Final de mais um ano letivo

Desejosos que as aulas acabassem, o calor e o cansaço sentiam-se na pele e na alma – um mal que aflige uns e outros – professores, alunos e alguns pais! Há uma semana sem aulas e já me ocorreu, mais vezes do que as que gostaria, “Oh pá, venham as aulas que eu não tenho pachorra para estes adultos!” – refletindo aquele sentimento muito português que nunca se está bem.
Num ano que não foi particularmente fácil, nem agradável, mas que já passou, o que assusta é a perspetiva de a tendência ser de piorar, algo que muitos sentem nas entranhas que outros tantos tentam esventrar. Porquê? Um modelo de ensino obsoleto dizem muitos, com razão, provavelmente! Só não sei como se ensina a quem não quer aprender, não por não ter capacidade ou o “veículo” certo ou mais adequado, mas tão só e apenas porque isso envolve esforço e trabalho, e ao que parece isso já passou de moda. Como é que isto se resolve? Sinceramente, não sei! Quando à conjuntura se junta a falta princípio morais e éticos de uns e outros, pais, filhos e alguns professores, num jogo em que parece que vale tudo, tudo pode e deve ser questionado, não interessa se está bem ou mal, se és excelente, bom ou mau, interessa é vencer, de preferência agradando, a todo o custo!
Cada vez menos me apetece, falar, escrever sobre a Escola, porque persiste a sensação que não vale a pena, todos têm sempre muito a dizer/opinar mas só quem por lá passa, sabe como elas mordem, e esses, a grande maioria, também já não querem saber, dá trabalho, traz chatices e aborrecimentos e como já ouvi alguns dizer “Não és paga para pensar!”.
O que fica? Alguns alunos, cada vez menos, que não são, necessariamente, os bons alunos mas os que nos fazem sorrir, os que sorriem connosco, os que se envolvem e nos envolvem, os que não acreditam em tudo o que lhes dizemos mas que questionam, que pensam e não têm medo de errar e partilhar, os que são amigos do seu amigo, os que nos alimentam a esperança que nem tudo está perdido porque ainda há bons miúdos e quem queira e tenha gosto em aprender!

“Good night stories for rebel girls”

Seguindo a linha da coleção Antiprincesas surge agora um livro que reúne 100 mulheres, de várias nacionalidades e interesses que, em comum, têm o facto de terem tido um papel relevante na História e nas suas histórias (ex: Frida Kahlo, Simon Biles, Michelle Obama, Serena Williams). 100 mulheres são ilustradas por outras 100 mulheres, dos príncipes não reza nenhumas destas histórias, é assim o livro infantil intitulado “Good night stories for rebel girls”

Um livro dedicado às princesas, que não almejam um príncipe, mas principalmente construir e governar o seu reino e conquistar o mundo, nem que seja apenas o seu. Um livro recomendado a todos os miúdos e graúdos porque os sonhos não escolhem géneros nem idades.
Vale a pena ver o vídeo e meditar sobre a presença e o papel das mulheres nos contos infantis “tradicioniais”! Contém dados bastante interessantes, os quais, desde cedo, aceitámos sem questionar, de tão enraizados que estavam os contos e os estereótipos mas que não condicionaram o futuro que escolhemos ou será que…?!

Pais do tipo Big Brother?

Devemos controlar os nossos filhos através do telemóvel (e não só)? é um artigo interessante, no qual ando a matutar há um par dias. Retrata uma realidade que ainda não é a nossa, talvez por termos uma verdadeira, ou aparente, política de proteção de dados – a realidade americana (câmaras nas escolas, nas sala de aula, etc., onde os pais têm acesso às imagens “live”).
Provavelmente, daqui a uns anos mudarei de opinião com uma casa cheia de adolescentes, mas por agora não me passa pela cabeça, mesmo que tivesse acesso, estar sempre a monitorizar os meu filhos, numa primeira abordagem porque não se justifica, porque se pode tornar num tipo de obsessão doentia, num jogo de adivinhar e saber ler atos e reações mudas,  mas principalmente porque cada um, eles e eu, tem o direito a ter o seu espaço e nele interagir naturalmente como e com quem entender (dentro das normas), sem estar a pensar que olhos estarão postos em si e que julgamentos farão. Há qualquer coisa de estranho e perverso nesta redoma, com um, aparente, e forte perímetro de segurança, em que se procura controlar criar os mais pequenos (os seus e os alheios).
Por outro lado, na ótica do professor, as câmaras, só por si, colocadas nas salas de aula, eram capaz de ser um elemento dissuasor de alguns comportamentos!

Lendo Mario Quintana

Este interessante poeta brasileiro assinava Mario, sem acento pois foi assim, por erro da conservatória, que foi registado. Lendo, gostando e apreciando a sabedoria de viver, de Mario Quintana: gosto especialmente do Poeminho do Contra, do nome ao conteúdo, ajuste perfeito! Passarinhando… 🙂

Poeminho do Contra
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

A arte de viver
A arte de viver
É simplesmente a arte de conviver…
Simplesmente, disse eu?
Mas como é difícil!

