a uma recente hospitalização, parecia em baixo de forma e um pouco transpirado.
No final, quem ouviu no rádio, foi unânime em considerar que a vitória, no debate, tinha sido de Nixon; quem viu o debate na televisão, que foi a larga maioria – 88% da população já tinha TV – atribuiu a vitória a JFK.
Muitos dizem que JFK ganhou as eleição naquela noite, o debate foi o ponto de viragem, tendo o próprio reconhecido o papel decisivo e o impacto que o debate teve no resto da sua campanha. No entanto, Nixon, esteve bastante melhor, também em aparência, nos debates seguintes, mas a imagem que prevaleceu foi a do 1º debate.
JFK ganhou a Nixon por uma unha negra e muitos acreditam que foi graças aquele 1º debate.
O debate que mudou a forma de fazer campanha eleitoral, reconhecido/constatado que foi o papel/potencial da televisão na mesma, que até então era encarada apenas com um “objeto” dedicado ao entretenimento.
Dizem que muito devido ao receio dos candidatos, só 16 anos mais tarde se voltou a realizar, um debate presidencial transmitido pela televisão nos EUA!
Impressionante, a importância e o papel da imagem! O grosso desta história, que desconhecia, foi-me contado por pimpolha mais velha quando lhe perguntei “O que achaste mais interessante na visita guiada, que fizeste com a escola, ao NewsMuseum?”. Fui investigar… e a moça tinha percebido e contado quase tudo direitinho. Sempre a aprender… com pimpolha mais velha!
Fiquei a pensar no papel da imagem, nos dias que correm, e penso que (pre)domina! Faz falta ouvir mais, olhar e julgar muito menos!
Por exemplo, como teria sido ouvir Salvador Sobral, sem o vermos? Teria gerado tanto comentário depreciativo acerca da sua pessoa…? Não creio, as críticas seriam apenas dirigidas à sua música… seríamos tão melhores pessoas! Quem diz o Salvador Sobral diz outros, ocorreu-me este exemplo, talvez devido às “correntes de ar” geradas… novamente, sempre acompanhadas de cheiro mas não o seu! O que nos leva a outro tema que dava pano para mangas: A imagem e a diferença (que incomoda muitos!)

Artigos interessantes sobre o tema aqui e aqui.

Final de mais um ano letivo

Desejosos que as aulas acabassem, o calor e o cansaço sentiam-se na pele e na alma – um mal que aflige uns e outros – professores, alunos e alguns pais! Há uma semana sem aulas e já me ocorreu, mais vezes do que as que gostaria, “Oh pá, venham as aulas que eu não tenho pachorra para estes adultos!” – refletindo aquele sentimento muito português que nunca se está bem.
Num ano que não foi particularmente fácil, nem agradável, mas que já passou, o que assusta é a perspetiva de a tendência ser de piorar, algo que muitos sentem nas entranhas que outros tantos tentam esventrar. Porquê? Um modelo de ensino obsoleto dizem muitos, com razão, provavelmente! Só não sei como se ensina a quem não quer aprender, não por não ter capacidade ou o “veículo” certo ou mais adequado, mas tão só e apenas porque isso envolve esforço e trabalho, e ao que parece isso já passou de moda. Como é que isto se resolve? Sinceramente, não sei! Quando à conjuntura se junta a falta princípio morais e éticos de uns e outros, pais, filhos e alguns professores, num jogo em que parece que vale tudo, tudo pode e deve ser questionado, não interessa se está bem ou mal, se és excelente, bom ou mau, interessa é vencer, de preferência agradando, a todo o custo!
Cada vez menos me apetece, falar, escrever sobre a Escola, porque persiste a sensação que não vale a pena, todos têm sempre muito a dizer/opinar mas só quem por lá passa, sabe como elas mordem, e esses, a grande maioria, também já não querem saber, dá trabalho, traz chatices e aborrecimentos e como já ouvi alguns dizer “Não és paga para pensar!”.
O que fica? Alguns alunos, cada vez menos, que não são, necessariamente, os bons alunos mas os que nos fazem sorrir, os que sorriem connosco, os que se envolvem e nos envolvem, os que não acreditam em tudo o que lhes dizemos mas que questionam, que pensam e não têm medo de errar e partilhar, os que são amigos do seu amigo, os que nos alimentam a esperança que nem tudo está perdido porque ainda há bons miúdos e quem queira e tenha gosto em aprender!

