Bonnie Scotland – I

Luxuriantes montes verdes, vales e fadas, lagos e monstros, castelos e clãs, gaitas de foles e guerreiros envergando kilts (identificando-se pelo o seu tartan), lealdade, traição e vingança (entre clãs), resiliência, luta, independência e liberdade (em relação ao domínio inglês), tradição e identidade cultural, lendas e superstições numa terra em que o sol brilha apenas nos pequenos intervalos das nuvens cinzentas, da  chuva abundante e do frio intenso, o sotaque cerrado e difícil de entender de um povo simpático e acolhedor. Impressões e ideias que tinha antes de visitar a Escócia com base nas dezenas de romances históricos que li (em inglês).

Li os livros do Outlander (que recomendo muito) meia dúzia de anos antes da série televisiva sair e que eu não vi, pelo que não os associo a nenhum local específico da Escócia. O mesmo sucede com os livros do Harry Potter (li todos), mas como só vi o 1º e o 2º filme (e não apreciei), não os associo à Escócia, mas “apenas” à minha imaginação e construção mental. É inegável a visibilidade e a importância turística que estas duas obras assumem para o país e a “indústria” e imagem construída em seu torno. Nada contra, só não dou para esse peditório (fica o aviso à navegação), a Escócia habita, há muito e merecidamente, o meu imaginário e, agora, a minha memória e coração.
Dos livros (em inglês), ficaram-me algumas palavras que, pelo contexto, era fácil perceber o significado: loch, aye, laird, kirk, munros, glen, wee, bonnie, lad(die), lass(ie), bairn, crabbit, braw, numpty, scran, hogmanay, tatties e haggis . Nestas férias, na Escócia, aprendi que integram o dicionário do Scots (escocês, falado por 30% da população) – uma das quatro línguas oficiais da Escócia, desde 2025, juntamente com o gaélico escocês (falado por 1,1% da população, especialmente nas Highlands). As outras duas línguas oficiais são o inglês (falado por 99% da população) e a língua gestual  britânica.
Na Escócia, qualquer informação ou placa oficial vem escrita em duas línguas: inglês e gaélico escocês.

Significados:
Loch –  lago ou braço de mar estreito
Glen –  vale profundo rodeado de montanhas
Munros –  montanhas com mais de 914 metros (3.000 pés) de altitude
Laird – proprietário de terras
Lad (die) –  menino
Lass (ie) –  menina
Bairn criança ou bebé
Wee – pequeno
Bonnie bonito ou belo
Braw – excelente, magnífico
Crabbit rabugento ou mal-humorado
Aye – sim
Kirk – igreja
Numpty tonto
Scran comida ou petisco
Hogmanayvéspera de ano novo e as suas celebrações tradicionais
Tatties batatas
Haggis prato tradicional escocês feito com miudezas de carneiro cozidas no estômago do animal

Robert Burns (1759–1796) foi uma poeta escocês que, numa altura em que o inglês se estava a impôr como língua oficial, escreveu toda a sua obra (poesia, sátira e letras de canções) em escocês, mantendo assim a língua viva, salvando-a do esquecimento nacional e internacional. É conhecido como o Poeta Nacional da Escócia e a sua obra mais famosa mundialmente é a canção do Ano Novo (Hogmanay) chamada “Auld Lang Syne”.


A origem do nome de Scotland é curiosa e deve-se ao facto de, nos séculos IV e V, alguns gaélicos irlandeses (os Scoti, a Irlanda na altura era conhecida por Scotia) se terem estabelecido na costa oeste da Escócia e, com o passar do tempo, passaram a ser o grupo territorial e culturalmente dominante. No século XI, o país era conhecido por “Scot+Land”  – a terra dos Scoti – e Scotland ficou. Alba é o nome em gaélico escocês para a Escócia e significa “mundo luminoso” ou “terras altas”.

A Escócia não deve ser um périplo de cidades, castelos ou marcos, é um destino para apreciar devagar (até porque as suas estradas rurais não permitem outra coisa), não há fotografia que capte ou abarque a beleza das suas paisagens e das suas inúmeras cascatas, é ficar deslumbrada não a cada curva, mas na maioria, com as suas pequenas e pitorescas aldeias, com o sentido de humor das suas gentes, com as bandeiras do país semeados um pouco por todo o lado (ehheheh, para relembrar os mais distraídos, e não só, que não são nem nunca foram ingleses – William Wallace (filme Braveheart) e o Robert – The Bruce são verdadeiros heróis nacionais).

Marcos e celebrações
Loch Lomond é o maior lago escocês (em extensão) e marca a transição de paisagens entre as duas regiões da Escócia (as Lowlands e as Highlands) e dá nome a uma das mais conhecidas canções tradicionais escocesas que é tocada para encerrar festas de fim de ano (Hogmanay), de casamentos, funerais, bares, festivais de música e é cantada pelos adeptos de futebol durante os jogos da seleção escocesa – é um hino não oficial de despedida, de celebração e orgulho nacional. A despedida perfeita… até ao próxima post “Bonnie Scotland – II”

Misturas e essências

“As minhas amigas disseram que tu e a avó são muito parecidas!” diz-me, com a seriedade que a caracteriza, pimpolha mais velha, no regresso de uns dias de férias com as suas amigas.
“Ah, sim?! Então?” questionei curiosa.
“São as duas muito simpáticas e estão sempre a rir-se… segundo elas.” informa-me, solenemente, pimpolha mais velha.
“E a mim? Também me acharam parecida com elas?” pergunta, esperançosa, pimpolha mais nova.
“Não sei, não me disseram nada!” responde pimpolha mais velha, dando a conversa por encerrada.
“Então, e a ti, acharam-te parecida comigo e com avó?” pergunto-lhe, sorrindo e não resistindo à oportunidade de a provocar.
“CLARO QUE NÃO!” responde-me, revirando-me os olhos, chocada só com a ideia de alguém ter ponderado tal hipótese – a ousadia, a blasfémia.
Eu e pimpolha mais nova olhámos uma para a outro e rimo-nos com vontade.
“São muito engracidinhas vocês as duas, é que são mesmo!” diz, para lá de possessa, pimpolha mais velha, zarpando a todo o vapor.

Cúmulo da ironia

Regressar de uma visita a terras de sua majestade, neste caso da Escócia, e apanhar a grande e verdadeira molha das férias, em Lisboa, no caminho do aeroporto até casa, em pleno mês de agosto. Chegámos a casa completamente encharcados, envergando os nossos impermeáveis e sweatshirts, que levámos nas malas, a pensar nas Highlands (onde o sol brilhava).
Um otimista diria que foi uma chegada abençoada de umas belas férias em que tivemos muita sorte com o tempo… e não se enganaria!

Lembretes e curiosidades

Duas visitas, milhares de pessoas, uma dúzia de reencontros regadas de conversas infinitas e sorrisos, vislumbre de duas dezenas de figuras da nossa praça, um tripa de ovos moles, meia dúzia de quilómetros nas pernas, uma dezena de horas, um litro e meio de água, três sacos e vinte e cinco livros comprados (calma, alguns são para oferecer) – 19  de escritores portugueses, bem mais de uma centena de euros investido, foi assim, em números, este ano a minha Feira do Livro.
Leio,preferencial e essencialmente, no meu Kindle, do qual sou fã e sem o qual não saio de casa, mas ir à Feira do Livro é sempre um deleite.

Dois livros oferecidos, quatro livros lidos e verdadeiramente apreciados é o balanço à data. Mantendo o ritmo, a pilha ameaça desaparecer num esfregar de olhos.
“Da minha janela” de Luísa Sobral foi um dos livros que comprei na Feira do Livro e já li e recomendo (leve e divertido, como se quer o dia a dia).

“Comecei a escrever crónicas sem ter sido convidada por um jornal para o fazer. Fi-lo porque senti que a crónica é um ótimo exercício, não só de escrita, mas de observação. Escrever crónicas muda a nossa maneira de olhar o mundo, faz-nos procurar o desequilíbrio, o humor, a insatisfação, a beleza, faz-nos correr mais riscos. faz-nos ser mais ridículos, metermo-nos propositadamente em situações inusitadas, tudo em busca da crónica perfeita. Desde que me dedico a esta arte que fico feliz quando algo absurdo me acontece, vibro com cada episódio inesperado, aponto num caderno todos os momentos constrangedores e todas as minhas indignações. Chego até a perguntar-me se escrevo sobre aquilo que experiencio, ou se experiencio apenas para poder escrever. Não sei. Sei somente que escrever crónicas me dá prazer, me faz pensar sobre os assuntos de uma forma mais profunda e estruturada, me faz rir e chorar. É isso que vão encontrar neste livro: o meu humor, as minhas inseguranças, as minhas angústias e tudo o que há em mim de mais ridículo. Tudo visto da minha janela.”
Luísa Sobral in “Da minha janela”

Ao ler esta Nota inicial do livro, dei comigo a pensar “Foi também por isto que criei um blogue… que agora está quase ao abandono, snif, snif, snif, mas do qual gosto muito e onde me dá muito prazer escrever”.
Como a Luísa Sobral, também anoto ideias num caderno (bem giro do Snoopy) ou nos rascunhos do blogue, histórias não me faltam, mas a vida com as suas cenas e coisas e três filhos adolescente consumem muita da minha energia (que não abunda nesta fase). Prometi a mim mesma fazer um esforço para voltar à escrita no blogue e… ando há uma semana para escrever este post eheheheheheh. Ainda assim tive mais sucesso do que na minha decisão de fazer exercício físico regularmente, força de vontade pelas ruas da amargura, é o que é! Por outro lado, faço apenas e só aquilo que realmente me apetece, perspetivas!


