Ao eterno Jorge Palma (1950-2026)

As horas no programa eram apenas uma indicação que, naqueles tempos, raramente o vi cumprir, a malta esperava alegre e contente porque ninguém tinha dúvidas que chegaria, no e a seu tempo, sentar-se-ia ao piano, regra geral, já bem regado, pousando uma garrafa de uísque ao seu lado e…nunca desiludia, valia sempre a pena cada compasso de espera. Estas recordações são dos tempos da faculdade, onde tinha uma grande amiga que respirava, recitava Jorge Palma, tinha por ele uma verdadeira adoração, foi com ela que fui ao meu primeiro concerto dele. Os amigos têm esse poder de nos transportar para a banda sonora da sua vida, literal e figuradamente, e a desta minha amiga, ainda hoje, transborda Jorge Palma.
Invejo, ao Jorge Palma, desde os meus 18 anos, o espírito livre, aventureiro, rebelde, um pouco fora da lei, de quem diz e faz o que bem lhe apetece, aparentemente sem medos nem grandes receios, desafiando regras e etiquetas e a coragem essencial de se manter fiel a si mesmo; a sua forma de estar e as suas histórias/vivências que escolheu partilhar como aprendizagens e parte de si (e que muitos, na sua posição, tentariam ocultar) são testemunhos que falam por si: da sua modéstia, despretensão e humanidade.
“Estavam a passar Jorge Palma, na rádio, e pensei logo queres ver que morreu?” diz-me uma colega na manhã da sua morte. Triste e revelador daquela realidade muito portuguesa de só nos lembrarmos, valorizarmos e ouvirmos os nossos nas rádios quando estes partem. A RTP, por estes dias, também passou o concerto do NOS Alive de Jorge Palma em 2023, não me parece que o tivessem feito antes, mas está disponível no youtube há 2 anos. Valha-nos a muito merecida, oportuna e bonita homenagem a Jorge Palma nos prémios play 2026 – Prémio carreira – e onde visivelmente emocionado e fragilizado abraçou os seus amigos e fez uma belo discurso e apelo.
Ao jantar, no dia da sua morte, perguntei à pequenada se sabia quem tinha morrido, pimpolha mais nova deu de ombros, os dois mais velho responderam “Um músico qualquer”. A resposta não me caiu nada bem e cantei-lhes o refrão do “Deixa-me rir” e pequeno do meio observou sorrindo “Tinhas que começar por essa, claro!”, seguiu-se “Frágil” e pimpolha mais velha disse “Claro que sei essa!”, quando cantei “Encosta-te a mim” pimpolha mais nova sorriu e inclinou-se para mim, continuei para o “Dá-me lume” e eis que chega o repto de pimpolha mais velha “Podes parar, sabemos as músicas, só não estávamos a ver quem é!”. Atribui o seu pedido à minha falta de dons vocais de fazer jus à música de Jorge Palma. Ainda assim não resisti a provocá-los, entoando “A gente vai continuar” e fui brindada com um revirar de olhos coletivo. Aproveitei para rematar com um “Ora bem, ainda bem que reconhecem, é que o Jorge Palma pode ser muitas coisas, mas não é certamente um músico qualquer!”. enquanto pensava ainda há esperança.
As músicas do Jorge Palma, ao longo dos anos, foram também a banda sonora de alguns dos meus post, talvez um dos meus preferidos seja este (de 2014 e no blogue anterior a este). 


Jorge Palma será sempre, para mim, um grande e querido maluco (no bom sentido), com um verdadeiro e raro dom, o de quem diz e canta o que lhe vai na alma, espelhando o que vai na nossa. Nas suas letras, cabem os medos, as inquietações, os desejos, as paixões, os dramas, a solidão, as fragilidades, a finitude, as preocupações, as alegrias, o amor e os sonhos de todos nós em alguma fase da nossa vida. Uma proeza reservada apenas aos verdadeiros mestres.


Escolhi esta música porque o vídeo é maravilhoso, Jorge Palma rodeado dos seus amigos de sempre, um retrato quase perfeito da, e na, sua essência.

Nota para quem não tem planos para esta noite:
Hoje, às 21h30, o corpo dormente (Bruno Nogueira) volta aos diretos, no instagram. Na pandemia, os seus diretos foram épicos e um verdadeiro bálsamo, hoje diz que vai ser um noite bonita. Aposto que sim. Fica a dica/imagem no seu post sobre o tema – homenagem e celebração do grande Jorge Palma.

Velhice e infância

“Tenho medo de envelhecer e de ficar sem público. Mas e se provasse que não perdemos a piada com a idade?” diz Carlos Coutinho Vilhena (33 anos) – jovem comediante e guionista português. Esta é a premissa que dá início à sua demanda: encontrar um ator idoso que o ajude a descansar este seu medo, provando que os velhos também têm piada. O lugar mais lógico para iniciar a sua procura pareceu-lhe ser a Casa do Artista. Carlos Coutinho Vilhena encontrou o que procurava, um bálsamo para o seu medo, e mais de um ano depois de o comediante e o ator idoso terem realizados um espetáculo de stand up, no Campo Pequeno, lança um documentário sobre o processo de criação e preparação do mesmo.
“Não há papéis para velhos” é um excelente documentário sobre tempos, expectativas, certezas e ansiedades (de um jovem comediante) e as dúvidas, limitações, inseguranças e contra tempos (de um idoso), um behind the scene realizado por quem teve a ideia brilhante de dar palco ao ator José Eduardo (81 anos).
O comediante e a sua jovem equipa tinham apenas uma vaga ideia de quem era José Eduardo pelo seu papel nos “Malucos do Riso”, denotando o grande salto geracional  entre uns e outros. Sorri ao (re)vê-lo, presença assídua em telenovelas, filmes dos anos 80/90, uma cara e voz reconhecida por tantos e que nada dizia àqueles “jovens”. Revelador e triste de como não cultivamos/partilhamos a memória com os mais novos e deixamos “morrer”, em vida, os nossos atores, é como se “deixassem de existir”, sem memória, nem legado, longe das luzes e da ribalta.
É um documentário bonito e que emociona, mas que levanta indiretamente muitos questões ligadas à velhice, ao próprio meio artístico e à forma como os jovens e a sociedade veem os velhos (sem grandes expectativas). Vejam, vale muito a pena!


Os receios e a falta de confiança da equipa e algumas das suas observações são possíveis resposta para o não haver papéis para velhos. Confrontados com um obrigatório ajuste de planos, alguém comenta algo do género “O que foi? Está no hospital? Negou-se a participar?”, a preocupação não foi pela pessoa do José Eduardo – “Ele está bem?Aconteceu-lhe algum coisa?” – foi pelo show/negócio! Face ao desafio de fazer stand up pela 1ª vez ao 81 anos, a equipa levou José Eduardo a jantar e a ver o seu 1º espetáculo de stand up. Comentário no final da noite “(…)Não sei se ele gostou, nem sei se ele percebeu muita coisa(…). Som do windows a desligar,  foi ele em frente ao portão [da Casa do Artista, que não estava a conseguir abrir]. (…) Não sei ele hoje chega à cama, quanto mais ao Campo Pequeno”. No final do espetáculo no Campo Pequeno, alguém comenta “Não sei se ele não pensou dei aqui a última prova de que fui relevante neste mundo”, da arrogância ao arrependimento foi um ápice “Isto ficou gravado, esta cena? (…) É feio de se dizer, sinto-me mal agora …”. Pois é, mas é essencialmente muito revelador de apenas algumas das ideias preconcebidas que os velhos têm que enfrentar e lutar contra todos dias, da falta de confiança ao provar que ainda são e estão capazes – a si, mas principalmente aos outros – continuando , inclusivamente a surpreender (a si próprios, mas sobretudo os outros).
Portugal é o segundo país com uma das populações mais envelhecidas da Europa e, como sociedade, perpetuamos o erro de não valorizar a(s) história(s) e o saber dos mais velhos, descartando-os, a viver sem a dignidade e/ou na solidão, em vez de construir novos papéis que podiam ter numa sociedade frenética e que, cada vez mais, vive de aparências e se julga para sempre jovem (vem daí também a ausência de papéis para jovens, não é só no meio artístico).  O esquecimento a que são votados os velhos é um problema a que nenhum governo respondeu verdadeiramente nem parece querer responder, as família angustiadas vão fazendo o que podem (às vezes, o que não podem)…e, em breve, os velhos seremos nós, esperemos lá chegar e de preferência com diz a célebre frase “Temos que acabar como as árvores, de pé”

Nos antípodas deste documentário, há um documentário chamado “Infância” de Pedro Mota Teixeira, com excerto de filmes feitos pelo seu pai, na altura em que as câmaras de filmar familiares proliferaram. Testemunhos de um infância feliz. Muito giro e… nostálgico.

Fala bem

“Sem saberem, as mães perpetuam mais umas quantas décadas de obscurantismo íntimo, ignorando os danos físicos e emocionais que resultam de uma profunda ignorância mascarada pela infinita informação veiculada pela internet. E os pais, já falaram disto às suas filhas? Aos seus filhos?”
Cátia Mazari Oliveira (Garota Não), autora da letra de “Fala bem” descrevendo o seu ponto de partida na escrita da letra da música

“Quando recebi a canção da Cátia, fui de imediato conduzida para uma memória antiga, de mim enquanto menina criança que fui, e para uma inquietação enquanto mãe de uma menina em crescimento. O processo de nos tornarmos mulheres e homens adultos não é fácil, nunca foi. O diálogo é essencial para que temas tão sensíveis, e muitas vezes perpetuados como tabus, não representem riscos reais.” 
Rita Redshoes, cantora de “Fala bem”

Letra
“Fala mãe
conta tudo à filha
o que pesa nessas costas
ao que já não estão dispostas
fala de cada armadilha
conta tudo à tua filha

Fala pai
fala bem à tua filha
quanto pode um homem sério
ser a besta sem critério
que se impõe pela breguilha
fala bem à tua filha

Fala mãe
conta tudo à tua filha
que vai ter de lutar tanto
vai dar tudo e no entanto
não será justo à partida

Fala pai à tua filha
que um homem também chora
pela tristeza que demora
no machismo de cartilha

conta, conta, conta
fala, fala, fala
conta, conta, conta
fala, fala, fala

Fala mãe
conta tudo à tua filha
fala livre e com verdade
que saber de intimidade
é valia e maravilha
conta tudo à tua filha

Fala pai
fala bem à tua filha
ela tem esse direito
e que saiba que o respeito
é poder que engatilha
fala bem à tua filha

Conta

Fala mãe
conta tudo à tua filha
que vai ter de lutar tanto
vai dar tudo e no entanto
não será justo à partida

Fala pai à tua filha
que um homem também chora
pela tristeza que demora
no machismo de cartilha

Fala bem à tua filha”

“Fala bem” é o terceiro single de Rita Redshoes que integrará o seu novo álbum “Fala”, uma homenagem às mulheres, com letras escritas por artistas portuguesas.
Aqui ficam também os 2 primeiros singles deste bonito projeto da Rita Redshoes
“A tua trança” letra e música de Márcia

“Não é normal” com música e letra de Cláudia Pascoal

Bonnie Scotland – VII

Numa road trip, como na vida, às vezes, o mais interessante e surpreendente é o caminho e não propriamente o destino.
Foi exatamente isso que aconteceu quando visitámos a remota, montanhosa e pouco populada península de Applecross, nas Highlands, percorrendo as duas únicas estradas secundárias que a ligam ao “continente”.


Durante séculos, muitas das localidades da península de Applecross só eram acessíveis de barco, embora houvesse um caminho, que atravessava as montanhas, e era utilizado pelos pastores para levarem o gado para os mercados em várias cidade da Escócia. No início do século XIX, foi construída uma estrada que foi batizada Bealach na Bà (que significa passagem do gado, em gaélico escocês) reconhecendo as suas origens e importância histórica.
Percorrer a Bealach na Bà é ser brindado por uma paisagem deslumbrante e imponente, entre as muitas curvas apertadas, uma inclinação considerável, o cuidado típico de circular numa estrada de montanha, a que acresce a adrenalina em altas (pelo menos a minha) pois tem apenas uma faixa de rodagem e dois sentidos de circulação, onde é sempre preciso antecipar os locais onde os dois carros se podem cruzar, isto com a montanha de um lado (sem berma), railes de proteção e o precipício do outro, é um verdadeiro exercício de ginástica mental e espacial que, às vezes, com condutores menos atentos obriga a manobras de marcha atrás elaboradas. A estrada não é recomendada para condutores pouco experientes/iniciantes e para veículos de grandes dimensões… ou para condutores pouco habilidosos ou que sofram do coração (acrescento eu).

