Casa nº:0
Se tivessem de pagar renda de casa numa cidade portuguesa, tinham capacidades económicas para o fazer, sozinhos ou com o vosso companheiro/a, assegurando as despesas de alimentação, etc?
Se quisessem comprar uma casa na vossa cidade, vendendo a que já têm, conseguiam suportar o encargo do empréstimos e os vossos restantes encargos?
Se tivessem filhos a estudar na universidade numa cidade que não é a vossa, em que era preciso alugar casa ou quarto, tinham capacidade monetária para suportar essa despesa adicional? E se fossem dois filhos a estudar fora?
Se se separassem, com base apenas no vosso salário, tinham dinheiro para pagar uma casa e gerir as restantes despesas?
Se num casal ambos ganharem o ordenado mínimo, trabalhando de sol a sol, têm dinheiro para alugar uma casa digna para a sua família, na cidade ou nos seus arredores, e assegurar as restantes despesas?
Os filhos, quando começarem a trabalhar, terão condições de comprar ou arrendar uma casa na sua cidade ou em outra à sua escolha?
Um trabalhador estudante, sem direito a bolsa, mas cuja família não o consegue/pode ajudar nas despesas de estar deslocado, consegue pagar uma renda e sustentar-se?
Pensando na resposta a estas perguntas simples, a atualidade/realidade não é nada animadora nem tranquilizadora, não permitindo ter grandes expectativas do futuro de e neste país à beira mar plantado.
Estas são apenas algumas das questões que cada um se deve colocar, antes de criticar e insultar quem se manifesta pelo direito à habitação.
A habitação é um direito que está legislado. Qualquer trabalhador, com o que aufere, devia conseguir ter uma vida digna. Infelizmente nem todos têm heranças ou pais/familiares que os possam ajudar ou acolher.
Os jovens são os mais visados neste momento, mas não são os únicos, hoje são eles, amanhã podemos ser nós ou os nossos.
Os jovens saem de casa dos pais, quando o conseguem, e vão viver com amigos, em casas e quartos partilhados, tornando a despesa da renda mais comportável, mas chega a uma certa idade em que isto deixa de ter piada.
O que é engraçado aos 20, aos 30 já não tem tanta graça e torna-se desesperante perceber que dificilmente se consegue sair do ciclo, porque o salário e o dinheiro não esticam, ao contrário das rendas e das despesas… Conheço várias pessoas nesta situação, algumas com 40 e 50 anos. Esta realidade leva muita gente a considerar outras soluções: emigrar e/ou não ponderar ou adiar constituição de família. É de salientar que Portugal tem uma elevada taxa de emigração entre os jovens e uma baixa taxa de natalidade entre “jovens” portugueses, dados que a crise na habitação não ajudará a reverter, certamente.
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Os estudos e os números não enganam, ora vejamos:
Perante estes dados e tendo em conta o custo de vida no país, é legítimo que os jovens — e todos nós — tenham sérias razões para estarem preocupados com o presente e o futuro, e estejam revoltados com a indiferença e a falta de respostas de quem governa.
Independentemente da questão da carga policial, não merecem, certamente, ser chamados de “minoria de arruaceiros” ou “ser encostados à parede” como disseram, respetivamente Paulo Núncio (CDS) e Bruno Nunes (Chega), em plena Assembleia da República.
“O Governo não vai ceder aos gritos que vêm da rua” disse Carlos Abreu Amorim, ministro dos assuntos parlamentares, também na Assembleia. Esta intervenção causa-me uma certa comichão e um profundo incómodo, a começar pela forma como se encara o desempenho de um cargo público. Que quem governa pense assim, enfim, é o habitual, mas verbalizar sem pudor é grave, preocupante, pouco inteligente, mas sintomático. No mínimo dos mínimos, não é uma atitude que apazigue os ânimos e tranquilize quem está indignado/aflito, não transmite esperança. É uma espécie de “Aguentem-se. Temos pena.”. Infelizmente, não surpreende… É acima de tudo triste verificar o estado a que chegámos. Quem governa deve questionar-se, como todos nós, sobre as suas decisões, a eficiência, a forma de atuação e pensar a média/longo prazo no impacto das mesmas. Deve fazê-lo com base em princípios e não em interesses (os seus ou dos seus).
