Furacão

Queria um boneco, foi-lhe negado, e as lágrimas começaram a escorrer-lhe pela cara enquanto argumentava sem parar.
Pimpolha mais pequena sentenciou de rajada “Eu quero e vocês vão-me comprar!”.
Mudou de estratégia, tentou o livro, esperta, acolhe sempre mais simpatia e aumenta a probabilidade de ter sorte, face ao não recebido.
Pensou se o livro não resultou, perdido por cem perdido por mil, chorou ainda com mais vontade, atirou a matar argumentos, com especial ênfase no “nunca me compram nada e aos manos compram tudo” e apostou nas plasticinas.
A resposta não foi do seu agrado.
Com os olhos inchado de tanto chorar e o desespero de pimpolha mais nova aumentava à medida que nos observava indiferentes face ao seu bonito espetáculo.
Em desespero de causa, já na fila do supermercado para pagar, remata “Olha que eu fujo de casa, estás a ouvir? Aí, fujo, fujo se não me compras o que eu quero! Já te disse que não quero nem vou comer nada do que tens no carrinho, ouviste? Vou fugir de casa. Não gostas de mim.” diz-me a rapariga.
“Eh pá, escolhestes mal o dia, diz que vem aí o Leslie, o furacão! É capaz de não ser boa ideia, ainda és assoprada!!” digo-lhe descontraidamente.
A senhora da caixa ri-se.
“GRRRRRRRRRRRR…! Não gosta nada de ti!” exclama com um ar desolado, assumindo a derrota.
“Pelo menos, a senhora do supermercado riu-se, achou aquilo divertido. Fazer rir alguém é sempre bom e olha que não é para qualquer um!” não resisti a provocá-la no regresso a casa.
“Aí, cala-te! Deixa-me! Já te disse que não gosto mesmo nada de ti, não já?” diz-me ela raivosa.
Foi um dia calmo, apesar do furacão da casa, o mais intenso, e o que veio dos EUA.

Chuva – em perspetiva!

“Sou feito da mesma massa daqueles nevoeiros, daqueles dilúvios, daqueles ciclones – e se a história da minha infância é também o triste conto dos piqueniques cancelados à última hora, das tardes de praia que não ocorreram, dos sábados passados a ver televisão porque no dia almejado acabou por chover, o facto é que, embora sentido-se miserável, nunca um só de nós se sentiu defraudado. O Instituto de Metereologia e Geofísica nunca se enganou – e, se se enganou, foi pinTando-nos um cenário pior do aquele que veio a verificar-se.
Os planos que se fazem nos Açores são sempre à condição. Partimos do princípio de que vai chover – e depois talvez tenhamos sorte. (…) Dias em que fez sol – eis a notícia. Nem sequer sei, aliás por que diabo chamou Nemésio Mau Tempo no Canal à saga dos Clark Dulmo. História, nos Açores, é quando faz sol.”

Joel Neto in “Banda sonora para um regresso a casa”

Não digam asneiras

“Nos últimos dias, tenho descoberto que para muitos homens e mulheres só a violação ( e de preferência daquela que deixa a mulher escavacada, que é para não haver dúvidas) é que merece ser discutida. Uma pessoa ser apalpada, perseguida, ouvir bocas porcas, ser assediada por alguém hierarquicamente superior, ser trancada numa sala, nem sequer é assunto, pois não havendo consumação, pode ser apenas fruto da imaginação de uma gaja mal comida. Uma pessoa ter medo de andar sozinha na rua, andar com as chaves do carro ou de casa na mão para ser mais rápido, decorar matriculas de táxis, fingir que fala ao telemóvel, fingir-se de burra, que não percebeu a boca ou avanço, pensar duas ( ou três ou quatro) no que deve ou não deve vestir, aprender a desviar-se quando alguém a aperta no autocarro, ou ainda ser ameaçada se devolve a apalpadela com um encontrão, isso é tudo neurose. Sim, daquela neurose que passa com uma bem dada.
Detesto a apologia da “coitadinha” que anda para aí misturada na luta pela igualdade, e dá-me nervos a confusão puritana que se faz entre assédio e sedução, mas, por favor, se não têm inteligência para perceber que o quanto estas coisas podem e limitam a vida de uma pessoa, o quanto isto marca, amargura, dói, façam um favor: estejam calados. Não custa nada. Aliás, se fossem mulheres (e infelizmente muitas destas almas “iluminadas” são mulheres) sabiam como o fazer com facilidade,que é coisa que uma gaja aprende desde pequenina: a ficar calada. Afinal, “faz parte”, pois uma mulher decente e bem comida “não tem ouvidos” e “uma senhora não anda a falar para aí das vergonhas que lhe acontecem”. 
Por isso façam um favor à humanidade e não digam asneiras.”
Texto de Cristina Nobre Soares publicado no seu blogue Em linha reta 

