Alienada

“Professora, vai ver o casamento real?” perguntam-me os meus alunos na 6ª feira.
“Hummm… casamento real? Do princípe Harry? Quando é que é?” respondo cheia de dúvidas e meio desorientada.
“STÔRA! Não se fala de outra coisa. É AMANHÃ!” dizem estupefactos face à minha ignorância e indiferença a assuntos Reais.
“Nos sítios por onde me passeio, não ouvi nem li nada sobre o assunto!” acrescentei para juntar à sua, deles, incredulidade.
“Como é que é possível?” exclamam, olhando para mim tipo como se eu fosse um E.T. (pior, muito pior, do que quando faço uma demonstração matemática complicada)

“Então, professora, viu o casamento real, certo?” era a dúvida que mais os afligia às 8h00 da manhã desta 2ª feira, em véspera de teste de matemática.
“Não! Nada, nadinha de nada. Zero!” respondi entre risos.
“Francamente… não é possível! Mas viu as fotografias?” continua o inquérito cerrado.
“Nem uma!” informo em modo telegrama
“Não tem curiosidade?” pergunta uma “princesa”.
“Nem por isso…!” afirmo
“Não me diga que também não ouviu o Bruno de Carvalho?” pergunta o sportinguista ferrenho
“2 horas… por favor! Ouvi 2 ou 3 minutos do seu discurso na rádio e chegou-me bem. O homem só me faz lembrar uma personagem dos gatos fedorento à qual achava piada… mas depois lembro-me que aquilo não é um sketch e não sei ser ria se chore com tanta parvoeira junta debitada, pausadamente, por minuto! É demais para mim e, neste momento, para qualquer um, menos para ele, que continua cheio de si!” rematei, encerrando o assunto.
“Qual é que era a personagem dos gatos fedorento que lhe lembra o Bruno Carvalho?” pergunta o sportinguista entre risos
“Isso gostava eu de saber mas só tenha uma vaga ideia que era interpretada pelo José Diogo Quintela.” informo.
“P., tens que ir investigar isso! A professora, no outro dia elogiou-te: disse que o teu humor a fazia lembrar o Ricardo Araújo Pereira e que isso não era para qualquer um, era um verdadeiro elogio. É o mínimo que podes fazer para nos esclarecer!” diz o sportinguista entre risos
“Eu sabia que ia sobrar aqui para o preto!” diz o P.
“Mas o único preto aqui sou eu, pá!” diz o sportinguista (que é preto).
“Exatamente!” diz o P. no seu melhor!
Assim começou mais uma aula entre risos, casamentos reais, Bruno de Carvalho, gato fedorentos e afins, decidimos, aliás decidi, sem demoras, mergulhar-nos em cenas mais reais: as funções racionais! Atentem bem: RACIONAIS!

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Dream job!

“Professora, tem que ir assistir à minha apresentação de Inglês… É que eu já me decidi no tema e vai ser espetacular!” diz-me L., o único, [cognome que lhe dei na aula de apresentação, e ficou, uma vez que é dos poucos alunos cujo o nome não se repete numa turma de 30 ( 11º ano)].
Olho para ele, meio intrigada, sem perceber ao que o rapaz se poderá estar a referir, espero que me esclareça e ele não desilude “Então não se lembra da minha questão fraturante do outro dia? O tema do trabalho de inglês que escolhi é “Dream Job” e eu já decidi: quero ser stripper! A apresentação está muito boa, já tenho muita prática!”
“Bem, se calhar é melhor discutir essa temática e abordagem com a professora de Inglês” aconselho-o, contendo o riso, com dificuldade, visualizando a cara e reação da professora de Inglês, uma Senhora muito séria, bem posta e no final de carreira, ao dream job do L, o único.
“Ora essa! Eu já lhe disse por isso ela já deve estar preparada! Se não está, que se prepare” diz ele com a maior das naturalidade.
“Nunca ninguém está preparado para as tiradas de L., o único! Então e o que lhe disse a professora quando lhe comunicou?” pergunto curiosa.
“A professora teve um discurso matrimonial…!” esclarece-me um dos seus colegas com um sorriso condescendente.
“Hummm… matrimonial?” digo eu entre risos.
“Matriacal?” aventa outro aluno.
“Não será maternal que querem dizer?” digo perdida de riso.
“Foi mesmo isso! A professora também dava uma boa professora de português!” avança outro aluno.
“Letras, números, é um domínio completo! Então mas afinal o que é que a professora lhe disse?” insisto.
“Sei lá, ela falou, bec, bec, bec, tipo os meus pais! Eu fiz o que faça sempre, desliguei. Tipo quando eu disse aos meus que tinha nascido para ser filho de gente rica, não para aquilo. Tchi, a minha mãe passou-se e falou, falou… não ouvi nada” diz L., o único.
“Mas como é que o senhor sabe o que é ser filho de gente rica?” pergunto-lhe
“Ora então, já vi muitos filmes!” diz-me ele
“Pois claro… O senhor é demais! Pois olhe que devia ter ouvido, e com muita atenção, o que a professora de Inglês lhe tentou explicar/dizer!” avisei-o novamente.
“Não pense nisso. Vai ser super divertido, aquilo está o máximo. A professora vai, não vai?” insiste ele.
“Eu? Mas vou onde? Eu não sei nem ouvi nada, certo meninos? Não diga que não o avisei!” remato.
“Certíssimo professora, nós também não vimos, nem ouvimos, nem sabemos de nada. Estás por tua conta, L, o único!” respondem eles.
“Professora, não pode desiludir assim o seu aluno preferido, L, o único! A professora de Inglês já está habituada, ela sabe que eu sou assim meio tonto…” diz-me L, o único, num tom apaziguador e tranquilizante, desconfio que para meu benefício.
Não sei se este meu trabalho é de sonho mas tem os seus momentos… hilariantes!