 

Da Observação
Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e subtil recreio…

 

Da Discrição
Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também…

 

Bilhete
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

 

Canção para uma valsa lenta
Minha vida não foi um romance…
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo…

Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance…
Pobre vida… passou sem enredo…
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance…
Ai de mim… Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso… de um gesto… um olhar…

“De que forma é que as crianças (0 aos 8 anos)e as suas famílias utilizam as tecnologias (online)? “

Um estudo piloto europeu, realizado em 18 países, procura dar resposta a esta pergunta, explorando a dinâmica entre pais e filhos, as utilizações e as perceções de crianças e pais relativamente à utilização destes dispositivos, a fim de identificar as atividades digitais e práticas, benefícios e riscos associados.
Em todos os países, o relatório tem como base uma amostra incluiu 10 famílias com crianças com 6 ou 7 anos de idade, que frequentavam o 1º ou 2º ano de escolaridade do 1º Ciclo do Ensino Básico e que utilizavam, pelo menos uma vez por semana, um dispositivo digital.

As principais conclusões referidas no relatório português (vale a pena dar uma vista de olhos)

“Maths: why many great discoveries would be impossible without it”

Um excelente artigo sobre o papel determinante que os modelos matemáticos podem ter na investigação de outras áreas do conhecimento, neste caso, na biologia celular, e a importância do trabalho cooperativo entre as diversas áreas do saber, que não são nem devem ser, ao contrário do que muitos acham, estanques!
Muito aconselhável a leitura a todos que consideram que a Matemática para nada serve, a não ser para fritar a sua pipoca e a dos seus miúdos. O saber não ocupa lugar, mesmo não gostando da matéria em estudo! Nem tudo é de fácil apreensão, compreensão e aplicação mas há que fazer um esforço, com trabalho, tempo e maturidade as peças do puzzle encaixam na perfeição “et voilá”, vislumbra-se a beleza desta ciência rainha, sempre pronta a dar um pezinho de dança com as outras ciências. Já sei, já sei, há sempre quem não goste de puzzle… temos pena, “Their loss”

Sugestões de 50 sites para compreender melhor, de uma forma mais lúdica, apelativa e diferente a Matemática (útil para quem ensina ou deseja aprender Matemática, já aqui falei de algumas delas, esta por exemplo que os meus alunos adoram)

Pedagogia

“Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás de ser!”
Miguel Torga

Carta de reclamação sobre Portugal

“Cara Europa,
É a primeira vez que peço o livro de reclamações. Uma vez na Worten comprei um desumidificador que não desumidificava mas tive vergonha. Desta vez é mais grave: desconfio ter em mãos um país europeu com defeito.
Foi-me prometido Portugal, um país mediterrâneo com clima simpático mas que, desde que Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador, apenas conseguiu estar na bocas do mundo quando um ousado jovem de skate foi trend no 9GAG por gritar Sai da frente Guedes.
Deve ter havido um engano. O resto da Europa está a funcionar normalmente, na mediana: franceses andam entretidos com Le Pen, ingleses andam entretidos com Brexit e espanhóis continuam pouco entretidos por não entrar nas anedotas do português, do inglês e do francês.
Por cá, estamos imparáveis. Somos campeões da Europa de futebol. Temos o melhor jogador do mundo em futebol, futebol de salão, futebol de praia e desconfio que se houvesse futebol de pomar, com duas nespereiras a fazer de baliza, o melhor do mundo também era nosso.
Algo está mal. Desconfio que nos foi dado um país em segunda-mão, porque os exemplos de virtude já não são só com o desporto que se joga com o pé.
Vencemos a Eurovisão. Organizámos o maior evento de empreendedorismo da Europa. O NOS Alive foi eleito um dos melhores festivais da Europa. A Forbes deu um shout-out ao Vhils. Temos faculdades portuguesas a liderar o ranking do Financial Times. Até o pastel de nata, que era só nosso, decidimos exportar para o resto da Europa só para poder dizer que mesmo assim o nosso é que é o melhor da Europa.
Desconfio que temos o país fora-de-prazo. O nosso estado de graça caducava 3 dias depois do pontapé do Eder mas 10 meses depois ainda não tem bolor.
Todos os dias sai mais um artigo no The Guardian a dizer que Lisboa é a cidade mais cool da Europa, que o Porto é o epicentro da cultura, que o Algarve tem os melhores pores-do-sol, por-dos-sóis, pores-dos-sóis e eu continuo sem saber colocar o plural em palavras com hífen.
Não sei como funciona a vossa política de devoluções, mas via com agrado uma troca por Bulgária ou Croácia.
Eu só pedi Portugal, e deram-me por engano o melhor país da Europa”

“Como é que se esquece alguém que se ama?”

“Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. “

Miguel Esteves Cardoso in ‘Último Volume’

Além do Baleia Azul

Automutilação é “epidemia” entre adolescentes é o título do artigo desta semana no Expresso, a propósito do jogo Baleia Azul, afirmação atribuída a um pedopsiquiatra do Hospital D. Estefânia. Um artigo interessante com números e descrição de realidades assustadoras: 67 000 jovens entre os 13 e os 15 anos já se magoaram propositadamente, o que corresponde a cerca de 20% da população desta faixa etária.  Em 2015, foram prescritas 137 000 embalagens de tranquilizantes a crianças e jovens em Portugal. Dados e realidades que deveriam merecer a melhor atenção com ou sem baleia azul!

