Bonnie Scotland IX
Edimburgo é uma cidade encantadora, cheia de História e histórias. É muito diferente das restantes capitais europeias que já visitámos.
A “magia” que se sente por lá, nada tem a ver com o universo do Harry Potter, embora bem se esforcem para o impingir. A Victoria Street é colorida e tem uma configuração curiosa, não vejo porque foi a inspiração do Diagon Alley, como afirmam muitos fãs. É verdade que J.K.Rowling escreveu parte do 1º, e talvez do 2º, livro em vários cafés de Edimburgo, nomeadamente no The Elephant House Cafe, que agora também existe na Victoria Street. O curioso é que na altura o The Elephant House Cafe só existia na rua “ao lado”, na George IV Bridge, e foi aqui que efetivamente J.K.Rowling se dedicou à escrita. Os primeiros capítulos da Pedra Filosofal foram escritos no Porto, se calhar também podemos dizer que a escritora teve alguma inspiração lusa, já que fantasias é o que não nos falta. Os guias dizem que da Victoria Street se avista um colégio interno e que terá sido a inspiração para Hogwarts. E então? Colégios internos há muitos e para todos os gostos e carteiras. Querem lá ver que aquele é o único colégio interno ou é especial por estar em linha de vista… Não há pachorra!
Em Edimburgo, sente-se a tradição e verifica-se que ainda é o que era em algumas coisas… ou talvez porque old habits die hard.
Desde 1861, às 13h, é disparado um tiro de canhão, no Castelo de Edimburgo, todos os dias exceto domingos, dia de Natal e Sexta Feira Santa. Este tiro, na época, era para os navios que passavam na região sincronizarem os relógios (e os moradores). Anteriormente, a técnica utilizada era a “bola do tempo”, instalada num dos pontos mais altos da cidade, Calton Hill, no monumento Nelson. Por volta das 12h55, a bola do tempo começava a subir os mastros, às 13h00, caía. Os marinheiros observavam, com telescópios, o movimento da bola. Na altura, era tecnologia de ponta. Problema: o frequente nevoeiro marítimo, o famoso haar, impossibilitava a visualização da bola. Foi assim que surgiu a solução acústica – o tiro. Atualmente, continuam a ocorrer, em simultâneo, a bola do tempo cai em Calton Hill e o tiro é disparado no Castelo, para delícia dos turistas e susto dos mais distraídos.
Em Calton Hill, podemos encontrar o Monumento Nacional da Escócia que originalmente era para ser uma réplica, em tamanho real, do Parthenon. É imponente, mas estranho, certo? São apenas 12 colunas alinhadas e pouco mais, de Parthenon tem pouco, quanto muito, talvez um Templo de Diana, mais bem conservado. A razão para não ser uma réplica do Parthenon é simples, e muito conhecida dos portugueses, acabou-se o dinheiro! Os nativos, com o seu humor imbatível, apelidam-no de a vergonha de Edimburgo, a parvoíce/desonra da Escócia ou o orgulho e a pobreza da Escócia.

Calton Hill é um local onde se tem uma vista fabulosa e 360º sobre a cidade de Edimburgo e arredores. Dizem que é o melhor local para observar o pôr do sol, e no verão, dependendo das condições meteorológicas, há por lá artistas a tocar e a cantar.
Há, no entanto, um edifício que se destaca no horizonte, por ser tão diferente e inusitado: faz lembrar um emoji 💩. Os nativos chamam-lhe o golden turd. Diz que é um hotel de 5 estrelas e que tem um centro comercial. Não sei se a sua forma será grande publicidade, o segredo e a diferença devem estar no golden!
