O perigo de uma única história
O perigo da história única, um perigo real em várias vertentes da nossa vida! É este o tema de uma excelente Ted Talk que deixo alguns excertos mas que vale mesmo, mesmo a pena ver e refletir!
(…) eu lia livros infantis britânicos e americanos. (…) E quando comecei a escrever, por volta dos 7 anos, histórias com ilustrações em giz de cera, (…) os meus personagens eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve. Comiam maçãs. E eles falavam muito sobre o tempo, em como era maravilhoso o sol ter aparecido (Risos). Eu morava na Nigéria, nunca tinha estado fora da Nigéria. Nós não tínhamos neve, nós comíamos mangas. E nós nunca falávamos sobre o tempo porque não era necessário. (…)
Bem, as coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e eles não eram tão fáceis de encontrar quanto os livros estrangeiros, mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental na minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura.
Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.
Bem, eu amava aqueles livros americanos e britânicos que eu lia. Eles mexiam com a minha imaginação, abriam-me novos mundos. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são.
E quando eu não comia tudo no jantar, minha mãe dizia: “Termina tua comida! Não sabes que pessoas como a família do Fide não tem nada?”.
Eu sentia uma enorme pena da família do Fide. Num sábado, nós fomos visitar a aldeia do Fide e a sua mãe mostrou-nos um cesto , feito pelo seu irmão, com um padrão lindo, feito de ráfia seca. Eu fiquei atónita! Nunca tinha pensado que alguém da sua família pudesse realmente criar alguma coisa. Tudo que eu tinha ouvido sobre eles era que eram pobres, tornando-se impossível para mim vê-los como algo além de pobres. A sua pobreza era minha história única sobre eles. (…)
(…)
Anos mais tarde, pensei nisso quando deixei a Nigéria para frequentar a universidade nos Estados Unidos, tinha 19 anos, a minha colega de quarto americana ficou chocada comigo. Ela perguntou-me onde eu tinha aprendido a falar inglês tão bem e ficou confusa quando eu disse que, por acaso, a Nigéria tinha o inglês era a nossa língua oficial. Ela perguntou se podia ouvir o que ela chamou de minha “música tribal” e, consequentemente, ficou muito desapontada quando eu coloquei a música da Mariah Carey. Ela presumiu que eu não sabia como usar um fogão. O que me impressionou foi que: ela sentiu pena de mim antes mesmo de me ter visto. A sua posição para comigo, como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade. A minha colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade alguma de os africanos serem iguais a ela. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que piedade. Nenhuma possibilidade de uma conexão como humanos iguais.
Mas eu devo acrescentar que eu também sou culpada na questão da única história. Há alguns anos, eu visitei o México saindo dos EUA. O clima político nos EUA àquela época era tenso. E havia debates sobre imigração. E, como frequentemente acontece na América, imigração tornou-se sinónimo de mexicanos. Havia histórias infindáveis de mexicanos como pessoas que estavam a espoliar o sistema de saúde, passando às escondidas pela fronteira, sendo presos na fronteira.
Eu me lembro de andar no meu primeiro dia por Guadalajara, vendo as pessoas a ir trabalhar, a enrolar tortilhas no supermercado, a fumar, a rir. O meu primeiro sentimento foi surpesa seguido de vergonha. Eu percebi que eu fiquei tão imersa na cobertura da media sobre os mexicanos e eles tinham-se tornado numa coisa na minha mente: o imigrante abjeto. Eu tinha assimilado a única história sobre os mexicanos e eu não podia estar mais envergonhada de mim mesma.
É assim que se cria uma única história: mostre um povo como um objeto, como somente um obejto, repetidamente, e será no que eles se tornarão.
É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é “nkali”. É um substantivo que livremente se traduz: “ser maior do que o outro.” Como os nossos mundos económico e político, histórias também são definidas pelo princípio do “nkali”. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder.
Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com “em segundo lugar”.
Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente.
Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente.
(…)”
Chimamanda Ngozi Adichie