 

“A baleia no meio da sala”

“Andamos todos por estes dias atordoados com um jogo – parece que há pelo menos quatro variantes no mundo inteiro alimentadas por redes sociais da darknet – que promove e estimula a auto-mutilação e o suicídio nos jovens. É mais um daqueles fenómenos que aparecem de repente, para os quais não estamos preparados e que nos deixam desarmados e sem reacção. Mas o problema vai mais fundo, não aparece com o jogo Baleia Azul e similares, e deve ser encontrado numa profunda reflexão relativamente às nossas relações sociais, familiares e profissionais.
Vivemos num tempo de múltiplos estímulos, ainda mais exigências e de pressão constante a vários níveis. Não temos tempo. Nem para nós, nem para os outros. Os nossos amigos que estão doentes acabam muitas vezes por morrer sem que tenhamos a oportunidade de um último almoço, um último jantar ou uma última conversa. 
Os mais velhos passam dias e dias sozinhos sem uma visita dos familiares mais directos que estão soterrados de trabalho e muitas vezes não conseguem libertar-se nem ao fim de semana das suas obrigações profissionais – quantos não são obrigados a acumular empregos para garantirem a sobrevivência familiar? 
Cansados e exaustos, muitos de nós não damos a devida atenção aos nossos filhos, não há conversas ao jantar, estórias de fim de dia ou actividades em conjunto. Não há convívio, não há acompanhamento, não há apoio, não há desabafos ou tempo para a simples parvoíce que ajude a desanuviar a intensidade dos nossos dias cada vez mais preenchidos.
Experimentem entrar num restaurante e vejam quantas famílias estão a conversar. Normalmente, para poderem colocar a vida em dia, os casais entregam telefones inteligentes aos filhos para que se entretenham em jogos electrónicos que permitam uma pausa e o desejado silêncio dos mais pequenos. Nas viagens de automóvel é vulgar vermos écrans nas traseiras dos bancos dianteiros com filmes infantis que ajudam a mitigar a impaciência dos miúdos, e os pais, os dois, ao telefone em conversas urgentes.
Porque as coisas dos adultos são sempre urgentes. Fico abismado com a quantidade de casais, pais de amigos dos meus filhos, preocupados porque os filhos mal falam em casa do que aconteceu na escola. Refugiam-se num impenetrável silêncio e só parecem ter gosto em estímulos virtuais mostrando enfado para as conversas reais, com pessoas a sério, em família, nem que seja apenas dez minutos ao final do dia.
Nos tempos que correm não temos tempo uns para os outros. Não conversamos, não desabafamos, não partilhamos experiências e problemas, não tentamos encontrar soluções em conjunto. Tentamos ganhar dinheiro, ser bem sucedidos e conquistar o máximo de bens materiais que mostrem ao mundo que conseguimos vencer na vida. 
Um dia aparece uma Baleia Azul qualquer, que já andava pela sala há uns tempos mas que quase ninguém parecia ver. Entramos em choque e ficamos sem reacção, aparvalhados e tolhidos pelo receio de que a coisa possa chegar lá a casa. Mas como não temos tempo, depressa optamos pela solução mais fácil e acreditamos que estas coisas só acontecem aos outros, a crianças sem família ou a famílias que não merecem a designação. Puro engano, o silêncio e o isolamento dá cabo de muitas famílias, com a mesma rapidez dos cancros agressivos e galopantes. Quase só os descobrimos quando já não há remédio. Vejam a taxa de divórcios ou de crianças que fogem de casa dos pais.
A solução é ridícula de tão simples. Abracem os vossos filhos quando se despedem pela manhã e não tenham vergonha de dizer que os amam muito e que estão orgulhosos na forma como estão a crescer. Quando os repreenderem façam-no com uma atitude compreensiva, de forma calma e tranquila e nunca com uma raiva incontida de quem não percebe onde falhou. 
Obriguem-se a jantar em conjunto, sem telemóveis à mesa e com a televisão desligada e inventem conversas interessantes ou simples parvoíces que ajudem a quebrar o gelo. Eles adoram as nossas histórias de infância e as nossas diabruras e tropelias. 
Aproveitem as deslocações de carro e inventem ou estimulem aqueles jogos que já tínhamos esquecido: cá em casa resulta muito bem o jogo dos carros de cores esquisitas ou palavras começadas por letras específicas. 
Deixem-nos correr nos jardins, mesmo que estejam molhados e com lama, e se possível descalços. Juntem-se a eles e lembrem-se que alguma verdade haverá nos anúncios de detergentes que nos garantem que fica tudo como novo nos programas mais simples daquelas máquinas de lavar complicadas. 
Abram mão de vez em quando de regras parvas como por exemplo: ” na cama dos pais só ao fim de semana” ou “não mexes naquele brinquedo porque foi caríssimo”. Caramba, é um brinquedo!. 
Aproximem-se dos vossos filhos, criem cumplicidades e amizade. A vulnerabilidade e as inseguranças podem ser mortais na juventude. E o silêncio também mata. As relações familiares e a auto-estima. 
É assim que aparecem as baleias. Não é do nada, é do tudo que vamos ignorando e perdendo.”
Artigo de António Esteves

Um excelente artigo sobre uma realidade que se escolhe/finge não ver! A Baleia Azul é só um exemplo extremo mas estou em crer que haverá muitos mais de índole igualmente grave, que os miúdos não se apercebem e os pais então… estão a anos luz! Ter tudo na ponta dos dedos, sem controlo parental, no número de horas, tipo utilização e conteúdo, numa idade em que ainda não se tem grande discernimento, é extremamente perigoso. Uma pesquisa no google de uma palavra ou frase inocente, tendo em conta os segundos sentidos, pode revelar resultados nefastos, para além de que eles têm uma imaginação prodigiosa! Ficam os esclarecimentos e recomendações da PSP sobre o jogo da Baleia Azul.