Remédio santo?!

“Mãe, dói-me a barriga! Põe a música do Toy!” diz-me pimpolha mais pequena.
Até eu fiquei com dor de barriga… de me rir face a este remédio “santo”!
Não sei se cura dores de barriga pois esta desapareceu, rapidamente, sem termos de recorrer a esse grande hit das festas populares deste verão.
No dia seguinte, cantava em brasileiro “Eu tou bem! Tu tb está bem! Todo o mundo aqui tá bem! e dizia-me  pimpolha mais pequena dançando “Procura lá aí esta música que as minhas amigas me ensinaram na escola”.
Ignorei e temi pelos gostos musicais da pequenada da casa.
Comentei o assunto com uma colega que tem filhos entre os 6 e os 17 anos e me disse, entre risos, “Habitua-te! Esse é o tipo de música que passa no nossos carro nas viagens escola-casa-escola, todos já sabemos as letras de cor!” e inumerou e citou a letra de várias das músicas da moda e eu só pensei MEDO, muito medo… ainda bem que vamos a pé para a escola :)!

 

Certeira!

“Então como correu a apresentação com o Diretor de Turma e o Diretor da escola?” pergunto a pimpolha mais velha no regresso do seu 1º dia aulas.
“Bem! Tudo normal… Já temos o cartão da escola. ” diz-me ela para despachar.
“Então e o que disse o Senhor Diretor?” insisti.
“Muita coisa! Fez-me lembrar as conversas do avô M.!” diz satisfeita.
Sorri-me, contemplando aquela observação feita com a leveza de uma primeira impressão/contacto mas tão certeira: o avô M. e Senhor Diretor têm ambos a mesma idade, os dois professores/colegas mas, essencialmente, são ambos filósofos por natureza e com gosto!

Big Bang 2018

A não perder dias 19 e 20 de outubro, o Big Bang, no CCB, Festival de Música e Aventura para Jovens Públicos.
Todos os anos é diferente mas nunca desilude: enche e conforta a alma, o coração e todos os outros sentidos! Relembra-nos que a vida pode ser/é muito mais que escola, trabalho, o ramram dos costume, as miudezas e minudências  do dia a dia, é preciso parar (o tempo),  contemplar, admirar, ouvir e deixarmo-nos surpreender pelas maravilhas dos artistas!
Recomendamos vivamente

A infidelidade feminina é mais grave e definitiva que a masculina?!

“(…) Um casamento pode sobreviver a um homem infiel e pode sobreviver a uma mulher infiel também. Um casamento são duas pessoas que estão juntas – e, felizmente, as razões por que as pessoas estão juntas não se reduzem ao sentimento. Coisa diferente, porém, é o amor propriamente dito. Um homem pode ser infiel à sua mulher e, no entanto, amá-la eterna e incondicionalmente. Uma mulher infiel simplesmente já não ama o seu marido. Pode gostar dele. Pode ter pena dele. Pode estimar a vida que os dois têm juntos: as rotinas, os objectos, os lugares, os cheiros, as pessoas. Mas pode viver sem eles também – e sabe-o. Porque, sendo tão capaz como o homem de ausentar-se do seu corpo, não será capaz nunca de ausentar-se das suas emoções. E porque, se o fizer, já não encontrará o caminho de regresso.
A infidelidade femina é mais grave e sintomática porque a mulher tem mais inteligência emocional do que o homem. Porque tem autodomínio, talvez – mas sobretudo porque tem outra capacidade de ver a big picture e de agir em prol da sua preservação. As mulheres são mais calculistas. Os homens mais românticos. (…) O que sei é que: se os homens lidam muito pior com a traição, há uma razão muito clara para isso. Os homens são inseguros. Mas são-o precisamente porque sabem que, no dia em que foram traídos, todo o seu mundo ruiu. (…)

Joel Neto, in “Banda Sonora para um Regresso a Casa”

Bolachas de aveia

Estaladiças, saborosa, relativamente, saudáveis e pouco calóricas.

