Point Vert e fronteiras
No final de um longo e dececionante dia de trabalho, um dia de verão quente, caminho em passada larga para casa. Estou desejosa de chegar a casa e tomar um banho refrescante, descansar e esquecer.
Atravesso a passadeira e apercebo-me de que, do outro lado, a olhar para mim, está um homem negro, muito alto e magro, vestido de calças pretas e camisola de gola alta preta. Todo ele é escuro. Parece jovem, mas não consigo avaliar.
Penso para comigo, deve estar cheio de calor.
Pergunto-me ainda se o conhecerei, pois continua a olhar para mim esperançoso e expectante.
“Boa tarde! Fala francês?” pergunta-me em francês o homem.
“Não, mas falo inglês. Precisa de ajuda?” respondo-lhe em inglês.
Ele fala muito mal inglês, mas percebo entre o seu francês, entremeado com o inglês, que está à procura de um sítio, onde vai trabalhar ou está o seu patrão.
A referência que ele tem é o Point Vert. Quer saber onde é que e como vai para lá.
Não conheço nenhum sítio na zona com esse nome. Não faço ideia ao que se refere nem como ajudá-lo.
Entre gestos e algumas perguntas minhas, deduzo que vai trabalhar para uma obra ou armazém.
Peço-lhe para escrever o nome, no Google Maps, para o poder orientar.
Responde-me que acabou de chegar e ainda não tem internet no telemóvel.
Abro o meu Google Maps e escrevo o tal Point Vert que ele está farto de referir.
Mostro-lhe para ver se é assim que se escreve. Ele confirma.
O Google diz que não conhece nada com aquele nome.
Não há mais ninguém na rua, não se vê viva alma.
O homem continua a olhar para mim com se eu fosse a sua tábua de salvação.
Eu não sei bem o que fazer ou dizer para o ajudar.
“Vamos até ali à frente. Costuma estar sempre ali um polícia, pode ser que ele nos consiga ajudar.” digo-lhe em inglês.
Deve ter percebido, pois acena-me com a cabeça agradecido.
O polícia não está no lugar habitual nem à vista, raramente estão quando precisamos deles. A Lei de Murphy nunca falha.
Entretanto, vejo um senhor de trotinete parado ali junto ao sítio onde costuma estar o polícia.
“É aqui da zona? Será que nos pode ajudar?” pergunto-lhe.
“O que é que queres? Onde é que queres ir?” responde-me o homem com ar de poucos amigos e um à vontadinha que me deixa desconfortável. Dou dois passos atrás.
O meu desconforto foi percetível para o homem, apesar de não ter compreendido a nossa conversa. Mira atentamente o carrancudo.
Explico, calmamente, ao carrancudo que o homem não fala português, só fala francês. Pergunto-lhe se sabe onde e o que é o Point Vert.
O carrancudo também nunca ouviu falar de tal sítio.
Os dois homens entreolham-se, demoradamente. O carrancudo diz-lhe qualquer coisa numa língua que eu não percebi.
Penso que terá sido árabe, mas não tenho a certeza.
O homem respira de alívio e sorri de orelha a orelha e começa a falar, na tal língua, totalmente impercetível para mim.
“Uma vez que falam a mesma língua, vou andando! Boa sorte e tudo a correr bem para os dois.” despeço-me em inglês, aproveitando a deixa.
O carrancudo não olha para mim, nem profere uma única palavra.
“Thank you. Thank you sister. Be happy!” diz-me o homem fazendo-me uma vénia.
No resto do caminho para casa, apesar de ter tido um dia do demónio, há sempre quem esteja e tenha tido um dia pior.
Chegar a um país novo, não conhecer ninguém, não saber onde se dirigir, não falar a língua, ninguém a quem pedir ajuda – isso é verdadeiramente bem pior que a maioria dos meus dia maus. É assustador. É preciso muita coragem e esperança na procura de uma vida melhor, mesmo que impulsionado pelo desespero e falta de perspetiva de futuro no país de origem. Não é para qualquer um. Ninguém sabe o dia de amanhã, mas desconfio que não era para mim.