Há um relógio em Edimburgo que está sempre 3 minutos adiantado, só indica a hora correta na passagem de ano (Hogmanay) para a contagem decrescente. É assim há mais de um século, desde a inauguração do North British Station Hotel, que a sua torre (de 58 metros) aloja o relógio mais apressado da Escócia, que é visível de vários pontos da cidade. Este hotel foi construído pela companhia ferroviária – a North British Railway Company – e situa-se junto à estação de comboios de Edimburgo, o objetivo dos 3 minutos é garantir que os passageiros não perdem o comboio, uma espécie de margem de manobra para garantir a pontualidade (dos passageiros e dos comboios?).
O hotel já não pertence à companhia ferroviária, chama-se agora Balmoral Hotel, mas mantém-se a tradição dos 3 minutos de “avanço” no seu relógio. A suite 552, deste hotel de luxo, atrai os fãs de Harry Potter, pois foi lá que J.K. Rowling terminou de escrever, o sétimo e último livro da saga, “Os talismãs da morte”. Diz-se que a rainha mãe era uma hóspede recorrente do hotel, bem como outros famosos.
Ao que parece, o nome da estação de comboios de Edimburgo é muito original, é a única que tem o nome de um romance – “Waverley”. Este romance é de um dos maior escritores, poetas e historiadores escoceses – Walter Scott. À saída da estação Waverley, há uma grande torre gótica em sua homenagem – Scott Monument – parece que é a maior do mundo construído em honra de um escritor.
Junto ao Scott Monument, há umas escadas para os Princes Street Gardens – um jardim muito bonito e convidativo (onde piquenicámos), que, em tempos foi um lago artificial, pantanoso e muito poluído – um verdadeiro problema de saúde pública – e com uma história/lenda sombria.
No século XV, como manobra defensiva, o rei escocês mandou inundar o vale onde agora são os jardins, criando um fosso, que se passou a chamar Nor Loch.
A pressão demográfica e a falta de espaço (“dentro de muralhas”) foi o motivo para o surgimento da construção em altura – os primeiros arranha céus residenciais do mundo ocidental, no final da época medieval, será?. Estes altos edifícios residenciais, com fundações antigas, eram prodígios de engenharia, construídos de pedra e madeira, colados uns aos outros, dando origem a ruelas sombrias, os famosos closes. Aos edifícios já existentes com 2 ou 3 andares, foram sendo acrescentados novos andares, chegavam a ter 10, 12, 14. Quanto mais alto, mais escadas era necessário subir, mais pequenas eram as casas e maior era a oscilação com o vento. Resumindo, quanto mais alta era a casa, mais pobre eram os seus residentes.
Sem saneamento, todos os detritos produzidos na cidade eram deitado para a rua, escorriam pela colina e depositavam-se no fétido Nor Loch – um esgoto a céu aberto. É esta a origem da alcunha de Edimburgo – Old Reekie – Velha mal cheirosa.
“Gardy Loo!” era o grito dado pelos habitantes dos “arranha céus”, para avisar os transeuntes, quando atiravam os dejetos e lixo pela janela. A expressão original vem do francês gardez l’eau, o nosso “Lá vai água”. Acontece que quando os transeuntes estavam podres de bêbedos, cambaleando pelas ruelas escuras, ouviam o grito e vagarosamente viravam a cara para cima à procura da origem do som e…Pumba, caía-lhes um monte de esterco na cara. Segundo os nativos, esta é a origem da expressão Shit faced. Mito ou realidade? Apostaria numa mistura dos dois.
Diz-se que, entre os séculos XV e XVII, os acusados de bruxaria (maioria mulheres), eram atados com cordas e lançados ao Nor Loch: se se afundassem eram inocentes, mas morriam afogados; se flutuassem eram culpados e enforcados, de seguida. Raras, foram as mulheres que sobreviveram a uma acusação de bruxaria. Win-win situation para o acusador.
A Escócia, tendo em conta a sua população, ao que consta, foi dos sítios mais letais na perseguição às bruxas. Já Portugal terá sido dos países com menor número de execuções de bruxas, parece que a inquisição tuga estava mais centrada na perseguição aos judeus, prioridades ($$$).