Ingredientes (para 60 bolachas)
600g flocos de aveia (usei integrais)
120g manteiga
100g açúcar
200g açúcar mascavado
100g nozes (ou avelãs, pinhão, amêndoa ou um mix de todos)
200g farinha
2 ovos
1 colher de café de bicarbonato de sódio
1 colher de chá de aroma de baunilha

Preparação
Num robot de cozinha, triturar muito bem os flocos de aveia e as nozes (ou outros frutos secos).
Numa taça, bater a manteiga amolecida com o açúcar branco e o mascavado. Adicionar o aroma de baunilha e os ovos, bater muito bem até obter uma massa homogénea. Juntar a farinha e envolver bem. Aos poucos ir juntando os flocos de aveia, envolvendo muito bem, com a ajuda de uma colher de pau ou com as mãos, entre cada adição.
Com as mãos, formar pequenas bolas de massa, espalmá-las e colocá-las, num tabuleiro, forrado com papel vegetal. Calcar, com a ajuda de um garfo, ainda mais cada bolinha de massa, fazendo pequenos frisos nas mesmas. Levar ao forno, pré-aquecido a 180ºC, durante cerca de 12 minutos ou até ficarem douradinhas.
Sugestão: pode-se juntar à massa 2 chávenas de pepitas de chocolate. Também ficam deliciosas. Outra ideia é fazer metade da massa com pepitas e outra metade (+ saudável) sem as pepitas

Viagens de uma Biblioteca Itinerante (BIA)

Há uns meses, por mero acaso, encontrei na vasta blogosfera um blogue encantador com histórias de uma biblioteca itinerante pelas aldeias da minha/nossa terra. Vale a pena mergulhar nos suspiros e silêncio das leituras, na companhia de livros “viajantes”, dos seu leitores e dos retratos de um portugal “profundo”. Histórias de e com livros, dos seus leitores e de quem viaja com os livros. Um blogue bonito que vale a pena visitar, voltar e recomendar. 

Nudismo – a experiência

“(…) Tenho um problema com a praia: não gosto daquilo. No sítio de onde venho, esparramo-nos em cima da pedra e saltamos dali para a água – e aqui há sempre areia que se mete entre os dedos, nos fundilhos dos calções, no meio do jornal. Além disso, não percebo a euforia de um dia de praia em Lisboa. Uma pessoa acorda cansada, faz a trouxa a correr, apanha duas horas de trânsito, senta-se na areia a ouvir conversas tontas e pregões brejeiros e música cretina – e, depois do «descanso», percorre outros três quilómetros ao sol, à procura do carro, só para apanhar nova fila de duas horas, ao longo das quais discorre sobre a vontade de repetir tudo no dia seguinte?
Não é entretém para mim. Mas (…) também tem que estar preparado para ir dar um mergulho com nenhuma outra vestimenta que não aquela que a natureza lhe deu.
O meu primeiro problema foi de ordem metodológica. Como é que uma pessoa se despe na praia? Leva calções na mesma, para depois os despir? E despe-os de imediato ou disfarça, sentando-se com eles vestidos e, depois sim, extraindo-os distraidamente, enquanto assobia em volta? Nada que me ocupasse demasiado, porém. Dois minutos depois de estender a toalha já este vosso servo havia como que regressado ao ventre materno – e cinco minutos mais tarde tinha dado um salto até à adolecência, vendo-se obrigado a virar a barriga para baixo, de forma a evitar escândalos.(…)
Quando fui dar umas braçadas, vesti os calções. Não quis ser surpreendido enregelado, claramente aquém, digamos, daquilo que valho. Depois, no entanto, voltei a despi-los. Ainda fiquei na dúvida sobre até onde deveria passar o protetor – mas, mesmo assim, mantive-os despidos. Tive medo de encontrar um conhecido, igualmente nu, com quem tivesse de trocar um passou-bem, olá esta á a mulher, olá esta é a minha – mas mesmo assim, mais uma vez, despidos ficaram.
Hoje, segunda feira, continuo sem saber se foi mairo a vergonha ou a vontade. Mas, pela primeira vez em décadas, começo uma semana a pensar que no sábado talvez vá à praia – e a frescura dessa emoção devo-a mais à serpente que tentou Adão do que Àquele que o pôs nu no mundo.”