A situação relatada aconteceu há cerca de 2 meses e depois de comentar com a malta da casa, não mais pensei nele. Esta semana ao ler o novo livro de Leila Slimani – Assalto à fronteira – veio-me imediatamente à memória este episódio. O nosso cérebro é uma máquina muito interessante, poderosa e misteriosa.
Partilho alguns extratos de um livro de leitura rápida, mas muito interessante.
“(…) O islamismo, o terrorismo danificaram a longo prazo a imagem do mundo árabe e da sua língua. «Não se trata só da guerra que se desenrola no lugar onde caem os tiros, ou que poderia ser representada a partir de uma cena de batalha, mas do seu reflexo; a sua infiltração na língua, o seu efeito a posteriori na vida», escreve a poeta Ingeborg Bachmann a propósito da língua alemã corrompida pela novilíngua nazi. Aqueles assassinos, ao perpetrarem atentados no mundo inteiro, lançaram sobre nós a vergonha e a infâmia. Assim, como não sucumbir ao ódio de si próprio? De repente, é também toda uma memória que gradualmente se irá apagar. A memória de um mundo árabe feliz e alegre, de um mundo árabe multicultural onde inúmeras religiões souberam viver juntas e em paz.(…)
A memória de uma língua árabe de mediadores e tradutores que salvaram os grandes textos gregos do esquecimento. (..)
Na sua globalidade, a civilização árabe. -muçulmana tornou-se sinónimo de violência, de arcaísmo, de multidões de homens enraivecidos a lançarem o seu ódio contra as mulheres e o Ocidente.
Inimigos por fora, também o éramos por dentro. Nessa época, apercebo-me de que, embora uma população árabe considerável viva em França há várias gerações, há quem teime em apresentá–la como ontologicamente estrangeira e que todos os grandes debates organizados sobre a identidade nacional são, acima de tudo, máquinas para expulsar e estigmatizar o Outro.
(…)
Há mais de quatro anos que me instalei em Lisboa. Cheguei no final da primavera. Os jacarandás estavam em flor. como na minha terra, em Rabat, e, em algumas ruas da Lapa, o jasmim perfumava o ar. Eu passe sozinha durante horas. Parava num miradouro para beber uma limonada e contemplava o horizonte. Tinha a impressão de estar em Tânger ou no forte, outrora português, de El-Jadida. Tudo me era familiar: primeiro os rostos, que podiam ser os dos meus irmãos e irmás; o vento frio ao cair da noite; os azulejos a que chamamos zelliges e que decoram os frontões das nossas casas. A própria língua lembrava-me que estávamos ligados por um parentesco distante. Todos os dias, atravessava o bairro de Alcântara e lembrava-me de que em árabe al cantar designa a ponte. E que na minha terra, em Marrocos, chamamos às laranjas boultoukal, que significa Portugal. E quando por acaso ouvia, ao virar de uma esquina, um fado, sentia um aperto no coração. A mulher que cantava recordava-me as mulheres da minha terra, que exprimem a sua tristeza e os seus amores e cujas vozes ressoam nas ruelas das medinas.
Os meus filhos parecem ver nessa mania um patriotismo um tudo-nada ridículo, ou então uma nostalgia das minhas origens. Mas, na realidade, é a expressão de uma revolta e de uma incompreensão: Porque é que a Europa tem tanta dificuldade em valorizar esse passado árabe-muçulmano? Por que é que continuamos a encarar esse mundo árabe como exterior à identidade europeia, quando as nossas histórias estão ligadas há séculos? Não paro de martelar nessa tecla: não, não somos vossos irredutíveis estrangeiros.
(…)
Hoje, temos tendência a fazer das particularidades de cada um as suas características essenciais, o alfa e o ómega da sua identidade. Ora, o universalismo ao qual aspiro não nega as diferenças entre os seres humanos; antes considera que o que nos aproxima é mais importante do que o que nos distingue e que o orgulho de ser diferente não nos deve impedir de sermos felizes juntos. Se se desafiam as fronteiras que nos fecham sobre nós próprios, pode a literatura conduzir-nos ainda ao Outro? Pode, acredito que sim, porque no âmago da leitura existe empatia e existe ternura.