Imagem retirada da internet

É muito comum as estradas, nas Highlands, terem apenas um faixa, não terem bermas e terem umas barriguinhas (a que eles chamam Passing Places) que permitem a passagem dos veículos nos dois sentidos. A regra é estar atento e prever antecipadamente a barriguinha mais próxima que permite o cruzamento e a passagem nos dois sentidos, parar e aguardar se esta for do nosso lado de circulação, e agradecer sempre a quem esperou e nos cedeu a passagem, os escoceses são muito cordiais. Eu chamo-lhe, carinhosamente, as estradas grávidas e implicam um verdadeiro trabalho do braço direito de tanta vez que o levantámos no final de um dia passado nestas estradas.

A Bealach na Bà impõe respeito e parece muito pouco grávida quando comparada com todas as outras estradas deste tipo onde circulámos nas Highlands.
É frequente ficar interdita ao trânsito devido às condições atmosféricas adversas (neve, vento, visibilidade reduzida). Convém sempre verificar a meteorologia antes de a percorrer para não apanhar uma valente camada de nervos e não ter o brinde poder ver e apreciar a paisagem (chuva intensa, nuvens baixas ou nevoeiro).
É comum, nas Highlands, em estradas rurais com alguma inclinação, as entidades locais disponibilizarem, em grandes baldes amarelos, na berma da estrada, sal e gravilha, para os condutores espalharem na estrada: o sal derrete o gelo e a neve e a gravilha aumenta o atrito/aderência do carro. Na Bealach na Bà não há espaço para colocar estes baldes amarelos e é uma estrada de montanha, agora pensem (como diz a miudagem)!

Foi um dos passeios mais bonitos e inesquecíveis, e também o mais radical e talvez menos turístico, que fizemos na Escócia e tivemos muita sorte porque o tempo estava perfeito (não esquecer que, na Escócia, “só existem duas estações: junho e o inverno” Billy Connolly);.

Chegados  a Applecross, uma terriola (com o mesmo o nome da península) que consiste em pouco mais que uma bonita rua, ao longo da baía , era hora de descomprimir, almoçar e apreciar as vistas sobre as ilhas e da baía. O muito recomendado Applecross Inn estava fechado, conhecido pela sua hospitalidade e boa comida (uma pena e mais uma razão para voltar), mas não faltavam alternativas, inclusivamente o farnel que tínhamos preparado. Foi em Applecross que vimos uma bonita sauna (a única da nossa viagem) com uma bela vista, o sítio ideal para relaxar depois de fazer a Bealach na Bà.

Apreciámos e aproveitámos, mais um vez, o humor escocês (atentar na pedra triangular no chão do lado direito que diz “Sauna in progress. Please tread quietly!”), embora não tenhamos sido muito silenciosos (nunca somos!!!).

Os manos decidiram que pimpolha mais velha estava a reclamar (mais do que o habitual) e precisava de “chillar” . Tomaram o assunto em mãos (literalmente), daí o não terem sido silenciosos, não se pode pedir tudo. Remédio santo, a moça acalmou-se.

Recompostos, relaxados e de barriguinha cheia, seguimos viagem, com as ilhas de Raasay, Rona e Skye de fundo, e fomos surpreendidos por uma bonita enseada e praia de areia rosa, a Sand Beach. A cor rosa da areia de Sand Beach deve-se à erosão das formações rochosas de arenito vermelho da zona envolvente.

Havia meia dúzia de pessoas a passear na praia, embora, na fotografia, pareçam formiguinhas, um sinal também do desnível da estrada em que circulávamos em relação ao nível do mar.
Passámos por várias aldeias muito pitoresca à beira mar plantadas ou de um loch, e as paisagens nunca deixam de espantar, isso e as ovelhas que se veem por todo o lado. Pequeno do meio tentou estabelecer uma ligação com as ovelhas (leia-se, apanhá-las), nenhuma delas lhe deu conversa, vá se lá perceber porquê.
Encontrámos algumas ovelhas calmamente deitadas, junto aos portões de uma igreja, onde numa placa a azul se podia ler  “Remember the Sabbath day, to keep it holy”, diria que para as ovelhas todos os dias são santos, e lá estavam elas sem preocupações, aguardando o seu pastor (qual deles não se sabe).

Perto do cemitério de uma aldeia com 3 ou 4 casas, ficámos cheios de contente quando vimos pela primeira vez, ao fim meia dúzia de dias nas Highlands, aquela que é a maior imagem de marca da Escócia, as vacas escocesas, muito felpudas (proteção contra o frio), com uma franja (por causa dos famosos e muito chatos midges, vulgo mosquitos das Highlands) e uns grandes chifres. Os escoceses chamam-lhes, carinhosamente, as hairy coos, e apesar do marketing e o merchadising fortíssimo, em tudo o que é loja, museu, castelo, para não falar das quintas e cafés em que se paga para as ver e alimentar, a realidade é que as hairy coos não se encontram com facilidade na sua terra natal.

As Hairy Coos estima-se que representem menos de 1% do gado bovino da Escócia, são considerados uma espécie em risco no Reino Unido, embora não a nível mundial (são criadas em mais de 8 países). As raças de gado bovino mais comuns, na Escócia, são as vacas “mimosa” (leiteiras) e as Aberdeen Angus (raça escocesa que cresce mais rápido e dão mais carne que as felpudinhas). A razão para, comparativamente, existir um número tão diminuto de Hairy Coos, na Escócia, é essencialmente económica.

As Hairy Coos são criadas sobretudo, nas Highlands e nas ilhas da costa oeste, em terrenos montanhosos, remotos, vastos e pantanosos, o que também dificulta o seu avistamento no seu habitat natural. Curiosamente, fold  é como se designa em escocês um grupo de Hairy Coos,  sendo o termo herd aplicado a uma manada de qualquer outro tipo de vacas. O termo fold tem origem nos abrigos de pedra sem teto – os stone folds – utilizados para abrigar, no inverno, o gado das Highlands do vento e do mau tempo.
A maioria das Hairy Coos são ruivas, embora o gene preto seja o gene dominante, pelo que seria de esperar que a maioria fosse preta, o que só não se verifica por intervenção/manipulação humana, ao longo de mais de 140 anos. O ruivo tornou-se a cor associada às Hairy Coos, quer a nível turístico quer de exposição/venda, pelo que os criadores selecionavam preferencialmente animais ruivos para a reprodução (e ruivo com ruivo dá ruivo, os produtores conheciam a genética e como manipulá-la a seu favor). Dizem, blogues, sites e artigo sobre as Hairy Coos, que a Rainha Vitória, numa visita às Highlands, terá expressada a sua preferências pela cor ruiva (na altura, a maioria das felpudinhas era preta) e, para agradar a rainha, os produtores entraram em ação, e que essa é a verdadeira razão pela qual a cor ruiva passou a ser a cor predominante, dizem… Dizem ainda que a carne de vaca consumida pela Rainha Isabel II era apenas e só da raça Hairy Coos, dizem… No entanto, verifica-se que, no Castelo de Balmoral – residência da família real nas Highlands, existe um fold premiado, desde 1954, por ordem da Rainha Isabel II.

 

Na viagem de regresso a casa, encontrámos uma cabine de livros muito fofa, repleta, super organizada e com uma grande variedade de livros recentes e em ótimo estado. Imaginei logo o que a malta faria, em Portugal, com uma cabine deste nível de “qualidade”: hipótese 1- levar os livros para vender na Vinted ou hipótese 2- estragar só porque sim. Sim, aminha fé anda pelas ruas da amargura e sim, acho mesmo que é um questão cultural (ou falta dela) e que somos muito pouco civilizados quando comparados com os povos do norte (estamos a anos luz, não sei se é defeito ou é feito, mas cada vez pendo mais para o 1º).

É frequente nas estradas rurais, as tais que eu chamo de grávidas, haver o que os escoceses chamam de Honesty Box, que são caixas na beira da estrada em que os donos/residentes colocam ovos, compotas, queijo, bolos e bolachas caseiras, produtos e peças de artesanato local, petisco ou brinquedos para cães, etc, uma lista com os preço de cada item e o site para fazer o respetivo pagamento ou uma caixa para deixar o dinheiro. Há um site com uma descrição dos produtos que contém, fotografias e a localização das Honesty Boxes da Escócia. Vimos várias Honesty Box em sítios remotas que apenas os locais residentes lá devem passar pelo que me parecem ser para facilitar as “trocas” entre “vizinhos”, estas são regras geral caixas de plástico simples, sem grandes adornos, nas zonas mais turísticas são bem mais elaboradas/decoradas, como por exemplo a que fotografámos na ilha de Skye. Já tínhamos visto esta prática na Noruega e na Suécia em estradas no fim do mundo e fui tão bom ver que na Escócia também funciona esta confiança “cega”. nos outros Acho genuinamente uma excelente ideia que gostava de ver implementada por cá, mas o que acham que aconteceria se fosse implementada em Portugal? O problema não é sermos pobre, é mesmo a pobreza de espírito e o chico espertismo dominante. Gostava muito de ter mais fé nos tugas, mas…

Depois de um dia em cheio, e deixando para trás km e kms em estradas grávidas, voltando às estradas principais fomos brindados com os seus famosos “SLOW” pintados no chão e os limites de velocidade também eles pintados no chão (sinalização vertical de velocidade é quase inexistente).

Terminámos o dia em grande, num dos castelos mais fotografados da Escócia, o castelo de de Eilean Donan, situado numa ilha, com uma ponte de acesso pedonal, e no ponto de encontro de três lochs. Como chegámos depois da hora de fecho, estacionámos sem problemas e sem ter que pagar e conseguimos ir até à porta do castelo (durante o horário de funcionamento, o controlo de bilhete é antes do acesso à ponte pedonal) e esta é uma grande estratégias para poupar dinheiro na Escócia (não querendo visitar o interior, obviamente)

Nota : Caledonia é o nome em latim que o império romano utilizou para designar a zona norte da Grã- Bretanha, ou seja, a Escócia. Atualmente, Caledónia é o nome poético/literário para a Escócia, assim como nós utilizamos a Lusitânia.

Falsas histórias verdadeiras

A sua mãe escrevia pequenos versos e Manuel António Pina, desde pequeno, escrevia os seus sentimentos, histórias e dúvidas, em versos, nunca em prosa. “Falsas Histórias Verdadeiras” – baseada em poemas, crónicas, histórias e guiões de teatro de Manuel António Pina – uma combinação perfeita entre teatro, música e dança contemporânea – começa com um deste seus versos que fez quando ouviu a história do milagre das rosas.

É deliciosa a interpretação de um diálogo que Manuel António Pina teve com a sua filha (nos seus imensos 3 anos) e que relata numa das suas crónicas.

“Para que serve a barriga?” terá perguntado à sua filha
“Para coçar.” responde-lhe ela
“E para que servem as unhas?” questiona-a novamente
“Para coçar a barriga” responde-lhe a filha

A leveza da lógica simples e imbatível das crianças que tanto nos espanta e apreciamos, mas que deixamos de usar e replicar em adultos, quando tudo se torna complexo e as explicações se multiplicam.

Imagem retirada da internet

“Parece que crescemos mas não.
Somos sempre do mesmo tamanho.
as coisas que à volta estão
é que mudam de tamanho.

Parece que crescemos mas não crescemos.
São as coisas grandes que há,
o amor que há, a alegria que há,
que estão a ficar mais pequenos.

Ficam de nós distantes
que às vezes já mal os vemos.
Por isso parece que crescemos
e que somos maiores que dantes.

Mas somos sempre como dantes.
Talvez até mais pequenos
quando o amor e o resto estão tão distantes
que nem vemos com estão distantes.

Então julgamos que somos grandes.
e já nem isso compreendemos.”
A canção dos adultos de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça

Brincando com as palavras, mas falando de assuntos sérios, Manuel António Pina leva-nos a olhar para dentro, para os silêncios, para as memórias entre o espanto, a consternação e a constatação, um espelho ou reflexo.

“A vida é estarmos sós.
a gente diz que a vida dói,
a vida não dói – 
quem dói somos nós”
Manuel António Pina (1966)

Segundo Manuel António Pina, “a palavra “criar”, pelo menos em termos fonéticos, tem muito que ver com a criança; criança também é aquele que está em criação”

“O ar não se vê
não se sente não se ouve
mas quanto mais se sobe
mais não sei quê.

E quando se sobe
sem sair do chão?
Quando a cabeça se move
e o resto do corpo não?

A cabeça subindo
pelo lado de dentro
e o teu pensamento
tão limpo e tão lindo.

Tão maravilhoso
como o de um matemático,
tão rigoroso
como o de um mágico.

Embora às vezes não pareça,
embora te digam que não,
tens um campo de aviação
dentro da tua cabeça.”
O aviador interior de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça

Dadas as dificuldades financeiras, na casa dos seus pais, havia poucos livros, mas aprendeu a ler cedo com os jornais que o seu pai trazia da repartição de finanças onde trabalhava.