Buongiorno, Principessa!

“Buongiorno, Principessa” cumprimenta-me, ao entrar, um aluno, “cheio de contente”, às 8h00 da manhã.
“Olá e bom dia, meu caro! Tanto alegria logo pela manhã pois então que a vida é bela!” respondo-lhe, sorrindo.
“Eu sabia, eu sabia que a professora ia reconhecer…! Explique, por favor, a este meu colegas incultos, “A vida é bela!”” diz ele, dirigindo-se mais aos seus colegas do que a mim.
“É um belíssimo filme: simples e maravilhoso, retrata uma época dolorosa e negra na história, mas que nos mostra o poder e a importância da forma como escolhemos encarar as coisas e cenas da vida, especialmente, as mais duras e “desagradáveis”. Aconselho vivamente!” elucido a plateia espectante, dando início a mais uma, promissora, aula de matemática de 11ºano.
Recontando, “cheia de contente”, a excelentíssimo esposo a forma simpática, principesca  mesmo, como começou o meu dia de trabalho, diz-me ele, entre risos, “Se calhar, o teu aluno achou só que estava num campo de concentração!”.
Franzi-lhe o sobrolho, e desconfio que lhe devo ter dado uma cotovelada, raios parta o homem, e atirei-lhe com um “É que mesmo Parvo Engracadinho. Desmancha prazeres! Tens é inveja que o teu dia de trabalho não comece assim!”.
“É verdade! Nunca ninguém me chamou de princepesa! Desconfio que, nem nos melhores dias, o meu trabalho tem metade da emoção e interação que o teu tem… para o bem e para o mal!”. Rimo-nos que é sempre o melhor remédio.
Na realidade, há sempre vários pontos de vistas e interpretações sobre uma mesma conversa mas quem a vivencia tem sempre a primazia de interpretar o que vê, ouve e sente da forma que mais lhe apraz/convém, quem ouve o relato tem o distanciamento e a imparcialidade que, por vezes, tolda a interpretação e a sabedoria dos intervenientes mas desconhece as entoações, conotações, anotações e relações presentes na mesma e isso, muitas vezes, é fundamental, se não mesmo o essencial, o “tempero” das relações interpessoais.

Despontar!

Óculos tartaruga, alto, esguio, bigode, barba e borbulhas a despontar, não enverga as típicas calças de ganga nem os ténis da moda, tem um estilo e postura muito próprio, que segundo o próprio já o fez ser vítima de bullying, “As pessoas são muito rápidas a julgar tudo e todos os que são diferentes. Aprendi a viver com isso”.
Entrava mudo e saí calado das minhas aulas, aluno aplicado e concentrado, que de quando em vez, lá me chamava baixinho para que lhe tirasse uma dúvida.
Ao longo do ano, o bigode e a barba afirmaram-se, continuou a não usar calças de ganga nem ténis, deixou de entrar mudo e sair calado das minhas aulas, sorria e ria, passou a interagir com os colegas, especialmente, com uma aluna. A aluna mais estouvada e extrovertida da turma, que com as suas intervenções malucas, despropositdas e rídiculas nos deixa a todos à beira das lágrimas de tanto rir, para depois afirmar “Sou alvo de chacota da turma” ao que eu lhe respondo, invariavelmente, “Não me parece que precise de ajuda nesse campo, faz um ótimo trabalho sozinha! Contar até 100 e pensar antes de falar é capaz de ajudar”. “Tem razão… Fogo, a professora é má! A minha mãe diz para eu contar só até 10!” diz-me ela. “Não me parece que esteja a resultar!” apontei-lhe. “Pois é! Até 100, como é que eu vou conseguir? Vou perder muita coisa enquanto me concentro a contar” constata ela. “Ou então não…!” conclui eu.
Não se sentam juntos, mas nunca demasiado longe, parecem cão e gato, não conseguem concordar em nada se um diz “Branco” o outro diz “Preto”, acusam e picam-se um ao outro, constantemente, mas aí de quem aponte ou “ataque” um dos dois, transformam-se num e num só, uma unidade imbatível e esquecidas ficam todas as picardias.
Observando este despertar do moço, a aceitação gradual pelos seus pares, vê-lo florecer e desabrochar tem sido um prazer.
“Professora, já correm apostas! Não precisa de dizer… todos sabemos qual seria a sua aposta! A professora ainda vai ser a madrinha de casamento!” dizem os colegas entre risos. Os visados trocam olhares, encolhem os ombros e sorriem e ele diz, piscando-lhe o olho “Ainda não me decidi… não sei, não, ela é meio maluca!” e ela responde “Olha, olha, quem fala, grande lata!”, eu penso “Here we go again” e é aqui que começo a dar, e a impor, limites 🙂
As correntes e subcorrentes de uma aula de matemática de 11ºano com meninos e meninas de 17 anos… Caraças, divirtimo-nos à brava entre números, senos, cossenos, tangentes, algumas secantes (eheheh), funções, sucessões, limites, derivadas e continuidades! Impossível não gostar destes miúdos, é um verdadeiro prazer trabalhar e estar com eles!

