Falsas histórias verdadeiras
A sua mãe escrevia pequenos versos e Manuel António Pina, desde pequeno, escrevia os seus sentimentos, histórias e dúvidas, em versos, nunca em prosa. “Falsas Histórias Verdadeiras” – baseada em poemas, crónicas, histórias e guiões de teatro de Manuel António Pina – uma combinação perfeita entre teatro, música e dança contemporânea – começa com um deste seus versos que fez quando ouviu a história do milagre das rosas.
É deliciosa a interpretação de um diálogo que Manuel António Pina teve com a sua filha (nos seus imensos 3 anos) e que relata numa das suas crónicas.
“Para que serve a barriga?” terá perguntado à sua filha
“Para coçar.” responde-lhe ela
“E para que servem as unhas?” questiona-a novamente
“Para coçar a barriga” responde-lhe a filha
A leveza da lógica simples e imbatível das crianças que tanto nos espanta e apreciamos, mas que deixamos de usar e replicar em adultos, quando tudo se torna complexo e as explicações se multiplicam.

“Parece que crescemos mas não.
Somos sempre do mesmo tamanho.
as coisas que à volta estão
é que mudam de tamanho.Parece que crescemos mas não crescemos.
São as coisas grandes que há,
o amor que há, a alegria que há,
que estão a ficar mais pequenos.Ficam de nós distantes
que às vezes já mal os vemos.
Por isso parece que crescemos
e que somos maiores que dantes.Mas somos sempre como dantes.
Talvez até mais pequenos
quando o amor e o resto estão tão distantes
que nem vemos com estão distantes.Então julgamos que somos grandes.
e já nem isso compreendemos.”
A canção dos adultos de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça
Brincando com as palavras, mas falando de assuntos sérios, Manuel António Pina leva-nos a olhar para dentro, para os silêncios, para as memórias entre o espanto, a consternação e a constatação, um espelho ou reflexo.
“A vida é estarmos sós.
a gente diz que a vida dói,
a vida não dói –
quem dói somos nós”
Manuel António Pina (1966)
Segundo Manuel António Pina, “a palavra “criar”, pelo menos em termos fonéticos, tem muito que ver com a criança; criança também é aquele que está em criação”
“O ar não se vê
não se sente não se ouve
mas quanto mais se sobe
mais não sei quê.E quando se sobe
sem sair do chão?
Quando a cabeça se move
e o resto do corpo não?A cabeça subindo
pelo lado de dentro
e o teu pensamento
tão limpo e tão lindo.Tão maravilhoso
como o de um matemático,
tão rigoroso
como o de um mágico.Embora às vezes não pareça,
embora te digam que não,
tens um campo de aviação
dentro da tua cabeça.”
O aviador interior de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça
Dadas as dificuldades financeiras, na casa dos seus pais, havia poucos livros, mas aprendeu a ler cedo com os jornais que o seu pai trazia da repartição de finanças onde trabalhava.
“Era uma vez um menino
que não queria comer sopa de letras.
Podiam lá estar coisas bonitas escritas,
mas para ele era tudo tretas…
Podia lá estar escrito COMER,
podia lá estar GOIABADA,
Como ele não sabia ler,
a sopa não lhe sabia a nada.
Tinha no prato uma FLOR,
um NAVIO na colher,
comia coisas lindíssimas sem saber,
mas ele queria lá sabor!
Até que um amigo com todas as letras
lhe ensinou a soletrar a sopa.
E ele passou a ler a sopa toda.
E até o peixe, a carne, a sobremesa, etc.”
Sopa de Letras de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça
Apenas em jovem adulto, descobriu o que viria a tornar-se um dos seus livros de referência – os livros do Winnie The Pooh, de Milne. Manuel António Pina admirava a espontaneidade, as aventuras e a coragem do Pooh, sendo ele um ursinho muito medroso e pouco prudente, mas que tinha uma relação com o mundo e consigo mesmo pautada pela despreocupação/descontração e a bondade. Manuel António Pina dizia que a bondade era a grande qualidade humana, razão pela qual, em criança, chegou a desejar ser santo. Para Manuela António Pina, o Winnie The Pooh representa “uma imagem de um universo perdido, de um mito, de um passado dourado – que nunca existiu. É uma espécie de reencontro com a infância”
“A Ana quer
nunca ter saído
da barriga da mãe.