 

As crianças são muito infantis

É um livro cheio de humor sobre as conversas, observações e vivências de uma família numerosa (ao todo são 6, por géneros: 4 meninas e 2 meninos, por idades: 4 crianças e 2 adultos). Um livro engraçado que se lê numa ápice e de sorriso nos lábios e de ar consolado quando ao virar de cada página pensamos “Onde é que eu já vi/ouvi isto?” e nos congratularmos com um “AHHHH, afinal não é só cá em casa!”.
E tudo começou com uma página de facebook... e por lá continua a saga até sair um novo livro!

Papilas gustativas

As crianças são muito mais sensíveis à diversidade de sabores dos alimentos que os adultos, entre outros fatores, porque têm um maior número de papilas gustativas. O número de papilas gustativas numa criança, num adulto ou num idoso não é igual, estas diminuem com o passar dos anos.
Aos 8 anos, uma criança tem, aproximadamente, 10 000 papilas gustativas, uma adulto de 50 anos tem cerca de 5000.
Talvez por isso, alguns idoso, percam o interesse pela comida e/ou sintam a necessidade de a condimentar mais. Pode também justificar o facto de algumas comida que não gostamos em pequenos, aprendamos a gostar, e muito, na idade adulta. Um exemplo que muito adultos referem como gosto adquirido só em adulto é as favas! É também uma facto que os bebés/crianças preferem os sabores adocicados, por se assemelharem mais ao sabor do leite materno, enquanto que os idosos preferem os sabores mais intensos, associados ao picante e ao sal.
Talvez por sentirem tão intensamente os sabores, os dois pequenos mais novos sejam o cargo dos trabalhos para comer mas sendo assim há esperança, é esperar que o tempo passe (muito dele à mesa, obviamente)!

Há tempos li, não me lembro bem onde, um artigo científico sobre esta questão e achei curioso mas foi o comentário de pimpolha mais velha ao encontrar a referência a isto no “Fantástico livro do corpo humano” que me avivou a memória. Recomendamos, a miúdos e graúdos, a leitura do Fantástico livro do corpo humano, de Adam Frost, é muito interessante, cheio de curiosidades, sentido de humor e ilustrações apelativas. Para os mais crescido, partilho um post sobre a alimentação e as crianças muito interessante!

Parentalidade(s)

Os seus filhos são o máximo: lindos, inteligentes, educados, não mentem, contam-lhes tudo pois são super amigos. Resumindo: os seus filhos são um poço de virtudes, defeitos não há nem pode haver, errar é cena que só aflige os outros, até porque eles e os seus queridos filhos raramente têm dúvidas e se as têm nunca ninguém lhas ouviu. Quando confrontados com uma situação desagradável, põem as mãos, e o resto do corpo, no fogo por eles, vociferando “Impossível, o meu filho nunca faria uma coisa dessas. Não é essa a educação que lhe dou em casa”, confrontados com os factos, contra estes não há argumentos, pensariam os mais otimistas, não vacilam: isso são coisas de miúdos às quais não se pode dar muito importância, acrescentando que há adultos que dramatizam e levam tudo muito a sério; culpabilizam os amigos e colegas do filho porque são uma má influência: a ideia só pode ter sido deles e ele foi levado na corrente: estava no sítio errado na hora errada, uma coisa que parece acontecer com frequência; porque o dinheiro repara e resolve tudo; porque não foi essa a versão que lhe foi dada a conhecer pelo filho (e mentir é coisa que eles não fazem)… Procuram justificar, com naturalidade e anos de prática, o que, aos olhos de todos, é inconcebível e inaceitável e não há nada nem ninguém que os demova na sua demanda! Se fosse uma criança tentando justificar a sua travessura, desta forma e em dose q.b., provavelmente, gabava-lhe, com um sorriso nos lábios, a persistência, insistência e capacidade de argumentação, já em pessoas adultas e responsáveis pela educação e atos dos menores a seu cargo, abomino!

