Intervir: uma opção ou um dever?!

Distraída, à espera que a cancela abra, para prosseguir a marcha, olho para o outro lado da estrada e, através das grades do campo de jogos, vejo uma criança de 10/11 anos a agredir outro ao murro e ao pontapé forte e feio, completamente descontrolado, fora de si, rodeado de 4 outros meninos, a assistir à cena, impávidos e serenos!
Carro ligado, ar condicionado a bombar, janelas fechadas, um calor de morrer, o segurança observa, a cancela abre e tenho dois carros atrás de mim, e eis que o espírito baixou em mim, deve ser coisa de professor.
Mão na buzina, ao mesmo tempo que abro a janela e começo a gritar “Ei, ei, o que é que se passa aí? Parem imediatamente com isso”. Surte efeito, deve ser do tom utilizado (são muito anos a virar frangos) combinado com as apitadelas, a pancadaria cessa e voltam-se para mim, o agressor começa a afastar-se, sem que lhe veja bem a cara, e pensei “Ai não, não!” mas estou longe, separa-nos uma grade, uma estrada e o carro. Berro novamente “Tu, pára já! O que é que estavas e estás a fazer?” e ele volta-se e começa a dizer-me qualquer coisa que não ouço porque o agredido decide despejar-lhe uma garrafa de água para cima, para refrescar os ânimos literalmente. Fogem os dois para longe da minha vista enquanto um dos miúdo, pequeno e franzino, me diz com um ar incomodado “Eu estou farto de lhes dizer para eles pararem mas eles não me ligam!”.
Furiosa e perplexa, olho para o segurança e quase, quase, que me saiu um “Se viste porque não fizeste ou disseste nada?”, contenho-me, pensando, não é a função dele, não é para isso que lhe pagam.
Olho pelo espelho retrovisor, já há 4 carros atrás de mim, aguardando silenciosamente que eu avance, pensando certamente “É doida, fritou a pipoca!”.
Avanço e estaciono o carro logo que possível. A passos largos, dirijo-me ao campo para falar com o responsável pelos jovens e dizer que fui eu a maluca que gritou do outro lado da estrada.
Dou com os dois miúdos sentados a levar um sermão, o agressor a chorar compulsivamente, vociferando as razões para a sua ação, e pensei “Ok, estão a tratar do assunto!. Quando, depois de me ouvir, o responsável me diz “Já estou habituado, já nada me choca!”. Isto mais do que tudo, deixou-me estarrecida “Pois devia chocar! O que eu vi não foi um brincadeira de miúdos, não foi um briga comum entre eles. Já vi e separei suficientes para saber ver a diferença. O que vi, pelo tipo de violência e raiva não contida, revela muito mais que isso” afirmei. Olhou-me espantado, e com outros olhos, anuindo com a cabeça “Nós sabemos. Não se preocupe, vamos resolver a questão!”.
Passado o “calor” do momento, decidi partilhar o que se tinha passado com a pequenada que me olhou com um ar sério quando lhes disse “Espero, nunca, mas mesmo nunca, vos ver envolvidos numa cena destas. E se alguma vez presenciarem alguma coisa deste género e acharem que não os conseguem acalmar ou separar, não é para ficarem a olhar, vão imediatamente chamar alguém e pedir ajuda! É um dever de todos.”
E não me sai da cabeça a passividade do segurança e a “normalidade do ato” que o responsável me tentou transmitir. Raios parta a falta de envolvimento e de vontade de intervir que mina e domina tanta gente! Em muitas situações, intervir não é uma opção, é um DEVER!