Joel Neto in “Banda Sonora num Regresso a Casa”

 

Ele há coisas!

De alma cheia, acabada de chegar dos Açores, entro na biblioteca e no escaparete de destaque  e os meus olhos pousam sobre o livro “Açores a pé”, a sorrir-se para mim, agarrei nele sem hesitações. Abaixo, repousava o livro do Raminhos “As Marias”, tive que me rir sozinha, depois de 1 mês intenso na companhia da pequenada, e a paciência a a começar a faltar-me, pensei “Ora aí está, alguém que também leva isto para a tonteira, para descontrair e aliviar o peso da carga”, pensamento que se confirmou ao ler a contracapa, arrecadei mais um. Nos autores portugueses, resgatei um do Joel Neto, as crónicas semanais de um açoriano a viver em Lisboa, os livros do Afonso Cruz são sempre uma boa e diferente opção e para finalizar um romance porque a vida não são só viagens, filhos e a sua educação, crónicas, dissertações e filosofias, às vezes, também há tempo para fantasias 🙂
Observo os 5 livros que trouxe e sorrio, resumidamente definem muito, não do que sou, mas o que me interessa e move! Escolhas e opções que fazemos sem apercebermos bem mas que refletem muito do que somos porque o que nos interessa e lemos também nos define!

Ronaldo

Há muito que aprendi que uma história tem sempre pelo menos 2 versões, nem sempre coincidentes em todos os pontos mas alguns comuns.
As várias interpretações, as arestas que se limam e ajustam, os vértices que se aguçam, os comentários e julgamentos sumários e precipitados são da responsabilidade de quem os faz e, nos tempos que correm, têm um crescimento exponencial!
Importa sempre averiguar as nuances e contornos, confrontar as duas versões, pensar e analisar criticamente abstraindo-nos das nossas empatias, afinidades, vontades, crenças, desejos e nacionalidade… no fundo, procurar ser imparcial!
Aplica-se em todas as situações, em especial, no caso do momento, Cristiano Ronaldo e a acusação de violação.
Cristiano Ronaldo é um excelente e dedicado profissional, é um reconhecimento comprovado e muito merecido, não fosse ele o melhor do mundo, na esfera profissional.
No entanto, ele não é perfeito, ninguém é, lamento!
Ser um ótimo profissional não faz com que possamos julgá-lo como ser humano (bom ou mau). São esferas diferentes… muitas vezes, não conhecemos bem as pessoas com quem convivemos regularmente e estas surpreendem-nos, nem sempre pela positiva.
O seu mérito e o nosso orgulho português não são justificações aceitáveis para que tomemos, de “olhos fechados” o seu “lado” ou o ataquemos!
Há registo médicos e policiais da situação, há documentos assinados pelo jogador, basta ler com muita atenção o impressionante e pormenorizado artigo (traduzido do Der Spiegel) para perceber, que a acusação da rapariga tem muitas pernas para andar, correr mesmo, está muito bem fundamentada e documentada, considerando obviamente que o artigo pode não conter toda a verdade e imprecisões.
Inequivocamente, muito dificilmente, Ronaldo sairá bem desta história.
A questão aqui parece-me que não são os milhões que muitos afirmam que a rapariga quer (e se calhar quer), parece-me que é muito mais que isso.  A rapariga deseja fazê-lo sofrer pelo que lhe fez e isto, meus caros, vai ser um problema sério para Ronaldo, mais do que €€€€, é uma questão de “sangue”. Milhões, Ronaldo tem muitos (dizem)…
Ouço e leio comentários e observações que me levam a crer que, nesta matéria, infelizmente, temos muitos Bolsonaros entre nós, curiosamente, muitos são mulheres… e isto tudo é só triste, assustador e lamentável em vários dimensões muito para além da 3ª.