Saber estar, ouvir, respeitar, obedecer, sim obedecer, reconhecer a autoridade, perceber que não se é o centro do mundo e que não se pode fazer tudo o que nos dá na real gana, que quando se faz algo errado se deve admitir, pedir desculpa e tentar corrigir/minimizar o erro, são tudo princípios essenciais que devem ser trabalhados desde tenra idade!
Quando tudo isto parece estar ausente, aos miúdos, dou-lhes o “devido desconto” face à irreverência própria da idade e às parvoíces expectáveis e típicas, não mais que isso. Para os seus pais, lamento mas não tenho paciência nenhuma, nem tolero as suas queridas e fofinhas visões e teorias sobre a falta de educação dos seus meninos. Lamento desiludi-los mas eles mentem, como todos nós mentimos, uns mais frequentemente que outros, por conveniência, por omissão, para não ferir susceptibilidade ou criar problemas de maior, para minimizar, ou engrandecer, os nossos feitos, e, às vezes, só porque sim; eles podem ser o centro do vosso mundo mas o universo está pejado de galáxias algumas a muitos anos luz de distância; todos nós adequamos, condicionamos as nossas intervenções, forma de estar e agir, em virtude do ambiente em que estamos inseridos, a escola e a vossa casa são ambientes bem distintos; os outros podem ser uma má influência mas eles optam, têm o poder, e vocês o dever de os ensinar, a dizer NÃO (esse monossílabo que parece ter desaparecido do léxico de muitas famílias), bem como de distinguir o bem do mal; o erro dos outros nunca desculpabiliza ou tira a responsabilidade do erro do vosso filho e há atitudes/erros que não há dinheiro no mundo que resolva/compense; não averiguar e incentivar a que admitam o seu erro (sim, eles falham, portam-se mal e erram como todo e qualquer ser humano), procurando, incessantemente, desculpabilizá-los, é transmitir-lhes que tudo é admissível e permitido e que estarão lá sempre para os safar; é criar um monstrinho irresponsável, insensível e desconhecedor das regras que são essenciais para viver em sociedade. Um bocadinho cansada, de cada vez mais, me cruzar com monstrinhos, e respetivos pais, ambos cheios de si, caminhando a largos passos para se transformarem em verdadeiros e assustadores monstrengos.

“(…) E tem de haver disciplina. E isso pode ser compatibilizado com uma família mais democrática e com uma família de afetos. As pessoas não conseguem encontrar esse modelo que concilie dois modelos que, à partida, parecem inconciliáveis. Chegamos ao caricato de vermos livros de autoajuda para pais — escritos por psicólogos — que aconselham a dizer não aos filhos. É algo que soa estranho, os pais que têm que ler estes livros passaram a infância e juventude a ouvir dizer não, e agora têm muita dificuldade em dizer não aos filhos.
(…)  O trabalho tomou conta da vida das pessoas. No pouco tempo que têm evitam o conflito. E exercer autoridade implica conflito. É necessário para marcar as diferenças de papéis, para dizer que os pais são pais e não são amigos.
(…) temos uma geração de progenitores que foi tiranizada pelos seus pais e agora se deixa tiranizar pelos seus filhos.” 

Excertos de um entrevista muito realista no Expresso

Muitos adultos se comportam como crianças: desafiam sistematicamente os professores e negam qualquer comportamento errado dos seus filhos.   Eles estigmatizam o comportamento de outras crianças, amplificam e incentivam qualquer briga entre duas crianças ao invés de optar por um diálogo. Isto também é um bullying silencioso, do qual ninguém fala.”
Excerto do artigo “O bullying que ninguém comenta: a intromissão dos pais na escola” muito bem explanado neste post

“A cavalo no tempo”

Uns belos poemas dados a conhecer pela pimpolha mais velha, através do seu livro de português, e que, curiosamente, pequeno do meio também já conhecia. Um bom livro para criança é aquele que nos deixa, a nós, adultos, a pensar no significado e abrangência destes pequenos grandes escritos. Mais um interessante livro de poemas de Luísa Ducla Soares – A cavalo no tempo.

A contradição humana

Afonso Cruz, proporciona-nos uma deliciosa, e reveladora, viagem às contradições humanas, nas vivências pessoais e do mundo, guiados pelo olhar atento, de quem nenhum pormenor escapa: uma criança.

“A contradição humana” é um livro infantil fantástico, “manuscrito”, para crianças de todas as idades, repleto de maravilhosas ilustrações de Afonso Cruz em três cores (vermelho, preto e branco, talvez porque na vida nada é apenas a preto ou branco).

Ficámos a conhecer este belo livro graças à pimpolha mais velha que adorou o excerto no seu livro de Português e decidiu partilhar com a família. Não se refere a todos os excertos que lê e analisa mas quase todas as semanas diz “Quero um livro novo, li uma parte que vinha no livro de português e pareceu-me muito giro”. Foi assim que leu “Charlie e a fábrica de chocolate”, se prepara para ler “Um tubarão na banheira” e muitos outros que tem na calha. Um livro de português bem conseguido nos textos escolhidos a ver pelo interesse que despertam na pimpolha mais velha! Aqui fica o excerto do seu livro de português que nos deu a conhecer “A contradição humana”. Deliciem-se com o texto e as ilustrações em baixo.

“Percebi, certo dia, que o espelho do meu quarto é uma grande contradição: o meu lado esquerdo, quando reflectido, torna-se direito – e o direito, esquerdo – , mas a parte de cima não se torna parte de baixo. Nem a parte de baixo, parte de cima. Acontece o mesmo com o meu gato. Mesmo quando se vira o espelho ao contrário. (…)

Depois de me deparar com estas coisas que desafiam a lógica de todo o universo conhecido, comecei a observar algo mais curioso ainda.
Dentro das pessoas – e isso inclui os vizinhos – habitam as maiores contradições.
Por exemplo: A minha tia gosta muito de pássaros mas prende-os em gaiolas. É uma pena.

O vizinho do sétimo esquerdo toca piano, canta e nunca desafina. Tem uns cabelos despenteados e uns dedos mais compridos do que aulas de Matemática. Mas o que realmente me impressiona é que ele toca músicas tristes e isso deixa-o feliz. Chega a chorar de felicidade (eu já vi).