“Era uma vez um menino
que não queria comer sopa de letras.
Podiam lá estar coisas bonitas escritas,
mas para ele era tudo tretas…
Podia lá estar escrito COMER,
podia lá estar GOIABADA,
Como ele não sabia ler,
a sopa não lhe sabia a nada.
Tinha no prato uma FLOR,
um NAVIO na colher,
comia coisas lindíssimas sem saber,
mas ele queria lá sabor!
Até que um amigo com todas as letras
lhe ensinou a soletrar a sopa.
E ele passou a ler a sopa toda.
E até o peixe, a carne, a sobremesa, etc.”
Sopa de Letras de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça

Apenas em jovem adulto, descobriu o que viria a tornar-se um dos seus livros de referência – os livros do Winnie The Pooh, de Milne. Manuel António Pina admirava a espontaneidade, as aventuras e a coragem do Pooh, sendo ele um ursinho muito medroso e pouco prudente, mas que tinha uma relação com o mundo e consigo mesmo pautada pela despreocupação/descontração e a bondade. Manuel António Pina dizia que a bondade era a grande qualidade humana, razão pela qual, em criança, chegou a desejar ser santo. Para Manuela António Pina, o Winnie The Pooh  representa “uma imagem de um universo perdido, de um mito, de um passado dourado – que nunca existiu. É uma espécie de reencontro com a infância”

“A Ana quer
nunca ter saído
da barriga da mãe.
Cá fora está-se bem
mas na barriga também
era divertido.

O coração ali à mão,
os pulmões ali ao pé,
ver como a mãe é
do lado que não se vê.
O que a Ana mais quer ser
quando for grande e crescer
é ser outra vez pequena:

não ter nada que fazer
senão ser pequena e crescer
e de vez em quando nascer
e voltar a desnascer.”
A Ana Quer de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça

A infância – o deslumbre, o poder da imaginação e a liberdade da infância em que mundo pode estar e ser do avesso ou onde podemos viver de pernas para o ar ou na posição oblíqua com a inclinação que desejarmos. O espanto!

Imagem retirada da internet
“Basta imaginar,
um pássaro para o aprisionar,
e depois imaginar o ar para o libertar
e imaginar asas para ele voar
e imaginar uma canção para ele cantar.”
Basta imaginar de Manuel António Pina in O Pássaro na Cabeça

As possibilidades, o otimismo, as esperanças e as experiências que dominam e habitam no mundo das crianças.

” Virar o mundo de dentro para fora
e ver se o mundo assim melhora
e se nem assim o mundo melhorar
voltá-lo a virar, a virar, a virar
Tantas voltas o mundo há de dar
que alguma coisa se há de aproveitar
E se o outro lado pode ser pior
também pode muito bem ser melhor”
Manuel António Pina in O maior intelectual do mundo

Gostava muito de gatos e mantinha com eles uma relação um pouco melancólica  “quem me dera ter a tua inconsciência, e a consciência dela” –  Fernando Pessoa.  Era dono de vários gatos (dizia que em diferentes regimes: meia pensão ou pensão completa) e escreveu vários poemas e crónicas sobre estes bichanos.

“Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos
e de longe nos observa
(um deus que nos hospeda
e de longe nos observa
um deus que nos hospeda)

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão (e a ilusão) de que o tocamos
(e a ilusão e a ilusão de que o tocamos)”
Manuel António Pina

As suas crónicas eram sempre poéticas mas também versavam sobre a atualidade e o estado do país. “O país da falta de provas” assim se intitulava uma das suas crónicas publicadas, no JN, em 1988, e que foi a inspiração para  a uma das músicas da peça:

“Comemos e calamos
Calamos e andamos
Andamos e choramos

Vivemos no país da falta de provas
Vivemos no país da impunidade
O braço da justiça é curto e não alcança
E o chico esperto sabe e nunca pára a dança

E mesmo quando não faltam pormenores
De datas e locais, tantos pormenores
Nas rádios e jornais, tantos pormenores
As provas nunca chegam, são sempre menores

Arquive-se o assunto por falta de provas
Arquive-se o país e fiquem só trovas
Que falem de um país onde valia tudo
E muito esperto andava com pés de veludo

E não cai
Nem mesmo quando as provas são provas dessas provas
O esperto dança e não cai
Nem mesmo quando as provas são provas dessas provas
O esperto dança e não cai

Comemos e calamos
Calamos e andamos
Andamos e choramos”

“Falsas Histórias Verdadeiras” é uma viagem entre poemas musicados, histórias, peças e citações do universo de Manuel António Pina, mas sorri ao ouvir a letra desta música, pois não tive qualquer dúvida que tinha sido escrita pela Garota Não e o Manual de Leitura da peça confirmou-o (e que belos textos contém). Curioso que a crónica de 1988, que inspirou a letra, podia ter sido escrita nos dias de hoje exatamente com o mesmo título, mas com outras personagens principais.

A obra de Manuel António Pina está repleta de jogos de palavras, trocadilhos, uma espécie de lengalenga, humor, ironia, reflexões, questionamentos pragmáticos e filosóficos que mais parecem destinados a adultos do que a crianças/jovens.

A ideia do reencontro, do regresso a casa, de um lugar onde possamos repousar a cabeça, como alusão à infância e à morte, são centrais em toda a sua obra e na peça “Falsas histórias verdadeiras”.

“Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.”
Manuel António Pina in “Como se desenha uma casa”

Somos os livros que lemos, mas também os que não lemos porque a vida acontece nos entre meios e nem todo o saber (ser) está nos livros, a vida vive-se vivendo, porque como dizia Manuel António Pina “A gramática não chega para dizer tudo”.

Imagem retirada da internet

Os seus amigos dizem que tinha a caraterística de ser pouco pontual, mas quando chegava a primeira coisa que dizia era “Nem imaginas o que me aconteceu…” e é, precisamente, com esta frase que termina a peça “Falsas Histórias verdadeiras”.

Se conseguirem vão ver “Falsas Histórias verdadeiras” e mergulhem de alma e coração neste universo surpreendente do Manuel António Pina porque, com o próprio dizia, “a Historia da Literatura está cheia de livros para crianças lidos por adultos”.
Já tinha lido várias crónicas e poemas de Manuel António Pina, aliás li vários poemas dele aos miúdos quando eram pequenos, mas esta peça é uma viagem surpreendentemente MARAVILHOSA, é arte em estado puro. Ide ver!

OS MEUS MORTOS (crónica de Manuel António Pina in Visão, 14/06/2001)

“Durante grande parte da nossa vida, a morte é uma coisa alheia e distante que só vaga e incertamente nos diz respeito. Até que, um dia, damos subitamente com ela à porta da nossa própria casa e descobrimos então que sempre ali esteve.

Quando somos jovens e morrem os avós, ou os pais, ou os amigos dos pais, não é ainda a morte. Mesmo se um amigo morre, morre por acidente, morre por acaso, morre antes do tempo de morrer. A morte apenas começa a ter um rosto, o nosso rosto, quando, à volta, os amigos morrem tão-só de morrer e os motivos por que morrem são uma explicação, não uma razão.

A mãe de minha mulher costumava dizer: «Os meus mortos…», e eu não compreendia. Hoje, porém, também eu tenho mortos. Quando o Chico morreu escrevi um poema a que pus o título de «O mundo sem o Chico», porque, descobri, a sua morte tinha levado o mundo consigo e o que me restava era um outro mundo, desconhecido e desabrigado, onde penosamente aprendia a viver outra vida, a minha vida. Depois disso, muitos mais mundos se foram desfazendo diante de mim e, de cada vez, fiquei mais só do lado de cá de qualquer coisa.

Antes de morrer com 16 facadas, numa longínqua auto-estrada da Turquia, Sérgio escreveu-me uma última vez. Uma carta trivial, dizendo coisas triviais sobre coisas triviais, como se não tivesse ainda morrido. A notícia da sua morte chegara, no entanto, primeiro do que a carta. Que podia eu fazer com ela, com a carta, com tanto peso, com tanta desmesura? Também Fernando me escreveu antes de se enforcar. Mandou-me um cheque. Emprestara-lhe em tempos dinheiro e ele esquecera-se de que já mo havia pago e pagava-mo de novo. Que podia eu fazer com um dinheiro tão insustentável como aquele?

E com os seus nomes, que poderei fazer agora com os seus nomes? E que outro nome terão agora o Fernando, o Sérgio, o Chico, o Assis, o Arnaldo, a Marcela, o Luís, o Manuel Hermínio e os outros? Abro a minha agenda telefónica e estão ainda todos paradamente lá, os nomes que um dia tiveram. Que poderei fazer com eles? Riscá-los? Apagá-los? São agora aparentemente inúteis, esses nomes e esses números. E, contudo, ali permanecem, alguns há vários anos. Porque se trata, cada um, de uma questão comigo mesmo, uma questão insolúvel, ainda não encerrada. Todos os anos copio outra vez os seus nomes. Porque ainda não me conformei.

Há de facto na morte algo de injusto e de inaceitável, e as nossas lágrimas são, acho eu, tanto de revolta quanto de dor. Assisti outro dia ao enterro do Manuel Hermínio. Meteram-no num buraco fundo e imenso e, enquanto o Sol declinava lentamente atrás dos pinheiros, três homens despejaram sobre ele terra húmida e pedras. Como poderia conformar-me?

Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço.”

O coração ainda bate. A porta verde

“Durante muitos anos, a minha filha foi a única criança deste prédio. O bairro, nessa altura, estava mais adormecido. Vivera uma época áurea, mas entretanto perdera algum fulgor. O velho centro comercial, que, como muitos, tinha sido ponto de atracção e confluência de moradores e forasteiros, sucumbia, embalsamado, à espera de melhores dias. Mas eu visitava o bairro com espanto e admiração, nunca pensando que também eu, um dia, estaria a contar as histórias que se desenham a partir desta janela.

Viemos para cá com a minha filha a dar os primeiros passos, enfiada nos caixotes das mudanças, uma surpresa diária que é esse milagre de ver alguém a crescer e revelar-se. Lembro-me da alegria de dois moradores que ocupavam o andar de cima, eles muito velhinhos, e de o seu passo ser igual ao da Maria Inês: demoravam todos o mesmo tempo a subir as escadas; ela ensaiava o andar, eles temiam que as pernas lhes falhassem. Entre eles não havia só 80 anos de diferença, mas era sobretudo a consciência a separá-los. A minha filha ainda não conhecia a ideia do perigo ou a origem da dor.

Lembro-me desse casal enternecido, sobretudo ela, vendo que uma criança chegara por fim ao prédio. Mais tarde o prédio conheceu outros moradores, mais crianças, e hoje, no lugar desse casal que já morreu há muitos anos, vive uma família com dois filhos pequenos. No apartamento ao lado há outro bebé. No andar de baixo há três miúdos, que fui acompanhando pela correria, o choro e as gargalhadas.

O prédio renovou-se. A minha filha, que chegou cá ainda a tactear o espaço, sai agora de casa para ir para a faculdade.

Por estes dias dei-me conta de um momento muito especial, a que eu própria, há uns anos, não prestaria atenção. Uma das crianças, que tem agora um irmão bebé, regressa a casa do infantário e ainda da entrada do prédio começa a chamar pela mãe. Traz nele um entusiasmo e uma vontade, não só de chegar ao espaço que reconhece, mas, sobretudo, de voltar a ver aquela mulher jovem que eu ouvi vezes sem conta a cantar-lhe canções muito baixinho para o embalar. Eu própria ficava quieta à escuta, como se o embalo também me apaziguasse.

À tarde, muitas vezes quando o dia ainda parece feito de nada, o rapazinho sobe as escadas de mão dada com o pai e chama: “mãeeee”. E eu sorrio. Nunca tinha pensado nisto, mas há poucas coisas tão bonitas como ouvir uma criança que sobe as escadas ofegante, ansioso por voltar a ver a mãe e chama por ela, sem ter ainda vergonha que os outros percebam que precisa dela. E que aquele eco, que serpenteia pelo prédio, tem essa palavra mágica onde cabe a nossa vida: mãe.

Os prédios são pequenas amostras do mundo. Puzzles que ficam completos e que se desmancham, para os fazermos de novo. As histórias acabam e recomeçam. Chegam novos rostos, nomes diferentes, idades distintas e tudo ganha uma nova configuração. O velho centro comercial há anos que voltou a abrir e consigo cumprimentar e saber o nome de muitos dos seus ocupantes.

Este prédio está agora cheio de gente nova. Muitos deles serão um dia, espero, os adultos que abrirão a porta verde que dá entrada para o conforto que todos tentamos construir. Vivo sobressaltada com o mundo hostil que se vai erguendo, mas no meio de tudo isto, eu, mãe, a ver a minha filha de partida, dou por mim enternecida com o rapazinho que todos os dias traz, no seu bibe, os bolsos cheios de saudades.