“Boa tarde! Sabe-me dizer onde posso consultar os eventos que estão a ocorrer na Feira do Livro? Tenho interesse em um e precisava de saber onde e a que horas será!” pergunta um famoso jornalista, diretor e comentador da SIC a uma das funcionárias do pavilhão da editora Penguim.
“O mais fácil é consultar a agenda no site da Feira do Livro!” informa-o a simpática funcionária com um sorriso nos lábios.
“Ahhh… a Feira do Livro tem site? Obrigada, vou então ver!” diz o famoso comentador da SIC que domina toda a atualidade, mas para quem esta cena de divulgação e publicação na internet parece ser uma novidade.
Esta interação ocorreu mesmo ao meu lado e não consegui evitar rir-me, eu que tinha estudado os livros do dia e a localização dos que me interessavam (tudo, imagine-se no site da Feira do Livro) e tinha tudo guardado no meu telemóvel.
“O Rodrigo vai estar no pavilhão da Leya!” ouvi, uns minutos depois, o famoso comentador dizer para a sua companheira.
Famoso comentador e diretor da SIC, à caça de um autógrafo do seu colega de estação Rodrigo Guedes de Carvalho, descobre o site da Feira do Livro.
Curioso, muito curioso!

25 de abril

Não sei se é o dia mais bonito do ano, mas é certamente o feriado nacional com maior significado e importância e as suas comemorações refletem exatamente isso, são de todos e para todos.
Este ano, desci a avenida entre amigos, pequenada não me quis acompanhar (estavam muito cansados… de ser jovens) e Excelentíssimo Esposo tinha outros compromissos inadiáveis.


Emociona-me sempre o mar de gente, mas especialmente a diversidade: de género, de idades, de origem, estado civil, de estilos, de ser e de estar. Os cartazes que se agitam no ar são também um reflexo dessa enorme diversidade e da forma como cada um sente e vê a sua liberdade – e pensar que antes do 25 de abril nada disto seria possível.
A energia e a alegria são contagiantes: os sorrisos são uma constante neste dia, dos mais tímidos aos mais exuberantes, os abraços são mais que muitos e testemunham-se bonitos reencontros.
Há quem dance, há quem cante, há quem só entoe, há quem grite palavras de ordem, há quem só observe, há quem siga numa conversa animada, há quem apenas caminhe, há quem desça a avenida na estrada e há quem o faço nas laterais ou no passeio, há quem vá matando a sede com uma cerveja e quem o faça com água, há quem nunca sinta necessidade de matar a sede, há quem deixe verter uma(s) lágrima(s) de emoção ou apenas porque não escapa às alergias (e as árvores da avenida não perdoam na primavera), há os que levam cartazes e t-shirts alusivas e há quem se entretenha a lê-los, a fotografá-los e a apreciar a criatividade e está tudo bem, amigo não empata amigo, o espiríto é de união e comunhão. É bonito, pá!

No entanto, há algo que todos têm em comum: o cravo – o símbolo da liberdade conquistada com o 25 de abril (e que incompreensivelmente tanto irrita alguma malta de direita).
Há cravos de todos os tamanhos, feitios e formas, como as pessoas: há cravos posicionados em todo o lado (direito, centro, esquerdo): na mão, nos cabelos, nas lapelas, nas t-shirts, nas calças, nos cintos, nos sapatos, como se deseja numa democracia, há quem leve um, há quem leve vários e ser livre também é isto: ter à disposição uma panóplia de opções e escolher conforme nos apraz (n)o momento.
No fim da festa, junto a Santa Apolónia, ao comer um gelado servido por um simpático rapaz brasileiro, ele curioso pergunta “O que é esse “negocinho” vermelho que todo mundo traz hoje, essa espécie de rosa vermelha?”

Algumas minhas, outras de amigos e outras fotografias surripiei nas redes sociais.
Na praça do Rossio, depois da descida, houve coros e cantos:

“Quem, e como, seria eu se tivesse vivido antes do 25 de abril?” dou comigo a pensar. Gosto de pensar que seria corajosa e que de alguma forma faria parte da resistência, mas sei bem que não é inócuo ser desbocada e ter uma posição de(s)marcada em democracia, mas está a anos luz de o ser em ditadura onde pode ser fatal. O mais provável era ser apenas uma resistente silenciosa, como as minhas avós e tantas outras mulheres, mais uma sobrevivente, subserviente com poucos estudos – “produto” da miséria e de todas as restrições impostas pela ditadura.
O meu pai, na sua publicação dedicada ao 25 de abril, em poucas palavras, diz tudo:
“Hoje todos têm muito que dizer.
Até parece que quem não diz
Não é. Para ser alguém. É preciso dizer, comunicar.
Perdemos a capacidade de fazer silêncio.
Quem não consegue fazê-lo, não cria o hábito de não dizer.
Perdemos o hábito de calar.
Mas sem o calar e o silêncio que criam as condições para a escuta,
Não há quem ouça o que se diz.
Não há comunicação.
Hoje, basta-me a escuta.
Espraiar o olhar e saborear
O que esperei e o 25 de Abril me ofereceu.
Ilusões? Algumas.
Promessas por cumprir? Certamente.
Desilusões? Qb.
Preocupações? Muitas. Mas quem as não tem?
Alegrias? Incontáveis.”
Agitando as águas, despertando mentes, fazendo perguntas difíceis, em torno dos livros e da sua censura, a distinção entre a obra e o seu autor (ideias e ideais), quando a realidade se mistura com a ficção, como escolher entre um bom livro escrito por uma “besta” ou um livro sem interesse escrito por uma boa pessoa e se não lemos os livros de algumas “bestas” como sabemos como pensam, entre o cancelamento e a censura e quem o faz, como, quando e a as suas justificações, entre as bibliotecas queimadas ao longo da História, o apego e amor aos livros, a importância dos livros como detentores da nossa História e constituintes da história pessoal de cada um de nós, as estratégias para preservar os livros que alguns desejam “queimar” … A prova de que a arte também pode ser um valente exercício de questionamento e resistência mas, essencialmente uma chamada de atenção  para a importância da liberdade de quem escreve, mas também de quem lê e o perigo dos movimentos de censura que depois de “acesos” rapidamente se descontrolam e a razão que alguns sentem em controlar e apagar determinadas leituras, o papel de quem não se conforma, se revolta e resiste – a peça Burn Burn Burn, inspirado no livro Fahrenheit 451, na Culturgest, foi tudo isto e mais, foi também uma bela forma de iniciar as celebrações do 25 de abril.
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Para terminar em grande, e no verdadeiro espírito de Abril, um concerto gratuito da Garota Não com o Coro das Mulheres da Fábrica (eram 60 em palco) dedicado ao tema da Liberdade.  Não há nada que esta garota não faça bem, sem protagonismos, deu palco às suas companheiras e juntas deram voz a um verdadeiro medley (não da Broadway, isso é mais para a ruralidade que (co)habita em São Bento) de hinos à liberdade desde John Lennon, Simone de Oliveira, Zeca Afonso, Bob Marley, Patti Smith, Sérgio Godinho, Censurados e imagine-se Rage Against the Machine. Os cravos, distribuídos à entrada, foram, mais que os telemóveis, o que mais marcou a paisagem e o ritmo. Mais uma vez, um espetáculo lindo e emocionante, cheio de entusiasmo e contentamento por parte de quem cantou e de quem assistiu. Completamente rendida ao talento imenso e entrega desta nossa Garota Não à e na “luta”.

Agora é continuar, regando todos os dias este nosso abril, procurando e escolhendo sempre fazer a diferença, das pequenas às grandes coisas, para melhorar o mundo que nos rodeia; optando por ter voz, em vez da indiferença mascarada de silêncio ou falsa empatia.
Um bonito texto sobre o abril.