Superligados

“Mãe, tenho uma coisa para te contar sobre…” dizia a menina de 5/6 anos sentada ao lado mãe num transporte público.
“Espera só um bocadinho. Dá-me um minuto!” interrompe-a a mãe compenetrada
“É rápido e engraçado, como uma história…” diz a menina com o entusiasmo típico de quem quer partilhar algo emocionante.
“Agora não! Estou ocupada!” diz a mãe entre dentes antes que a criança desse por terminado o seu discurso
“Oh mãe, vá lá, deixa lá contar-te” diz a menina em tom de súplica, puxando a manga do vestido da mãe.
“Já te disse agora NÃO POSSO!” diz a mãe com um ar definitivo e zangado.
A menina resignou-se, mirando a mãe com uma ar desiludido. E assim seguiram, lado a lado, mas ao mesmo tempo longe, a milhas e milhas de distância, a menina embrenhada nos seus pensamentos e a mãe de telemóvel na mão atenta a tudo o que seu ecrã lhe comunicava, entre mãe e filha não houve qualquer tipo de comunicação durante largos minutos. Fica a dúvida: será que a menina lhe chegou a contar a tal história com que estava tão empolgada ou terá perdido o entusiasmo e a motivação?

Um artigo bastante interessante sobre a temática da geração dos “Superligados” que salienta a importância do papel e do exemplo dos pais no controlo do uso das tecnologia  é o intitulado “Os miúdos não desligam da tecnologia. E agora?”. Recomendo a leitura…atenta!

 

Século XXI ?!

Aborrece-me constatar que, no nosso dia a dia, nos cruzemos com malta ocidental, nova, onde as mulheres têm de pedir autorização ao namorado/marido para cortar o cabelo (e este é que decide o estilo e/ou o tamanho do corte e este dá lá um salto só para ter a certeza que está tudo nos conformes) ou que tenham que pedir autorização para gastar do seu, dela, dinheiro, independentemente, de pretender gastar 1€, 10€ ou 1 milhão e, no final, havendo autorização para gastar, têm que apresentar todas as faturas. Tudo me pareceria tão bem e normal, seja lá o que isso for, se em vez de autorização, buscassem apenas a opinião, ao género de uma parceria onde predomina a confiança, o respeito e a igualdade de direitos e deveres.

 A rapariga contempla-se longamente no espelho, visivelmente satisfeita com a imagem que este lhe devolve – o seu lindo e longo cabelo, cheio de madeixas, habilmente penteado, uma perfeição os efeitos e as suas unhas de gel e a maquilhagem realça a cor dos seus olhos – e pensa que o outro que apregoa que “Ela é linda sem makeup”, não sabe o que diz, ou se calhar até sabe, ela é que não se lembrou da música que mais se adequa a este seu momento:“Ela é linda, ela é special… Ela parte-me o pescoço”.
Olha impaciente para a sua mãe que está quase pronta, faltam os últimos pormenores. Os seus lindo vestidos longos, como é da praxe em qualquer gala ou festa que se preze, aguardam-nas. Não podem chegar atrasadas, é a sua festa de finalista, no próximo ano letivo, já vai para o 5ºano. Uma mulher portanto…

As coisas que se aprendem numa ida, rápida, ao cabeleireiro! Qualquer uma destas cenas de mulheres, e protótipos, me impressiona… e não é pela positiva!

“Good night stories for rebel girls”

Seguindo a linha da coleção Antiprincesas surge agora um livro que reúne 100 mulheres, de várias nacionalidades e interesses que, em comum, têm o facto de terem tido um papel relevante na História e nas suas histórias (ex: Frida Kahlo, Simon Biles, Michelle Obama, Serena Williams). 100 mulheres são ilustradas por outras 100 mulheres, dos príncipes não reza nenhumas destas histórias, é assim o livro infantil intitulado “Good night stories for rebel girls”

Um livro dedicado às princesas, que não almejam um príncipe, mas principalmente construir e governar o seu reino e conquistar o mundo, nem que seja apenas o seu. Um livro recomendado a todos os miúdos e graúdos porque os sonhos não escolhem géneros nem idades.
Vale a pena ver o vídeo e meditar sobre a presença e o papel das mulheres nos contos infantis “tradicioniais”! Contém dados bastante interessantes, os quais, desde cedo, aceitámos sem questionar, de tão enraizados que estavam os contos e os estereótipos mas que não condicionaram o futuro que escolhemos ou será que…?!