No prédio ao lado vive uma senhora que sabe tudo, mesmo tudo. Apoiada na vassoura não há vida que ela não conheça. E tudo o que ela diz é sussurrado aos ouvidos das outras pessoas. O meu pai diz que aquilo passa tudo de boca em boca, mas o que eu sei é o seguinte: diz segredos baixinho que parece impossível que se façam ouvir a tão grandes distâncias.

O Sr. Gomes é um grande erudito que usa óculos e barba cheia de ondas brancas. Lê muitos livros e tem uma coleção de chapéus e um telescópio. A senhora do prédio ao lado, que sabe tudo, não é sábia nenhuma, enquanto o Sr. Gomes, que não sabe tudo (já lhe perguntei), é um grande sábio. Um dia pus-lhe uma questão: “Sr. Gomes, diga-me porque é que uma pessoa usa óculos para ver ao longe quando tem um telescópio?”

Uma das coisas mais espantosas é a quantidade de açúcar que a dona Assunção (vive no sexto, por baixo do pianista) põe no café. Quando ouve as músicas tristes do vizinho de cima, põe-se a gritar e a bater com a vassoura no teto. Quando se consegue acalmar, senta-se na salinha, põe uma toalhinha de rendas na mesinha, e deita um açucareiro no café. Apesar de comer tanto açúcar, é uma pessoa amarga. A minha mãe diz que o que lhe falta é chá. (…)”
                                                                                      in Contradição Humana, Afonso Cruz

Este slideshow necessita de JavaScript.

A felicidade, a primavera e o dia do pai – uma verdadeira mixórdia de temáticas!

Dia 20 de março, respiramos fundo e suspiramos sentindo no ar a chegada da primavera, pelo menos oficialmente, é também o dia em que se comemora o dia da felicidade, nesta moda instaurada de que tudo tem um dia. Foi também o dia que ficámos a saber que segundo um estudo recente, Portugal ocupa no ranking a posição 89 entre 155 países, onde, mais uma vez, os nórdicos lideram a tabela, somos o quarto país menos feliz da Europa.

O sol que nos aquece a pele, e o coração, na maioria dos dias, boas paparocas que nos enchem a barriguita e consolam a alma, um país de uma beleza surpreendente, de cortar a respiração, queiramos nós explorá-lo e aproveitar o que tem para nos oferecer, um país seguro, apesar dos gatunos, aparentemente inocentes, que nos roubam milhões, um país de gente calma e pacífica, especialista em queixumes e lamentos, o país onde existem mais telemóveis per capita, onde os centros comerciais e as grandes superfícies comerciais proliferam, onde, por ano, os seus cidadãos investem mais em cápsulas de café Nespresso do que em livros, onde se valoriza o ter em detrimento do ser, onde se escolhe ostentar em vez de vivenciar… Temos tudo isto e muito mais, no entanto, o problema não foi só a crise que nos toldou o entendimento mas a mentalidade e a forma como escolhemos viver/encarar a vida: entre reclamar por tudo e por nada, conscientemente, sabendo que nada faremos para modificar a realidade que tanto criticamos, ou deitar mãos à obra e tirar o melhor partido do que se tem, apreciando e dando valor a cada momento, mesmo os maus, a cada aprendizagem, mesmo as dolorosas, a cada sorriso, aos genuínos mas, principalmente, aos esforçados, descartando de imediato os cínicos, sabendo rir de si próprio e fazendo sorrir os outros, não perdendo nunca o sentido de humor e o poder de encaixe; o que será que a grande maioria escolhe?

Dou comigo a sorrir ao (re)ler um artigo do presidente e fundador do Happiness Research Institute, quando esteve em Portugal, a promover o seu livro intitulado “O Livro do Hygge — O segredo dinamarquês para ser feliz“. Um dinamarquês cheio de espírito, sentido de humor e que tem um discurso bastante interessante e que até me ensinou uma palavra nova “hygge” para algo que, em certa medida, há muito pratico, ou pelo menos tento, ou então vivo só na ilusão de… whatever! Não, não comprei, não li e não tenciono ler o seu livro mas não deixa de ser um entrevista que vale a pena ler. Alguns excertos abaixo

E porque foi, oficialmente, dia do pai, partilho, um tema que não faz bem o meu género, mas cuja letra, de forma simples, bonita, verdadeira, espelha na perfeição o que qualquer pai, e mãe, deseja para os seus filhos, e curiosamente, sobre estar bem com a vida, ser feliz.

Ao(s) meu(s) pai(s),

“I love my life
I am powerful
I am beautiful
I am free
I love my life
I am wonderful
I am magical
I am me
(…)And finally
I’m where I wanna be “
And all of this
thanks to you
I love my life
and I´m grateful
for all the things you
have taught me
and done for me
and above all,
I love you
(acrescento eu :))

À pequenada cá de casa, dedico esta parte, que eles tão bem conhecem na prática…

“Tether your soul to me

I will never let go completely
One day your hands will be
Strong enough to hold me
I might not be there for all your battles
But you’ll win them eventually
I’ll pray that I’m giving you all that matters
(…)
I am not my mistakes
And God knows I’ve made a few
I started to question the angels
And the answer they gave was you
I cannot promise there won’t be sadness
I wish I could take it from you
But you’ll find the courage to face the madness
And sing it because it’s true
(…)
Find the others
With hearts
Like yours
Run far, run free
I’m with you”