Nota (que dava um novo post, mas não me apetece):
Que bonito e verdadeiro foi discurso o do Presidente da República, surpreendeu-me. Vamos ver o que fará se o pacote laboral for aprovado, a sua primeira e verdadeira prova. Colheu o meu voto, mas ainda não me convenceu.
O Presidente da Assembleia da República, centrou o seu discurso no dia 25 de abril, na vitimização dos deputados: a desconfiança dos portugueses relativamente aos políticos, o escrutínio a que estão sujeitos (a corrupção tem dos níveis mais elevados na Europa e os casos e casinhos são mais que muitos, e alguns envolvem o primeiro ministro),  refere as casas de banho e os elevadores das casas (e o Montenegro sorri, satisfeito),  se vão a hospitais públicos ou privados e qual é a pulseira que lhes é atribuída, faz menção na melhoria dos seus salários para atrair os melhores (então e os médicos, os enfermeiros, os polícias, os professores e tantos outros no sector público e onde há verdadeira carência de profissionais??), nos cargos que não podem aceitar por terem sido deputados na transição do público para o privado e vice versa ou aos que têm que “renunciar” de “bens” para serem deputados (ou primeiros ministros) devido ao conflito de interesses. Pena e curioso, não ter referido a legislação que produzem a aprovam em causa própria, como subvenções, abonos e serventias. Do seu discurso, aproveitam-se os últimos 2 minutos quando fala de uma estudante de mérito e com um futuro promissor de origem humilde, um fruto de abril. Não há melhor demonstração de que Aguiar Branco vive na bolha e faz parte da elite (o que inicialmente parecia querer contrariar no seu discurso) do que, dado o estado da nação – as crises na saúde, na habitação, o custo de vida, etc – o seu discurso ser quase todo dirigido à sua bolha, sendo transparente na opacidade que defende para a sua bolha.

“Troquinhos, vulgo Moedas, ouviste e viste que bonita foi a festa no Largo do Carmo, às 00h00 do dia 25 de abril? Podes “cancelar” as comemorações do 25 de abril, como o concerto do Terreiro do Paço da EGEAC e as festas populares no Largo do Carmo, ou passar a chamar-lhes festa da primavera para comemorar a chegada do bom tempo, das flores, do sol e a vontade de sair de casa e sei lá mais o quê e até apoiar um Chic-Nic , que aplicam-se-te na perfeição as palavras da Garota Não
“Podem decretar o fim da arte
É como decretar o fim da chuva”
Há sempre alguém que sonha em qualquer parte
E a nossa voz nunca será viúva
(…)
Podem decretar mandar calar-tе
Dizer que a nossa voz é um enguiço
Podem decretar o fim da arte
E a gente faz uma canção sobre isso” 

20

A felicidade de a ter nos braços e aqueles seus olhos a observarem-me com atenção, veio acompanhada do peso da responsabilidade e o medo de ter alguém totalmente dependente de mim e as inseguranças típicas de uma mãe de 1ª viagem.
Lembro-me de, ao sair da maternidade, pensar “E agora? E se lhe acontece alguma coisa e eu não sei o que fazer?”.
Foi com ela que aprendi a ser mãe, não a melhor, mas a possível e hoje, vinte anos depois, com mais dois filhos,  o pensamento que tive à saída da maternidade assola-me frequentemente, por motivos diferentes…
Desde bebé, nunca gostou muito de dormir de dia, gostava de companhia, conversa e brincadeira e observar o mundo sentada na sua espreguiçadeira, mas especialmente ao meu colo. O avô A. dizia, muitas vezes, ao mirá-la ” Ela sabe bem que quem muito dorme, pouco aprende”.
Gostava dos seus, mas só dos seus, chorava desalmadamente  se alguém estranho se aproximasse, lhe tocasse ou lhe falasse, um verdadeiro bichinho do mato. Obviamente que a adaptação à creche foi do demónio, ao fim de 6 meses resignou-se, mas não aceitou.
Franzia o nariz de uma forma engraçada quando algo não lhe agradava. O meu mano acusou-me de ter sido eu a ensinar-lhe, porque parece que faço exatamente a mesma coisa e dizia “Uma criança tão bonita a fazer uma expressão dessas, não faz sentido…Pára de lhe ensinar isso!”. Pimpolha mais velha ainda hoje franze o nariz daquela forma peculiar quando algo não é do seu agrado.
Parece já não apreciar o meu colo, os meus abraços e beijinhos, por estes dias, não sorri com frequência (ou a que eu gostaria), irrita-se facilmente e sou o seu alvo preferido para comentários sarcásticos e acutilantes. Irrito-a como ninguém e nem preciso dizer nem fazer nada (basta respirar ou aparecer), são fases (umas mais fáceis que outros). Freud é capaz de explicar isto… ou não. Dos três, é a que tem um feitio mais parecido com o meu, talvez essa seja parte da razão, talvez….
“Gosto muito de ti, por mim e por ti” era o que lhe dizia quando era mais pequena e durante as suas birras me atirava com “Já não gosto mais de ti” ou, aos 4 anos, quando me disse “Tu és pior que a bruxa má da Branca de Neve”. Hoje, continuo a responder-lhe exatamente o mesmo, o sentimento mantém-se verdadeiro e imagine-se… irrita-a!
“A vida não é um morango!” é o que ela diz muitas vezes, parece que é uma expressão que está em voga entre a malta jovem. Confirmo, a vida nem sempre é fácil, mas não há mal que sempre dure e bem que nunca acabe!
É esperar pacientemente que passe esta veneta a quem é e será sempre, e para sempre, o meu primeiro amor incondicional e sem limites.

Dedicada a pimpolha mais velha, ontem, hoje e sempre:

Música, viagens, saudade(s)

Há músicas que associarei sempre a determinados livros, outras músicas que são o retrato perfeito de determinadas fases da minha vida e outras que me transportam para determinadas viagens/férias que fizemos.
“Days We Left Behind” é uma música de Paul McCartney e ouvi-a, pela primeira vez, numa rádio italiana. A simplicidade e a beleza da letra e do som, levaram-me à pesquisa no youtube e fiquei surpreendida porque foi lançada no início deste mês. A letra, escrita por Paul McCarteney, retrata as suas memórias e relação com os Beatles, mas tem uma melodia e letra onde qualquer pessoa se consegue rever – a magia da música (e qualquer outra forma da arte), ter um significado único para cada um de nós, mas tocar-nos a todos, embora de diferentes maneiras.

“(…)
Nothing ever stays
Nothing comes to mind
No one can erase
The days we left behind
(…)
And nothing stays the same
No one needs to cry
Nothing can reclaim
The days we left behind
(…)”

Esta é a música que associarei sempre à Páscoa de 2026 e à viagem a Roma e ao sul de Itália com a “pequenada”, onde dei comigo a pensar várias vezes, (mais do que as que gostaria), como, em termos de logística, era tudo mais difícil quando eles eram pequenos, mas, ao mesmo tempo, tão mais fácil na gestão de emoções, conflitos, interações, expectativas… enfim, coisas de viajar e viver com 3 adolescentes com as hormonas aos saltos e as minhas em declínio.
Se tivesse que associar uma palavras a esta música seria “SAUDADE”.
Sim, tenho saudades de muitas pessoas, momentos que vivi e… dos meus filhos numa fase não aborrescente.

“Talvez a saudade seja mais uma forma de presença do que de ausência. Talvez a saudade não tenha que ver com o que se perdeu, mas com aquilo que não é possível deixar para trás. Ter saudades é ter dentro do peito o que se ama. É uma forma de não deixar o tempo passar, mesmo que os dias tenham passado. As saudades são o coração ser o mesmo quando nada voltará a ser o mesmo.”

surripiado a Lado a lado

Carta branca – Uma vulgar mulher extraordinária

Iniciou com o fim, a morte de Fernanda, a sua mãe, do funeral, ficou-lhe na memória o som incessante da retro-escavadora a abrir novas sepulturas, ainda a sua mãe não tinha descido à sua; a pressa do padre porque estava outro funeral a chegar. Sem tempo para contemplações, grandes gestos, bonitas leituras… A vida não pára, é assim quando morre alguém do povo, mais uma entre tantas e tantos… Mesmo que o mundo dos seus pareça desvanecer-se e nunca mais volte a ser o mesmo (aqui quase que me caiu uma lágrima – seria apenas a primeira de várias).
Entre fotografias, músicas, narrações, coreografias (do varrer a casa, ao estender da roupa, da cozinha à máquina Singer), a Garota Não guia-nos pelo que foi a vida sofrida e de trabalho, a família, os filhos, os medos, as desilusões, as lutas e os sonhos de Fernanda, sua mãe. Ficou-me o refrão “Ela tinha um sonho de juntar mil contos, mil contos, mil contos, mil” .