Gravar para mais tarde, ou mais cedo, recordar!

“Olha é só para te dizes que estás de parabéns!” diz-me pimpolha mais pequena.
“Hummm… parabéns? Porquê?” pergunto desconfiada.
“És muito boa mãe… Só isso!” diz ela com um ar mais compenetrado possível… de miúda de 7 anos.
“Ohohohohoh… como é que te ocorreu isso?” perguntei, pensando, confesso, está para me pedir alguma coisa e decidiu amansar a fera.
“Porque é verdade e os manos estão sempre a dizer mal” disse-me, voltando costa, e nada mais acrescentou. Assunto encerrado.
Para guardar, recordar e rever sempre que estiver sobre “fogo cerrado” dos manos, que é frequente, e o dela, que não tarda, chega, até lá é aproveitar a onda!
Sempre pronta a defender os mais “injustiçados e desprotegidos” esta minha filha refilona e sindicalista (não sei a quem sairá?), com o coração em bom sítio e muito amiga do seu amigo.
Esta observação, talvez se deva, acima de tudo, por também ela ser constantemente o alvo predileto dos manos que fazem um conluio contra ela, a azucrinam até à exaustão, não que ela se fique, mas é intenso e extenuante. Vai-se a ver somos é “sisters in arms!”.

Pequeno do meio e a (falta) motivação – essa palavra da moda!

Pequeno do meio mira, com atenção e demoradamente, o seu almoço… intocado!
Nem uma colher de sopa levou à boca ao fim de mais de 30 minutos à mesa; enquanto isso os restantes elementos já estão a terminar a refeição.
Excelentíssimo esposo irritado, ralha como ele para que se despache para poder ir brincar, fazer a digestão rápido e sei lá que mais argumentos!
Pequeno do meio exclama enraivecido “O que é que queres? Tu não me motivas!”
Ri-me mas com muita vontade!
O moço enfureceu-se…
Temos pena!
Acho muita graça a esta nova moda de que para tudo é preciso motivar os miúdos… e graúdos!
Em alguns casos, para não dizer na maioria, por mim, bem podem esperar sentados, na esperança, que por obra do divino espiríto santo, a motivação surja e os ilumine!
Foi o que aconteceu, neste caso, a pequeno do meio.
Uma hora depois, o rapaz lá encontrou a sua motivação (all alone) e terminou a sua refeição.
Haja muita, muita paciência ou, como dirão alguns, como pequeno do meio, motivação!

Das nossas férias

Calcorrear os caminhos, que percorremos infinitas vezes na infância e na adolescência, revisitando lugares, gentes, aromas, sabores, locais e pessoas, para quem seremos sempre meninos e pequenos, que nos tratam por tu, com a familiaridade típica daqueles que nos conhecem desde que nascemos, sorriem, com contentamento quando nos avistam, prontos para dar dois, ou mais, dedos de conversas que, muitas vezes englobam o seu ser e saber do mundo, dão conselhos, partilham um pouco de si, dos seus, das recordações, às preocupações e dissabores; terminam sempre com “Os teus miúdos estão grandes! Crescidos, giros… o tempo passa! Assim é que se vê como a gente está velha!”. “Fogo, parece que conheces toda a gente ou que toda a gente te conhece a ti! Nunca mais vamos comer um gelado, nunca mais lá chegamos! Contigo é sempre assim” diz-me a pequenada enquanto anda à rédea solta pelas ruas, em aventuras e explorações, no fundo feliz e contente, à espera que eu me despache da converseta!
As férias, também são muito isto! Revisitar os nossos lugares e as nossas gentes, partilhá-los com a malta pequena para que cresçam a apreciar e a estimar os, e o, que gostamos e consideramos nosso.