“A vida na ponta dos dedos”

Vale a pena ler o texto “A vida na ponta dos dedos” de Eduardo Sá. É inegável o papel predominante que os gadjets estão a assumir na vida dos mais novos e seria interessantes refletir sobre o porquê de isso estar a acontecer. Com conta, peso e medida e, essencialmente, muita regulação e limitação, não esquecendo, obviamente, de dar o exemplo, poderá ser benéfico (ainda não estou muito convencida)!
São cada vez mais os artigos de jornal, os desabafos dos pais e as afirmações “soltas” que se insurgem contra o modo como as crianças vivem dependentes dos ecrãs. Os números afiançam que mais de 60% dos tablets das casas portuguesas já pertencem aos mais pequenos. E os especialistas vão recordando que as crianças que utilizam os tablets por um tempo superior a 30 minutos por dia podem vir a sofrer, futuramente, de dores nas costas e no pescoço e de outras sequelas posturais. Seja como for, enquanto que em muitas famílias os tablets são a babysitter favorita para entreter as crianças, o alarme geral das pessoas crescidas a propósito deste “vicio dos tempos modernos” cresce, todos os dias. Como se a elas – e, sobretudo, aos adolescentes – se fossem barricando numa multiplicidade de instrumentos tecnológicos com um ímpeto tal que, aparentemente, ninguém os conseguiria parar ou, mesmo, resgatar. E, em resultado disso, parecessem ir ficando alheados do mundo à sua volta, fossem falando por monossílabos ou por murmúrios, e fugissem ao contacto e à relação. E, sobretudo, a qualquer programa familiar de fim de semana. E, ainda, parecessem tão “agarrados” aos ecrãs como um toxicodependente à substância da qual depende. Reconheço que esta “onda” me preocupa. Muito!
1.
Em primeiro lugar, porque ela parece representar uma “versão século XXI” daquilo que todos escutámos, antes, a propósito dos desenhos animados. Porque a Heidi e o Marco “é que eram” histórias a valer”. E porque os desenhos animados estariam a tornar-se “muito violentos” sendo, segundo muitos, os grandes responsáveis pela forma como muitas crianças estariam a “perder os valores”. Etc. É claro que, enquanto as lamúrias iam acontecendo, para muitos jardins de infância, quando queriam que as crianças não corressem ou enquanto elas aguardavam a chegada dos pais, os desenhos animados estavam ali para as entreter. E quando os pais pretendiam que, entre os irmãos, a zaragata não escorregasse para níveis “assustadores” (antes do jantar, claro), ou quando queriam muito que os ímpetos madrugadores, ao sábado e ao domingo, não se transformassem em reivindicações estridentes do género: “Tenho fome!!”, os desenhos animados já eram “amigos”, estando ali entre o ansiolítico “levezinho” e os “aperitivos para o pequeno-almoço”.
2.
É claro que computadores, tablets e smartphones são “maquinões” poderosos. São sedutores. São amigos da atenção e da inteligência. Interpelam. Desafiam. E estimulam. Fazem, portanto, muito bem ao crescimento das crianças! Desde que não lhes sejam dados cedo demais. Não lhos disponibilizem por tudo e por nada. E não sejam deixados ao cuidado da “autorregulação” das crianças. Isto é, usados com sensatez, são vitamina do crescimento. Se bem que o seu abuso lhes estrague o crescimento saudável.3.
Como se compreende, a multiplicidade de desafios que os nossos filhos têm ao seu dispor faz com que eles apurem as suas competências para a escolha. Escolher representa reconhecer que não se pode ter tudo. Mas exige que se reflita, se pondere, se discorra, se sintetize, e que se hierarquizem prioridades. Por outras palavras, implica que se pense e se estude, se discuta, se discorra e se decida. Tudo o que a família e a escola deviam estimar muito mais vezes nas crianças. Ou seja: benditos “maquinões” que vão compensando os “défices de atenção” das muitas pessoas crescidas…4.
Seja como for, as crianças têm de compatibilizar as novas tecnologias e o “brincar tradicional”. Têm de ligar corpo, imaginação, raciocínio hipotético-dedutivo e pensamento simbólico. Têm de construir e desconstruir. E têm de compatibilizar o singular e o plural. Não basta, pois, que as deixemos “acantonar” todos os seus recursos nas áreas onde os seus desempenhos acabam por ser vitoriosos. Até porque se, como educadores, ainda não descobrimos quais acabam por ser as suas “necessidades educativas especiais”, é porque nos estará a faltar um bocadinho para conseguirmos ajudá-las a transformar em recursos as competências que, efetivamente, elas têm.
5.
Neste contexto, fará sentido que uma escola que, tantas vezes, não deixa que as crianças vão do concreto para o abstrato – contando pelos dedos, por exemplo -, que não as leva (tanto como devia) da curiosidade até à descoberta, que não as deixa tocar, mexer, experimentar ou desmontar o conhecimento, as incentive a conhecer num registo que se vai tornando, cada vez mais, do género: “vá pelos seus dedos”? Não!
6.