“(…) Mas, ultimamente, tenho sentido que falo dela por outra razão: uma necessidade primária de a fazer viver através do que nos passou, do seu colo forte, dos animais que protegeu. Uma necessidade primária de impedir que ela desapareça já, que ela nos deixe de vez.
E, como nenhum grande biógrafo se interessou por escrever a história desta vulgar mulher tão extraordinária, achei que uma carta branca seria um bom lugar para corrigir este lapso histórico. (…)”

O sentir de uma filha, a Cátia – Garota Não, em que todas as filhas (das mais novs às mais velhas) se reveem, ponto por ponto.
Uma vida única e só sua, a da Fernanda, mas similar à de uma infinidade de mulheres no Estado Novo, lembrei-me tantas vezes das minhas avós e das minhas tias… A imagem e a História é nítida, mas a Garota Não e o Sérgio Godinho não nos deixam esquecer, e ilustram-na cantando em perfeita harmonia:

“Vi-te a trabalhar o dia inteiroConstruir as cidades pr’ós outrosCarregar pedras, desperdiçarMuita força p’ra pouco dinheiroVi-te a trabalhar o dia inteiroMuita força p’ra pouco dinheiro
Que força é essa? Que força é essa?Que trazes nos braços?Que só te serve para obedecer?Que só te manda obedecer?”
Fotografia oficial do CCB

Uma vida semelhante à de algumas mães/mulheres dos dias de hoje, nomeadamente as que trabalham de sol a sol nas limpezas de escolas, hospitais, etc, todo o dia a limpar a merda dos outros, um trabalho precário sem um salário digno, num país que lhes nega ou obstaculiza em cada curva a obtenção de cidadania, enquanto os seus filhos crescem sem o tempo de colo que merecem.
“Nunca perguntei à minha mãe o que ela gostava de ter sido… há tantas coisas que não perguntei à minha mãe! Há tantas coisas que nunca perguntámos às nossas mães” acrescenta, para os sortudo que ainda têm oportunidade de o fazer, diria eu. Dei comigo, novamente, a pensar nas minhas avós e o que gostariam de ter sido se tivessem tido oportunidade de escolha. Nunca lhes perguntei e, infelizmente, já não vou a tempo e… fiquei com uma lágrima no canto do olho.
Do consentimento, à sexualidade, ao prazer (ou falta dele), entre o claustro e o putamen, acompanhada pela Rita Redshoes, chega o apelo/alerta cantado “Fala mãe, fala mãe”.
Não faltou a celebração e o agradecimento, em uníssono com a Ana Bacalhau, a todas as mulheres que não baixaram os braço, lutaram pelos seus direitos, sofrendo na pele, no corpo e na alma a ousadia, a todas as que abriram caminho e, por isso nos deram tanto.
A violência doméstica e obstétrica, a maternidade num país que é má mãe e a necessidade de quebrar tradições também não foram esquecidos.

“(…) Mas depois, à medida que a narrativa me foi crescendo, compreendi que falar dela é, ao mesmo tempo, falar das minhas amigas e de mim, das conhecidas e anónimas mulheres que revolvem os dias a cuidar mais dos outros do que de si, aceitando provérbios e sinas, a ter da vida menos do que seria justo, a trabalhar mais do que seria razoável — porque, afinal, somos todas extensões das nossas mães, das nossas tias, das nossas avós —, em continuidade e fratura, águas que derivam e se separam. Compreendi que trazê-la para aqui é celebrar e agradecer a muitas mulheres. As suas contemporâneas, as que lhe antecederam e as que ficaram depois de ter partido. (..)”
Também lá couberam histórias de outras tantas vulgares mulheres extraordinárias relatados em áudios por gente de todas e idades e géneros. Ficou-me na memória, talvez por ser pouco comum ou não estar à espera, um que dizia algo como: “A minha ex mulher é uma mulher extraordinária. Foi, é e será sempre uma das mulheres da minha vida.”

Duas horas e meia depois, a beleza das pequenas coisas para fechar com chave de ouro:
“ Finalmente, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas…” 

Fotografia oficial do CCB

E a quatro vozes soa, no grande auditório do CCB, à pinha:
“(…)
somos um sopro, somos só visitas
e essa é…
a beleza das pequenas coisas
desvio-me de coisas chatas
já não tenho tempo
a conciliação demora
eu quero o dia lento
Quanto contentamento há…?
Na beleza das pequenas coisas…
a beleza das pequenas coisas”

Fotografia oficial do CCB

Já vi vários espetáculos da Garota Não, são sempre uma intervenção cívica e social, são verdadeiras lições/exercícios de liberdade, democracia, amor, justiça social, tudo regado com a humildade, a extrema sensibilidade e a simpatia que tão bem a caracterizam. Mas este, este foi verdadeiramente especial, porque a Cátia deu-nos a honra de, através da sua mãe, nos dar um vislumbre da sua história, de alma, coração, mostrando a sua essência, partilhando a sua intimidade, onde vimos espelhada a nossa, num verdadeiro sentimento de comunhão e partilha!
Que coisa mais bonita! Ando há dias a pensar nesta obra de arte e neste colosso de mulher.

Uma homenagem à sua mãe – uma vulgar mulher extraordinária – que lhe saiu do âmago, numa viagem no tempo certamente poderosa, catártica e simultaneamente dolorosa. Conseguiu a proeza de a transformar numa ode a tantas outras vulgares mulheres extraordinárias. Cátia – Garota Não outra vulgar mulher tão, mas tão extraordinária.

É uma biografia coletiva onde se levantam assuntos incómodos e frágeis, se questionam dogmas e regras sociais, onde se ligam e atravessam muitas vidas. Porque as vidas derramam-se umas nas outras, contaminando-se em camadas, medonhas e poderosas vagas.
Não tenhamos medo. Deixemos que nos visite a felicidade.”

Belo, arrebatador, comovente, avassalador, de um sensibilidade extraordinária, transformador, simplesmente maravilhoso e tão, mas tão, necessário nos dias que correm!!

Se puderem, vão ver, porque a beleza das pequenas coisas também está nos espetáculos que vemos e nos tocam profundamente e em quem escolhe acompanhar-nos nessa viagem.
Entretanto, enquanto aguardam pelo bilhetes, abram o vosso coração e ouçam com atenção as palavras e as músicas da Garota Não.

Avante

“É este ano. Vamos à Festa do Avante!” anunciei, cheia de contente, à malta da casa, depois de ver as datas e o cartaz. Já andava com vontade há uns tempos, mas nunca se tinha proporcionado por estarmos normalmente de férias!
“Não sei se me apetece financiar o PCP…!!” diz-me, desconfiado, excelentíssimo esposo.
“Não seja por isso, eu compro os bilhetes. Ficas com o problema resolvido e a consciência tranquila!” observei.
Pequenada não se manifestou, pensando, desconfio, que fosse só mais um dos meus delírios.
“Aí as tens! Tenho a certeza que vão gostar. É sempre uma bela festa… ou apenas mais uma experiência para alguns!” diz-me o meu irmão ao entregar-me, umas semanas depois, as nossas cinco entradas permanentes (que obteve através de um camarada seu amigo).
“Que bilhete giro e colorido! Promete!” pensei ao observar as (nossas) entradas permanentes.