O coração ainda bate.”
Inês Meneses in Público

Bonnie Scotland – VI

O número de cones de sinalização, na Escócia, é impressionante. Eles usam e abusam, tenho a sensação que os encontrámos por todo o lado amiúde. Para a mesma situação, usam 20 vezes mais cones de sinalização do que usaríamos em Portugal. Atenção que isto não é uma crítica, é apenas uma constatação colorida e curiosa.

Talvez seja essa uma das razões porque, em Glasgow, nos anos 80, começaram a aparecer cones de sinalização a decorar a estátua do Duque de Wellington, situada em frente à Galeria de Arte Moderna, numa das principais praças da cidade. Assim que os funcionários da câmara municipal de Glasgow retiravam o(s) cone(s) da estátua, nos dias seguintes, novos cones apareciam a (re)decorá-la.

Ao longo dos anos, a câmara municipal de Glasgow, para demover o que se tornou num “hábito”, ponderou: aumentar a base e a altura da estátua, colocar câmaras de vigilância, aplicar multas, tudo medidas rejeitadas, algumas com base em petições da população. Nunca ninguém foi apanhado com a boca na botija, ou melhor com a mão no cone e na estátua, pelas autoridades. A “arte” de colocar adornos na estátua foi e é um ato realizado na calada da noite e disfarçadamente.
Resumindo, a estátua  Duque de Wellington e os seus adornos tornam-se um símbolo de humor das gentes de Glasgow, a imagem de marca da própria cidade e transformaram a estátua numa verdadeira e famosa atração turística.
Os trajes da estátua do duque vão variando, adequando-se aos momentos que se vivem no mundo e na Escócia: a bandeira da Ucrânia (no início da invasão russa), a bandeira da União Europeia (na altura do referendo sobre o Brexit e quando este entrou em vigor), uma máscara (pandemia covid-19), o símbolo black lives matter (assinalando o início do movimento ou a razão), a bandeira da Escócia e um Yes (na altura do referendo sobre a independência da Escócia), bandeiras ou trajes de outros países (equipas que apoiam no Mundial de futebol, regra geral todas as que jogaram contra a Inglaterra), etc.

Para Banksy, o famoso artista de street art, a estátua do Duque com os seus adornos é a sua peça favorita de arte no Reino Unido. Esta é uma das razões referidas por Banksy para realizar, ao fim de 14 anos, a sua exposição – “Cut & Run”, na Galeria de Arte Moderna, que se situa na praça que alberga a estátua do Duque. Evidência: no banner, no exterior da Galeria, a letra A. no nome de Bansky, foi substituído por um desenho de um cone de sinalização. O facto dos autores das milhares de “vestes”da estátua permanecerem anónimos, bem como as suas mensagens e simbolismo, é algo que também caracteriza a forma de estar e ser de Banksy (como artista) e com a qual se deve ter identificado, digo eu.

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A moda de decorar estátuas com cones de sinalização espalhou-se a outras cidades da Escócia, nomeadamente a Edimburgo.

A Escócia não era selecionada há 28 anos para o Munidal e os adeptos da seleção (conhecidos como Tartan Army) invadiram e espalharam cones de sinalização (charme, música – vale a pena ouvir, boa disposição – “No Scotland, no party”, etc.) por várias cidades dos EUA, e parecem não ter deixado nenhuma cidade indiferente, com a sua energia e espírito. Parecem ter conquistado, em particular Boston , tendo sido assinado, no final do mundial, um acordo com a cidade de Glasgow para se tornarem cidades germinadas, assinalado com a entrega de um enorme cone de sinalização à Mayor de Boston que dizia “No Boston, no party”… e,no dia seguinte, lá estava um cone a dizer Boston na estátua do duque, em Glasgow. Quando os americanos lhes perguntam porque são tão diferentes os adeptos da Escócia respondem com naturalidade “Não há mais ninguém que venha ao mundial de kilt”, não há como não apreciar este ritmo imbatível.

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Ah, há quem diga que este hábito de usar cones como peças de adorno de estátuas começou e continua a ser o passatempo preferido dos transeuntes depois de uma noite nos copos.
Aprecio mesmo o sentido do humor e a simpatia deste povo… e a habilidade e o equilibrismo (o que com os copos é capaz de ser, ou de rapidamente se transformar, um sério problema)!
Nunca mais vou olhar para uma cone de sinalização da mesma forma (e dou comigo à procura deles por cá, são bem mais difíceis de avistar e não têm definitivamente o mesmo chamamento eheheheh).


Nota: a praça George, onde está a famosa estátua, estava em obras e vedada ao público, foi “inaugurada” 2 semanas depois do nosso regresso. O que não faltam são razões para regressar à Escócia, não sendo esta a melhor delas, é uma possível e qualquer uma me parece bem!!!

Ends and beginnings

Mochila às costa, no regresso de um piquenique com uma turma cinco estrelas, à porta da escola, despeço-me de alguns alunos, com um misto de nostalgia e de alegria do último dia de aulas, conversas, desejos, abraços e beijinhos, algumas lágrimas no canto do olho, apesar de na semana seguinte nos voltarmos a encontrar nas aulas de preparação para o exame nacional.
O meu telemóvel toca. É pequeno do meio.
“Olha para trás!” diz-me ele com um sorriso na voz.
Obedeço e lá está a ele a dizer-me adeus com um ar cheio de contente.
“Sai há pouco da minha última aula e estava aqui a ver-te, à tua espera. Como nunca mais te despachavas da conversa, tive que te ligar. Vamos para casa?”
Foi a minha vez de ficar com o coração quentinho e cheio de contente, face ao convite irrecusável e pouco comum, pequeno do meio tem tendência de não me ver quando nos cruzamos pela escola e suas imediações (o que compreendo).
“Então que tal foi a tua última aula do ensino secundário?” pergunto quando caminhamos juntos.
“Foi normal, nada de especial!” responde-me o moço.
Sorri, é a sua resposta típica desde sempre quando lhe pergunto qualquer sobre a escola ou as aulas, há conforto e familiaridade nas respostas comuns.
“E como te sentes de ser o último dia naquela que foi a tua escola nos últimos 5 anos?” insisto.
“Hummm,.. não sei bem. É estranho, mas ainda tenho os exames. E tu, porque é que estavas ali há tanto tempo com os teus alunos, eu bem te vi, não tiveste o dia todo com eles e não vais estar com eles para a semana?” responde-me o moço, sempre pragmático.
“Certo, mas acho que todos sentimos que hoje é o final de um ciclo!” respondo
“Mãe, já pensaste que viemos juntos a pé no meu 1º dia de aulas nesta escola e vamos juntos no meu último dia” diz-me, pensativo, pequeno do meio.
Seta direta ao (meu) coração, sem capacidade de resposta, para além de um olhar de sintonia que não precisa de legenda, nem palavras, reflete um caminho, literal e figurado, partilhado, embora nem sempre pacífico.
É nestes pequenos e raros momentos com filhos adolescentes que uma pessoa pensa que fez e/ou esta a fazer qualquer coisa bem.
Tão fofo e querido este meu filho pestinha, que sabe viver, tem o coração no sítio certo e uma sensibilidade que procura disfarçar.
Não disse, mas pensei, “No seu próximo primeiro dia de “escola”, não o vou acompanhar, pelo menos fisicamente… e provavelmente em muitos outros primeiros seguintes!”.
Esta semana, pequeno do meio lá foi, à receção dos caloiros, entusiasmado e cheio de nervoso miudinho. Temos mais um projeto na família (entendedores, entenderão)!
Ciclos que se fecham para nós (pais) e se abrem para eles… and life goes on!

Bonnie Scotland – V

A 120 metros de altitude, no cimo de um vulcão extinto, rodeado de penhascos verticais exceto numa das vertentes que é uma pequena colina cujo comprimento corresponde à maior milha do Reino Unido, porque mede exatamente uma antiga milha escocesa (que obviamente era maior que a milha inglesa) e que, desde o século XX, liga duas residências reais (a antiga e a nova), razão pela qual se chama Royal Mile, situa-se o castelo de Edimburgo, o monumento mais visitada da Escócia.
Na entrada do castelo de Edimburgo, a que chamam Esplanada, todos os anos, entre os meses de junho e agosto, há uma arena que se ergue e salta à vista de várias perspetivas e locais da cidade. Aos vislumbrá-la, fez-nos de imediato lembrar um campo de Quiditch, mas não foi nela que J.KRowling se inspirou, nada temam.

Esta arena temporária, com capacidade para 8800 espetadores, é um obra de engenharia que demora cerca 2 meses a montar e quase outros tantos a desmontar, todos os anos, dentro de num castelo que é Património Mundial da UNESCO. É nesta arena que, durante o mês de agosto, desde 1951, decorre o  Royal Edinburgh Military Tattoo, um espetáculos de bandas das forças armadas (com destaque para as tradicionais gaitas de foles e tambores escoceses), coreografias, dança folclórica, luzes, videomaping e fogo de artifício.

Tattoo é o nome do festival, mas contrariamente ao que o seu nome parece indicar nada tem a ver com tatuagens; o seu nome deriva de uma expressão dos Países Baixos, de meados do século XVII, aplicada a uma prática do exército inglês. Resumindo, a ordem de recolher dos soldados ingleses aos quartéis, nos Países Baixos, durante a guerra dos oitenta anos, era assinalada por uma marcha de tambores militares pelas ruas das vilas. Este rufar de tambores constituía também uma ordem para os taberneiros deixarem de servir os soldados ingleses. Tattoo deriva da expressão “doe den tap toe” que significa, em neerlandês, “fechem as torneira” (dos barris de cerveja ou vinho).  Os soldados ingleses ao ouvir, noite após noite, “doe den tap toe” aos taberneiros, não falando nem conhecendo a língua, soava-lhes a “tap-too” – com o tempo o p caiu e sobressaiu o som do t para facilitar a pronúncia. Foi assim que “tattoo ” ficou conhecido como o toque de recolher noturno das tropas e que hoje é associado a grandes desfiles e exibições de bandas militares, sendo o de Edimburgo um dos maiores e mais célebres festivais.

Não assistimos a nenhum espetáculo do Tattoo, mas apreciámos a arena e alguns elementos das bandas a passear-se pela cidade. Faça chuva, vento ou nevoeiro, afinal de contas estamos na Escócia, the show must go on, nunca nenhum espetáculo foi cancelado devido a condições meteorológicas.

Toque de recolher impregnado na pele – “A tattoo of  Tattoo”?!
Serei só eu que acho irónico que uma expressão de soldados ingleses dê nome a um dos maiores e mais famosos festivais da Escócia… e do seu género a nível mundial?! Sou assumidamente team Scotland

Bonnie Scotland – IV

O refrigerante mais consumido, pelos escoceses, não é a Coca-Cola, fazendo da Escócia umas das raras exceções à regra, a nível mundial.
O Irn-Bru é o refrigerante de eleição na Escócia. A Coca Cola surge em 2º lugar, mas o Irn-Bru leva-lhe uma grande vantagem, embora, desde 2018, esta tenha vindo a diminuir devido  a alterações feitas na receita original (a nível dos açúcares) o que “revoltou” os escoceses.
O Irn-Bru é  uma bebida gaseificada com uma cor laranja forte (tipo cor de cenoura), adocicada e que deve ser bebida bem fresquinha, sendo a descrição do seu sabor um eterno debate entre escoceses, que geralmente rematam com um “It just tastes like Irn-Bru”, e a marca aborda este debate em vários dos seus anúncios.

Para os escoceses, beber um Irn-Bru bem frio, ao acordar, depois de uma noite nos copos, é remédio santo, e meio caminho andado, para curar qualquer ressaca (do dia anterior).
Provámos Irn-Bru e… também tivemos dificuldades em identificar ao que sabe, é laranja, mas não sabe a laranja, é doce e pouco mais concluímos. Pequenada não apreciou, nós ficámos meio indiferentes, não achámos nada de especial, mas, verdade seja dita, não somos consumidores de bebidas com gás, pode ter sido esse o problema ou então não estarmos de ressaca eheheheheh…
Embora não tenhamos ficado fãs da bebida, constatámos que nas prateleiras e compras de supermercados, bem como nas mesas de café, era de facto o refrigerante predominante. No entanto, apreciámos  a história de uma bebida com um nome bem esquisito e um marketing imbatível e cheio de humor, da que é considerada, por muitos escoceses, a seguir ao whisky, a bebida nacional da Escócia.

O nome do refrigerante de eleição dos escoceses – Irn-Bru – não deriva do gaélico nem do escocês, mas do seu nome original em inglês – Iron Brew (“infusão de ferro”).
O Irn-Bru foi criado, em 1901, por Robert Barr, na empresa da sua família, em Glasgow, de águas minerais e refrigerantes, com o objetivo de criar uma alternativa revigorante e energética ao elevado consumo de cerveja (durante as horas de trabalho) dos operários dos estaleiros navais e das fundições de ferro.

