Bonnie Scotland – VI
O número de cones de sinalização, na Escócia, é impressionante. Eles usam e abusam, tenho a sensação que os encontrámos por todo o lado amiúde. Para a mesma situação, usam 20 vezes mais cones de sinalização do que usaríamos em Portugal. Atenção que isto não é uma crítica, é apenas uma constatação colorida e curiosa.
Talvez seja essa uma das razões porque, em Glasgow, nos anos 80, começaram a aparecer cones de sinalização a decorar a estátua do Duque de Wellington, situada em frente à Galeria de Arte Moderna, numa das principais praças da cidade. Assim que os funcionários da câmara municipal de Glasgow retiravam o(s) cone(s) da estátua, nos dias seguintes, novos cones apareciam a (re)decorá-la.
Ao longo dos anos, a câmara municipal de Glasgow, para demover o que se tornou num “hábito”, ponderou: aumentar a base e a altura da estátua, colocar câmaras de vigilância, aplicar multas, tudo medidas rejeitadas, algumas com base em petições da população. Nunca ninguém foi apanhado com a boca na botija, ou melhor com a mão no cone e na estátua, pelas autoridades. A “arte” de colocar adornos na estátua foi e é um ato realizado na calada da noite e disfarçadamente.
Resumindo, a estátua Duque de Wellington e os seus adornos tornam-se um símbolo de humor das gentes de Glasgow, a imagem de marca da própria cidade e transformaram a estátua numa verdadeira e famosa atração turística.
Os trajes da estátua do duque vão variando, adequando-se aos momentos que se vivem no mundo e na Escócia: a bandeira da Ucrânia (no início da invasão russa), a bandeira da União Europeia (na altura do referendo sobre o Brexit e quando este entrou em vigor), uma máscara (pandemia covid-19), o símbolo black lives matter (assinalando o início do movimento ou a razão), a bandeira da Escócia e um Yes (na altura do referendo sobre a independência da Escócia), bandeiras ou trajes de outros países (equipas que apoiam no Mundial de futebol, regra geral todas as que jogaram contra a Inglaterra), etc.
Para Banksy, o famoso artista de street art, a estátua do Duque com os seus adornos é a sua peça favorita de arte no Reino Unido. Esta é uma das razões referidas por Banksy para realizar, ao fim de 14 anos, a sua exposição – “Cut & Run”, na Galeria de Arte Moderna, que se situa na praça que alberga a estátua do Duque. Evidência: no banner, no exterior da Galeria, a letra A. no nome de Bansky, foi substituído por um desenho de um cone de sinalização. O facto dos autores das milhares de “vestes”da estátua permanecerem anónimos, bem como as suas mensagens e simbolismo, é algo que também caracteriza a forma de estar e ser de Banksy (como artista) e com a qual se deve ter identificado, digo eu.

A moda de decorar estátuas com cones de sinalização espalhou-se a outras cidades da Escócia, nomeadamente a Edimburgo.
A Escócia não era selecionada há 28 anos para o Munidal e os adeptos da seleção (conhecidos como Tartan Army) invadiram e espalharam cones de sinalização (charme, música – vale a pena ouvir, boa disposição – “No Scotland, no party”, etc.) por várias cidades dos EUA, e parecem não ter deixado nenhuma cidade indiferente, com a sua energia e espírito. Parecem ter conquistado, em particular Boston , tendo sido assinado, no final do mundial, um acordo com a cidade de Glasgow para se tornarem cidades germinadas, assinalado com a entrega de um enorme cone de sinalização à Mayor de Boston que dizia “No Boston, no party”… e,no dia seguinte, lá estava um cone a dizer Boston na estátua do duque, em Glasgow. Quando os americanos lhes perguntam porque são tão diferentes os adeptos da Escócia respondem com naturalidade “Não há mais ninguém que venha ao mundial de kilt”, não há como não apreciar este ritmo imbatível.

Ah, há quem diga que este hábito de usar cones como peças de adorno de estátuas começou e continua a ser o passatempo preferido dos transeuntes depois de uma noite nos copos.
Aprecio mesmo o sentido do humor e a simpatia deste povo… e a habilidade e o equilibrismo (o que com os copos é capaz de ser, ou de rapidamente se transformar, um sério problema)!
Nunca mais vou olhar para uma cone de sinalização da mesma forma (e dou comigo à procura deles por cá, são bem mais difíceis de avistar e não têm definitivamente o mesmo chamamento eheheheh).

Nota: a praça George, onde está a famosa estátua, estava em obras e vedada ao público, foi “inaugurada” 2 semanas depois do nosso regresso. O que não faltam são razões para regressar à Escócia, não sendo esta a melhor delas, é uma possível e qualquer uma me parece bem!!!














Sorri ao ver a mensagem da filha da minha amiga, revi-me bem no sentimento. A saudades da comida, dos cheiros, do espaço, dos nossos, da terra…