Surpreendeu-me um recinto enorme, repleto de cadeiras, imensas barraquinhas com comida dos vários distritos e internacional (tudo com muito bom ar), uma feira do livro e do disco, um espaço infantil, um “teatro”, quatro palcos, um espaço dedicado à ciência e muito mais.
Um ambiente descontraído, muito boa onda com gente de todas idades, onde se percebe que muitos são frequentadores assíduos e de longa data. Muita gente jovem e imensas, imensas famílias que trouxeram as suas mantas e as suas cadeiras, que se podiam encontrar por todo o recinto, transformando harmoniosamente um espaço de “todos”, um espaço seu. Confesso que me surpreendeu o mar de gente tranquila, mas essencialmente o serem tantos. Aliás verbalizei, em forma de murmúrios, não fosse aborrecer algum camarada:  “Eh pá, não pensei que o PCP tivesse tantos fiéis…Ah, espera, eu não sou do PCP e também cá estou… pela experiência cultural e pelo cartaz, é certo! Nevertheless…!”
Muita gente de boina de vários, feitios e cores, muitas bandeiras do PCP em punho e encostadas às árvores (era só pegar, levar e empunhar). Nas barraquinhas e no recinto, a palavra que mais se ouve ao referir ou chamar alguém é: “CAMARADA”
Ao passear pelo recinto, observo dois senhores de boina e de uma certa idade cumprimentarem-se efusivamente “Então camarada! Cá nos encontramos mais um ano!” diz um ao que o outro responde “É verdade, mas ao fim destes anos todos, o que me emociona sempre mais na nossa festa é a Carvalhesa. É sempre tão bonito!”.
Ainda não tinha tido essa experiência social, mas não tardou. Pouco tempo depois, fui agraciada com a minha 1ª Carvalhesa (a 1ª de várias ao longo desse dia). Aos 1º acordes, veem-se pessoas a correr para o relvado (alguns de bandeiras em punho) e toda a gente se coloca de pé para aquela explosão inicial e contagiante de alegria e energia (num coreografia abraçada e conhecida de todos) é uma espécie de comunhão que faz lembrar o ritual de uma seita, no bom sentido. Confirmo é um bocadinho arrepiante e emocionante presenciar e vivenciar a Carvalhesa, é um sentimento de pertença que se parece apoderar do recinto e não deixa ninguém indiferente.
Na hora da paparoca, enquanto esperámos na fila, uma camarada experiente aconselhou-nos os pitéus a escolher e deu-nos uma lição sobre a história do Avante. Tinha 60 anos e não faltou a uma única festa do Avante, desde pequena veio sempre com a família e viveram ali momentos únicos: dos pedidos de casamento, à família que cresceu e se multiplicou, às histórias que ali viveram e nunca esqueceram, tradição que continuam a manter, tirando aqueles dias de férias para o encontro marcado no Avante, onde muitos continuam a ajudar na organização. Não esquecendo a lição que nos deu sobre a importância das coletividades e o fazer o bem sem esperar em troca nada mais que o agradecimento e a satisfação dos outros, coisa que hoje em dia é rara, tudo muito autocentrado e €€€ impera, razão pela qual as coletividades estão a morrer. Sobre todos os que trabalham nas barraquinhas no Avante, disse-nos que todos pagam a sua entrada como qualquer um de nós que vem só usufruir, têm as suas profissões, mas que nos 3 dias da festa, sem experiência profissional, apresentam-se para fazer comida e/ou o que for preciso para bem servir quem os visita. Não esquecendo a contribuição que cada um dos camaradas pagou para aumentarem o recinto da festa, adquirindo a parte do terreno junto ao Tejo. Um conversa muito interessante com uma camarada muito interessante e simpática de Setúbal (barraquinha onde o seu marido e camarada estava a ajudar a servir Choco Frito).
Por todo o recinto, empunham-se bandeiras da Palestina, são quase tantas como as bandeiras do PCP. Impressionante. Encontram-se também carradas de lenços da Palestina aos ombros, à cintura ou presos nas mochilas.
Gostaria de ter visto tantas bandeiras da Ucrânia como vi da Palestina, não havia nem uma! Não que estivesse à espera, obviamente, mas acabada de chegar dos países bálticos não poderia ter havido um confronto de visões e posicionamento mais antagónico. Nos Bálticos, na Polónia, as cores e bandeiras da Ucrânia encontram-se literalmente em e por todo o lado… par a par com os destes países. Percebe-se bem porquê.
A Ucrânia é um dos grandes calcanhares de Aquiles do PCP dos últimos anos, tal como o é, há décadas, fechar os olhos ou negar a história e as vivências dos países de leste e as suas gentes às mãos do “comunismo” da URSS.
“A Stôra gosta ou concorda com o comunismo?” lembrei-me da pergunta que um aluno, de 11º ano, me tinha lançada, em tempos, não sei bem porquê. Como não reagi de imediato o moço prosseguiu: “É que em termos de ideal, o do comunismo parece-me bem melhor que o do capitalismo!” remata o moço. “Do ideal à prática vai uma grande distância, que muitas vezes só pode ser medida em anos-luz. Citando alguém que viveu na pele e na prática a sua aplicação num país da URSS “O comunismo torna-nos a todos igualmente pobres, não melhores e muito longe do que se chama e espera ser um estado social”. Os extremos tendem a tocar-se e a História mostra-nos que a ditadura e o comunismo são um excelente exemplo disso mesmo.” colmatei, deixando o meu aluno intrigado e mudo.

Adorei ir ao Avante, uma experiência que vale mesmo a pena e concordo com a frase que mais por lá se ouve “Não há festa como esta!”,  já com a “Aqui se vê a força do PC!” não tanto. O cartaz, os pitéus e os espaço de convívio é o que atrai a malta, desconfio que para muitos, como para mim, nada tem a ver com o PCP.
O concerto da Garota Não foi poderoso e LINDO e o do Stereossauros com o DJ Ride surpreendente e que arrepiante foi ouvir a “Grandôla, Vila Morena”, cantado, à capela, pela Amália Rodrigues.
Fiquei com pena de não ver a  Brigada Victor Jara, o Vitorino, a Capicua e a Gisela João, mas os filhos têm a mania de nos trocar as voltas e, às vezes, citando os próprios, “estragar a vida” com renovações e remodelações “forçadas”.
Prometi voltar ao Avante (pode ser já no próximo ano), mas aprendi, entre muitas outra coisas, que agora passo a comprar só dois bilhetes. A pequenada recusou-se a ir, não que tivessem outros planos, ficaram mesmo por casa, apenas e só porque não lhes apeteceu ir (é a vida e eles é que perdem). Guardei religiosamente o bilhete sobrante e intacto, um marco, mas também para nunca me esquecer desta lição.
“Avante, camarada!”. Vemo-nos para o ano!

Tempestade(s)

“Então, dormiste bem ou acordaste com a tempestade?” perguntou uma amiga minha à sua filhota de 10 aninhos (acabados de fazer).
“Sim e não. Acordei a meio da noite e só ouvia “PUM, PUM”. Assustei-me. Pensei que eram os russo a chegar, mas depois percebi que era só trovoada e adormeci outra vez!” respondeu-lhe a sua pequena com a maior das naturalidades.

 

“Quando um amigo parte em viagem e me pergunta se desejo que me traga alguma coisa, respondo sempre o mesmo: “Traz-me uma história.” É através das histórias que melhor vemos o mundo e nos deixamos surpreender por ele. Uma história é um presente magnífico, porque é um fragmento de vida, não apenas de paisagem.”
José Tolentino de Mendonça, in “𝘖 𝘱𝘦𝘲𝘶𝘦𝘯𝘰 𝘤𝘢𝘮𝘪𝘯𝘩𝘰 𝘥𝘢𝘴 𝘨𝘳𝘢𝘯𝘥𝘦𝘴 𝘱𝘦𝘳𝘨𝘶𝘯𝘵𝘢𝘴”

CASA

Três temos filhas na universidade, mas apenas uma de nós tem uma universitária deslocada (a 300 km de casa).
Para além de deslocada, a moça também é caloira e, em véspera, de regresso a casa para passar o fim de semana, enviou um pedido à sua mãe querida, que, por sua vez, o partilhou com as suas queridas amigas. Sorri ao ver a mensagem da filha da minha amiga, revi-me bem no sentimento. A saudades da  comida, dos cheiros, do espaço, dos nossos, da terra…
Aquele sensação reconfortante e de segurança ao sair do comboio “Cheguei!”, inspirando fundo, abraçando o frio que se entranhava nos ossos e o cheiro das lareiras acesas ou destilando dada a brasa e calor sufocante, dependendo da época do ano.
Saudades do que consideramos CASA.
O que a caloira não sabe, mas eu sei, por experiência própria, é que por muitos anos que passem, podemos já não chegar de comboio e podemos já não fazer pedidos (não é necessário), mas o sentimento continua lá, as saudades de tudo o que consideramos CASA… Obrigada mãe, pai e mano!

Os NAPA retratam bem, mas apenas em parte, este sentimento na música “Deslocado” que levaram à “Eurovisão – 2024”. Entendedores, entenderão!