No chão, junto à catedral de St Giles, na Royal Mile, há um coração desenhado em empedrado, onde seguindo a tradição, os nativos cuspem há séculos. Este coração é conhecido como Heart of Midlothian. O coração situa-se onde, durante 400 anos, foi a entrada principal de Old Tolbooth , uma temida prisão, tribunal e local de tortura, desmantelada, no início do século XIX. O ato de cuspir na porta da prisão significava desprezo pelo sítio e solidariedade com os presos. Hoje em dia, este coração e as suas cores são o emblema do clube de futebol da cidade de Edimburgo. A cuspidela assume para os fãs e turista um desejo de boa sorte, para os rivais do clube precisamente o contrário.

No século XVIII, décadas depois da união dos reinos da Inglaterra e da Escócia (1707) e com a extinção do parlamento escocês, consta que muitas famílias abastadas escocesas (nobres e políticos) mudaram-se para Londres, onde se passou a concentrar o poder político e económico do reino.
A elite que permaneceu em Edimburgo, sem o perigo dos ataques ingleses, talvez para fugir da sobrelotada e suja Old Town, decidiu expandir a cidade para norte, construindo a bonita, espaçosa e elegante New Town, à imagem e semelhança dos bairros londrinos mais conceituados e luxuosos. Para ligar a Old Town e a New Town, foi necessário drenar o Nor Loch, aproveitando para eliminar um perigo para a saúde pública. Assim nasce a ideia de criar e construir, em seu lugar, os Princes Street Gardens – inaugurados em 1820, como jardins privados dos residentes, e abertos ao público em 1876.
Enquanto passeávamos nos Princes Street Gardens, fui surpreendida ao ouvir os primeiros acordes da música mais conhecida da banda escocesa The Proclaimers. Cheia de contente, comecei a trautear e a sorrir, lembrando-me da cena com esta música há três verões atrás.
Excelentíssimo Esposo e pequeno do meio entreolharam-se, como quem diz o que é que lhe está a dar.
“Não se lembram, no hostel em Copenhaga, na noite de Karaoke, em que íamos adormecendo com os participantes nórdicos e as músicas deprimentes que escolhiam?
O norueguês e a filha era só músicas do festival da canção e os outros eram pouco melhor! Até que chegaram nuestros hermanos, malta jovem, mal falavam inglês, cantaram e dançaram uma Macarena todos animados e descoordenados e pediram a colaboração do público quando se esqueciam ou trocavam a letra. Desapareceram, para ir buscar bebidas… e voltarem ao palco para o ex-libris da noite com o seu muito próprio “I´m Gonna Be (500 miles)”.
Os nórdicos, alemães e holandeses estavam abismados com o desassombro e o barulho/animação dos espanhóis. Acho que temeram não sobreviver com a sua sanidade intacta… já nós, nós finalmente sentimo-nos em casa, do género – estes são dos nossos!
É muito fácil um tuga sentir-se um troll no meio de pessoas tão sossegadas e silenciosas. Nada contra, nós é que somos a antítese disto” decidi esclarecer os homens da casa.
“Essa noite foi realmente épica e esses espanhóis eram dos bons. Muito fortes! O que nos rimos… a observar o espanto dos nórdicos e a vibrar com e como os espanhóis!” diz Excelentíssimo Esposo.
“Ohhh, já sei. Aquilo estava a ser uma seca e foi para o quarto, mas lembro-me de vocês estarem a contar essa aventura”. diz pensativo pequeno do meio.
Não sei se algum daqueles nórdico voltou a ver um karaoke da mesma maneira. Eu, naquela noite, pensei “Venham os espanhóis… todos os dias!”. Sempre que ouço esta música é este episódio que me vem à mente.