Crianças e as suas indagações sobre sexo

No final de um dia de trabalho, pensava para consigo “Isto é apenas uma fase. Tenho que reagir com naturalidade ou eles nunca mais falam comigo sobre o assunto!”. Suspira e respira fundo, tentando adivinhar com que questões ou observações será agraciada dentro de momentos quando os for buscar à escola. Com 8 e 10 anos, os seus filhos, curiosos e permeáveis às conversas que vão ouvindo e tendo com os seus colegas da escola, nos últimos tempos, centraram todas as atenções num único tópico “Sexo”.
As diferenças na fisionomia do homem e da mulher, a sementinha, o óvulo, como se juntam e porque nem sempre se forma um bebé, à palavra feia fo****,  foram tudo temas mais que falados nos último dias  e não vê que mais poderão eles perguntar ou querer saber mas eles têm o dom de a conseguir sempre surpreender.
Prepara-se, mentalmente, para mais um eventual “round”, alimentando, bem lá no fundo, a esperança que outro tema lhes tenha despertado a curiosidade e a atenção. Rapidamente percebe que não, ainda não será desta vez, reza em silêncio para ter paciência e ser assertiva, quando o mais novo dispara “Hoje, a mãe e o pai vão fo****?”.
Sente os olhos a saírem das órbitas e a mente a fervilhar. Respira fundo, conta até 10, lembrando-se que o seu menino só tem 8 anos e não tem noção da crueza e magnitude da sua questão. Afagando-lhe o cabelo, aparentando uma calma que nãos sente, relembra-o que não se usa a palavra fo****, é feia, é uma asneira, que as pessoas que gostam verdadeiramente uma da outra fazem amor e que assim é infinitamente melhor, acrescentando que não se deve perguntar essas coisas a ninguém pois só dizem respeito aos dois e a mais ninguém, é como um segredo entre amigos. O seu menino acena com a cabeça ao seu discurso mas a a sua atenção já está centrada nos LEGOS espalhados pelo chão. Confiante que a sua resposta o aquietou e é invadida por um misto de sentimentos: alívio, embaraço e o de dever cumprido, assunto encerrado.
O pai chega a casa e o menino corre para o abraçar e, em, plenos pulmões pergunta “Quando tu e a mãe fizerem amor, eu e a mana podemos ver?” O pai olha para a mãe, recordando a conversa que tinham tido de “agir naturalmente quando os miúdos falarem sobre o assunto” e diz, sorrindo, naturalmente, “Claro que sim!” e a mãe abraçando ambos, lançando um olhar desconcertado ao marido, diz “Claro que não! Já falámos sobre isso hoje”, o seu menino sorri como quem diz “Há sim?”. Inspira, expira e suspira profundamente, preparando-se para botar discurso sobre a intimidade, e matutando “Here we go all over again! Olha se ele vai contar esta lá para a escola, vai ser bonito vai!”

“De que forma é que as crianças (0 aos 8 anos)e as suas famílias utilizam as tecnologias (online)? “

Um estudo piloto europeu, realizado em 18 países, procura dar resposta a esta pergunta, explorando a dinâmica entre pais e filhos, as utilizações e as perceções de crianças e pais relativamente à utilização destes dispositivos, a fim de identificar as atividades digitais e práticas, benefícios e riscos associados.
Em todos os países, o relatório tem como base uma amostra incluiu 10 famílias com crianças com 6 ou 7 anos de idade, que frequentavam o 1º ou 2º ano de escolaridade do 1º Ciclo do Ensino Básico e que utilizavam, pelo menos uma vez por semana, um dispositivo digital.

As principais conclusões referidas no relatório português (vale a pena dar uma vista de olhos)

Folhados, vegans ou afins, crianças e modas!!!

Cinco anos acabados de fazer, na sua festa, o aniversariante deliciando-se com um folhado de salsicha, oferece um ao seu amigo que lhe responde, usando a sua sabedoria de cinco anos de vida, “Não quero! Isso tem animais mortos dentro!”. “Não! São salsichas!” diz o aniversariante, olhando para o adulto mais próximo, assim como quem diz “Ora explica-lhe lá tu que ele está para aqui com história de animais mortos no meu folhado!”
Parabéns V.,  continua a apreciar os folhados e ensina-lhes como se faz!!!!