Cá fora está-se bem
mas na barriga também
era divertido.O coração ali à mão,
os pulmões ali ao pé,
ver como a mãe é
do lado que não se vê.
O que a Ana mais quer ser
quando for grande e crescer
é ser outra vez pequena:não ter nada que fazer
senão ser pequena e crescer
e de vez em quando nascer
e voltar a desnascer.”
A Ana Quer de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça
A infância – o deslumbre, o poder da imaginação e a liberdade da infância em que mundo pode estar e ser do avesso ou onde podemos viver de pernas para o ar ou na posição oblíqua com a inclinação que desejarmos. O espanto!

“Basta imaginar,um pássaro para o aprisionar,e depois imaginar o ar para o libertare imaginar asas para ele voare imaginar uma canção para ele cantar.”
Basta imaginar de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça
As possibilidades, o otimismo, as esperanças e as experiências que dominam e habitam no mundo das crianças.
” Virar o mundo de dentro para fora
e ver se o mundo assim melhora
e se nem assim o mundo melhorar
voltá-lo a virar, a virar, a virarTantas voltas o mundo há de dar
que alguma coisa se há de aproveitar
E se o outro lado pode ser pior
também pode muito bem ser melhor”
Manuel António Pina in O maior intelectual do mundo
Gostava muito de gatos e mantinha com eles uma relação um pouco melancólica “quem me dera ter a tua inconsciência, e a consciência dela” – Fernando Pessoa. Era dono de vários gatos (dizia que em diferentes regimes: meia pensão ou pensão completa) e escreveu vários poemas e crónicas sobre estes bichanos.
“Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagemUm deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos
e de longe nos observa
(um deus que nos hospeda
e de longe nos observa
um deus que nos hospeda)Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão (e a ilusão) de que o tocamos
(e a ilusão e a ilusão de que o tocamos)”
Manuel António Pina
As suas crónicas eram sempre poéticas mas também versavam sobre a atualidade e o estado do país. “O país da falta de provas” assim se intitulava uma das suas crónicas publicadas, no JN, em 1988, e que foi a inspiração para a uma das músicas da peça:
“Comemos e calamos
Calamos e andamos
Andamos e choramosVivemos no país da falta de provas
Vivemos no país da impunidade
O braço da justiça é curto e não alcança
E o chico esperto sabe e nunca pára a dançaE mesmo quando não faltam pormenores
De datas e locais, tantos pormenores
Nas rádios e jornais, tantos pormenores
As provas nunca chegam, são sempre menoresArquive-se o assunto por falta de provas
Arquive-se o país e fiquem só trovas
Que falem de um país onde valia tudo
E muito esperto andava com pés de veludoE não cai
Nem mesmo quando as provas são provas dessas provas
O esperto dança e não cai
Nem mesmo quando as provas são provas dessas provas
O esperto dança e não caiComemos e calamos
Calamos e andamos
Andamos e choramos”
“Falsas Histórias Verdadeiras” é uma viagem entre poemas musicados, histórias, peças e citações do universo de Manuel António Pina, mas sorri ao ouvir a letra desta música, pois não tive qualquer dúvida que tinha sido escrita pela Garota Não e o Manual de Leitura da peça confirmou-o (e que belos textos contém). Curioso que a crónica de 1988, que inspirou a letra, podia ter sido escrita nos dias de hoje exatamente com o mesmo título, mas com outras personagens principais.
A obra de Manuel António Pina está repleta de jogos de palavras, trocadilhos, uma espécie de lengalenga, humor, ironia, reflexões, questionamentos pragmáticos e filosóficos que mais parecem destinados a adultos do que a crianças/jovens.
A ideia do reencontro, do regresso a casa, de um lugar onde possamos repousar a cabeça, como alusão à infância e à morte, são centrais em toda a sua obra e na peça “Falsas histórias verdadeiras”.
“Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.”