Muitas vezes, associo músicas a livros/histórias que ando a ler. Se tivesse que escolher uma para ilustrar esta história, escolheria “Só nas Canções” do Martim Vicente. Uma música e letra que descrevem na perfeição o que leio nas trocas de olhares e interações entre os meus alunos e que com a chegada da primavera de intensifica! É  bonito de ver e nunca deixa de me fazer sorrir e recordar… porque há amores que começam nesta idade e duram uma vida toda mas não, necessariamente, a vida toda.

A moda é uma cena que me transcende

É inverno, chove a cântaros, está vento e frio e elas seguem como se fosse primavera ou verão: envergando all stars nos pés, esses míticos ténis de pano, para compôr o ramalhete, a maioria sem meias ou meias pelo tornozelo mostrando as suas belas canelas.
Que até se me arrepia a espinha só de olhar para elas, pés encharcados, alguns até fazem chloc chloc, enregeladas nas canelas mas, essencialmente, muito e sempre fashions estas moças novas de hoje em dia.
Será uma moda de terras lusas ou a malta nova dos países nordícos segue a mesma corrente… fria em voga?

Observação do dia

” Estou indeciso. Não sei se hei de seguir a carreira de mendigo se de stripper. Já me disseram que tinha jeito para as duas… ! Stôra, o que acha? Deve haver para aí alguma faculdade que ensina algum dos dois, não?” diz-me um aluno de 11º ano, assim num repente que lhe deu, mais um dos tais sem filtros.
Dei de ombros, há momentos em que o silêncio é de ouro, podia dizer que ele estava a gozar comigo ou a testar/perturbar as águas… só que não, estava a falar muito a sério! Dúvidas que assolam um moço de 16 anos. Ainda se me perguntasse algum limite ou derivadoa…

O que andam os miúdos a aprender com a pornografia online

É este o título do artigo de Maggie Jones publicado no The New York Times Magazine, traduzido e publicado no semanário Expresso da semana passada com o título “Como os miúdos olham a pornografia“.
Um artigo longo, baseado na realidade americana, que mostra como a pornografia é a sua fonte principal de informação relativamente ao sexo, um retrato de como numa idade precoce se lida com as imagens e vídeos online e como os interpretam e lêem e como isso se traduz/influencia o seu comportamento e forma como lidam e gerem a sua intimidade.
Nos EUA, este fenómeno já atinge níveis preocupantes e há várias escolas que têm, no seu currículo, aulas sobre pornografia onde se procura chamar a atenção para o negócio da pornografia, que as cenas são com os filmes, não correspondem, na maioria dos casos, ao que os protagonistas estam realmente a sentir, é uma representação e, também por isso, não devem ser um exemplo de linha de ação numa relação íntima, desmistificando uma série de ideias que os jovens têm, nomeadamente, no que ao papel da mulher e do homem diz respeito, todos os elementos construídos com base nesta sua única fonte de conhecimento na matéria.
A pornografia como educador? Se calhar era melhor falarmos de sexo com os nossos filhos é o título de  um artigo muito interessante de Patrícia Reis, no Delito de Opinião, onde explora precisamente a temática abordada no artigo do New York Times.
Recomendo a leitura atenta, apesar de longa, de ambos os artigo a todos os pais.
Acham que não é possível e que não se passa ou passará com os vossos filhos? Com acesso à internet em tablets, smarthphones e computadores, até durante uma pesquisa inocente, basta escrever mal uma palavra ou escrever uma que pode ter múltiplos significados e tcharám, lá aparecem eles, nunca vos aconteceu? Porque razão não acontecerá o mesmo com eles? Por exemplo, quando acedo com o meu telemóvel para ver o meu blogue, este, como não tenho os anúncios bloqueados como no computador, muitas vezes aparecem anúncios no topo ou no final de cada post do tipo “Como emagrecer ou reduzir a barriga ou a cenas e coisas para comprar ” quando sem querer carrego num deles, não foi nem uma nem duas vezes que fui direcionado para uma página porno, porquê, não faço ideia, mas já me aconteceu, e esta é uma “casa” respeitável, caramba. Portanto, não enfiemos a cabeça na areia, fingindo que os nossos filhos são diferentes e melhores que os filhos dos outros, nesta com em muitas outras coisas, são todos muito parecidos e aprendem muito uns com os outros. Nesta temática, como noutra, o importante é ensiná-los a filtrar, a saber interpretar e analisar, a questionar, a não aceitar o que vêem com uma verdade absoluta e inquestionável, como um modelo. Just saying…