Sim, tenho um grupo, no Whatsapp, chamado “Passeios&Pijamas”: almoçamos ou jantamos juntas sempre que possível, rimo-nos muito, vamos ao teatro, a concertos, passeamos e sim, às vezes, levamos os pijamas, somos quatro e conhecemos-nos há anos – da faculdade e/ou das escolas onde nos fomos (re)encontrando – até que o destino nos juntou na mesma escola há meia dúzia de anos, para alguns colegas, sem filtros, somos conhecidas como “as que têm muitos filhos”, costumo responder “Não são muitos! São só 3!”.  “Fico sempre mais descansada quando falo com vocês. Percebo que a loucura não é só na minha casa… ou minha!” concluímos muitas vezes! Ah, “there’s safety in numbers

Saudades

Os dois esparramado no sofá, eu a ler, pequeno do meio a ver a sua série do momento numa dessas “netflix” da vida.
Sem me aperceber, começo a cantar a música que estou a ouvir (vinda da TV).
“O quê? Não me digas que conheces esta música?” diz-me pequeno do meio, colocando a sua série em pausa (imaginem só o espanto do moço), assim como quem diz “Mas tu por acaso sabes ou percebes alguma coisa desta e nesta vida?”.
“Põe lá isso no play… não ouço essa música há décadas. Estava na berra quando eu tinha a idade da tua irmã mais nova. Devo tê-la gravado numa cassete qualquer..ou em várias.” observei cheia de contente.
“Tu és mesmo estranha!” remata pequeno do meio. Se eu ganhasse 1 cêntimo por cada vez que algum deles diz isto, não estava rica, mas já dava para ir passar um fim de semana a um hotel de luxo (SEM ELES, porque são muitos, obviamente) ou uma viagem de avião só de ida para algum lugar (às vezes, ocorre-me, depois passa-me).
Uma pesquisa rápida no youtube “Et Voilá”… fiquei com a música no ouvido e pimpolha mais nova também que assistiu divertida a toda a cena a desenrolar-se num sofá perto de si.
Umas semanas mais tarde, fui com apenas pimpolha mais nova passar uns dias por terras algarvias (o resto da malta tinha a agenda muito ocupada). Chegámos a meio da tarde, mas não resistimos a ir dar uns mergulhos.  No regresso a casa, o sol a pôr-se, caminhando entre pinheiros, cabelos ao vento, seguíamos cheias de contente trauteando com vontade o refrão da tal música do meu tempo. Um “moço”, da minha idade ou  provavelmente mais novo, que seguia em sentido contrário, na sua corrida de final de dia, fez-nos um grande sorriso, face à nossa figurinha, desconfio.
Numa pausa entre cantorias, para dar dois dedos de conversa, ouço um “Olá Stôra!” – era uma aluna minha que seguia de bicicleta também sem sentido contrário. Só houve tempo para dizer “Olá”.
“Como é que é possível? Chegámos há 3 horas, estamos bué longe de casa e já encontraste alguém conhecido aqui no meio do nada… É melhor nem contarmos à mana, sabes como ela se passa com isso! Pelo menos não te puseste à conversa!” diz-me entre o desespero e o riso pimpolha mais nova.
“Totalmente desgrenhada, roupas todas molhadas, imagina só que ela nos apanhava a cantar? Isso é que era o fim da picada!” observei entre risos.
Saudades da leveza dos dias de verão…”Summer, I´m gonna miss you!”
Para as mentes mais tacanhas e perversas, a minha aura já se foi em manifestações várias… olhe que não, olhe que não, senhor ministro! A missão impossível que é o  “Em busca da minha aura perdida!” quase que merece uma manifestação face às cobras e serpentes venenosas que se instalam em certas “ruínas”… e também porque já tenho saudades!
Um post repleto de saudades (várias, como as manifestações)!

Luís Møntenegrø, primeiro-ministro da Dinamarca

“Mal se soube que o Governo ia dar incentivos fiscais a quem arrendasse casas a preços moderados, a medida recolheu bastantes elogios. Quando, no dia seguinte, se descobriu que o conceito de renda moderada ia até 2300 euros, o entusiasmo esmoreceu um pouco. Segundo os críticos, num país em que o salário médio ronda os 1400 euros, não se pode chamar moderada a uma renda de 2300 euros. Mas suponhamos que os dois elementos de um casal ganham, cada um, 1400 euros. Juntos, auferem 2800 euros. Podem perfeitamente pagar os 2300 euros de renda e ainda ficam com 500 euros para as outras despesas mensais. Assim já se percebe melhor porque é que se chama renda moderada. Porque o casal em causa terá de ser moderado. Moderado na alimentação, moderado nos transportes, moderado nas despesas com a educação dos filhos.

Luís Møntenegrø, primeiro-ministro da Dinamarca
@ João Fazenda                                                                                    

Uma pergunta impertinente repetida muitas vezes foi: onde? 
Onde é que uma renda de 2300 euros é moderada? A resposta é evidente: na Dinamarca. É frequente ouvirmos suspirar que em países como a Dinamarca se vive melhor. Pois bem, Luís Montenegro já se comporta como se fosse o primeiro-ministro dinamarquês. Agora só falta o povo acompanhar este esforço. Se temos mesmo vontade de viver como os dinamarqueses, há que começar por algum lado. O custo da habitação é um aspecto tão bom para começar como qualquer outro. A objecção do costume é: sim, mas nós não temos os salários da Dinamarca. Calma. Uma coisa de cada vez. A minha tia não tinha pássaros no jardim. Instalou uma casinha para pássaros e de repente passou a ter. O método do Governo é igual: primeiro, faz-se uma casa para pessoas que têm salários ao nível da Dinamarca. E depois essas pessoas acabarão por aparecer.

Aliás, é possível que já estejam a aparecer. O ministro da Habitação disse que as rendas de 2300 euros são moderadas para agregados familiares cujo rendimento seja de 5 mil euros líquidos — ou seja, para casais em que cada cônjuge ganhe mais de 2500 euros por mês. De acordo com um estudo recente, os trabalhadores que ganham 3 mil euros por mês ou mais correspondem a 2% da população. Significa isto que o Governo é alvo da habitual injustiça conhecida por “preso por ter cão e preso por não ter”: se não se preocupa com as minorias, é insensível; se toma medidas que beneficiam 2% da população, também é criticado. Enfim. Pela minha parte, em sinal de apoio a esta medida vou abrir uma garrafa de champanhe que adquiri a preço moderado. Na loja havia champanhe caríssimo. O que eu comprei é apenas bastante caro. Sou pela moderação.”
Ricardo Araújo Pereira in Expresso

Coffeando

“Stôra, posso ir buscar um café?” pergunta-me uma aluna, de 11º ano, 2ª feira  pelas 8h30.
Voltada para o quadro a acabar de resolver um exercício, pensei para comigo “Caramba, este regresso está a ser mesmo difícil. Não sei se ando a ouvir coisas ou se não acredito no que estou a ouvir! Conhecer pessoas novas é maravilhoso”.
“COMO?” indaguei, com cara e tom de poucos amigos. depois de respirar bem fundo ao voltar-me do quadro.
Silêncio sepulcral na sala, um otimista pensaria que o assunto estava encerrado, só que não, porque há cada vez mais malta que não sabe ler nas entrelinhas.
“Posso ir buscar um café?” ousa repetir, com naturalidade, a criatura, como se eu não tivesse ouvido à primeira.
“Então e onde é que está a pensar beber o seu café?” pergunto, contando internamento até 100 para não me passar da marmita.
“Aqui!” responde-me a criatura como se eu fosse mesmo “DAHHHH”
“Uma sala de aula pode ser muita coisa, mas não é certamente um café nem uma esplanada.” informei a criatura.
“Mas” tenta a criatura argumentar.
“Não há mas, nem meio mas, é o que é! Esta conversa está encerrada, aliás nunca devia ter ocorrido! Se quer tomar café, não tenho nada contra. Pode fazê-lo antes da aula começar ou é sempre livre de sair, que eu não prendo aqui ninguém, o seu encarregado de educação receberá a comunicação acompanhado da respetiva falta.” rematei para lá de possessa.
“É melhor não dizeres mais nada esta aula… e talvez até ao final do ano!” sussurra, para a rapariga do café, o moço que se senta à sua frente.
“Smart boy!” pensei.
A cachopa do café amuou e olhou-me com um ar “Esta não percebe como é que funciona o mundo!”, tipo mete nojo, e desconfio que se deve ter contido para não me revirar o olhos.
A aula seguiu sem mais incidentes, mas a lata e a falta de chá (ou aparentemente de café) é surpreendente.

Agenda(s)

“Olha que gira… Hummm, deve ser grátis!” disse ao folhear uma agenda que não tinha o preço marcado.
“Hã?… mas tu não sabes que não é assim que o dinheiro funciona?” responde-me ingénua e sinceramente estupefacta e preocupada pimpolha mais nova.
Ri-me com vontade e pensei “É aproveitar enquanto dura, eles crescem depressa!”

Já tentei vários modelos digitais, mas não há nada como folhear e escrever numa agenda tradicional, bonita e colorida (sim, dependendo da atividade, registo-a com cores diferentes) e rever, no final, o quanto fizéssemos e, por vezes, já nem nos lembramos.
Costumo comprar as minhas agendas no LIDL (boas, baratas  3,99€, e bonitas), mas a que estava a ver era do Snoopy porque me atrasei no regresso às aulas (só nas do LIDL, não vos enervais). E, sim, eu sei, têm bonecos e são pensadas para alunos, mas a criança que há em mim continua a achá-las bué lindas, se não mesmo as mais lindas!