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O problema da habitação não é culpa só deste governo – dos vistos golden aos alojamentos locais – nas duas últimas décadas, todos têm sérias responsabilidades.
O problema da crise na habitação não tem solução fácil nem rápida, mas a aprovação da nova lei do arrendamento, no início de outubro, não me parece que tenha sido um bom sinal para quem já está com dificuldade em arrendar com a lei atual. A renda moderada ser até 2300€, parece anedótico, de acordo com os dados conhecidos.
Segundo os dados da Eurotsat de 2024, mais de um quarto dos portugueses ficava numa situação de pobreza depois de pagar as despesas com a habitação (renda ou empréstimo), Com o aumento generalizado dos preços e do custo de vida que vivemos desde 2024 até ao dia de hoje, suponho eu que, não será de estranhar que esta proporção tenha aumentado.
Sinais, sinais que não se devem ignorar.
O governo devia estar preocupado com os jovens, a sua falta de perspetivas de futuro: habitação, salários baixos, etc… que, em última análise e muito rudimentar, tornam a emigração na única solução viável, pondo em causa a sustentabilidade/falência do sistema face à nossa baixa taxa de natalidade.
Neste contexto, as declarações do primeiro ministro Luís Montenegro, e não entrando na discussão da carga policial sobre os manifestantes no Porto, enervam e revoltam pela falta de empatia e a ignorância sobre as dificuldades com que vivem os portugueses. Acrescentam a palavra “egoísticas”, em consonância com o resto do seu discurso – não soa nada bem.
“(…)Espero que os partidos políticos, movimentos associativos, organizações portuguesas, não caiam na tentação, por razões meramente egoísticas da sua própria ação, importarem para Portugal climas de instabilidade, de contestação, que não tenham de facto respaldo na sociedade portuguesa.(…)”
Luís Montenegro – 15 de outubro de 2026

Um dos primeiros desenhos que me lembro de aprender a fazer foi o de uma casa e o de uma árvore. Suponho que assim seja com quase todos, os que não são muito dotados para a arte de desenhar. Hoje em dia, desenho uma casa mais ou menos da mesma maneira que quando era pequena. É um desenho simples que também ensinei a pequenada a fazer. Casa, no desenho ou na realidade, é algo com que todos nos identificamos, desejamos e gostaríamos de chamar “Nossa/minha”. Ter uma casa não deve ser um sonho, muito menos um pesadelo. Não estou a falar da casa dos nossos sonhos, mas da possibilidade de ter um teto a que possamos chamar nosso, sem que isso implique viver permanentemente com a corda ao pescoço, sobrando muito mês do que salário. Quando isso não se vislumbra no horizonte, como se pode considerar a possibilidade de ensinar a desenhar uma casa, a um pequeno ser que gostaríamos de conceber e chamar nosso, explicando-lhe que desenhar uma casa é também sonhar com um futuro?
Todos têm o direito de lutar por uma casa conquistada com o fruto do seu próprio trabalho!
A Ca(u)sa é mais do que justa!
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Partilho o artigo de Pacheco Pereira, desta semana. no Público, intitulado “O verbo do ódio”.
O verbo do ódio
“A melhor maneira de perceber o modo como pensam (embora chamar pensar seja um exagero) os homens e mulheres que hoje empurram a extrema-direita em Portugal são as redes sociais e os comentários não moderados. Respondo já a quem diz que o mesmo se passa do outro lado do espectro político – não é verdade, porque há uma enorme diferença de proporção. Há, de facto, mecanismos se afiguram parecidos, insultos, argumentos ad hominem, agressividade verbal, mas, para cada 100 de extrema-direita, há um da extrema-esquerda, e isso permite caracterizar este fenómeno como sendo um revelador significativo do populismo radical da direita.
Para fazer este artigo li centenas de comentários aos acontecimentos na chamada “acampada”, na intervenção policial e no tema da manifestação associada à habitação. Na verdade, o tema da habitação produz muito menos comentários do que a acção dos manifestantes, quem eles são, a acção da polícia, e mesmo quando há referências à habitação são com temas que aparecem exactamente da mesma maneira noutros comentários a coisas muito diferentes. Tentei excluir os muitos perfis falsos e bots que pululam nas redes sociais.