Código de barras

“Então meninos já receberam os testes de Matemática? E as notas?” pergunta a diretora de turma, no início da sua aula, aos alunos de uma turma minha de 11ºano.
“Verdadeiros códigos de barra!” responde um aluno espirituoso. Os restantes alunos riem-se.
“Códigos de barras? Não estou a entender.” diz a diretora de turma intrigada.
“Então é simples, passo a explicar, em vários passos, como os exercícios de matemática: a professor de matemática tranca todos, todos os espacinhos no nosso teste, nós olhamos e o que é que parece? 2º passo: temos as outras barras, as piores, são as nossas, são muitaaaaas, até parece que batemos com a cabeça numa barra verdadeira antes de vir para o teste e ficámos estúpidos de todo, 3º passo porque não é qualquer “máquina” que lê e descodifica o teste de matemática, ora experimente lá a professora a ver o meu teste ou o dos meus colegas para ver se entende alguma coisa!!!” esclarece o aluno espirituoso.
Aprecio o espiríto destes miúdos…

Assembleia da República – um (mau) exemplo

“Então, caros alunos, com correu a vossa visita de estudo à Assembleia da República?” pergunta à minha turma de 11ºano
“Uiiiii, nem sei porque é que os professores se queixam dos alunos, os deputado são bem piores que nós” diz o R. meio indignado
“Yeah, Stôra, aquilo mais parece uma café, e não é dos melhor frequentados!” diz o D. entre risos.
“Veja só Stôra se acha isto normal: estão sempre a entrar e a sair, uns porque estão atrasados, outros, sei lá… porque lhes apetece. Depois há aqueles que se levantam, quando lhes dá na gana,circulam pelas bancadas e vão falar, e dar abraços, a estes e aquele, isto tudo enquanto um qualquer está a discursar! Eu bem que tentei prestar atenção ao discurso do senhor mas aquilo é muita movimentação e uma pessoa distrai-se. Acho que ninguém, ou quase, estava a ouvir o que ele estava a dizer. Imagine que era na sua aula, o que é que Stôra fazia se nos comportassemos assim?”  esclarece e questiona-me o J. meio exasperado.
“Preciso mesmo responder a isso?” devolvo-lhe
“Claro que não, todos sabemos! Aquela gente é que não se sabe comportar, aquilo é uma vergonha!” diz furioso o J.
“O deputado que estava mesmo debaixo da nossa varanda, esteve o tempo todo, no tablet, a ver a temporada de jogos da NBA e o ao lado a ler o jornal!” acrescenta o F.
“Faltava lá a professora com o seus famosos «XIUUUUUUUU!» ou, melhor ainda, com o «pouco chinfrim na capoeira»! Não há lá ninguém que ponha ordem e mande calar aquela gente… e os mande guardar os telemóveir” diz a C. entre risos
Por esta altura, já estava para lá de possessa comigo, pensando “Mas porque é que eu perguntei?”, irritada com este exemplo ao mais alto nível de barulho, falta de educação, consideração, responsabilidade e interesse dado pela larga maioria dos representantes eleito da nação, que eu já imaginava mas presenciado e relatado por adolescente de 16 anos teve um outro impacto. O impacto típico de quando os maus exemplos vêm de cima…
“Bem já aprenderam a postura que não se deve ter. Esse também é um ensinamento que de  lá trouxeram. Agora é lembrarem-se do mau exemplo e das tristes figuras que presenciaram e evitar serem os protagonistas de tal proeza. Não basta criticar, isso todos conseguimos, é preciso tentar, almejar  e ser melhor do que o que criticamos nos outros!” remato eu.
“Easy peasy, já nos portamos muitooooooo melhor que eles, todos os dias, nas aulas!” diz entre dentes, a L. para a T.
Um retrato bastante elucidativo dos representantes deste pacífico país à beira mar plantado, responsáveis por propor e deliberar muitos dos nossos deles desígnios. Entregues aos bichos é o que é…!