Aplicou-se o ditado “quem não tem cão caça com gato”, como não comprei a do Snoopy, sou agora detentora da última agenda do gato disponível num LIDL, encontrada por pimpolha mais nova, perdida no fundinho de um expositor, que me a entregou cheia de contente, apontando para o preço marcado, não fosse eu ainda não ter percebido como funciona o dinheiro.

Eu sou daquelas pessoas (e daquele tempo) que pedia religiosamente “A minha agenda” como prenda de Natal e que bela prenda era (e cara)…recebi várias, aplica-se o famoso ditado “Old habits die hard“,


Já tenho agenda YUPI, a beleza das pequenas coisas, “Let the games begin”

(Re)começos

“Aiiiiii….estou cansado!” diz-me, inspirando fundo, um moço na fila da frente, 30 minutos após o início da aula, como quem diz “Estou cheio de te ouvir. Já te calavas e saíamos que a malta tem mais que fazer”.
“Eu hoje ainda nem falei muito… !” respondi contendo o riso e a resposta que me apetecia dar “AÍ EU…. Também eu, também eu, já estou cansada!”. Alguém tem que ser o adulto da sala, pontos para mim, porque os recomeços são duros para todos e eles chegam ao secundário cada vez mais sem filtros!
Que seja um bom ano para quem o ano começa em setembro: para os cansado (com ou sem filtro) e para os adultos (dentro ou fora da sala)!
Haja alegria, já tinha saudades desta “minha” gente!

Setembro… I´m back!!!

“Fico mais velho em setembro, vão embora os banhistas, a cidade volta às nossas mãos e certa solidão também é um recomeço. O mês de setembro é promessa de maravilha, ainda que o outono espreite e os dias esfriem e escureçam. A decadência do mundo oferece o recolhimento e a construção íntima, o esforço para estabelecer no espírito uma estação mais afinada com nosso sonho, nossa identidade.

Ando a ameaçar o meu amigo Albuquerque Mendes de o abandonar e trocar por outro pintor, o António Olaio, que é um artista brilhante e, há trinta anos, diziam-me que éramos parecidos. Tenho planos para escrever outro romance, uma aventura de duas costureiras com que cismo há anos. Quero emagrecer, passar um mês intenso no Brasil, mudar de terra, ler mais, parar com a mania dos desenhos, fazer filmes, dormir a horas populares, fazer a depilação da moda, chorar na auto-estrada a ouvir Mahler, ouvir mais vezes Mahler e não querer saber se ter cinquenta e três anos de idade é alguma sentença.

No tempo em que regressava à escola, com mochila nova, os cadernos limpos, os livros a estrear, tudo se propunha a outra vida. Cada ano lectivo era como o convite para ser outra pessoa, aquela que deveria ser, mais do que aquela na qual, por defeitos e preguiça, reincidia. Hoje, sem mais escola senão a da deriva, por fascínio ou temor, tenho sempre a vontade de refazer essa oportunidade de outra vida. Que tentadora a possibilidade de repensar cada lugar nosso e aparecer como mais faz sentido, sem medo de finalmente sermos quem queremos ser, libertos sobretudo do que nos cansa e magoa.

Por disparate, digo que trocaria de amizade do Albuquerque Mendes pelo António Olaio, mas é só para dizer como gosto dos dois. Não se trocam pintores assim. Às vezes, nem quadros, porque os quadros chegam as nossas paredes cheios de significados e tornam-se quase todos talismãs. São seres místicos que nos povoam as casas e sustentam nossa necessidade de relações duradouras e de deslumbre, mesmo que um deslumbre atónito e sem completa explicação.

O que trocaria, na verdade, é a ideia de ter menos quando se pode ter mais, no sentido bravo dos afectos, no sentido bravo de gostar de mais gente, cuidar de mais gente, declarar a mais gente que nos importa, que admiramos quem são e o que fazem, que nossas vidas ganham razão também pelos instantes em que só nos ocupamos de pensar nos outros. Em setembro, por ser o meu natal e por se recolher o mundo como para dentro de seu ninho, deito o coração à rua e mando-o voltar só quando cresça. Cheio de pessoas que quero ver melhor e pessoas que nem nunca vi.”

Valter Hugo Mãe in Educação da Tristeza

“Beleza, mas agora a gente faz o quê com isso?” inspirador o título e o novo álbum do Rubel, que estará no CCB em novembro (quase esgotado).

Rescaldo e utopia

Pouco antes das primeiras eleições livres, em abril de 1975, numa entrevista ao Expresso, Salgueiro Maia definiu na perfeição a essência da democracia e da força do voto:

“Não há limites para as possibilidades de opção, e se o povo quiser ir para o inferno, é para o inferno que iremos”.

E cá estamos, uma semana depois, ainda a digerir os resultados, inundados de análises, a tentar perceber/aceitar como é que chegámos a este ponto e o que nos aguarda o futuro.

“Ainda não é o fim
Nem o princípio do mundo
Calma
É apenas um pouco tarde”
Manuel Maria Pina (in 1969)

Não se avizinham tempos fáceis, na ordem do dia teremos o ataque e (des)respeito à diversidade e a normalização e aceitação da linguagem agressiva e ofensiva como argumento e arma. Um sério recuo (curto, espero) civilizacional no longo caminho para a construção de um país decente. Preparemos o regresso/recomeço.


“Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra POESIA

Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra SABEDORIA

Se o mundo andar pra trás
Vou escrever num cartaz
A palavra REBELDIA

Se a gente desanimar
Eu vou colher no pomar
A palavra TEIMOSIA

Se acontecer afinal
De entrar em nosso quintal
A palavra tirania

Pegue o tambor e o ganza
Vamos pra rua gritar
A palavra UTOPIA”

 

Leituras no e do rescaldo

A culpa é

“A culpa é da conjuntura. Existe uma vaga de extrema-direita por todo o mundo que é irresistível e há que esperar que passe. Embora o factor Trump tenha sido apontado como causa para as recentes vitórias de partidos de esquerda no Canadá e na Austrália. Deve ter sido um milagre. Líderes políticos de esquerda que conseguem persuadir o povo de que as suas propostas são as melhores é inconcebível neste momento, porque a vaga é irresistível. Apesar de há apenas três anos se falar da mexicanização do regime, porque o PS e a esquerda iam obviamente eternizar-se no poder, sem alternativa, como o Partido Revolucionário Institucional, que governou o México entre 1929 e 2000.

A culpa é do povo, que é racista. Embora 75% do povo não vote no Chega. E Ventura tenha o maior índice de rejeição de todos os líderes partidários. Mas é racista, o povo. Apesar de, há dois anos, ter dado maioria absoluta ao PS. Foi uma grande massa de racistas que, após a madura ponderação de que só racistas são capazes, resolveu dar a maioria dos lugares do Parlamento ao Partido Socialista.

A culpa é dos imigrantes. São muitos e vêm de países exóticos. Embora tenham vindo porque há trabalhos que os portugueses não querem fazer, designadamente no turismo, que tem contribuído para os superavits. Mas, se é certo que a economia portuguesa precisa de imigrantes, devíamos ter optado por estrangeiros europeus, que são mais parecidos connosco. Até porque o que não falta por aí são espanhóis, franceses, italianos, alemães, ingleses, belgas, austríacos, dinamarqueses, suecos, noruegueses, finlandeses e holandeses ansiosos para virem trabalhar na nossa restauração a troco do salário mínimo.

A culpa não é certamente dos baixos salários. A dificuldade de pagar a renda e a conta do supermercado gera uma alegria de viver que deixa as pessoas com uma boa disposição solar.

A culpa não é certamente da comunicação social. Filmar durante horas as traseiras de uma ambulância enquanto ela se encaminha para o hospital é informação em qualquer parte do mundo.

A culpa não é certamente do Presidente da República. Três eleições legislativas costumam decorrer no espaço de 12 anos. Concentrá-las num período de apenas quatro anos não produz qualquer efeito negativo, designadamente o de transmitir a ideia de que, em democracia, os governos são tão frágeis que não resistem ao chumbo de um orçamento, ou a um parágrafo do qual nunca mais ninguém ouviu falar.

A culpa não é certamente de vários factores. Há-de ser só um. Só temos de descobrir qual é. Parece-me fácil. Boa sorte para todos nós.”

Ricardo Araújo Pereira in Expresso

 

A desesperança, a solidão e a ignorância que alimentam o Chega

“Há muito tempo que falo do papel do ressentimento na vida política actual, sem grande sucesso. Agora parece que as coisas estão a mudar. Não era uma categoria muito referida, em particular quando coloco o ressentimento como tendo substituído a “luta de classes” ou, se se quiser, o conflito social. Parece que agora mesmo Ventura usa essa classificação para se referir aos seus resultados eleitorais.