A sua receita original continha vestígios de sais de ferro, facto utilizado na sua publicidade e que deu origem ao mais conhecido e antigo slogan da marca “Made in Scotland from Girders” – feito na Escócia a partir de vigas de aço. As campanhas publicitárias da marca, ao longo de quatro décadas, baseadas na história, cultura e no humor escocês, ajudaram a construir e a consolidar a imagem e a “adoção” do Irn-Bru com uma verdadeira bebida de identidade e orgulho nacional. A  expressão “Made from girders” tornou-se popular na Escócia e, atualmente ainda é usada em vários contextos para descrever algo extremamente forte, resistente ou genuinamente escocês.

Em 1946, devido a uma alteração da legislação britânica, o uso do nome original Iron Brew foi proibido, pois a bebida não era uma infusão (brewed) e continha apenas vestígios de ferro, logo o nome/rótulo não correspondia à composição da bebida. Num golpe de génio, Robert Barr, decidiu alterar apenas a grafia do nome para Irn-Bru (mas com uma sonoridade muito semelhante), eliminando o incumprimento legislativo, uma vez que a Irn-Bru não tem qualquer significado em inglês. 

A publicidade continuou sempre a ser original, irreverente, repleta de simbolismos escoceses e um forte aposta da marca que foi adaptando os seus slogan e anúncios aos tempos, não escapando a polémicas e ao politicamente correto. Por exemplo, alguns dos seus anúncios do início deste século seriam, hoje em dia, altamente polémicos, eu acho que são brilhantes… e um reflexo do humor escocês.

A campanha “Irn-Bru gets you trough” também tem vários anúncios hilariantes e polémicos.

A polémica/revolta, no último ano, foi o facto de publicidade do Irn-Bru deixar de ser feita por uma agência escocesa, The Leith Agency, responsável por anúncios icónicos nos último 30 anos, e passar a ser feita por uma agência londrina. O fabricante da bebida, a A.G.Barr,  justificou a mudança de agência como a necessidade de uma nova estratégia comercial (ou seja dinheiros), mas o mais provável é que o objetivo seja fazer aumentar e fomentar as vendas fora da Escócia, nomeadamente no mercado inglês, tornando os seus anúncios mais “abrangentes”. Para acalmar a indignação, a desconfiança e os ânimos dos escoceses, a agência londrina fez um anúncio  cujo slogan é “This is not a soft drink”, relembrando os slogans dos primórdios da publicidade da marca e a identidade escocesa. O anúncio é simplesmente genial e está lá tudo: a história, o orgulho e o sentido de humor escocês.

Mais recentemente, pouco antes do início do Mundial de Futebol, lançaram outro anúncio que também ajudou a pacificar as hostes.

O anúncio antigo, realizado pela agência escocesa há mais de uma década, e que todos os anos iniciava a época natalícia na TV e que ocupa um lugar especial no coração dos escoceses, é o do boneco de neve:


A Escócia é um país que transpira orgulho na sua história, cultura e tradições até mesmo num, e através de um, refrigerante com um nome esquisito, que todos bebem, mas que têm dificuldade em concordar ao que sabe. Não deixa de ser admirável!

Bonnie Sctoland – III

O monstro do Loch Ness é uma das imagens de marca da Escócia, achávamos nós.
Os nossos filhos, rapidamente, nos explicaram que não e que só nós é que poderíamos achar uma coisa dessas, eles adoram demonstrar-nos isto, vezes sem conta seja qual for a matéria ou o contexto.
Concluímos então que pimpolha mais velha já tinha ouvido falar do monstro, mas achava que era do País de Gales (nenhum escocês perdoaria este erro elementar) e os seus manos estavam a zeros (embora pequeno do meio nunca o confesse, cá por casa tem o cognome de “o sábio” ou “o sabichão” dependendo da situação, ele aprecia muito a deferência do 1º cognome).
Eu e Excelentíssimo Esposo ficámos intrigados porque, tanto eu como ele, tínhamos a sensação de “conhecer” o monstro do Loch Ness desde sempre. Puxando pela memória, chegámos à conclusão que, nos anos 80, havia uns desenhos animados sobre o monstro do Loch Ness e a sua familia, de seu nome “A família do lago” ou “Family Ness” no original britânico, que ambos víamos e apreciávamos. As internets não encontraram a série dobrada em português nem a música do genérico (arquivos da RTP, where are you?), mas os originais, em inglês, estão todos no youtube e, porque recordar é viver, já vi meia dúzia de episódios (e que bom que foi).

Os monstros destes desenhos animados tinham nomes muito bem conseguidos no original em inglês, até tinham um sabichão (eheheheh):
– Her High-Ness: a rainha dos monstros (a Sua Alteza – em português)
–
Silly-Ness: o monstro trapalhão (o Silvestre ou o Totó)
–
Clever-Ness: o monstro intelectual que usa óculos (o Sabichão)
–
Baby-Ness: o monstro mais pequenino da família e que usa uma chupeta (o Bebé)
– Ferocious-Ness: o monstro que tenta parecer assustador, mas é inofensivo (o Valentão)
– Arty-Ness: o monstro que adora pintar (o Artista)
–
Sad-Ness: o monstro que está sempre a chorar ou triste (o Tristonho)
– Speedy-Ness: o monstro mais veloz a nadar (o Veloz)
– Forgetful-Ness: o monstro que nunca se lembra de nada (O Esquecido)

Este mistério ficou resolvido e fica registado o que aprendemos, recordamos e permanece dos desenhos animados, após tantos anos, belos desenhos animados dos anos 80.

Já o monstro do Loch Ness continua a ser um mistério/mito muito bem explorado e com um merchadasing fortíssimo, onde se podem gastar centenas de euros entre cruzeiros para avistar o dito cujo e visitas a castelos (ou vestígios) ou à ilhas do rio Ness e afins.

A resolução do mistério está na geologia, o Loch Ness situa-se numa falha geológica (a Great Glenn), o que explica a sua grande profundidade e o seu formato (longo e estreito). A atividade da falha Great Glenn  alimenta o mito do monstro: pequenos sismos aquáticos podem provocar tremores e estrondos subaquáticos e libertação de bolhas de gás (agitação na superfície da água), para além dos ventos fortes e as correntes (frias e quentes) também podem ser a causa de alguns destes fenómenos. A cor escura da sua água deve-se aos sedimentos de turfa (resultantes da decomposição de musgos e urze) que são arrastadas pelas chuvas (muito frequentes nas Highlands) e ficam em suspensão no Loch e diminuem a visibilidade (dada a sua opacidade), sendo este também um fator que contribui para adensar o mistério.
A lenda moderna teve origem, numa fotografia de 1933, que, em 1994, se demonstrou que era o resultado de uma montagem realizada com um submarino brinquedo, mas em mais de 50 anos, a história propagou-se e foi uma grande impulsionador do turismo.
Resumindo, é, sem dúvida, bonito percorrer o Loch Ness (de carro), avistar o castelo Urquhart, ver as ovelhinhas e as pequenas aldeias, ver as eclusas em funcionamento em Fort August ou em Fort William, mas não é dos locais que mais impressionam ou recomendaria na Escócia.
O Nessie, como lhe chamam agora, não recolheu a nossa simpatia, ao contrário dos desenhos animados da sua família, nem os nossos €€€€. Gastámos “apenas” 8€ para estacionar a 1,5km e irmos à porta do castelo Urquhart, que mais nos pareceram apenas vestígios, e pela módica quantia de 75€ para nós os 5 (comprando online, no local era 86€), decidimos saltar a visita ao “castelo”. Valeu pela caminhada ao longo do Ness e as paisagens com muitas ovelhinhas.
Os miúdos também não conheciam o funcionamento das eclusas. Neste caso, os barcos estavam a passar de um lago “adjacente” ao Loch Ness, mas que se situava numa altitude mais elevada.
“Foi preciso vir à Escócia, para nos ensinarem e aprendermos isto! Como é que é possível?” observou pimpolha mais velha.
“Qualquer sítio é bom para aprender. Mau é não ter oportunidade ou não querer aprender.” respondeu-lhe Excelentíssimo Esposo. Foi recebida com um revirar de olhos típico de pimpolha mais velha e um “Desculpas, desculpas!”. Haja paciência…
Com filhos adolescentes, estamos sempre a falhar, faz parte, assim como faz parte, eles não perderam nenhum oportunidade de o demonstrarem, vezes sem conta independentemente do assunto.
Eclusas – estudámos e observámos todo o processo em direto em Fort Augustus, na esperança que a pequenada tenha registado na memória. O monstro do Loch Ness, o Nessie, nem vê-lo.

Bonnie Scotland – II

A nossa visita à Escócia em números:

  • 10 dias bem passados
  • 1260 milhas percorridas, cerca de 2016 km
  • 10 dias a conduzir do lado errado esquerdo da estrada, em que apenas 1 vez, à saída de um estacionamento, íamos entrando em contra mão (corrigido de imediato)
  • 5 é o número de estrelas que atribuímos à condução de Excelentíssimo Esposo do lado errado esquerdo
  • 10 dias a olhar primeiro para direita e depois para a esquerda na estradas e nos passeios
  • ZERO é o número de susto que Excelentíssimo Esposo apanhou ao conduzir do lado errado esquerdo e, atenção, as estradas rurais são fortes em termos de emoção/adrenalina e não são para gente desatenta ou pouco habilidosa
  • incontáveis são o número de “sustos” que eu apanhei quando me vi do lado errado esquerdo de estradas rurais e/ou sem bermas – sou uma caguinchas, não há volta a dar. Fiquei conhecida pelos meus saltos e pela minha expressão mais recorrente nas estradas rurais – “Vem aí um BIG”. Resumindo, eu é que prego valentes sustos a Excelentíssimo Esposo à esquerda… e à direita, a torto e a direito. É aceitar que dói menos!
  • Zero foi o número de mudanças colocadas com a mão esquerda, o nosso carro tinha mudanças automáticas, o que foi PERFECT, menos um ajuste a fazer na nossa mente. Quando fomos levantar o carro, ia tendo uma coisa má quando o senhor nos disse que o carro tinha mudanças manuais. Começámos logo a abanar a cabeça e a dizer que não era isso que tínhamos alugado, enquanto sacávamos do telemóvel para ver o contrato. O senhor olha para nós, durante uns longos segundos, com um ar muito sério e diz impávido e sereno: “Don’t worry, Your car has automatic transmission. I was only joking… and you totally fell for it! They always do, eheheheh! ” Voltei a respirar… e a apreciar o sentido de humor desta gente.
  • 9 numa escala de 1 a 10 é como avaliamos a facilidade de conduzir do lado errado esquerdo da estrada com um carro com mudanças automáticas. Superou largamente as nossas expectativas.
  • 30 km delinearam as pernas de cada um de nós
  • 6 autoestradas e mais de meia centena de estradas rurais e nacionais percorridas com mais de uma centenas de lochs, incontáveis munros, cascatas e praias a alegrar-nos a vista
  • 3 casas que fizemos “nossas”
  • 4 dias passados na nossa casa mais remota e que foi a nossa preferida
  • 4 cidades calcorreadas e dezenas de aldeias
  • 1 sessão de cinema em família para ver o “Braveheart” – Pequenada ofereceu resistência inicialmente, mas apreciou embora tenha achado muito “crú”
  • 2 livros lidos (eu) contra 1 lido por pimpolha mais velha
  • dezenas de episódios de séries e jogos (pequenada e Excelentíssimo Esposo)
  • 2 dezenas de sessões de Duolingo (a tradicional diária e as outras de Gaélico Escocês) realizadas por Excelentíssimo Esposo
  • 1 ilha visitada
  • 15ºC – temperatura média com que fomos agraciados
  • 2 dias em que não choveu
  • 4 dias em que não vestimos os impermeáveis
  • 1 dia em o tempo este realmente feio, cinzento e com pouca visibilidade. Era dia de caminhada, pequenada apreciou o cancelamento(menos uns km nas pernas)
  • 10 dias em que o sol esteve sempre presente ou deu um ar da sua graça
  • 0 dias de vento forte, 3 com vento (fraquinho)
  • 1 castelo visitado e uma dúzia “à porta”
  • 1 free walking tour realizada
  • 2 catedrais visitadas (1 protestante, outra católica)
  • 1 museu visitado – Museu Nacional da Escócia (um must)
  • 5 cemitérios por onde nos passeámos
  • 2 campus universitários que conhecemos
  • 1 concerto ao pôr do sol com vista sobre Edimburgo, no Calton Hill
  • Zero é o número de mergulhos que demos em lagos, cascatas e no mar – os escoceses são valentes em vários sentidos
  • incontáveis os miradouros onde parámos
  • centenas de parques de campismo por onde passámos e em cenários idílicos
  • dezenas de homens de kilt com quem nos cruzámos
  • uma dúzia de gaiteiros que ouvimos
  • centenas de vacas vislumbradas
  • milhares de ovelhas a pastar em todos os sítios onde passámos
  • 4 corços que nos (as)saltaram e atravessaram a vista
  • 2 esquilos vermelhos avistados a passear nos bosques
  • várias aves de rapina sobrevoaram as nossas cabeças
  • milhares de mosquitos e moscos (os famosos midges) que se nos (a)pousaram e nos deixaram cheios de comichões, embora não tenhamos sido mordidos.
  • 15 visitas a supermercados (Spar, Coop, Aldi, Lidl e Sainsburry)
  • 1 visita a um parque de esculturas no meio da floresta (recomendado por um tuga amigo que já por lá viveu), onde Excelentíssimo Esposo apelidou uma cabra de garganeira por estar a comer fora da cerca com tanta erva dentro. Depois de concluir que ela tinha era a cabeça “presa” na vedação, “salvou-a”, ajeitando e empurrando-a com força pelos cornitos, para espanto/consternação da plateia
  • 4 a 5€  por um café
  • 2€ por 1,5 litro de água no supermercado
  • 2,5€/kg maçã
  • 3,5€ uma dúzia de ovos
  • 450€ gastos em supermercados
  • 3 visitas a bombas de gasolina
  • 1,90€/litro de gasolina
  • 200€ gastos em gasolina
  • 250€ investidos em visitas culturais
  • 20€ em deslocações em transportes público (o metro de Glasgow é muito fofo/pequenino e com uma linha circular e mais do que “Mind the gap” é importante lembrar “Mind the head”
  • 30€ em estacionamentos vários
  • 1 numa escala de 1 a 10 a dificuldade em perceber as interações com os escoceses, embora na zona de Glasgow o sotaque seja mais cerrado. Piada típica dos escoceses sobre o seu inglês quando os estrangeiros pedem desculpa por não os terem entendido “The problem isn’t your English, we are the ones with the bad English, who speak it wrong!”. Não sei se já mencionei que aprecio muito o sentido de humor deste povo.