“Tens namorada?”

“Tu tens namorada?” pergunta um amigo de brincadeiras, de 7 anos, a pequeno do meio.
Pequeno do meio, rapaz que nunca se compromete, olhou para a assembleia atenta, em torno de uma chávena de chá, composta por 4 adultos e 4 crianças, fez o seu sorriso maroto e deu de ombros.
O seu amigo prossegue a exploração do tema, acrescentando, talvez como forma de incentivo, “Eu não tenho namorada! Tenho um amigo que sofre muito.”, pequeno do meio não reage, não comente, continua a sorrir com aquele seu ar. A restante malta segue atenta a conversa de sorriso nos lábios
Não desistindo, questiona, novamente, pequeno do meio, “Tu também sofres das raparigas?”.
A gargalhada foi geral e pequeno do meio sorri com um ar conhecedor, assim como quem diz “Esta malta não percebe nada deste hip hop mas não vou ser eu a explicar-lhes”.
Pergunto-lhe eu, curiosa, “Então mas porque é que o teu amigo sofre muito com as raparigas?”
Ele esclarece-me prontamente “Nós queremos jogar à bola e elas não deixam!”. Pequeno do meio abana a cabeça, sorri e continua sem proferir uma palavra, mas aposto que estava a pensar qualquer coisa do género “Não percebes nada desta vida”

Não sei se chore, se ria

Circulo pela sala, esclarecendo dúvidas enquanto resolvem os exercícios a pares e alguém me chama no outro canto da sala.
Abeiro-me deles e digo “Contem-me coisa, qual é o exercício e a dúvida?”.
“Stôra, antes disso, queria só dizer-lhe uma coisa. Posso? Gosto mesmo muito de si como pessoa. Como professora de Matemática, não sei! Nunca gostei muito de Matemática e por isso nunca liguei muito às aulas!”.
Eu e o seu colega do lado mirámo-lo sem saber bem o que dizer.
Sai-me um “Não sei se chore ou se ria! Sinceramente…”.
O colega do lado quebra o gelo e diz “Stôra, não ligue. Ele não bate bem da bola, sempre foi assim!”.
O aluno meio atrapalhado acrescenta “Stôra, o que eu disse foi com boa intenção e é mesmo verdade e não acontece com todos os professores! Gosto mesmo de si”.
“Certo! Também gosto muito de si. Mas o que eu, e o senhor, precisámos mesmo, é que faça a Matemática, uma vez que estamos no 11ºano e os prognósticos, no seu caso, não são muito animadores, se se dedicasse à minha vertente matemática, isso é que era conversa!”
Mais uma jóia de miúdo “sem filtros” e que, infelizmente, percebe pouco de Matemática, talvez também por ser um pouco preguiçoso. Numa geração que aplica filtros a torto e a direito, nas fotografias e afins, na forma de estar e interagir socialmente são cada vez mais “sem filtros”.

Histórias da sala de professores…

A sala de professores é, à hora de ponta, intervalo da manhã, um local barulhento porque os professores são muitos, falam alto, têm sempre muito para contar e uma necessidade de desabafar sobre as suas aulas e/ou alunos e, nos tempos que correm, alguns pais. É um sítio onde se descomprime da “tensão” de manter 30 cabecinhas, durante 90 minutos, centrados no, que para nós é, importante e desligados de tudo o que lhes interessa, para daí a 10 minutos encarar outras 30 caras larocas diferentes e repetir a proeza, normalmente de forma diferente. É um local onde se partilham estratégias, esperanças, frustações (que, nos últimos tempos, são mais que muitas), desilusões, histórias e muitas estórias. Há histórias e estórias de todo o tipo há as verdadeiramente engraçadas e caricatas mas também há as engraçadas que não têm piada nenhuma! Partilho algumas que fui ouvindo e registando:

Mamografia
“Stôra, não sei como é que vou fazer o trabalho que me mandou fazer.” diz o aluno do 12ºano de curso profissional, maior de idade
“Então, qual é a dúvida? Como é que o posso ajudar?” diz a professora
“A professora mandou-me fazer uma mamografia e eu não sei como é que vou fazer isso” diz o aluno
“Ó meu querido é impossível eu ter-te mandado fazer uma mamografia!” diz a professora com alguma dificuldade em conter o riso.
“É, não é, Stôra? Pois a minha mãe também estranhou e disse-me a mesma coisa.” acrescenta o aluno todo satisfeito.
“A mamografia é um exame médico.” esclarece a professora
“Pois, então se não é uma mamografia, o que é que me mandou fazer mesmo?” diz o aluno intrigado.
“O que eu lhe pedi para fazer foi uma monografia!” diz a professora
“Então mas afinal qual é que é a diferença entre uma mamografia e uma monografia?” diz o aluno irritado face às gargalhadas dos seus colegas de turma e a dificuldade da professora em se manter séria.
Com um aluno pequeno esta seria um história engraçada e com piada, com um aluno de 12ºano, que atenção, não estava a gozar, é engraçado mas no fundo não tem piada nenhuma.