1. Quem são os comentadores populistas da extrema-direita? Não são activistas desses grupos mais radicais, embora votem em particular no Chega. São pessoas de idade, muitos reformados, porque se reclamam de “uma vida de trabalho”, e usam como legitimação o “se têm o que têm”, casa, por exemplo, é porque trabalharam toda a vida. O “trabalho” é, por isso, um factor de diferenciação, eles trabalham e os manifestantes não. E embora se possa perguntar, se trabalham, por que razão passam o dia dependurados nas redes sociais, é porque efectivamente não trabalham. Os manifestantes não trabalham porque estão a manifestar-se, os comentadores porque estão em tempo quase real a discutir o que os primeiros fazem.
Exemplos:
– As pessoas têm é que trabalhar para terem casa. Não é com ideais comunistas que as casas vão aparecer. Quem trabalha e poupa tem habitação.
– A grande maioria dos portugueses lutou e luta para ter casa, não em manifestações ociosas com símbolos de terrorismo, mas a acordar cedo e a chegar tarde a casa para no final do mês ter um ordenado. A essa luta chama-se trabalho, e a verdade é que funciona!
O verbo do ódio
– Eu tenho habitação condigna. Trabalhei, endividei, comprei e PAGUEI. Se não sabes como é pede ai a alguém que te ensine.
– As casas são de quem as compra.
2. A acção da polícia só peca por ser leve, os manifestantes mereciam levar muito mais.
– Se houver mais bastonadas óptimo.
3. Quem são os manifestantes? Drogados, preguiçosos que não trabalham, a “escória da sociedade”, com mau aspecto, maricas e inúteis que vivem do “nosso” dinheiro sem fazerem nada. O argumento da droga é interessante num país que tem um problema considerável de alcoolismo. A hostilidade à homossexualidade faz parte do padrão habitual, sendo que, como é sabido, não se aplica aos casos de, mais do que homossexualidade, pedofilia, que abundam na extrema-direita.
– Com tanto flotilheiro e drogados, pensei o mesmo.
– Sonham de noite pra contar de dia, se a ganza não for muito grande, claro.
– Se calhar não perdem nenhum festival e bebem mais cerveja numa semana que eu bebo num ano.
– O moço da lingerie bordeaux que levou os pontos na cabeça já está pronto para outra.
4. Quem são estes manifestantes politicamente? São a “esquerdalha”, mais do que a esquerda. Deviam ser perseguidos, como “traidores” à Pátria, talvez presos e com os direitos cívicos negados. O grau de agressividade face à “esquerdalha”, tratados indiferentemente como comunistas, marca uma fronteira identitária impossível de atravessar.
– Por momentos pensei que era a festa do avante.
5. As causas como a Palestina são tratadas como um crime e merecem uma fúria particular. Trazer bandeiras da Palestina é uma “traição” a Portugal, sendo que o mesmo não se passa quando há ajuntamentos com a bandeira de Israel.
– Porque a ostentação de adereços alusivos à Palestina e bandeiras LGBT numa manifestação por habitação???
Este mundo é essencialmente antidemocrático, conflitual, com exclusão do “outro”, e legitimador da violência. Os direitos constitucionais da greve, da manifestação, não valem nada. E, mesmo quando há violação da lei por parte dos manifestantes, há uma completa duplicidade em relação às violações da lei, por exemplo, por parte do Chega. O que provocaria uma fúria nestes comentadores se o que fez Rita Matias ilegalmente em Coimbra, invadindo uma estação de rádio, fosse feito por um “esquerdalho”, ou se se vier a concluir que o “alegado” assalto ao gabinete de Ventura fosse mesmo “alegado”?
Este mundo é pobre, ignorante, agressivo, violento e muitas vezes cruel. É um mundo antipatriótico, anticristão, mas encontra pouca resposta numa denúncia clara do que ele significa. É só esperar algum tempo para percebermos a metáfora do «ovo da serpente»”.
