Números e algumas estimativas sobre a Escócia

  • 1 de 4 países que integram o Reino Unido
  • 3 são as zonas em que está dividida, a norte, as Highlands, as zonas planas e mais populosas (como Edimburgo e Glasgow) integram o Central Belt e, a sul, temos Southern Uplands
  • 50% do seu território situa-se nas Highlands
  • 32 “concelhos”
  • 57 452 quilómetros de estradas, mais de metade deles são estradas rurais e apenas 7% são em estradas principais
  • 20 mph (aprox. 32 km/h) é o limite de velocidade dentro das localidades
  • 60 mph (aprox. 96 km/h) é o limite de velocidade nas estradas rurais com uma única faixa (ahahahahahahahah)
  • 70 mph (aprox. 112 km/h) é o limite de velocidade nas autoestradas e vias rápidas
  • 8 cidades
  • 31 000 lochs
  • 230 metros de profundidade máxima tem o Loch Ness, 132 metros de profundidade média, é o lago com maior volume de água e o 2º lago mais profundo da Escócia
  • 900 ilhas e ilhéus (apenas cerca de 10% são habitadas) divididas em 3 arquipélagos
  • 282 munros
  • 3 000 castelos, onde apenas 750 estão intactos e mais de metade são apenas vestígios arqueológicos
  • 12 a 24£ – variação do preço de 1 bilhete para visitar os castelos mais conhecidos
  • 1,2 é o número de vezes que, em termos de área, Portugal é maior que a Escócia
  • 5,5 milhões de habitantes, cerca de 30% vivem nas Highlands
  • 4 línguas oficiais
  • 10 000 gaiteiros (de foles)
  • 13% da população possui cabelos ruivos (natural). É, mundialmente, o país com maior percentagem de pessoas com cabelo ruivo, seguido da Irlanda
  • 40% da população é portador do gene (recessivo) do cabelo ruivo
  • 15ºC a 17ºC de temperatura média nos meses de verão
  • 200 dias/ano, em média, de chuva (varia consoante as zonas)
  • 270 clãs históricos com brasão e tartan
  • 10 000 tartans registados
  • 150£ para registares o teu próprio tartam
  • 6,5 milhões de ovelhas
  • 1,65 milhões de vacas
  • 14 raças de cães escocesas, entre elas o tão popular e conhecido Golden Retrevier (para além dos Terriers e os Collies)
  • 154 destilarias ativas
  • 400 anos sem celebrar o Natal (Yule). Foi proibido com a Reforma Protestante (século XVI – iniciada por John Knox), o natal foi um dia normal de trabalho e só voltou a ser um feriado nacional em 1958.  Razão pela qual as celebrações do ano novo (Hogmanay) se tornaram tão efusiva na Escócia – válvula de escape para celebrar o Inverno e trocar presentes

  • 292 anos sem Parlamento (de 1707 a 1999). Com o Tratado de União, que fundiu os reinos da Escócia e de Inglaterra, todos os poderes legislativos foram transferidos para o Parlamento da Grã-Bretanha, em Londres. Decisão muito impopular na Escócia, mas o país estava à beira do colapso financeiro e a a Inglaterra ofereceu uma enorme compensação financeira em troca da união… Após o resultado do referendo realizado em 1997, a Escócia voltou a ter o seu próprio parlamento, em 1999, com poderes legislativos na área da saúde, educação, justiça, habitação, ambiente, agricultura, cultura e desporto
  • 36 anos (de 1746 a 1782) de proibição, do governo britânico, do uso de kilts, tartans, armas e gaitas de foles (foram consideradas armas de guerra), com exceção para os Highlanders que se alistassem no exército britânico que tinham autorização legal para, em guerras, no estrangeiro, usar o kilt e tocar gaita de foles (razão pela qual ficaram conhecidos mundialmente).  Terminada a proibição, o kilt nunca mais voltou a ser uma roupa do dia a dia, passou a ser um símbolo de identidade cultural e orgulho nacional, usado em celebrações e ocasiões especiais. O principio do fim dos clãs surgiu, em 1747, com a retirada, aos chefes dos clãs, do poder legal e judicial sobre as suas terras e de governar o seu povo e convocar o seu próprio exército. 

Bonnie Scotland – I

Luxuriantes montes verdes, vales e fadas, lagos e monstros, castelos e clãs, gaitas de foles e guerreiros envergando kilts (identificando-se pelo o seu tartan), lealdade, traição e vingança (entre clãs), resiliência, luta, independência e liberdade (em relação ao domínio inglês), tradição e identidade cultural, lendas e superstições numa terra em que o sol brilha apenas nos pequenos intervalos das nuvens cinzentas, da  chuva abundante e do frio intenso, o sotaque cerrado e difícil de entender de um povo simpático e acolhedor. Impressões e ideias que tinha antes de visitar a Escócia com base nas dezenas de romances históricos que li (em inglês).

Li os livros do Outlander (que recomendo muito) meia dúzia de anos antes da série televisiva sair e que eu não vi, pelo que não os associo a nenhum local específico da Escócia. O mesmo sucede com os livros do Harry Potter (li todos), mas como só vi o 1º e o 2º filme (e não apreciei), não os associo à Escócia, mas “apenas” à minha imaginação e construção mental. É inegável a visibilidade e a importância turística que estas duas obras assumem para o país e a “indústria” e imagem construída em seu torno. Nada contra, só não dou para esse peditório (fica o aviso à navegação), a Escócia habita, há muito e merecidamente, o meu imaginário e, agora, a minha memória e coração.
Dos livros (em inglês), ficaram-me algumas palavras que, pelo contexto, era fácil perceber o significado: loch, aye, laird, kirk, munros, glen, wee, bonnie, lad(die), lass(ie), bairn, crabbit, braw, numpty, scran, hogmanay, tatties e haggis . Nestas férias, na Escócia, aprendi que integram o dicionário do Scots (escocês, falado por 30% da população) – uma das quatro línguas oficiais da Escócia, desde 2025, juntamente com o gaélico escocês (falado por 1,1% da população, especialmente nas Highlands). As outras duas línguas oficiais são o inglês (falado por 99% da população) e a língua gestual  britânica.
Na Escócia, qualquer informação ou placa oficial vem escrita em duas línguas: inglês e gaélico escocês.

Significados:
Loch –  lago ou braço de mar estreito
Glen –  vale profundo rodeado de montanhas
Munros –  montanhas com mais de 914 metros (3.000 pés) de altitude
Laird – proprietário de terras
Lad (die) –  menino
Lass (ie) –  menina
Bairn – criança ou bebé
Wee – pequeno
Bonnie – bonito ou belo
Braw – excelente, magnífico
Crabbit – rabugento ou mal-humorado
Aye – sim
Kirk – igreja
Numpty – tonto
Scran – comida ou petisco
Hogmanay – véspera de ano novo e as suas celebrações tradicionais
Tatties – batatas
Haggis – prato tradicional escocês feito com miudezas de carneiro cozidas no estômago do animal

Robert Burns (1759–1796) foi uma poeta escocês que, numa altura em que o inglês se estava a impôr como língua oficial, escreveu toda a sua obra (poesia, sátira e letras de canções) em escocês, mantendo assim a língua viva, salvando-a do esquecimento nacional e internacional. É conhecido como o Poeta Nacional da Escócia e a sua obra mais famosa mundialmente é a canção do Ano Novo (Hogmanay) chamada “Auld Lang Syne”.


A origem do nome de Scotland é curiosa e deve-se ao facto de, nos séculos IV e V, alguns gaélicos irlandeses (os Scoti, a Irlanda na altura era conhecida por Scotia) se terem estabelecido na costa oeste da Escócia e, com o passar do tempo, passaram a ser o grupo territorial e culturalmente dominante. No século XI, o país era conhecido por “Scot+Land”  – a terra dos Scoti – e Scotland ficou. Alba é o nome em gaélico escocês para a Escócia e significa “mundo luminoso” ou “terras altas”.

A Escócia não deve ser um périplo de cidades, castelos ou marcos, é um destino para apreciar devagar (até porque as suas estradas rurais não permitem outra coisa), não há fotografia que capte ou abarque a beleza das suas paisagens e das suas inúmeras cascatas, é ficar deslumbrada não a cada curva, mas na maioria, com as suas pequenas e pitorescas aldeias, com o sentido de humor das suas gentes, com as bandeiras do país semeados um pouco por todo o lado (ehheheh, para relembrar os mais distraídos, e não só, que não são nem nunca foram ingleses – William Wallace (filme Braveheart) e o Robert – The Bruce são verdadeiros heróis nacionais).

Marcos e celebrações
Loch Lomond é o maior lago escocês (em extensão) e marca a transição de paisagens entre as duas regiões da Escócia (as Lowlands e as Highlands) e dá nome a uma das mais conhecidas canções tradicionais escocesas que é tocada para encerrar festas de fim de ano (Hogmanay), de casamentos, funerais, bares, festivais de música e é cantada pelos adeptos de futebol durante os jogos da seleção escocesa – é um hino não oficial de despedida, de celebração e orgulho nacional. A despedida perfeita… até ao próxima post “Bonnie Scotland – II”

Misturas e essências

“As minhas amigas disseram que tu e a avó são muito parecidas!” diz-me, com a seriedade que a caracteriza, pimpolha mais velha, no regresso de uns dias de férias com as suas amigas.
“Ah, sim?! Então?” questionei curiosa.
“São as duas muito simpáticas e estão sempre a rir-se… segundo elas.” informa-me, solenemente, pimpolha mais velha.
“E a mim? Também me acharam parecida com elas?” pergunta, esperançosa, pimpolha mais nova.
“Não sei, não me disseram nada!” responde pimpolha mais velha, dando a conversa por encerrada.
“Então, e a ti, acharam-te parecida comigo e com avó?” pergunto-lhe, sorrindo e não resistindo à oportunidade de a provocar.
“CLARO QUE NÃO!” responde-me, revirando-me os olhos, chocada só com a ideia de alguém ter ponderado tal hipótese – a ousadia, a blasfémia.
Eu e pimpolha mais nova olhámos uma para a outro e rimo-nos com vontade.
“São muito engracidinhas vocês as duas, é que são mesmo!” diz, para lá de possessa, pimpolha mais velha, zarpando a todo o vapor.

Cúmulo da ironia

Regressar de uma visita a terras de sua majestade, neste caso da Escócia, e apanhar a grande e verdadeira molha das férias, em Lisboa, no caminho do aeroporto até casa, em pleno mês de agosto. Chegámos a casa completamente encharcados, envergando os nossos impermeáveis e sweatshirts, que levámos nas malas, a pensar nas Highlands (onde o sol brilhava).
Um otimista diria que foi uma chegada abençoada de umas belas férias em que tivemos muita sorte com o tempo… e não se enganaria!