Métodos contracetivos
Na altura em que ainda não havia as internets, onde os trabalhos se faziam consultando, e fotocopiando, livros da biblioteca e em que havia a Formação Cívica e a Área de Projecto e se começou a falar na Educação Sexual, numa turma de 7ºano, a um aluno, com dificuldades e humilde, calhou-lhe fazer um trabalho sobre os métodos contracetivos, assunto já abordado nas aulas.
Na altura da entrega do trabalho, o mocito vem, meio atrapalhado, e diz “Eu fiz o trabalho mas tive algumas dificuldades. Pedi ajuda à senhora da biblioteca mas ela também não me consegui ajudar muito bem”.
“Então mas quais foram as dificuldades?” pergunta a professora
“A pílula encontrei nos livros e a imagem também, o preservativo também, o DIU também, mas o coito interrompido é que foi um problema! Não encontrei nenhuma imagem em nenhum livro. E olhe que eu e a senhora da biblioteca bem procurámos, ela dizia-me que não era preciso mas eu insisti, se os outros tinham imagem este também tinha que ter! A senhora da biblioteca bem me disse «Olha lá, filho, mas tu sabes o que isso é?» e eu disse-lhe “Sei lá, acho que sim, mais ou menos. E a senhora, sabe o que é e como é?” Pronto, como não encontrámos nenhuma imagem, decidi desenhar. Pode ver se está bem e se dá para eu ter positiva?”
“Não te preocupes. Estou a ver que te empenhaste no trabalho.” disse a professora, desejosa para ouvir esta bela interação relatada pela senhora da biblioteca.

Dicas para pais

Paulo Lameiro, o grande “pai” e mentor dos Concertos para Bebés e do Pinhal das Artes, em pequenos vídeos, de 3 minutos, conta e fala-nos de coisas interessantes como a música e a sua ligação ao comportamento do bebé, a atitude/esperança dos pais face à mesma, o que é isso do efeito Mozart, ou porque razão os bebés portugueses são diferentes dos bebés nórdicos e os concertos, cá e lá, não podem ser, exatamente, iguais :).
Uns vídeos muito interessantes que me deixam a pensar que a postura de alguns pais começa, verdadeiramente, a  chamar a atenção, a preocupar e a “incomodar” pessoas em vários pólos e, não só, os educadores e professores, talvez por terem deixado de ser uma excepção e passaram a ser a regra, será??? Nas palavras de Paulo Lameiro, “Gostamos tanto dos nossos bebés que nos esquecemos do mundo”.

Sem filtros

Final de um longo dia, para mim e para eles, entre vetores, equações de retas e planos e alguns grandes e complicados problemas de geometria, digo, como é meu hábito, é mais forte que eu, uma laracha qualquer para aliviar a “tensão”.
Uma aluna comenta “A Stôra é mesmo engraçada… e fofinha! Faz-me lembrar os ursinhos carinhosos!”.
Um cavalheiro, na fila de trás, diz, indignado “Olha lá, então? O que é que estás a chamar à professora?”.
Os restantes alunos de 16 anos, 11º ano, olham, alternadamente, para mim e para a aluna em questão.
A aluna muito encavacada e atrapalhada diz “Ó Stôra, desculpe! Os ursinhos carinhosos são uns desenhos animados muito fofos que eu costumo ver com a minha irmã!”, aguardando o meu veredicto.
Todos os olhos centrados em mim, não me dedicam tanta atenção quando lhes explico a posição de retas e planos, rio-me, dizendo “Sem stress! Eu também via e vejo os ursinhos carinhoso. Efetivamente, são muito fofos, uns belos desenhos animados que já vêm do meu tempo! Eu podia ter tido pior sorte, há para aí desenhos animados bem feios!”.
A aluna respira de alívio, por que esta coisa de não ter filtros, às vezes, pode correr, verdadeiramente, mal.
Os restantes sorriem e alguém comenta para o colega do lado “Aí se tivesse dito isto a outro professor qualquer, estava feita!” e eu que tenho bom ouvido disse “Só se ele não conhecesse os ursinhos carinhoso e/ou não tivesse sentido de humor. E aí, meu caro aluno, a perda era duplamente dele!” e ele acrescentou apenas a professora “A professora nunca falha, nunca desilude na resposta!”.
Falho, tantas ou mais vezes, que eles, em questões diferentes, certamente, mas tento não levar a vida, e a mim, demasiado a sério e ir aproveitando o que ela nos dá, e há momentos em que ser professor pode ser memorável, especialmente, quando nos comparam com um ursinho carinhoso, cutchi, cutchi!
Ao contar o episódio cá em casa, excelentíssimo esposo observou “Fogo, uma professora de Matemática ser equiparada a um ursinho carinhoso, não é para qualquer um! Isso é todo um outro nível”. “Exato é o de quem vê desenhos animados e é mesmo fofo, como a balança comprova!” responde. “Estás a ver porque é que não falhas?”