Citando as bonitas palavras de Olga Tokarczuk, «a ternura, por ser a arte de concretizar um sentimento afetivo partilhado, é uma descoberta permanente das semelhanças. A ternura é esse sentir intensamente preocupado com a existência de um outro, com a sua fragilidade, o seu carácter único, a sua vulnerabilidade perante o sofrimento e o tempo que passa». Perante os poderes autoritários que descartam, com um gesto, as aspirações dos mais fracos, que negam a sua dignidade e os humilham, perante todos aqueles que falam de «pessoas que não são nada» ou de «países de merda», a literatura reumaniza o Outro, mesmo que o Outro nos seja apresentado como inimigo.
Nos Estados Unidos, em 2025, mais de seis mil livros foram banidos do ensino nas escolas e universidades.
As estantes das bibliotecas públicas esvaziam-se. Um pastor do Tennessee queimou em público exemplares de Harry Potter. Na Florida, que conta com 45 por cento dos registos no índice de livros banidos do país, as Moms for Liberty conseguiram a retirada de Anna Karénina de Tolstói, do Diário de Anne Frank e até de alguns dicionários. As obras de Steinbeck, Toni Morrison, George Orwell, James Baldwin ou ainda o clássico Mataram a Cotovia de Harper Lee foram retiradas do ensino, precisamente por contarem a história de corpos esquecidos, oprimidos, discriminados: textos que retratam cenas de homossexualidade são especialmente visados. Porque revelam vertentes trágicas ou vergonhosas de uma história nacional que o poder gostaria de remodelar e reescrever a seu favor.
As pessoas já não querem ouvir essas vozes, da mesma maneira que já não querem ouvir as vozes de quem não pensa como elas e cujo ponto de vista as ofende. Em sociedades cada vez mais divididas, em que cada um crê definir-se através do campo a que pertence, a literatura tem cada vez mais dificuldade em desempenhar o seu papel.
Recusamo-nos a encarar o outro nos olhos, a descobrir a sua psique, a distinguir entre compreender e desculpar.
Os regimes mais duros opõem-se a isso: insultam o escritor israelita que tenta pôr-se na pele de um palestiniano, desconfiam da palestiniana que conta histórias sobre os israelitas, encarceram uma turca que teve o azar de se interessar pelos curdos. Escutemos o que diz o escritor israelita Dror Mishani no seu belíssimo livro Au ras du sol, em que se dirige a si mesmo: «O texto que escreveste sobre o encontro com um refém que teria fugido de Gaza por uma noite foi publicado numa antologia muito mal recebida pelo público. A maior parte dos críticos aconselhou-nos simplesmente a calar-nos. “Os escritores têm de saber calar-se.” Aqui, é proibido interessarmo-nos pela história do outro lado. Poderia eu tentar escrever sobre os polícias que foram assassinados na esquadra de Sérot, mas também sobre os membros do Hamas que morreram ao levarem a cabo o ataque? É claro que não. Responder-me-iam: “Como é que se pode comparar as duas coisas?”»
A literatura é a única arte capaz de nos imergir a esse ponto numa consciência, de nos fazer ver a vida do interior e, assim, de nos revelar que as pessoas nunca são exatamente aquilo que julgamos. A literatura é esse espaço do íntimo, das identidades subjetivas, esquivas, construídas a partir de uma infinidade de emoções e experiências.
Não transmite mensagens nem fornece manual de instruções, é alérgica ao dogmatismo e às opiniões fixas e, apesar disso, ou talvez graças a isso, temos a impressão de que nos ajuda a viver. Acompanha as nossas dúvidas, alimenta-as e ensina-nos a desconfiar das certezas que nos isolam e fecham.”
Leila Slimani in Assalto à fronteira

















