Lembretes e curiosidades

Duas visitas, milhares de pessoas, uma dúzia de reencontros regadas de conversas infinitas e sorrisos, vislumbre de duas dezenas de figuras da nossa praça, um tripa de ovos moles, meia dúzia de quilómetros nas pernas, uma dezena de horas, um litro e meio de água, três sacos e vinte e cinco livros comprados (calma, alguns são para oferecer) – 19  de escritores portugueses, bem mais de uma centena de euros investido, foi assim, em números, este ano a minha Feira do Livro.
Leio,preferencial e essencialmente, no meu Kindle, do qual sou fã e sem o qual não saio de casa, mas ir à Feira do Livro é sempre um deleite.

Dois livros oferecidos, quatro livros lidos e verdadeiramente apreciados é o balanço à data. Mantendo o ritmo, a pilha ameaça desaparecer num esfregar de olhos.
“Da minha janela” de Luísa Sobral foi um dos livros que comprei na Feira do Livro e já li e recomendo (leve e divertido, como se quer o dia a dia).

“Comecei a escrever crónicas sem ter sido convidada por um jornal para o fazer. Fi-lo porque senti que a crónica é um ótimo exercício, não só de escrita, mas de observação. Escrever crónicas muda a nossa maneira de olhar o mundo, faz-nos procurar o desequilíbrio, o humor, a insatisfação, a beleza, faz-nos correr mais riscos. faz-nos ser mais ridículos, metermo-nos propositadamente em situações inusitadas, tudo em busca da crónica perfeita. Desde que me dedico a esta arte que fico feliz quando algo absurdo me acontece, vibro com cada episódio inesperado, aponto num caderno todos os momentos constrangedores e todas as minhas indignações. Chego até a perguntar-me se escrevo sobre aquilo que experiencio, ou se experiencio apenas para poder escrever. Não sei. Sei somente que escrever crónicas me dá prazer, me faz pensar sobre os assuntos de uma forma mais profunda e estruturada, me faz rir e chorar. É isso que vão encontrar neste livro: o meu humor, as minhas inseguranças, as minhas angústias e tudo o que há em mim de mais ridículo. Tudo visto da minha janela.”
Luísa Sobral in “Da minha janela”

Ao ler esta Nota inicial do livro, dei comigo a pensar “Foi também por isto que criei um blogue… que agora está quase ao abandono, snif, snif, snif, mas do qual gosto muito e onde me dá muito prazer escrever”.
Como a Luísa Sobral, também anoto ideias num caderno (bem giro do Snoopy) ou nos rascunhos do blogue, histórias não me faltam, mas a vida com as suas cenas e coisas e três filhos adolescente consumem muita da minha energia (que não abunda nesta fase). Prometi a mim mesma fazer um esforço para voltar à escrita no blogue e… ando há uma semana para escrever este post eheheheheheh. Ainda assim tive mais sucesso do que na minha decisão de fazer exercício físico regularmente, força de vontade pelas ruas da amargura, é o que é! Por outro lado, faço apenas e só aquilo que realmente me apetece, perspetivas!


“Boa tarde! Sabe-me dizer onde posso consultar os eventos que estão a ocorrer na Feira do Livro? Tenho interesse em um e precisava de saber onde e a que horas será!” pergunta um famoso jornalista, diretor e comentador da SIC a uma das funcionárias do pavilhão da editora Penguim.
“O mais fácil é consultar a agenda no site da Feira do Livro!” informa-o a simpática funcionária com um sorriso nos lábios.
“Ahhh… a Feira do Livro tem site? Obrigada, vou então ver!” diz o famoso comentador da SIC que domina toda a atualidade, mas para quem esta cena de divulgação e publicação na internet parece ser uma novidade.
Esta interação ocorreu mesmo ao meu lado e não consegui evitar rir-me, eu que tinha estudado os livros do dia e a localização dos que me interessavam (tudo, imagine-se no site da Feira do Livro) e tinha tudo guardado no meu telemóvel.
“O Rodrigo vai estar no pavilhão da Leya!” ouvi, uns minutos depois, o famoso comentador dizer para a sua companheira.
Famoso comentador e diretor da SIC, à caça de um autógrafo do seu colega de estação Rodrigo Guedes de Carvalho, descobre o site da Feira do Livro.
Curioso, muito curioso!

25 de abril

Não sei se é o dia mais bonito do ano, mas é certamente o feriado nacional com maior significado e importância e as suas comemorações refletem exatamente isso, são de todos e para todos.
Este ano, desci a avenida entre amigos, pequenada não me quis acompanhar (estavam muito cansados… de ser jovens) e Excelentíssimo Esposo tinha outros compromissos inadiáveis.


Emociona-me sempre o mar de gente, mas especialmente a diversidade: de género, de idades, de origem, estado civil, de estilos, de ser e de estar. Os cartazes que se agitam no ar são também um reflexo dessa enorme diversidade e da forma como cada um sente e vê a sua liberdade – e pensar que antes do 25 de abril nada disto seria possível.
A energia e a alegria são contagiantes: os sorrisos são uma constante neste dia, dos mais tímidos aos mais exuberantes, os abraços são mais que muitos e testemunham-se bonitos reencontros.
Há quem dance, há quem cante, há quem só entoe, há quem grite palavras de ordem, há quem só observe, há quem siga numa conversa animada, há quem apenas caminhe, há quem desça a avenida na estrada e há quem o faço nas laterais ou no passeio, há quem vá matando a sede com uma cerveja e quem o faça com água, há quem nunca sinta necessidade de matar a sede, há quem deixe verter uma(s) lágrima(s) de emoção ou apenas porque não escapa às alergias (e as árvores da avenida não perdoam na primavera), há os que levam cartazes e t-shirts alusivas e há quem se entretenha a lê-los, a fotografá-los e a apreciar a criatividade e está tudo bem, amigo não empata amigo, o espiríto é de união e comunhão. É bonito, pá!

No entanto, há algo que todos têm em comum: o cravo – o símbolo da liberdade conquistada com o 25 de abril (e que incompreensivelmente tanto irrita alguma malta de direita).
Há cravos de todos os tamanhos, feitios e formas, como as pessoas: há cravos posicionados em todo o lado (direito, centro, esquerdo): na mão, nos cabelos, nas lapelas, nas t-shirts, nas calças, nos cintos, nos sapatos, como se deseja numa democracia, há quem leve um, há quem leve vários e ser livre também é isto: ter à disposição uma panóplia de opções e escolher conforme nos apraz (n)o momento.
No fim da festa, junto a Santa Apolónia, ao comer um gelado servido por um simpático rapaz brasileiro, ele curioso pergunta “O que é esse “negocinho” vermelho que todo mundo traz hoje, essa espécie de rosa vermelha?”

Algumas minhas, outras de amigos e outras fotografias surripiei nas redes sociais.
Na praça do Rossio, depois da descida, houve coros e cantos:

“Quem, e como, seria eu se tivesse vivido antes do 25 de abril?” dou comigo a pensar. Gosto de pensar que seria corajosa e que de alguma forma faria parte da resistência, mas sei bem que não é inócuo ser desbocada e ter uma posição de(s)marcada em democracia, mas está a anos luz de o ser em ditadura onde pode ser fatal. O mais provável era ser apenas uma resistente silenciosa, como as minhas avós e tantas outras mulheres, mais uma sobrevivente, subserviente com poucos estudos – “produto” da miséria e de todas as restrições impostas pela ditadura.
O meu pai, na sua publicação dedicada ao 25 de abril, em poucas palavras, diz tudo:
“Hoje todos têm muito que dizer.
Até parece que quem não diz
Não é. Para ser alguém. É preciso dizer, comunicar.
Perdemos a capacidade de fazer silêncio.
Quem não consegue fazê-lo, não cria o hábito de não dizer.
Perdemos o hábito de calar.
Mas sem o calar e o silêncio que criam as condições para a escuta,
Não há quem ouça o que se diz.
Não há comunicação.
Hoje, basta-me a escuta.
Espraiar o olhar e saborear
O que esperei e o 25 de Abril me ofereceu.
Ilusões? Algumas.
Promessas por cumprir? Certamente.
Desilusões? Qb.
Preocupações? Muitas. Mas quem as não tem?
Alegrias? Incontáveis.”
Agitando as águas, despertando mentes, fazendo perguntas difíceis, em torno dos livros e da sua censura, a distinção entre a obra e o seu autor (ideias e ideais), quando a realidade se mistura com a ficção, como escolher entre um bom livro escrito por uma “besta” ou um livro sem interesse escrito por uma boa pessoa e se não lemos os livros de algumas “bestas” como sabemos como pensam, entre o cancelamento e a censura e quem o faz, como, quando e a as suas justificações, entre as bibliotecas queimadas ao longo da História, o apego e amor aos livros, a importância dos livros como detentores da nossa História e constituintes da história pessoal de cada um de nós, as estratégias para preservar os livros que alguns desejam “queimar” … A prova de que a arte também pode ser um valente exercício de questionamento e resistência mas, essencialmente uma chamada de atenção  para a importância da liberdade de quem escreve, mas também de quem lê e o perigo dos movimentos de censura que depois de “acesos” rapidamente se descontrolam e a razão que alguns sentem em controlar e apagar determinadas leituras, o papel de quem não se conforma, se revolta e resiste – a peça Burn Burn Burn, inspirado no livro Fahrenheit 451, na Culturgest, foi tudo isto e mais, foi também uma bela forma de iniciar as celebrações do 25 de abril.
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Para terminar em grande, e no verdadeiro espírito de Abril, um concerto gratuito da Garota Não com o Coro das Mulheres da Fábrica (eram 60 em palco) dedicado ao tema da Liberdade.  Não há nada que esta garota não faça bem, sem protagonismos, deu palco às suas companheiras e juntas deram voz a um verdadeiro medley (não da Broadway, isso é mais para a ruralidade que (co)habita em São Bento) de hinos à liberdade desde John Lennon, Simone de Oliveira, Zeca Afonso, Bob Marley, Patti Smith, Sérgio Godinho, Censurados e imagine-se Rage Against the Machine. Os cravos, distribuídos à entrada, foram, mais que os telemóveis, o que mais marcou a paisagem e o ritmo. Mais uma vez, um espetáculo lindo e emocionante, cheio de entusiasmo e contentamento por parte de quem cantou e de quem assistiu. Completamente rendida ao talento imenso e entrega desta nossa Garota Não à e na “luta”.

Agora é continuar, regando todos os dias este nosso abril, procurando e escolhendo sempre fazer a diferença, das pequenas às grandes coisas, para melhorar o mundo que nos rodeia; optando por ter voz, em vez da indiferença mascarada de silêncio ou falsa empatia.
Um bonito texto sobre o abril.

Nota (que dava um novo post, mas não me apetece):
Que bonito e verdadeiro foi discurso o do Presidente da República, surpreendeu-me. Vamos ver o que fará se o pacote laboral for aprovado, a sua primeira e verdadeira prova. Colheu o meu voto, mas ainda não me convenceu.
O Presidente da Assembleia da República, centrou o seu discurso no dia 25 de abril, na vitimização dos deputados: a desconfiança dos portugueses relativamente aos políticos, o escrutínio a que estão sujeitos (a corrupção tem dos níveis mais elevados na Europa e os casos e casinhos são mais que muitos, e alguns envolvem o primeiro ministro),  refere as casas de banho e os elevadores das casas (e o Montenegro sorri, satisfeito),  se vão a hospitais públicos ou privados e qual é a pulseira que lhes é atribuída, faz menção na melhoria dos seus salários para atrair os melhores (então e os médicos, os enfermeiros, os polícias, os professores e tantos outros no sector público e onde há verdadeira carência de profissionais??), nos cargos que não podem aceitar por terem sido deputados na transição do público para o privado e vice versa ou aos que têm que “renunciar” de “bens” para serem deputados (ou primeiros ministros) devido ao conflito de interesses. Pena e curioso, não ter referido a legislação que produzem a aprovam em causa própria, como subvenções, abonos e serventias. Do seu discurso, aproveitam-se os últimos 2 minutos quando fala de uma estudante de mérito e com um futuro promissor de origem humilde, um fruto de abril. Não há melhor demonstração de que Aguiar Branco vive na bolha e faz parte da elite (o que inicialmente parecia querer contrariar no seu discurso) do que, dado o estado da nação – as crises na saúde, na habitação, o custo de vida, etc – o seu discurso ser quase todo dirigido à sua bolha, sendo transparente na opacidade que defende para a sua bolha.