Frei Luís de Sousa

Nunca li o livro “Frei Luís de Sousa” de Almeida Garret mas, recentemente, acompanhei as minhas turmas de 11º a ver uma peça de teatro sobre esta obra. Gostei…!
No final, numa conversa informal, os atores, com muito espírito, esclareceram que tiveram que fazer algumas adaptções ao texto de Almeida Garret devido às más interpretações que algumas frases suscitariam, hoje em dia, como por exemplo “Minha querida sobrinha! Venha cá fazer festinhas ao seu querido tio. Venha, venha!” ou, ao bater à porta, D. Madalena dizer “Abri-me, abri-me!”. Os alunos acharam isto hilariante.
Para os alunos, a condenação feroz da Igreja do divórcio, dos 2º casamentos e ao que alguns chamam de “amor livre” é uma cena que os transcende, não conseguem conceber que, nessa época, até se pudesse ser preso por esse facto. Para muitos, hoje em dia, esta é a sua realidade familiar ou a de muitos amigos.
Curiosamente, na aceitação das novas realidades familiares, na altura, como agora, a posição “oficial” da Igreja não se alterou muito, apenas se silenciou, deixando de parecer tão extremada. Diria que, século e meio volvido, a Igreja deve fazer uma verdadeira revisão e tomar uma posição”oficial” e conciliadora, nesta matéria!

Atualização em 08/02 a propósito desta questão: D. Manuel Clemente, cardeal patriarca de Lisboa “Católicos recasados devem ser aconselhados a abster-se de ter relações sexuais”

Grasnando

Numa aula de 7ºano, enquanto a professora está a escrever no quadro ouve “Quac, quac”, “Quac, quac” e “Quac, Quac”. Volta-se, furiosa, e pergunta para a turma “Quem é que grasnou?”. Um aluno coloca a mão no ar e pede desculpa. A professora agradece a sua sinceridade, salientando, no entanto, que ele não foi o único e repetiu a questão. Outros dois alunos, colocaram a mão na consciência e, confessaram.
A professora enalteceu -os por terem assumido o seu erro perante a turma, mas por considerar a sua atitude inadmissível numa aula, pediu-lhe que abandonassem a sala foram nadar  em outras águas e lagos, menos profundos, provavelmente.
Os encarreagado de educação foram informados do sucedido e, prontamente, se dirigiram à escola, dois lamentando muito o sucedido e transmitindo o seu pedido de desculpas à professora, em questão, e um terceiro.
O terceiro disse apenas “Se a professora estava de costa, voltada para o quadro, como é colocou o meu filho na rua se não o viu fazer quac, quac?” e o Diretor de Turma, com muita paciência, disse “O seu filho confessou, por livre e espontânea vontade, perante toda a turma e a professora, não foi de todo coagido ou acusado pelos colegas. O que é uma atitude de enorme maturidade e de louvar!” e o encarregado de educação observou “Sim, tudo bem! Mas se a professora não viu o que ele fez, como é que o colocou na rua?”. “Acho que não está a perceber a questão! O seu filho grasnou numa aula, admitiu, ponto final. Teve um comportamento desadequado, esta é a questão, não a decisão da professora, consegue perceber isso? O seu filho percebeu na perfeição e agiu em conformidade!” disse, encerrando o assunto, já sem paciência, o Diretor de Turma.
Mas que raio de princípios e educação transmite este tipo de encarregado de educação aos filhos? “Para a próxima grasna, à vontade, mas cala-te bem caladinho que ela não vê nada quando está voltada para o quadro?!”.
São os mesmos que dizem aos filhos “Mesmo que não tenhas razão, discute sempre, argumenta, pode ser que te safes e eles vão na tua conversa”, orientação que um aluno me confessou ter recebido dos pais, quando numa determinada situação, me aborreci a sério com a sua impertinência, o mandei calar, salientando que não lhe tinha pedido a sua opinião e que há assuntos que não estão abertos a debate, onde os alunos não são tidos nem achados nas decisões. Espantei-o com a minha veemência, e indiferença, e ele acabou por acrescentar “Desculpe! Eu já nem penso, sai-me sempre, penso sempre em “negociar””.
Infelizmente, por vezes, os encarregados de educação não fazem parte da solução mas do problema e não deixa de ser surpreendente que os seus filhos sejam muitissímo melhor que eles!