Na New Town, existem jardins privados no meio de pracetas. Estes jardins privados, visíveis da rua, são encantadores, têm gradeamento e um portão fechados a sete chaves, é como se fossem o quintal dos prédios circundantes. Para além de espreitar, dá vontade de entrar, sentar e só estar e apreciar a paz no meio do caos. Têm árvores centenárias, bancos de jardim, baloiços, luzes e decorações catita, mesas e cadeiras, tudo muito cuidado e com gosto. A New Town está repleta de ruas encantadoras, grandes avenidas e bairros cheios de charme e requinte. Uma arquitetura e estilo muito distinto da Old Town. Distinto: palavra chave.
Depois de uma incursão na New Town, regressamos à Old Town, onde está a estátua mais famosa e acarinhada da cidade – um cão – o Greyfriars Bobby. A história do Bobby entra na categoria de história e/ou lenda fofinha e que aquece a alma e o coração. No século XIX, John Gray era um polícia que trabalhava como guarda noturno e tinha no seu cão Bobby, um pequeno skye terrier, um companheiro inseparável. Quando John faleceu de tuberculose, segundo os nativos, Bobby montou guarda junto à campa do seu dono, durante os 14 anos que lhe sobreviveu, no cemitério Greyfriars Kirkyard. Este amor incondicional e leal, parece ter cativado os moradores e o jardineiro do cemitério, que quiseram enterrar Bobby junto de John, mas não era possível por ser solo sagrado. A solução foi enterrar Bobby à entrada do cemitério, onde agora as pessoas depositam, junto da sua lápide, pequenos pauzinhos em sua homenagem (será que também gritam “Fetch!” a seguir). Uns e outros dizem que J.K. Rowling se terá inspirado nos nomes inscritos nas lápides deste cemitério para nomear algumas personagens da sua masterpiece. Pode ter sido neste cemitério como noutro qualquer, diria eu…
Uma coisa curiosa em Edimburgo é a forma como as pessoas naturalmente passeiam nos cemitérios relvados, no meio da cidade, se sentam nos bancos de jardim e conversam ou contemplam, e há até quem faça piqueniques. Sente-se uma certa paz e tranquilidade, uma relação muito diferente da que nós temos com os nossos cemitérios. Gostei da “leveza”, muito necessária num lugar que deve ser acolhedor para quem permanece e para quem o visita.
Os escoceses afirmam que são os inventores do mundo moderno e uma pessoa ri-se com o humor/soberba deste povo… mas um visita ao Museu Nacional da Escócia, elucida-nos que efetivamente, podem ter alguma razão. Bell – inventor do telefone – era escocês; o Fleming – pai da penicilina – era escocês; a máquina a vapor do escocês James Watt, os pneus com câmara pneumática do escocês John Dunlop, o clorofórmio, o eletromagnetismo do Maxwell, o tecido impermeável, o caleidoscópio, a seringa hipodérmica, a Dolly – o 1º mamífero a ser clonado a partir de uma célula adulta – são apenas alguns exemplos de invenções de escoceses ou que os escoceses reclamam como suas. Mentes brilhantes não lhes faltaram.
Mentes iluminadas também têm várias. O pai da economia moderna, o filósofo e economista, Adam Smith também é escocês e foi uma das principais figuras da era de ouro do iluminismo escocês, período em que Edimburgo era denominada como “Atenas do Norte”. É também nesta altura que surge a ideia peregrina de instalar uma réplica do Parthenon em Calton Hill. Ainda bem que se acabou o dinheiro…
Last, but not the least, façam atenção, o golfe de 18 buracos tem origem na Escócia. “E esta, hein?” Faz sentido, chove a potes, campos verdes a perder de vista. Teremos sempre o nosso Algarve e os seus campos de golfe, onde raramente chove, a água escasseia, mas abundam os €€ e interesses de estrangeiros. “Ah pois é ZéZé!” .
“A Escócia tem porras” como diria o meu tio-avô.
Edimburgo tem um je ne sais quoi que me encanta… e mais uma vez nada tem a ver com o pequeno feiticeiro mais conhecido do mundo!


