“Troquinhos, vulgo Moedas, ouviste e viste que bonita foi a festa no Largo do Carmo, às 00h00 do dia 25 de abril? Podes “cancelar” as comemorações do 25 de abril, como o concerto do Terreiro do Paço da EGEAC e as festas populares no Largo do Carmo, ou passar a chamar-lhes festa da primavera para comemorar a chegada do bom tempo, das flores, do sol e a vontade de sair de casa e sei lá mais o quê e até apoiar um Chic-Nic , que aplicam-se-te na perfeição as palavras da Garota Não
“Podem decretar o fim da arte
É como decretar o fim da chuva”
Há sempre alguém que sonha em qualquer parte
E a nossa voz nunca será viúva
(…)
Podem decretar mandar calar-tе
Dizer que a nossa voz é um enguiço
Podem decretar o fim da arte
E a gente faz uma canção sobre isso” 

20

A felicidade de a ter nos braços e aqueles seus olhos a observarem-me com atenção, veio acompanhada do peso da responsabilidade e o medo de ter alguém totalmente dependente de mim e as inseguranças típicas de uma mãe de 1ª viagem.
Lembro-me de, ao sair da maternidade, pensar “E agora? E se lhe acontece alguma coisa e eu não sei o que fazer?”.
Foi com ela que aprendi a ser mãe, não a melhor, mas a possível e hoje, vinte anos depois, com mais dois filhos,  o pensamento que tive à saída da maternidade assola-me frequentemente, por motivos diferentes…
Desde bebé, nunca gostou muito de dormir de dia, gostava de companhia, conversa e brincadeira e observar o mundo sentada na sua espreguiçadeira, mas especialmente ao meu colo. O avô A. dizia, muitas vezes, ao mirá-la ” Ela sabe bem que quem muito dorme, pouco aprende”.
Gostava dos seus, mas só dos seus, chorava desalmadamente  se alguém estranho se aproximasse, lhe tocasse ou lhe falasse, um verdadeiro bichinho do mato. Obviamente que a adaptação à creche foi do demónio, ao fim de 6 meses resignou-se, mas não aceitou.
Franzia o nariz de uma forma engraçada quando algo não lhe agradava. O meu mano acusou-me de ter sido eu a ensinar-lhe, porque parece que faço exatamente a mesma coisa e dizia “Uma criança tão bonita a fazer uma expressão dessas, não faz sentido…Pára de lhe ensinar isso!”. Pimpolha mais velha ainda hoje franze o nariz daquela forma peculiar quando algo não é do seu agrado.
Parece já não apreciar o meu colo, os meus abraços e beijinhos, por estes dias, não sorri com frequência (ou a que eu gostaria), irrita-se facilmente e sou o seu alvo preferido para comentários sarcásticos e acutilantes. Irrito-a como ninguém e nem preciso dizer nem fazer nada (basta respirar ou aparecer), são fases (umas mais fáceis que outros). Freud é capaz de explicar isto… ou não. Dos três, é a que tem um feitio mais parecido com o meu, talvez essa seja parte da razão, talvez….
“Gosto muito de ti, por mim e por ti” era o que lhe dizia quando era mais pequena e durante as suas birras me atirava com “Já não gosto mais de ti” ou, aos 4 anos, quando me disse “Tu és pior que a bruxa má da Branca de Neve”. Hoje, continuo a responder-lhe exatamente o mesmo, o sentimento mantém-se verdadeiro e imagine-se… irrita-a!
“A vida não é um morango!” é o que ela diz muitas vezes, parece que é uma expressão que está em voga entre a malta jovem. Confirmo, a vida nem sempre é fácil, mas não há mal que sempre dure e bem que nunca acabe!
É esperar pacientemente que passe esta veneta a quem é e será sempre, e para sempre, o meu primeiro amor incondicional e sem limites.

Dedicada a pimpolha mais velha, ontem, hoje e sempre:

Música, viagens, saudade(s)

Há músicas que associarei sempre a determinados livros, outras músicas que são o retrato perfeito de determinadas fases da minha vida e outras que me transportam para determinadas viagens/férias que fizemos.
“Days We Left Behind” é uma música de Paul McCartney e ouvi-a, pela primeira vez, numa rádio italiana. A simplicidade e a beleza da letra e do som, levaram-me à pesquisa no youtube e fiquei surpreendida porque foi lançada no início deste mês. A letra, escrita por Paul McCarteney, retrata as suas memórias e relação com os Beatles, mas tem uma melodia e letra onde qualquer pessoa se consegue rever – a magia da música (e qualquer outra forma da arte), ter um significado único para cada um de nós, mas tocar-nos a todos, embora de diferentes maneiras.

“(…)
Nothing ever stays
Nothing comes to mind
No one can erase
The days we left behind
(…)
And nothing stays the same
No one needs to cry
Nothing can reclaim
The days we left behind
(…)”

Esta é a música que associarei sempre à Páscoa de 2026 e à viagem a Roma e ao sul de Itália com a “pequenada”, onde dei comigo a pensar várias vezes, (mais do que as que gostaria), como, em termos de logística, era tudo mais difícil quando eles eram pequenos, mas, ao mesmo tempo, tão mais fácil na gestão de emoções, conflitos, interações, expectativas… enfim, coisas de viajar e viver com 3 adolescentes com as hormonas aos saltos e as minhas em declínio.
Se tivesse que associar uma palavras a esta música seria “SAUDADE”.
Sim, tenho saudades de muitas pessoas, momentos que vivi e… dos meus filhos numa fase não aborrescente.

“Talvez a saudade seja mais uma forma de presença do que de ausência. Talvez a saudade não tenha que ver com o que se perdeu, mas com aquilo que não é possível deixar para trás. Ter saudades é ter dentro do peito o que se ama. É uma forma de não deixar o tempo passar, mesmo que os dias tenham passado. As saudades são o coração ser o mesmo quando nada voltará a ser o mesmo.”

surripiado a Lado a lado

Carta branca – Uma vulgar mulher extraordinária

Iniciou com o fim, a morte de Fernanda, a sua mãe, do funeral, ficou-lhe na memória o som incessante da retro-escavadora a abrir novas sepulturas, ainda a sua mãe não tinha descido à sua; a pressa do padre porque estava outro funeral a chegar. Sem tempo para contemplações, grandes gestos, bonitas leituras… A vida não pára, é assim quando morre alguém do povo, mais uma entre tantas e tantos… Mesmo que o mundo dos seus pareça desvanecer-se e nunca mais volte a ser o mesmo (aqui quase que me caiu uma lágrima – seria apenas a primeira de várias).
Entre fotografias, músicas, narrações, coreografias (do varrer a casa, ao estender da roupa, da cozinha à máquina Singer), a Garota Não guia-nos pelo que foi a vida sofrida e de trabalho, a família, os filhos, os medos, as desilusões, as lutas e os sonhos de Fernanda, sua mãe. Ficou-me o refrão “Ela tinha um sonho de juntar mil contos, mil contos, mil contos, mil” .

“(…) Mas, ultimamente, tenho sentido que falo dela por outra razão: uma necessidade primária de a fazer viver através do que nos passou, do seu colo forte, dos animais que protegeu. Uma necessidade primária de impedir que ela desapareça já, que ela nos deixe de vez.
E, como nenhum grande biógrafo se interessou por escrever a história desta vulgar mulher tão extraordinária, achei que uma carta branca seria um bom lugar para corrigir este lapso histórico. (…)”

O sentir de uma filha, a Cátia – Garota Não, em que todas as filhas (das mais novs às mais velhas) se reveem, ponto por ponto.
Uma vida única e só sua, a da Fernanda, mas similar à de uma infinidade de mulheres no Estado Novo, lembrei-me tantas vezes das minhas avós e das minhas tias… A imagem e a História é nítida, mas a Garota Não e o Sérgio Godinho não nos deixam esquecer, e ilustram-na cantando em perfeita harmonia:

“Vi-te a trabalhar o dia inteiroConstruir as cidades pr’ós outrosCarregar pedras, desperdiçarMuita força p’ra pouco dinheiroVi-te a trabalhar o dia inteiroMuita força p’ra pouco dinheiro
Que força é essa? Que força é essa?Que trazes nos braços?Que só te serve para obedecer?Que só te manda obedecer?”
Fotografia oficial do CCB

Uma vida semelhante à de algumas mães/mulheres dos dias de hoje, nomeadamente as que trabalham de sol a sol nas limpezas de escolas, hospitais, etc, todo o dia a limpar a merda dos outros, um trabalho precário sem um salário digno, num país que lhes nega ou obstaculiza em cada curva a obtenção de cidadania, enquanto os seus filhos crescem sem o tempo de colo que merecem.
“Nunca perguntei à minha mãe o que ela gostava de ter sido… há tantas coisas que não perguntei à minha mãe! Há tantas coisas que nunca perguntámos às nossas mães” acrescenta, para os sortudo que ainda têm oportunidade de o fazer, diria eu. Dei comigo, novamente, a pensar nas minhas avós e o que gostariam de ter sido se tivessem tido oportunidade de escolha. Nunca lhes perguntei e, infelizmente, já não vou a tempo e… fiquei com uma lágrima no canto do olho.
Do consentimento, à sexualidade, ao prazer (ou falta dele), entre o claustro e o putamen, acompanhada pela Rita Redshoes, chega o apelo/alerta cantado “Fala mãe, fala mãe”.
Não faltou a celebração e o agradecimento, em uníssono com a Ana Bacalhau, a todas as mulheres que não baixaram os braço, lutaram pelos seus direitos, sofrendo na pele, no corpo e na alma a ousadia, a todas as que abriram caminho e, por isso nos deram tanto.
A violência doméstica e obstétrica, a maternidade num país que é má mãe e a necessidade de quebrar tradições também não foram esquecidos.

“(…) Mas depois, à medida que a narrativa me foi crescendo, compreendi que falar dela é, ao mesmo tempo, falar das minhas amigas e de mim, das conhecidas e anónimas mulheres que revolvem os dias a cuidar mais dos outros do que de si, aceitando provérbios e sinas, a ter da vida menos do que seria justo, a trabalhar mais do que seria razoável — porque, afinal, somos todas extensões das nossas mães, das nossas tias, das nossas avós —, em continuidade e fratura, águas que derivam e se separam. Compreendi que trazê-la para aqui é celebrar e agradecer a muitas mulheres. As suas contemporâneas, as que lhe antecederam e as que ficaram depois de ter partido. (..)”
Também lá couberam histórias de outras tantas vulgares mulheres extraordinárias relatados em áudios por gente de todas e idades e géneros. Ficou-me na memória, talvez por ser pouco comum ou não estar à espera, um que dizia algo como: “A minha ex mulher é uma mulher extraordinária. Foi, é e será sempre uma das mulheres da minha vida.”

Duas horas e meia depois, a beleza das pequenas coisas para fechar com chave de ouro:
“ Finalmente, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas…” 

Fotografia oficial do CCB

E a quatro vozes soa, no grande auditório do CCB, à pinha:
“(…)
somos um sopro, somos só visitas
e essa é…
a beleza das pequenas coisas
desvio-me de coisas chatas
já não tenho tempo
a conciliação demora
eu quero o dia lento
Quanto contentamento há…?
Na beleza das pequenas coisas…
a beleza das pequenas coisas”

Fotografia oficial do CCB

Já vi vários espetáculos da Garota Não, são sempre uma intervenção cívica e social, são verdadeiras lições/exercícios de liberdade, democracia, amor, justiça social, tudo regado com a humildade, a extrema sensibilidade e a simpatia que tão bem a caracterizam. Mas este, este foi verdadeiramente especial, porque a Cátia deu-nos a honra de, através da sua mãe, nos dar um vislumbre da sua história, de alma, coração, mostrando a sua essência, partilhando a sua intimidade, onde vimos espelhada a nossa, num verdadeiro sentimento de comunhão e partilha!
Que coisa mais bonita! Ando há dias a pensar nesta obra de arte e neste colosso de mulher.

Uma homenagem à sua mãe – uma vulgar mulher extraordinária – que lhe saiu do âmago, numa viagem no tempo certamente poderosa, catártica e simultaneamente dolorosa. Conseguiu a proeza de a transformar numa ode a tantas outras vulgares mulheres extraordinárias. Cátia – Garota Não outra vulgar mulher tão, mas tão extraordinária.

“É uma biografia coletiva onde se levantam assuntos incómodos e frágeis, se questionam dogmas e regras sociais, onde se ligam e atravessam muitas vidas. Porque as vidas derramam-se umas nas outras, contaminando-se em camadas, medonhas e poderosas vagas.
Não tenhamos medo. Deixemos que nos visite a felicidade.”

Belo, arrebatador, comovente, avassalador, de um sensibilidade extraordinária, transformador, simplesmente maravilhoso e tão, mas tão, necessário nos dias que correm!!

Se puderem, vão ver, porque a beleza das pequenas coisas também está nos espetáculos que vemos e nos tocam profundamente e em quem escolhe acompanhar-nos nessa viagem.
Entretanto, enquanto aguardam pelo bilhetes, abram o vosso coração e ouçam com atenção as palavras e as músicas da Garota Não.