Mas, sendo assim, aquilo que faz toda a diferença é o modo como os pais se colocam, nesta relação entre os filhos e os ecrãs, como “entidade reguladora”. Talvez não seja muito razoável que, imaginando que as crianças têm tempo para brincar e para descansar, todos os dias, que mais do que a tal meia hora de “ecrãs” (duas vezes ao dia, que seja…) se torne exagerada. Mesmo que, com isso, os pais tenham de definir um critério seu, ancorado em convicções que tenham tudo a ver com o bom senso. É claro que eu entendo que os pais não precisam de ser “à prova de água” sempre que definem regras. E, muito menos, que necessitem de as explicar, quase como quem espera que as crianças lhes deem o consentimento que, como filhos, não lhes podem dar. Porque não são os pais dos pais; são filhos! Daí que não seja razoável que os pais se coloquem diante deles quase a medo… Sejamos razoáveis: todos entendemos que os pais não queiram “marcar” os filhos com pequenos sofrimentos que os seus “nãos” lhes possam, presumivelmente, provocar. No entanto, não deixa de ser razoável que nos perguntemos o que é que, no nosso crescimento, nos terá “marcado” mais: os erros educativos que os nossos pais assumiram, à custa das convicções com que os levaram para a frente, ou aquilo que eles não fizeram (muitas vezes, por medo de errar)? Ou seja: se os pais têm, de forma intuitiva (mas com convicção) a ideia de que um determinado tempo de “ecrãs” será demais, não seria, então, de levarem por diante esse limite, todos os dias?
7.
É claro que, às vezes, tenho receio que muitos pais tenham dois pesos e duas medias. Para efeitos de regras de bom senso para com os filhos, alarmam-se com a relação que as crianças e os adolescentes têm com os ecrãs. Para efeito dos bons exemplos que lhes trazem, todos os dias, não perdem uma oportunidade de estar ao telefone, durante o almoço, ou de “mergulharem num ecrã” em pleno momento de família. E muitos dos pais alarmados, mal entram num espetáculo, contribuam para a “epidemia de flashs” que faz com que mal ouçam uma música do princípio ao fim, preferindo fotografar e “postar”, fotografar e “postar”, numa azáfama entre o ecrã e o facebook, como se mais importante do que sentir ou viver os momentos fosse registá-los, sossegando os amigos com mais um “eu estive lá!”. Mas, afinal, as regras em relação aos ecrãs, quando nascem, serão para todos?
8.
Mas que mundo é este que vive “toxidependentemente” agarrado a um ecrã? Fornecido às crianças para que sejam sossegadinhas e caladas; tolerado nos adolescentes – mesmo que o utilizem numa “overdose” inquietante – para que troquem a sua interpelação palpitante por um estar sossegadinho e calado; e é, vezes de mais, alimentado pelas famílias, até à hora das refeições, como se a oportunidade das pessoas se tornarem mais e mais da família se pudesse trocar por uma atmosfera sossegadinha e calada?… E, no entanto, sempre que estão sossegadinhas e caladas as pessoas tornam-se doentes e transformam-se, umas às outras, em estranhos que se conhecem bem.
9.
Se a educação judaico-cristã trouxe, entre ganhos incalculáveis, alguma repressão e censura exageradas e dispensáveis aos sentimentos e à sabedoria humanas, o mundo digital tem-lhes trazido solidão, silêncio e sossego. E tem vindo a produzir pessoas cada vez mais viradas sobre si, mais narcísicas e mais autistas, menos amigas da comunicação, mais solitárias, menos pensantes e muito menos cooperantes.
10.
Em função de tudo isto, a vida na ponta dos dedos não será uma catástrofe, claro. Desde que o corpo, a imaginação e a “alma” não se tornem “bens em vias de extinção”. E a relação, as palavras e o toque deixem de ser jurássicos… E desde que o “estar sempre ligado” das novas tecnologias se faça acompanhar pelo “estar sempre ligado” às pessoas, que não pode deixar de estar em primeiro lugar. Tudo num clima onde as pessoas crescidas não reajam com emulação a este “vicio dos tempos modernos” num registo de “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”. E – sobre tudo o mais – desde que a vista na ponta dos dedos sirva não só para mexer num tablet, como, também, para “ver “os intestinos” às coisas, para mexer em tudo aquilo que pareça ora misterioso ora desafiante, para tocar num rosto, para guiar um abraço ou como forma delicada de dizer a alguém: “Repara como eu gosto de ti!!”.”

Antiprincesas

A ideia foi de uma editora venezuelana, no final de 2015, publicou uma coleção de livros denominada Antiprincesas. Os livros Antiprincesas procuram mostrar que os heróis não são apenas do género masculino, que também há/houve muito mulheres fortes, lutadoras, com um papel relevante, que nada têm a ver com os contos de fadas, a beleza e o happy end preconizados no mundo das princesas disney.
Esta coleção chega agora a Portugal, publicado pela Tinta da China, (Frida Kahlo, Violeta Parra, Clarice Lispector, Juana Azurduy) falta só acrescentar à coleção umas heroínas portuguesas, pois não as há só na América Latina.

“As antiprincesas não são do contra só porque sim: não se resignam, e lutam para fazer valer aquilo que pensam. Como não usam tiaras, podem virar tudo de pernas para o ar e arriscar o que bem lhes apetece, como por exemplo mudar o mundo. Mesmo não tendo superpoderes, as antiprincesas são superpoderosas e sabem que a história é feita pelas mulheres reais.”