Embeiçado

Extremamente extrovertido, conversador, divertido e brincalhão, assim é o G. no auge dos seus 16 anos.
Durante 3 semanas calado, cabisbaixo, sorriso forçado, não respondendo a às minhas provocações e, todas as aulas, aquela sua “ausência” me incomodava “Está tudo bem? Tem a certeza? Sentimos a sua falta, da tagarelice não tanto, mas do miúdo bem disposto que por aqui aparecia cheio de perguntas e dúvidas!” Invariavelmente, dava de ombros, dizendo “Logo me passa!”.
Cansada, e um pouco preocupada, com as suas meias respostas, no final de uma aula, sozinhos na sala, volto ao ataque “O que se passa? Não gosto nada de o ver assim!”. Ele levanta os olhos para mim e as lágrimas escorrem-lhe pela cara abaixo e eu pensei “Oh não! Not again mas porque é que é não me mantenho bem calada! E agora?”. Dirijo-me a ele, um rapaz com quase 1,90m, quase que caibo debaixo do seu braço. “Então rapaz? Problemas em casa, com os pais?” pergunto a medo. “Não, stôra! Fique descansada, está tudo bem em casa!” esboçando um sorriso leve, entre as lágrimas. Voltei a respirar e respirei bem fundooooo, “Problemas com a turma ou algum colega?”. “Sim, mais ou menos! Há uns tempos fiz uma grande asneira, uma pessoa não pensa e… depois arrepende-se! A outra pessoa não me perdoou e eu fiquei… assim! Já tentei falar com ela e resolver a questão mas isto é díficil como tudo, ela não me perdoa.  Quando uma pessoa está embeiçada… tudo é complicado, na mesma turma e sem me falar, ainda mais!”. Contive-me, quase que sorri de alívio, pois achei, verdadeiramente, que o moço estava acometido de um sério/grave problema familiar e, afinal, eram “só” males de amor.
“A professora sabe de quem é que eu estou a falar, não sabe?” pergunta-me ele, limpando as lágrimas. “Acho que não mas não me diga porque já sabe que eu depois, numa das minhas tiradas, pode-me sempre sair qualquer coisa disparada! Também não é o mais importante! A pessoa, em questão, está no direito de não perdoar, não o conseguir ou querer fazê-lo, pode só ainda não ter digerido o assunto. Falar ajuda, pedir desculpa também mas pode nunca resolver. Há lições que se aprendem da maneira mais difícil,perdem-se oportunidades, às vezes, não há alternativa, é preciso seguir em frente! Convém, no entretanto, continuar a olhar em volta, o que não falta por aí é gente fixe e motivos para sorrir!”. A adolescência, as suas crises, hormonas, amores e desamores, em full motion para os lados do G e, sim, é pode ser difícil!
Depois de 1 mês taciturno, 1 semana depois da nossa conversa, o rapaz renasceu e voltou a ser o G. de sempre, o que me deixou mais descansada, já em termos de aula, também não, “G. menos conversa e mais trabalho, rapaz!” e não é que o “camelo”, me pisca o olho, e responde “Ouve alguém que me disse que há por aí malta fixe e que devemos sorrir! E não é que é verdade?”. “Faz favor de sorrir e confraternizar menos nas minhas aulas, ó faz favorrrrr se não as contas saiem furadas, as suas e as minhas!”.
Há alunos com os quais sabe sempre bem sorrir embora, nem sempre, o possamos admitir!

Cenas de Pai

Passo apressado, dirigi-se à zona onde estão afixadas as pautas. Furioso, barafusta “Incompetentes, são todos umas cambada de incompetentes! Trocaram as notas do meu filho! Chamem-nos todos, e já, para repetirem a reunião. Inacreditável!”.
Diretor de Turma é chamado, confrontado com estes belos mimos depois de um longa período escolar e dias repletos de reuniões, diz apenas “Acabou! Não admito que coloque em causa o meu trabalho e profissionalismo bem como o dos meus colegas! As notas do seu filho estão corretas, aconselho-o a ir para casa, sentar-se com o seu filho, pedir-lhe todos os testes de avaliação do período e CONVERSAR muito com ele! Em janeiro, com calma, e depois de ter esclarecido tudo com o seu filho sobre os seus três níveis dois, falaremos! Aconselho-o a pensar seriamente sobre o que disse quando, na realidade, o senhor é que não fez o seu trabalho de pai e de casa! Passe bem e um Feliz Natal”.
Dois dias depois chega o mail “Peço desculpa pela minha atuação mas houve um engano. O meu filho não me tinha mostrado todos os testes! (…)”. O Diretor de Turma respondeu apenas “Engano?????? O calendário de testes está disponível desde a 2ª semana de setembro no programa!”