Manuel António Pina in “Como se desenha uma casa”
Somos os livros que lemos, mas também os que não lemos porque a vida acontece nos entre meios e nem todo o saber (ser) está nos livros, a vida vive-se vivendo, porque como dizia Manuel António Pina “A gramática não chega para dizer tudo”.

Os seus amigos dizem que tinha a caraterística de ser pouco pontual, mas quando chegava a primeira coisa que dizia era “Nem imaginas o que me aconteceu…” e é, precisamente, com esta frase que termina a peça “Falsas Histórias verdadeiras”.
Se conseguirem vão ver “Falsas Histórias verdadeiras” e mergulhem de alma e coração neste universo surpreendente do Manuel António Pina porque, com o próprio dizia, “a Historia da Literatura está cheia de livros para crianças lidos por adultos”.
Já tinha lido várias crónicas e poemas de Manuel António Pina, aliás li vários poemas dele aos miúdos quando eram pequenos, mas esta peça é uma viagem surpreendentemente MARAVILHOSA, é arte em estado puro. Ide ver!
OS MEUS MORTOS (crónica de Manuel António Pina in Visão, 14/06/2001)
“Durante grande parte da nossa vida, a morte é uma coisa alheia e distante que só vaga e incertamente nos diz respeito. Até que, um dia, damos subitamente com ela à porta da nossa própria casa e descobrimos então que sempre ali esteve.
Quando somos jovens e morrem os avós, ou os pais, ou os amigos dos pais, não é ainda a morte. Mesmo se um amigo morre, morre por acidente, morre por acaso, morre antes do tempo de morrer. A morte apenas começa a ter um rosto, o nosso rosto, quando, à volta, os amigos morrem tão-só de morrer e os motivos por que morrem são uma explicação, não uma razão.
A mãe de minha mulher costumava dizer: «Os meus mortos…», e eu não compreendia. Hoje, porém, também eu tenho mortos. Quando o Chico morreu escrevi um poema a que pus o título de «O mundo sem o Chico», porque, descobri, a sua morte tinha levado o mundo consigo e o que me restava era um outro mundo, desconhecido e desabrigado, onde penosamente aprendia a viver outra vida, a minha vida. Depois disso, muitos mais mundos se foram desfazendo diante de mim e, de cada vez, fiquei mais só do lado de cá de qualquer coisa.
Antes de morrer com 16 facadas, numa longínqua auto-estrada da Turquia, Sérgio escreveu-me uma última vez. Uma carta trivial, dizendo coisas triviais sobre coisas triviais, como se não tivesse ainda morrido. A notícia da sua morte chegara, no entanto, primeiro do que a carta. Que podia eu fazer com ela, com a carta, com tanto peso, com tanta desmesura? Também Fernando me escreveu antes de se enforcar. Mandou-me um cheque. Emprestara-lhe em tempos dinheiro e ele esquecera-se de que já mo havia pago e pagava-mo de novo. Que podia eu fazer com um dinheiro tão insustentável como aquele?
E com os seus nomes, que poderei fazer agora com os seus nomes? E que outro nome terão agora o Fernando, o Sérgio, o Chico, o Assis, o Arnaldo, a Marcela, o Luís, o Manuel Hermínio e os outros? Abro a minha agenda telefónica e estão ainda todos paradamente lá, os nomes que um dia tiveram. Que poderei fazer com eles? Riscá-los? Apagá-los? São agora aparentemente inúteis, esses nomes e esses números. E, contudo, ali permanecem, alguns há vários anos. Porque se trata, cada um, de uma questão comigo mesmo, uma questão insolúvel, ainda não encerrada. Todos os anos copio outra vez os seus nomes. Porque ainda não me conformei.
Há de facto na morte algo de injusto e de inaceitável, e as nossas lágrimas são, acho eu, tanto de revolta quanto de dor. Assisti outro dia ao enterro do Manuel Hermínio. Meteram-no num buraco fundo e imenso e, enquanto o Sol declinava lentamente atrás dos pinheiros, três homens despejaram sobre ele terra húmida e pedras. Como poderia conformar-me?
Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço.”

















Sorri ao ver a mensagem da filha da minha amiga, revi-me bem no sentimento. A saudades da comida, dos cheiros, do espaço, dos nossos, da terra…