“Good night stories for rebel girls”

Seguindo a linha da coleção Antiprincesas surge agora um livro que reúne 100 mulheres, de várias nacionalidades e interesses que, em comum, têm o facto de terem tido um papel relevante na História e nas suas histórias (ex: Frida Kahlo, Simon Biles, Michelle Obama, Serena Williams). 100 mulheres são ilustradas por outras 100 mulheres, dos príncipes não reza nenhumas destas histórias, é assim o livro infantil intitulado “Good night stories for rebel girls”

Um livro dedicado às princesas, que não almejam um príncipe, mas principalmente construir e governar o seu reino e conquistar o mundo, nem que seja apenas o seu. Um livro recomendado a todos os miúdos e graúdos porque os sonhos não escolhem géneros nem idades.
Vale a pena ver o vídeo e meditar sobre a presença e o papel das mulheres nos contos infantis “tradicioniais”! Contém dados bastante interessantes, os quais, desde cedo, aceitámos sem questionar, de tão enraizados que estavam os contos e os estereótipos mas que não condicionaram o futuro que escolhemos ou será que…?!

Pais do tipo Big Brother?

Devemos controlar os nossos filhos através do telemóvel (e não só)? é um artigo interessante, no qual ando a matutar há um par dias. Retrata uma realidade que ainda não é a nossa, talvez por termos uma verdadeira, ou aparente, política de proteção de dados – a realidade americana (câmaras nas escolas, nas sala de aula, etc., onde os pais têm acesso às imagens “live”).
Provavelmente, daqui a uns anos mudarei de opinião com uma casa cheia de adolescentes, mas por agora não me passa pela cabeça, mesmo que tivesse acesso, estar sempre a monitorizar os meu filhos, numa primeira abordagem porque não se justifica, porque se pode tornar num tipo de obsessão doentia, num jogo de adivinhar e saber ler atos e reações mudas,  mas principalmente porque cada um, eles e eu, tem o direito a ter o seu espaço e nele interagir naturalmente como e com quem entender (dentro das normas), sem estar a pensar que olhos estarão postos em si e que julgamentos farão. Há qualquer coisa de estranho e perverso nesta redoma, com um, aparente, e forte perímetro de segurança, em que se procura controlar criar os mais pequenos (os seus e os alheios).
Por outro lado, na ótica do professor, as câmaras, só por si, colocadas nas salas de aula, eram capaz de ser um elemento dissuasor de alguns comportamentos!

Lendo Mario Quintana

Este interessante poeta brasileiro assinava Mario, sem acento pois foi assim, por erro da conservatória, que foi registado. Lendo, gostando e apreciando a sabedoria de viver, de Mario Quintana: gosto especialmente do Poeminho do Contra, do nome ao conteúdo, ajuste perfeito! Passarinhando… 🙂

Poeminho do Contra
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

A arte de viver
A arte de viver
É simplesmente a arte de conviver…
Simplesmente, disse eu?
Mas como é difícil!

 

Da Observação
Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e subtil recreio…

 

Da Discrição
Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também…

 

Bilhete
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

 

Canção para uma valsa lenta
Minha vida não foi um romance…
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo…

Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance…
Pobre vida… passou sem enredo…
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance…
Ai de mim… Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso… de um gesto… um olhar…

“De que forma é que as crianças (0 aos 8 anos)e as suas famílias utilizam as tecnologias (online)? “

Um estudo piloto europeu, realizado em 18 países, procura dar resposta a esta pergunta, explorando a dinâmica entre pais e filhos, as utilizações e as perceções de crianças e pais relativamente à utilização destes dispositivos, a fim de identificar as atividades digitais e práticas, benefícios e riscos associados.
Em todos os países, o relatório tem como base uma amostra incluiu 10 famílias com crianças com 6 ou 7 anos de idade, que frequentavam o 1º ou 2º ano de escolaridade do 1º Ciclo do Ensino Básico e que utilizavam, pelo menos uma vez por semana, um dispositivo digital.

