Somos todos cigarras, somos todos formiguinhas!
Anda cada uma na sua vidinha, no papel de formiguinha, nos intervalos, julgando e criticando as pacíficas cigarras nas tendinhas. As cigarras da (sua) fábula, concentram a sua atenção, pela sua (deso)ocupação, os seus adereços, sotaque, género, vestuário, estilo, orientações políticas e sexual, ou em interpretações várias da constituição e da legislação. Vale tudo para dispersar a atenção e não debater a verdadeira motivação – a crise na habitação.
As tendas e os acampamentos eram formas permitidas, até há duas semana, de protesto e manifestação por professores, bombeiros e empresários, durante dias a fio, ocupando o espaço público. Neste momento, as tendas tornaram-se o inimigo público nº1 dos governantes e da polícia, o alvo a abater assim que aparecem em linha de vista. A falta de coerência, na aplicação da mesma lei – um peso, duas medidas – é a demonstração irrefutável que não somos todos iguais e não temos todos os mesmo direitos: nem à habitação e, imagine-se, nem à manifestação. Isto revolta (e muito) não só as cigarras, mas várias formiguinhas solidárias, dói e magoa literalmente (em vez de só figuradamente).
“Nem menos, nem mais
direitos iguais”
“A casa é para morar
não é para especular”
“Quero casa
quero chão
quero direito à habitação”
Então como é que as cigarras se devem manifestar? De preferência, longe da vista, para não ofenderem ninguém com o seu canto, a sua aparência, a sua preguiça, mas sobretudo com a sua pobreza e ousadia. O ideal é manifestarem-se no recato do lar, na tal casa que não têm.
As declarações e a linha de ação dos membros do governo, ao longo do semana, são, no mínimo, caricatas e muito infelizes, no máximo, pouco inteligentes e bastante preocupantes.
Com sorte e algum trabalho, sou proprietária de uma casa. A sorte também deu e dá muito trabalho, a diferença é que agora, há muito trabalho que não traz sorte nenhuma.
Estou totalmente solidária com a causa, indignada pela falta de sensibilidade, empatia e de medidas do governo e muito preocupada com a ausência de perspetivas, em Portugal, de um futuro, não assim tão longínquo, para os meus filhos.
Junto de muitas cigarras e formiguinhas, desci novamente a famosa avenida com um nome bonito LIBERDADE, ajuda sempre a afastar o cheiro a bafio que se sente no ar. Muita, muita gente de todas as idades, estilos e orientações, sem distinções: somos todos formiguinhas, somos todos cigarras. Cravo ao peito: o meu e avistei tantos, tantos outros. Um símbolo face aos sinais que se tornam difíceis de ignorar! Cartazes aos milhares, palavras de ordem não faltaram. Caras familiares de outras lutas e descidas da avenida. Muito sorrisos e abraços. Mais de duas horas para chegar ao Rossio pacífica e ordeiramente.
“O Montenegro vai cair
vai cair
e viva o povo unido
a resistir, a resistir”
“Olé, olé, olé, olé
uma casa para morar é que é”
Pequenada ficou em casa a estudar, preparando o seu futuro, saíram à rua os pais também em seu nome e representação. No entanto, os miúdos foram acompanhando pela TV a manifestação e telefonando. Percebemos que estavam verdadeiramente preocupados com a nossa segurança e… isto, mais do que tudo, não é normal e, só por si, é sintomático e alarmante.
Chegados a casa, somos recebidos por uma pequenada completamente consternada, revoltada e exaltada com a ação da Polícia. A razão era um vídeo, que viram durante a tarde, de um influencer, do Porto, publicado, ontem, no youtube, sobre a acampada no Porto, que a partir do minuto 39, retrata a intervenção policial.
“Que palhaçada é esta? Eles não podem fazer isto a pessoa que não estão a fazer nada a ninguém! Isto nem parece que vivemos em democracia.” foram algumas das suas observações face à repressão policial.
Acompanharam cada vez mais incrédulos, em direto, ao longo da noite, os desenvolvimentos, nas praças do Porto e de Lisboa, onde decorrem as acampadas. “Cercados? Por polícias com cães? O que é isto? Que país é este? Devem pensar que estão em França com malta a destruir tudo!”. Partilho o sentimento, a indignação e repúdio face à desproporcionalidade e ao medo que se pretende, e começa a, instaurar.
“Vergonha é trabalhar
sem ter casa para morar”
“Eu quero
paz
pão
direito à habitação”
Temos a tenda armada: esta semana em vez de falarmos das cigarras e suas característica, vamos debater os limites dos direito à manifestação e a intervenção/repressão policial. Objetivo cumprido: o governo agradece e muito, o tema principal passa para 2º plano.
A questão é quando é que se vai verdadeiramente falar e debater soluções/medidas para mitigar a crise da habitação?
Será que a tenda, à semelhança do cravo, se vai tornar num símbolo da liberdade?
“Eu quero ter
um salário
e uma casa
para viver”
“Deixem passar
quem quer
casa para morar”
Ao cair da noite, a descer do Chiado, depois de me ir aviar de livros, ouço um “Olá Stôra!”. Excelentissímo Esposo sorri .
“Ohhh, olá Beatriz!” digo, ao virar-me na direção da voz que me chama.
Conta-me que é estudante de Direito, 3º ano, esteve a fazer Erasmus em Barcelona no semestre passado, adorou a experiência, quer voltar: salários melhores e custo de vida mais baixo, mas antes pretende seguir criminologia e ingressar na PSP.
“Posso tirar uma fotografia ao seu cartaz?” pergunto às páginas tantas
“Claro que sim. A Stôra também veio à manif? ” pergunta-me espantada.
“Não vê o meu cravo ao peito?!” disse
“Ah, que bom! Pois, já me lembro a Stôra, na altura das manifestação dos professores estava sempre lá!” observa entre o espanto e a constatação.
“Então e tatuagens, quantas já temos? A conversa que foi quando queria fazer a sua 1ª tatuagem sem dizer nada à sua mãe?” pergunto curiosa.
“A Stôra lembra-se?! São 15 em todo o corpo e a mãe está bem e tranquila. Eheheheh!” responde-me cheia de contente a Beatriz, a aluna rebelde que recordo!
Conversa puxa conversa: recordações das aulas e a Beatriz faz-me um ponto de situação do que andam a fazer os restantes colegas da turma.
“Stôra, podemos tirar uma selfie? A turma vai gostar de a ver.” pergunta-me
“Vamos a isso!” respondo, sorrindo.

Regressei a casa, no início de uma noite fria, depois de um dia bonito, cheia de contente e aquecida pelo sentimento de missão cumprida e dos (re)encontros. No aconchego da minha casa, observo estupefacta, as imagens das praças acampadas. Fui-me deitar angustiada e para não presenciar o que na calada e pela calada se transformou numa noite negra!
Piercings, de cabelo cor de rosa, tatuagens, lenço na cabeça, meias rendadas: tem todos os elementos que, para muitos, definem uma cigarra. É “apenas” a Beatriz, uma jovem preocupada e a lutar pelo seu futuro!








