O ressentimento é uma atitude vista como negativa, em particular quando falamos das suas manifestações individuais. Mas o ressentimento é também uma atitude social, presente em todos os movimentos de protesto, à esquerda e à direita, e traduz a sensação de perda, de desesperança, de impotência, de que ninguém nos ouve, de revolta perante casos reais ou imaginários de malfeitorias dos “outros”, começando no vizinho e acabando no Presidente, ou de exclusão e desigualdade e injustiça. É um poderoso sentimento que no passado sempre existiu, mas que encontrava expressão na luta social, em manifestações, protestos, sindicatos, grupos e partidos que funcionavam como mediadores e, nesse sentido, se integravam nos mecanismos de funcionamento das democracias.

O mapa eleitoral do Chega é muito parecido em várias partes do país com o do PCP, e há uma coisa em comum que facilita esta semelhança. Trata-se de zonas onde antes o ressentimento dava votos ao PCP, e agora a mesma raiva face à vida dá votos ao Chega.

A maioria das pessoas não tem a vida que desejaria ter. A esperança torna-se rapidamente desesperança. Não é de agora, pode-se quase dizer que é de sempre, mas agora há vários mecanismos de massa que dão densidade a essa desesperança e que facilitam que ela tenha uma expressão política no populismo. O predomínio do Pathos, face ao Logos e ao Ethos, cria um mundo impregnado de emoção, muitas vezes superficial, mas muito eficaz face ao fracasso do ensino, em permitir um vocabulário que não seja gutural, e a uma ignorância cada vez mais institucionalizada numa forma agressiva. Eu não li esse livro, nem vi esse filme, mas li um post que fala dele e, por isso, posso também dar a minha opinião, que tem o mesmo valor da desses “intelectuais” da “bolha”, ou de gente que passou a vida toda a estudar esse assunto

Todo o mundo televisivo transformado em reality shows e a imprensa tablóide desaguam nas chamadas redes sociais, que são um grande polarizador deste sentimento de esperanças traídas, de uma forma que as radicaliza e as torna um espelho de antagonismos.

É um dos mecanismos que maior erosão traz às democracias porque é interior, não vem do confronto entre a tirania e a democracia, dissolve os mecanismos de intermediação e representação, cria um pseudo-igualitarismo e permite que se veja, se leia, se entenda apenas aquilo que funciona como um espelho das nossas opiniões e sensações. É um muito eficaz mecanismo de polarização e radicalização, gera o confronto entre “nós” e “eles” e dá à companheira da desesperança, a solidão, uma impressão de força.

Este é o terreno ideal para a manipulação das massas. Todos os serviços de informação dos regimes totalitários sabem isso, sabem como manipular as pessoas, sabem como condicionar eleições, como atacar um político ou um partido e promover outro. Há também empresas que o sabem fazer e fazem-no para os seus clientes, para acabar com o restaurante que compete com o “meu”, para arrasar um hotel, para colocar na moda um produto ou tirar da moda outro. Esta densificação da desesperança, da solidão diante de um ecrã, da falsa sensação de companhia e de que, como escrevo no Facebook ou no X, ou faço um meme numa rede social, a minha voz passou a ter um valor que eu não tenho ao meu lado, no emprego, no namoro, no café. E é fácil encontrar no “outro” a culpa do meu insucesso.

Esta densificação do ressentimento acaba por ser um processo que acompanha vários movimentos de democratização, traduzidos no consumo de massas, no acesso ao ensino, numa vida de facto melhor do ponto de vista material, tudo factores muito positivos que tiveram o papel de aumentar as expectativas e as exigências. Mas os efeitos perversos desses processos criaram sociedades com novas formas de solidão, um individualismo triste, um psicologismo “mental”, acompanhado de uma incapacidade de acção colectiva, e mais ignorante. A ignorância das “gerações mais bem preparadas” é também nova face à antiga ignorância, que sabia que precisava de saber mais. A de hoje acha que meia dúzia de memes chega para conhecer tudo, opinar sobre tudo e que não é preciso ler livros.

Orwell, no 1984, sabia como isto funcionava e dependia da cultura no sentido lato, e mostrava como o Big Brother reduzia todos os anos o número de palavras circulantes, porque quem não tem capacidade expressiva não fala bem e é incapaz de traduzir raciocínios complexos, vive imerso num psicologismo superficial e é mais fácil de mandar.

Desesperança, solidão e ignorância são a chave.”

Pacheco Pereira in Público

 

 

Haverá eleições

“Haverá eleições. 1975: as primeiras eleições livres em Portugal” é o nome da exposição patente, na Fundação Calouste Gulbenkian, até dia 31 de outubro (a entrada é gratuita). Excertos de jornais, fotografias, áudios, panfletos da campanha, etc. sobre as eleições com maior grau de participação de sempre,  92% dos eleitores votaram nas eleições de 25 de abril de 1975, que tiveram o seu Centro de Escrutínio na Fundação Calouste Gulbenkian.
A exposição inclui o filme “Haverá eleições” de Cláudia Varejão que vale a pena ver (basta carregar no link – está disponível no site da Gulbenkian). Inspirem-se e vão votar porque hoje, é dia de eleições, novamente!
Sem líderes carismáticos, nem grandes ideias e ideais a ser discutidos ou proclamados, onde não abunda a transparência, a ética parece andar pelas ruas da amargura assim como a empatia, mas onde prolifera a política espetáculo onde o (gosto pelo) poder parece ser a força motriz dos principais protagonistas.

Votar é um direito, mas acima de tudo um dever. O dever de, em consciência, muitas vezes, escolher entre o menor dos males, mas sobretudo de escolher livremente, valorizando e mantendo a democracia.
Ide votar minha gente!!!!!

Nos EUA, não funcionou e para que por cá não tenhamos a mesma sina, é importante que ensinemos os mais pequenos a respeitar, a ser solidário, a ser tolerante com quem é diferente de nós, com quem procura uma vida melhor no nosso país (como muitos portugueses procuram hoje e desde sempre por esse mundo fora), a perceber que ninguém escolhe o país e a família onde nasce (e o papel determinante que isto pode ter no futuro de uma pessoa), que nem todos temos as mesma condições de vingar ou a mesma “sorte”, mas que todos devem ter o direito de viver com dignidade, o direito à saúde, à educação entre outros… que as Constituições mudam e com eles as nossas liberdades (que o digam os húngaros e, em breve, os americanos). Não sei se a mensagem passa ou fica, mas eu esforço-me todos os dias!

Batalhas várias

“Não há democracia, é abuso de poder, é contra o direitos humanos, é incompetência…” foi assim que pequeno do meio me transmitiu a sua indignação face à proibição do uso de telemóveis na nossa escola. Emprenhou pelos ouvidos, utilizou os argumentos de um Tik Tok feito por um aluno da escola, conhecendo apenas as “gordas”  das novas regras, desconfio que nem isso…
Pimpolha mais nova revoltada com a proibição, mas não vociferando tanto como o seu irmão, foi procurando dar as suas achegas à discussão em curso (também tinha visto o Tik Tok, mas ouvindo decidiu mudar de estratégias), mas o seu mano estava numa demanda muito própria, debitar e exorcizar, incapaz de ouvir e apreciar a sua contribuição ou a de qualquer outro.
Tiveram azar com a mãe que lhes calhou, desconstrui o tik tok, ponto por ponto, sermão e da missa cantada sobre direitos humanos, o que significa viver em democracia e o que são maus argumentos e/ou do demónio com os do tal famigerados Tik Tok e a importância de pesquisar e ter outras fontes de informação. Resumindo, ficaram ainda mais irritados comigo, em particular, e com a proibição em geral.
Rematei que era normal estarem revoltados, são adolescente e ninguém gosta quando as regras do jogo mudam, especialmente, se no nosso entender, nos favorecem.Salientei que ainda bem que podem livremente manifestar o seu desagrado e o escolhem fazer, mas é necessário utilizar  bons argumentos e válidos, que, regra geral, não se encontram nos Tik Toks desta vida. Pumba, enervaram-se os dois outra vez (e de que maneira), desta vez mais comigo do que com a proibição. A (sua) berraria continuou…
“Mãe, tu não te podes mesmo revoltar com isto?” pergunta-me, horas depois, esperançosa pimpolha mais nova. Assim com quem me diz, “Revoltaste-te com tanta coisa, esta era só mais uma”.
“Nope. Primeiro porque não discordo. Segundo porque essa é uma batalha que não é minha, cada um escolhe as suas e prepara-se devidamente se as pretende ganhar!” colmatei.
“MAS, por que é que tu nunca estás do nosso lado?!” atira-me irritada pimpolha mais nova.