Cenas que me perturbam!

Suspira profundamente com um ar pesaroso e eu comento “Então rapaz que se passa? Ainda é muito novo para isso! Não me diga que é dos ares da primavera? Alergias, sinergias, empatias?!”. Ele sorri e diz “Não, stôra! É a minha vida! Sei lá… é complicado!”. Tranquilizando o moço digo “Deixe lá tudo se resolve! Pode não acreditar, como eu não acreditei quando mo disseram na sua idade, mas não há melhor vida que a de estudante!”. Argumentos para cá, argumento para lá e o moço aquietou-se e diz um outro “Pensando no que acabámos de falar, não vejo grande diferença entre mim e quem trabalha. Saio de casa todos os dias às 8h00 e regresso perto das 20h00 e nunca páro!” diz desanimado. Espantada digo “Então mas tem 3 tardes livres!” e ele esclarece-me “Pois mas tenho natação, inglês, viola, explicação…”. Ocorreu-me apenas opiniar “Algo não está bem aí!” e ele com um ar resignado diz-me “Pois agora vá lá explicar isso aos meus pais!. Eu e os seus colegas demos de ombros. Troquei um olhar com o aluno do suspiro, o tal que despoletou esta deambulação, assim como quem diz “Há sempre vidas piores que as nossas!” e ele piscou-me o olho acrescentando “Certo, percebido!”

“Houve luz e trovões, mas era só Nossa Senhora”

“150 crianças de três escolas católicas de Fátima vão receber o Papa na Capelinha das Aparições, esta sexta-feira. Os alunos do Centro de Estudos de Fátima estão a preparar-se para um dia “emocionante”. Explicam, à sua maneira, o que aconteceu há 100 anos na Cova da Iria e o que é isso de “ficar santo”.

Muito engraçada esta reportagem da Renascença, vale a pena ver o vídeo! As crianças são… acima de tudo genuínas!!! Delicioso 🙂

Pormenores técnicos!

Aquelas pequenas coisas que dizemos aos alunos para os ajudar a lembrar alguns pormenores e eles aplicam e reproduzem na perfeição. Confirma-se que ao lecionar o estudo das transformações gráficas das funções é sempre assim que me refiro ao x pois efetivamente ele é “mentiroso”, no sentido em que engana, coitadito do x! Um “comentário” que, aparentemente, os alunos retém.

Em branco…

“Estava aqui revendo as minhas fotos da neve! Adorei, stôra! Cheguei a Portugal, em Outubro, no Brasil, não há neve, nunca tinha visto. Quando ouvimos que havia neve cá na Serra da Estrela, fomos até lá para conhecer! Amei, amei! Tinha nevado no dia anterior, mas não estava frio, não estava ventando! Aí, quando eu contei pra os meus colegas onde tinha ido, descobri que eles nunca tinham ido até lá, nem tinham curiosidade! E aí, eu pensei, é a um pulinho daqui, como é possível? Me explica isso, stôra, por favor!”