As principais conclusões referidas no relatório português (vale a pena dar uma vista de olhos)

“Maths: why many great discoveries would be impossible without it”

Um excelente artigo sobre o papel determinante que os modelos matemáticos podem ter na investigação de outras áreas do conhecimento, neste caso, na biologia celular, e a importância do trabalho cooperativo entre as diversas áreas do saber, que não são nem devem ser, ao contrário do que muitos acham, estanques!
Muito aconselhável a leitura a todos que consideram que a Matemática para nada serve, a não ser para fritar a sua pipoca e a dos seus miúdos. O saber não ocupa lugar, mesmo não gostando da matéria em estudo! Nem tudo é de fácil apreensão, compreensão e aplicação mas há que fazer um esforço, com trabalho, tempo e maturidade as peças do puzzle encaixam na perfeição “et voilá”, vislumbra-se a beleza desta ciência rainha, sempre pronta a dar um pezinho de dança com as outras ciências. Já sei, já sei, há sempre quem não goste de puzzle… temos pena, “Their loss”

Sugestões de 50 sites para compreender melhor, de uma forma mais lúdica, apelativa e diferente a Matemática (útil para quem ensina ou deseja aprender Matemática, já aqui falei de algumas delas, esta por exemplo que os meus alunos adoram)

Pedagogia

“Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás de ser!”
Miguel Torga

Carta de reclamação sobre Portugal

“Cara Europa,
É a primeira vez que peço o livro de reclamações. Uma vez na Worten comprei um desumidificador que não desumidificava mas tive vergonha. Desta vez é mais grave: desconfio ter em mãos um país europeu com defeito.
Foi-me prometido Portugal, um país mediterrâneo com clima simpático mas que, desde que Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador, apenas conseguiu estar na bocas do mundo quando um ousado jovem de skate foi trend no 9GAG por gritar Sai da frente Guedes.
Deve ter havido um engano. O resto da Europa está a funcionar normalmente, na mediana: franceses andam entretidos com Le Pen, ingleses andam entretidos com Brexit e espanhóis continuam pouco entretidos por não entrar nas anedotas do português, do inglês e do francês.
Por cá, estamos imparáveis. Somos campeões da Europa de futebol. Temos o melhor jogador do mundo em futebol, futebol de salão, futebol de praia e desconfio que se houvesse futebol de pomar, com duas nespereiras a fazer de baliza, o melhor do mundo também era nosso.
Algo está mal. Desconfio que nos foi dado um país em segunda-mão, porque os exemplos de virtude já não são só com o desporto que se joga com o pé.
Vencemos a Eurovisão. Organizámos o maior evento de empreendedorismo da Europa. O NOS Alive foi eleito um dos melhores festivais da Europa. A Forbes deu um shout-out ao Vhils. Temos faculdades portuguesas a liderar o ranking do Financial Times. Até o pastel de nata, que era só nosso, decidimos exportar para o resto da Europa só para poder dizer que mesmo assim o nosso é que é o melhor da Europa.
Desconfio que temos o país fora-de-prazo. O nosso estado de graça caducava 3 dias depois do pontapé do Eder mas 10 meses depois ainda não tem bolor.
Todos os dias sai mais um artigo no The Guardian a dizer que Lisboa é a cidade mais cool da Europa, que o Porto é o epicentro da cultura, que o Algarve tem os melhores pores-do-sol, por-dos-sóis, pores-dos-sóis e eu continuo sem saber colocar o plural em palavras com hífen.
Não sei como funciona a vossa política de devoluções, mas via com agrado uma troca por Bulgária ou Croácia.
Eu só pedi Portugal, e deram-me por engano o melhor país da Europa”