Aproveitando a benção que são os avós e a sua boa vontade, pequenada tirou a barriga de misérias na utilização das tecnologias (playstation, computador, tablet, telemóveis e afins, sempre online), viram a telenovela e ficaram fãs, especialmente pimpolha mais velha (don´t ask). Sem itech ressacaram e reclamaram mas foi vê-los a jogar Monopolly, Uno e tantos outros jogos de tabuleiro, satisfeitos e entretidos da vida. Excelentíssimo esposo ensinou-os a jogar poker, jogaram a chocapic, rebuçados, chocolates, legos e sei lá que mais, o avô ensinou-os a jogar ao burro e ao burro em pé, aprenderam a jogar peixinho, keims e ao polícia e ao ladrão. Andaram as férias todas acompanhados de 1 ou vários baralhos de cartas e a seguir fiel e entusiastamente a telenovela, nem tudo pode ser perfeito.
As férias também são muito isto, os mimos, a cumplicidade e conivências dos avós no fruto proibido, que é sempre o mais apetecido. Constatar que os tempos e os interesses mudaram muito mas a geração que pensa que tem o mundo nas pontas dos dedos gosta, e muito, dos jogos de sempre – os intemporais –  se lhes dermos oportunidade e tempo (offline) para os experimentarem.

Mergulhámos muito, com e sem escorregas, no rio, no mar e em piscinas, sempre em boa companhia, até os olhos mal conseguir abrir tal era o ardor, os lábios ficarem roxos, os dentes tremerem, e o sol se pôr, e, às vezes, depois disso; tomámos banho de mangueira e de aspersores, (don´t ask), vimos o pôr do sol refletido em várias águas, estradas e paisagens; andámos descalços, sempre que possível, ou nos deixaram. Fizemos quase todas as refeições fora de horas e a pequenada continuou a saborear, ainda mais prolongadamente as suas refeições, (credo!), haja paciência, e muitos piqueniques, comemos frango assado, farturas e algodão doce (blec) em várias festa de verão, muitas esplanadas e conversa, comemos muitos gelados e outras coisitas não tão saudáveis, parecendo que não estavamos de férias, comprámos tremoços e bolachas de amendoins gigantes numa venda de rua, relembrando o antigamente, em que não havia as ASAE desta vida, souberam-nos pela vida; à noite, passeámos, jogámos as escondidas, à apanhada e outros que tais, da era em que as crianças brincavam na rua; conversámos, deitámo-nos tarde, adormecemos a ouvir, ao longe, a  música das festas de verão, acordámos ainda mais tarde, fizemos ronha, vimos o zigzag da rtp2, vimos as séries “Uma aventura” e o “Inspetor Max”, vimos a 4ª temporada dos Simpsons (ideia de pequeno do meio, o grande fã dos simpsons, quando a descobriu na biblioteca. Sim, livros não é bem a praia dele), vimos a telenovela, lemos vários livros (ganhei por larga margem a pimpolha mais velha… desta vez!), fizemos um puzzle, mais uma vez, fizemos greve aos livros de fichas para as férias (a culpa é da mãe, mas férias são férias, os professores são uma raça estranha, eheheh!) mas comprámo-los, não fosse dar aquela vontade irresístivel de começar a fazer fichas a algum dos pequenos (surpresa, vá-se lá perceber porquê, não aconteceu!), levantámo-nos de madrugada para conhecer novos destinos a pé, a nado, de avião, de barco e de carro e ninguém reclamou, espetáculo. Aprendemos muito, rimo-nos e parvejámos para além da conta, as picardias entre manos foram mais que muitas, estivemos várias vezes à beira de um ataque de nervos, de verborreia, de puxões de cabelos e sei lá que mais, o típico de uma casa com 3 pequenos, uma vivência intensa… Houve dias em que tive muitas saudades da escola, não da minha, mas da dos pequenos, para poder ter uns momentos de paz e descanso!

Voltámos aos Açores e foi para lá de espetacular.

As férias foram, e são, muito mais que isto mas só isto já é imenso!!!

Cada vez mais, sinto que preciso de algum tempo e distanciamento para apreciar o quanto aprendemos, vivenciamos nas férias, na magnitude e importância do seu alcance! Essencialmente, aproveitar, sem stress, sem grandes compromissos, sem rotinas, nem horários, estar, brincar, ler, sorrir, rir, conversar … retemperar energias,  para no regresso à rotina, saborear com prazer e intensidade recordando os momentos vividos, ansiando e planeando as próximas férias para não ficar deprimido (work in progress, eheheheh)!