O valor das coisas – 1€

Eu: “Que se passa? Está com um ar tristonho.”
Aluna: “Nada! Está tudo bem.”
Eu: “Não parece! Está com má cara.”
Aluna: “Estou com fome!”
Eu: “São duas da tarde, não almoçou? Quando foi a última vez que comeu?”
Aluna: “Às 7h30, esqueci-me de comprar a senha de almoço”
Eu: “Então comprava qualquer coisa no bar.”
Aluna: “Quer dizer, não foi bem esquecer-me… não trouxe dinheiro.” E aqui soam os sinais de alarme e necessidade de avançar com muito cuidado!
Eu: “Então pedia dinheiro emprestado a um dos seus colegas, não pode é estar sem comer.” sugiro descontraidamente apesar da apreensão que senti. Nisto, uma aluna que, curiosamente, também tem algumas dificuldades financeiras oferece-se para lhe emprestar dinheiro.
Aluna: “Não, não pedi dinheiro emprestado aos meus colegas porque eles também precisam do dinheiro e eu não sei quando é que lhe posso pagar.” e assim com esta sinceridade e honestidade desarmou-me completamente e fiz, com algum receio pois nunca se sabe como irão reagir, o que tive vontade de fazer desde o início quando intui a razão da sua “fome”.
Eu: “Tome lá (dando-lhe 2€), vá lá comprar qualquer coisa ao bar. Não se preocupe quando se lembrar paga-me, não tem pressa”
Aluna: “Oh, Stôra!”
Eu: “Vá, despache-se que ainda me desmaia aqui na sala e aí é que eu me chateio a sério!”
Aluna: “Muito obrigada, assim que tiver pago-lhe!”
Regressou à aula poucos minutos depois com uma sandes e toda sorridente, devolvendo-me o que não gastou (1€) acrescentando “No 1º dia de aulas do próximo período, pago-lhe! Muito obrigado!”
A maioria dos alunos permaneceu calado durante este nosso diálogo. Houve apenas uma alma, que certamente vive na abundância, comparativamente, que a única coisa que lhe ocorreu opinar foi “Mas afinal quanto dinheiro é que a professora lhe deu?” que com um olhar, meu, fulminante encolheu-se todo e nada mais disse.
1€; 1€ representou muito para aquela miúda, quando para muito é uma ninharia que não dá para comprar nada de jeito. 1€ que ela não tinha para gastar nem para devolver, no dia seguinte, a quem lhe emprestasse e ainda assim podia ter ficado com o troco (1€) mas devolveu-mo. Há miúdos com vidas difíceis, que nem sonhamos, mas que aos mesmo tempo revelam uma honestidade e nobreza de sentimentos que impressionam e comovem. Oferecemos a nossa solidariedade a “estranhos” quando ao nosso lado, pessoas com quem lidamos diariamente, passam necessidades e nós nem sequer nos apercebemos. Alertei e accionei o “processo” e refeições grátis no refeitório estão a caminho!
1€, caraças, é, nestes momentos e banhos de realidade, que nos apercebemos que as coisas não têm o mesmo valor para todos e que nem tudo é o que parece.
Ser professor também, aliás cada vez mais, é saber ler os sinais, e nas entrelinhas, escolher e ter disponibilidade emocional para intervir, ou não, e aprender todos os dias um bocadinho com eles, e sobre eles. Nem sempre é fácil de (di)gerir!

DAB

Há um mês, comecei a observar este “movimento” nos meus alunos, sempre que algo lhes corria bem ou alguém mandava uma laracha. A princípio, associei a uma continência ao género militar (Ah, Ah, Ah), coloquei também a hipótese de ser algo em voga numa série ou desenho animado mas nada como perguntar “à fonte” e eles, prontamente, trataram de me esclarecer: “Vimos no youtube! Os jogadores de futebol comemoram assim os golos!”. E como toda a gente sabe, as aulas são dadas a muitas “comemorações”, pelo menos nas minhas, tenho sempre direito a 2 ou 3 DAB´s, enfim… há coisas bem piores!

Há duas semanas, a moda chegou cá a casa, pela mão, ou melhor dizendo, pelo braços de pimpolha mais velha e pensei “Oh não! Não me livro disto!”. Quando lhe perguntei o que significava, pimpolha mais velha respondeu, com naturalidade, “Sei lá, é uma coisa que os meus colegas fazem, e agora fazemos todos! Tem piada!”

Modas e maneirismos, é esperar que passe, portanto… até aparecer a próxima!

DAB in wikipédia

Pretextos de gente pequenina

Pimpolha mais velha recontando as histórias de uma colega que foi “brincar” ao Halloween: “Começaram por tratar do carro do vizinho por sugestão da sua mãe pois ele deixa sempre o carro estacionado à porta deles e ela não gosta nada dele! Nas casas onde não lhes abriram a porta, atiraram tomates, ovos e puseram shampoo nos carros e mais umas coisas!”
Transformar o Halloween como forma de esquecer o civismo, a boa educação e colocar os filhos em campo para tomar parte em pequenas vinganças não só é pouco ético como, acima de tudo, muito pouco educativo. Pimpolha mais velha estava um pouco abismada e disse “Eu ainda tentei explicar-lhe o que era os bolinhos e como fazíamos mas ela não quis saber!”

Alunos com espírito

“Parece um radar, faça o teste e deixe-se estar sossegadito!” aviso em tom de brincadeira
“Sabe lá, stôra! Estou aqui a ver se apanho a melhor rede mas há aqui um forte bloqueio: o seu e o deles! Veja lá que até eu próprio estou bloqueado” diz o aluno muito sério
“Olha os malandros! E que tal trocar de antena? De operador?” acrescento, fazendo um grande esforço para não me rir
“Diz que nesta altura do ano já não é possível!” esclarece-me ele
“E que tal mudar de sistema?” sugiro inocentemente
“Pois, parece que não me resta grande alternativa!” diz rendido mas pouco convencido.
Um momento descontraído num teste de avaliação, para aliviar a tensão mas não o meu bloqueio. Há miúdos que têm muito espírito, valha-nos isso, sempre nos vamos divertindo, já que essa coisa do gostar de aprender e estudar parece ter caído em desuso!

Cheiros e particularidades

Sozinho na sala, sentado ao lado da professora de Educação Especial, inspira e exclama “Hummm, este cheirinho! Comfort, amaciador de roupa, acertei?”. Na sessão seguinte, “Hummm, este cheirinho! Skip, detergente da roupa, acertei?”. No corredor, ao passar pela professora, “Hummmm, este cheirinho, shampoo da Kerastase, acertei?”. A consternação da colega, que ao chegar a casa, constata que o aluno não se enganou em nenhuma das suas sugestões e a dúvida de qual será o cheiro que, na próxima sessão, ele identificará e ela talvez não se recorde. Ao ouvir a história, lembrei-me do livro “O Perfume” do Patrick Suskind, embora o aluno seja inofensivo, talvez com algumas manifestações de esquizofrenia, mas a escola inclusiva é isto mesmo: na mesma sala temos tantas particularidades e cheiros que, cada vez mais, me questiono o que é isto, e quais os verdadeiros benefícios, de ensinar tudo, e de forma igual, a todos!

Miúdos incrivéis

Em cada aluno, há uma história, um passado, um presente, era bom que tudo fosse um mar de rosas, mas para muitos não o foi/é. Se há os que aprendem a viver com isso, outros por muito que tentem, não conseguem, e o seu pensamento está a milhas da escola, compreensível, diria eu! Gerir a diversidade de emoções/conflitos (internos e externos), numa sala de aula é das coisas mais difíceis e extenuantes!

Ao observar a sua face meio pálida, o olhar vivo, a quietude que lhes assola o corpo e a alma, compenetrados, sorvem toda a informação transmitida, querem sempre saber mais, extrapolam, colocam dezenas de questões pertinentes, às vezes, é necessário o intervalo para satisfazer tamanha curiosidade, ninguém diria por tudo aquilo que já passaram. Do diagnóstico, à aceitação, aos internamentos consecutivos e recorrentes, no IPO, à dureza dos tratamento, à dor, à incerteza, aos dias em que a sua vida esteve por um fio, sentir ferozmente, e como ninguém, a falta da escola, essencialmente, dos colegas e de aprender como, e com, eles, de ser “normal” como eles, aprender a viver com a doença e a mudança de estilo de vida que ela implica, aprender a gerir emoções, limitações, os cuidados a ter nas atividades física, os efeitos do tratamento e, em simultâneo,  o despontar da adolescência e… ainda assim continuarem a ser alunos de excelência, otimistas, alegres, sorridentes, curiosos, que se deixam maravilhar, onde essa fase negra parece ter desaparecido, ultrapassada e guardada nos confins da memória, recordada apenas pelas consultas de rotina, alturas em que um friozinho na barriga se apodera deles, face há possibilidade de um recaída e de ter que passar por tudo novamente. Há miúdos verdadeiramente incríveis, surpreendentes, corajosos, verdadeiros lutadores, que deviam servir de exemplo e inspirar os seus colegas, e muitos adultos!